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De Ruffato e de ficção

30 de março de 2010 0

Desacorçoado, gastei outros dois dias trancado no quarto, sem ânimo nem pra comer, o sol numa preguiça danada pra esquentar, tomar banho, de jeito maneira, os beiços rachados, o nariz estilando, as mãos e os pés doendo de gelados, rondava de um lado pro outro arqueado, como se carregasse um saco de sessenta quilos na cacunda, e fustigava, besta!, quem mandou seguir a cabeça dos outros!, bem que minha santa mãe, que Deus a tenha!, me dizia, se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia, me martirizava por causa daquela bobajada, e agora, fazer o quê?, confesso que pensei até em arrumar as coisas e regressar, admitir que aquele empreendimento não era pra minha estatura não, que importava se rissem do meu fracasso?, não havia sido assim até o momento?, se quisesse fechar a conta, calcular o deve e o haver da minha existência, o saldo ia ser negativo, não tem como despistar a verdade, depois de uma fase, motivo de chacota da cidade inteira, talvez mesmo da região, outras estupidezes mais curiosas iam aparecer, as pessoas esqueciam, o que sustenta a piada é a novidade, um ano e ninguém mais ia recordar a minha desastrada viagem, mas aí boiavam os compromissos assumidos com o povo, as lembrancinhas pra um e outro, a palavra empenhada com o Ivan Cachorro Doiro de humilhar aquele corretor metido a sabichão, a promessa de ajudar a pagar a faculdade do Léo, meu sobrinho (se ele por acaso quisesse manter estudando), e principalmente o desejo de cevar uma poupança pro Pierre, quando perguntassem, “E seu pai, Pierre?”, ele podia responder, peito estufado de orgulho, “Em Portugal, cuidando do meu futuro!”, ah, isso sim me empurrava pra frente, e então, refeito, desci, recostei numa das duas poltronas da recepção, bem encolhido pra dona Palmira, se aparecesse, nem me notar, e buscando tomar pé da situação, distraía a cabeça olhando o tapete no assoalho, o quadro com uma moça vestida à antiga pastoreando ovelhas, a parede descascada, o vaso de flor pisando macio a toalhinha-de-renda na mesa-de-centro, e um recipiente, perto da porta, que, descobri, serve pra botar guarda-chuva (cheguei da rua debaixo de um aguaceiro, fechei o guarda-chuva e, pensando em expor ele no quatro para secar, subi a escada ligeiro, deixando pra trás um rastro molhado, quando a dona Palmira, feita caninana, num bote me acercou, braços em cruz, sibilando, impedindo a passagem, gritando coisas que eu não entendia direito, um escarcéu, até surgir o seu Seabra berrando pra mulher calar, pegou o guarda-chuva, enterrou no recipiente, que nem uma colher na gelatina, e, bravo, agitado, xingando, falou pra, vindo da rua, deixasse o chapéu-de-chuva ali, sempre, porque se não a diaba perdia a cabeça, instalava a arruaça, “Ela é louca, senhor Sampaio, não vê?), e de repente um suejtio me cumprimentou simpático, levantei, “Você é brasileiro?”, confirmou, e, satisfeito, eu disse, “Puxa vida, que bom encotnra alguém que fala a mesma língua da gente”, apertamos as mãos…

Depois de retratar as vítimas do Brasil industrial, o escritor Luiz Ruffato, um dos nomes centrais da ficção contemporânea, agora lida com os exilados pelo fracasso nacional. Seu romance Estive em Lisboa e Lembrei de Você retrata as esperanças frustradas de brasileiros que migram com o sonho de refazer a vida em um país menos desigual. O romance é o resultado da visita de um mês que Ruffato fez a Lisboa como parte do projeto Amores Expressos, no qual 17 autores passaram 30 dias em cidades espalhadas ao redor do mundo com o compromisso de, na volta, escrever uma história de amor ambientada no local. O romance é o terceiro produzido dentro do polêmico projeto. Daniel Galera lançou em outubro de 2008 Cordilheira, resultado de sua estada em Buenos Aires, e a visita de Bernardo Carvalho a São Petersburgo gerou O Filho da Mãe, publicado em março de 2009. Os próximos volumes da série estão previstos para este ano: o livro de Lourenço Mutarelli ambientado em Nova York e o de João Paulo Cuenca passado em Tóquio.

O livro de Ruffato transforma o amor que estava na origem da proposta em um elemento lateral em um panorama conciso das agruras enfrentadas pelos imigrantes nacionais: pobreza, depressão, preconceito, exploração e uma possibilidade cada vez mais remota de voltar à terra natal. Seu personagem central, Sérgio Sampaio, até encontra amor físico, mas o que está no foco da narrativa é a luta diária pela sobrevivência e como essa pugna um tanto desigual esmigalha minuciosamente as ilusões deslumbradas que ele, em sua aventura de imigrante, forjara ao tentar a sorte em Portugal: sim, ele consegue um emprego, em uma tasca (uma das características gráficas do livro é destacar em negrito as palavras peculiares de uso cotidiano em Portugal para designar coisas que nomeamos com outro termo aqui no Brasil. Tasca é uma taberna).

Ruffato consegue com este romance algo raro em projetos de encomenda. Estive em Lisboa e Lembrei de Você atende às demandas do projeto e ao mesmo tempo mantém-se rigorosamente dentro da linha temática e formal que o autor vem desenvolvendo há cinco anos na série Inferno Provisório: um panorama em cinco volumes que pretende cobrir, por meio da ficção, a trajetória errante do proletariado industrial brasileiro. Breve e conciso se comparado a seus antecessores (Mamma Son Tanto Felice, O Mundo Inimigo, Vista Parcial da Noite e O LIvro das Impossibilidades), Estive em Lisboa e Lembrei de Você partilha com eles alguns elementos fundamentais. A história começa na cidade natal de Ruffato, Cataguases, também um dos cenários dos romances de Inferno Provisório. O livro novo, contudo, leva um pouco mais longe (literalmente) a análise da figura do imigrante que deixa sua terra em busca de melhores condições materiais.

Se nos anteriores os personagens iam se dispersando pelo Brasil em direção a São Paulo e Rio de Janeiro, aqui o protagonista Serginho decide viajar a Lisboa picado pelas descrições entusiasmadas do português Oliveira, dono do bar local, de Portugal como uma terra de oportunidades. É Ruffato tratando com uma ironia melancólica brasileiros buscando uma vida melhor na Europa de onde tantos partiram com o mesmo objetivo um século antes em direção ao Brasil.

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