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Chame o Ladrão

26 de março de 2010 4

Policiais de Boston marcham em protesto durante a Greve de 1919

Em visita ao Brasil em 2007 para lançar a edição nacional de seu romance Dança da Chuva, o escritor americano Dennis Lehane defendia o injustamente menosprezado gênero policial como a “tragédia da classe operária”. Com seu mais recente romance lançado por aqui, Naquele Dia, Lehane avança um passo e dota a classe operária de um épico.

Naquele Dia é a obra mais ambiciosa de Lehane, autor de Sobre Meninos e Lobos, Paciente 67 (que está sendo relançado no Brasil com novo nome, Ilha do Medo, em referência à adaptação dirigida por Martin Scorsese) e de uma série de romances policiais de perfil noir mais tradicional, protagonizada pelo casal de detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro (Um Drink Antes da Guerra, Sagrado, Apelo às Trevas, Gone, Baby Gone, Dança da Chuva). O escritor já havia provado que podia abandonar suas criações recorrentes e as fórmulas marcadas da narrativa detetivesca para se dedicar a histórias de crime que transcendiam o gênero. Eu, ao menos, enquanto leitor, sempre achei as obras ocasionais que Lehane comete sem Kenzie e Gennaro muitos pontos acima do que os casos criminais investigados pela dupla. Com Naquele Dia, Lehane prova que não precisa sequer do crime para manter um leitor preso a sua teia narrativa e ao mesmo tempo criar uma romance grandioso.

O livro segue o período compreendido entre 1918 e 1919 na vida de dois personagens fictícios cujos destinos se encontram em Boston, cidade natal do autor e cenário de todos os seus livros. O primeiro é Danny Coughlin, jovem e rebelde descendente de irlandeses, agente da polícia local. O segundo, Luther Laurence, é um rapaz negro nascido no Sul dos Estados Unidos e que foge para Boston, para evitar as consequências de um crime que cometeu em Oklahoma e que o obrigou a deixar para trás a mulher com quem recém havia casado e que esperava um filho seu. Enquanto um luta no andar debaixo de uma sociedade na qual recém havia começado a ação tímida de grupos pleiteando direitos para os negros – a maioria ligados a igrejas –,  o outro é o ramo rebelde e inconformado de uma família abastada e já integrada ao caldeirão americano. Filho de imigrante irlandês, Coughlin vive em um cortiço em um bairro italiano, é um policial de rua mal pago e se vê envolvido na luta contra movimentos sindicais, grupos terroristas de inspiração anarquista e agremiações políticas comunistas (que são, as três coisas, vistas como semelhantes pela assustada burguesia industrial do florescente capitalismo americano). A situação de Coughlin, obrigado a se infiltrar em sindicatos como espião enquanto ele próprio começa a ir a reuniões de policiais insatisfeitos com seu salário é bastante bem explorada por Lehane, ainda que o personagem de Danny (apelido para Aiden, e não para Daniel) seja um tanto incômodo por seu improvável heroísmo monolítico – algo que por vezes até se estranha em um tipo criado por Lehane, magistral nos meios tons do trio de amigos de Sobre Meninos e Lobos.

Intercalando essas duas vidas fictícias, está a figura real de Babe Ruth (1895 – 1946), lenda do beisebol, transformado por Lehane em personagem. Em 1919, Ruth, que mais tarde seria um rebatedor recordista de home runs (aquela rebatida tão forte que manda a bola para fora do campo), já começava a imprimir marcas históricas e a dar os primeiros passos para ser a primeira lenda do esporte aos moldes modernos. Ruth aparece a intervalos dentro da narrativa maior, sua formação e transformação servindo como emblema do novo tempo que estaria por vir no pós-I Guerra (Ruth, apesar de seu status posterior de mito, é retratado como um individualista dado a hedonismos, pouco inteligente e de coragem moral duvidosa. Ele várias vezes ao longo do livro tem a sensação de que o mundo está começando a ficar muito rápido – Lehane localiza aí a gênese de um sentimento que se intensificou até o paroxismo na contemporaneidade).

Em paralelo à história desses três homens, Lehane tece uma acurada rede de episódios que constituem um amplo panorama histórico da Boston do período até culminar na histórica greve deflagrada em setembro de 1919 pelos policiais da cidade em busca de melhores salários — as remunerações haviam sido congeladas desde o início da ainda recente I Guerra Mundial. O episódio, verídico, é um dos marcos da história do sindicalismo americano — tanto pelo ineditismo da greve quanto pela pela feroz repressão movida pelo comissário de polícia de Boston, já que, pelas leis da época, servidores públicos não podiam sindicalizar-se (em algum momento ou outro da história do capitalismo, sempre uma ou outra categoria teve um suposto dever cívico brandido em seu rosto para silenciar discussões de melhores condições de trabalho).

Para quem acha o tema alienígena à realidade brasileira, o aviso: Lehane joga no caldeirão ficcional de suas 696 páginas escritas em ótima prosa lutas sindicais, aviltamento de salários em tempos de aumento do custo de vida, corrupção política, violência policial, a ganância de patrões mais preocupados com a saúde financeira de seus negócios do que com a saúde física de seus trabalhadores – temas que bem poderiam estar na mesa de debates da atual crise financeira. Mas na maior parte do romance Lehane não pesa a mão fazendo comparação alguma, apenas cria um livro magistral que extravasa a fronteira do romance histórico como algumas de suas obras anteriores já haviam transcendido os limites do romance policial. Pode não ser o “grande romance americano” que os americanos gostam de cultuar como entidade mítica, e está longe de ser uma obra-prima do gênero romanesco, mas não deixa de ser, justamente pelas somas de suas virtudes e defeitos, um grande romance. E pronto.

Comentários (4)

  • Debora diz: 26 de março de 2010

    Amiguinho, teus textos sao muito bons. Adoro ler e saber do que etsa sendo lancado no mundo literario.
    Mas acabo de ver uma foto sua.
    Muito onda com esse chapeu e cabelo comprido.
    Vc tem pinta de balaqueiro.
    Muita balaca mesmo.

    bjos

    Nossa, Débora, que análise acurada você faz do meu trabalho com base numa foto… Quem sabe você manda uma sua para eu retribuir. E posso até entender definires o chapéu como balaca. Mas o cabelo comprido? Os grupos de pagode já impuseram a ditadura capilar no Brasil e só eu não sei?

    Abraço.
    Carlos André

  • Twitter Trackbacks for Mundo Livro » Blog Archive » Chame o Ladrão [clicrbs.com.br] on Topsy.com diz: 26 de março de 2010

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  • luis fernando ferreira diz: 1 de abril de 2010

    Fiquei curioso pra ler, já acompanho Lehane há algum tempo e acho que estava na hora dele fazer algo maior, além do gênero policial… sempre achei que ele tinha condições pra isso.

  • Mundo Livro » Arquivo » Cinco bons romances policiais diz: 25 de junho de 2010

    [...] uma pena. Lehane lançou recentemente outro baita romance, o ambicioso Naquele Dia, sobre o qual já escrevi aqui. Salvar / [...]

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