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Posts de março 2010

De Ruffato e de ficção

30 de março de 2010 0

Desacorçoado, gastei outros dois dias trancado no quarto, sem ânimo nem pra comer, o sol numa preguiça danada pra esquentar, tomar banho, de jeito maneira, os beiços rachados, o nariz estilando, as mãos e os pés doendo de gelados, rondava de um lado pro outro arqueado, como se carregasse um saco de sessenta quilos na cacunda, e fustigava, besta!, quem mandou seguir a cabeça dos outros!, bem que minha santa mãe, que Deus a tenha!, me dizia, se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia, me martirizava por causa daquela bobajada, e agora, fazer o quê?, confesso que pensei até em arrumar as coisas e regressar, admitir que aquele empreendimento não era pra minha estatura não, que importava se rissem do meu fracasso?, não havia sido assim até o momento?, se quisesse fechar a conta, calcular o deve e o haver da minha existência, o saldo ia ser negativo, não tem como despistar a verdade, depois de uma fase, motivo de chacota da cidade inteira, talvez mesmo da região, outras estupidezes mais curiosas iam aparecer, as pessoas esqueciam, o que sustenta a piada é a novidade, um ano e ninguém mais ia recordar a minha desastrada viagem, mas aí boiavam os compromissos assumidos com o povo, as lembrancinhas pra um e outro, a palavra empenhada com o Ivan Cachorro Doiro de humilhar aquele corretor metido a sabichão, a promessa de ajudar a pagar a faculdade do Léo, meu sobrinho (se ele por acaso quisesse manter estudando), e principalmente o desejo de cevar uma poupança pro Pierre, quando perguntassem, “E seu pai, Pierre?”, ele podia responder, peito estufado de orgulho, “Em Portugal, cuidando do meu futuro!”, ah, isso sim me empurrava pra frente, e então, refeito, desci, recostei numa das duas poltronas da recepção, bem encolhido pra dona Palmira, se aparecesse, nem me notar, e buscando tomar pé da situação, distraía a cabeça olhando o tapete no assoalho, o quadro com uma moça vestida à antiga pastoreando ovelhas, a parede descascada, o vaso de flor pisando macio a toalhinha-de-renda na mesa-de-centro, e um recipiente, perto da porta, que, descobri, serve pra botar guarda-chuva (cheguei da rua debaixo de um aguaceiro, fechei o guarda-chuva e, pensando em expor ele no quatro para secar, subi a escada ligeiro, deixando pra trás um rastro molhado, quando a dona Palmira, feita caninana, num bote me acercou, braços em cruz, sibilando, impedindo a passagem, gritando coisas que eu não entendia direito, um escarcéu, até surgir o seu Seabra berrando pra mulher calar, pegou o guarda-chuva, enterrou no recipiente, que nem uma colher na gelatina, e, bravo, agitado, xingando, falou pra, vindo da rua, deixasse o chapéu-de-chuva ali, sempre, porque se não a diaba perdia a cabeça, instalava a arruaça, “Ela é louca, senhor Sampaio, não vê?), e de repente um suejtio me cumprimentou simpático, levantei, “Você é brasileiro?”, confirmou, e, satisfeito, eu disse, “Puxa vida, que bom encotnra alguém que fala a mesma língua da gente”, apertamos as mãos…

Depois de retratar as vítimas do Brasil industrial, o escritor Luiz Ruffato, um dos nomes centrais da ficção contemporânea, agora lida com os exilados pelo fracasso nacional. Seu romance Estive em Lisboa e Lembrei de Você retrata as esperanças frustradas de brasileiros que migram com o sonho de refazer a vida em um país menos desigual. O romance é o resultado da visita de um mês que Ruffato fez a Lisboa como parte do projeto Amores Expressos, no qual 17 autores passaram 30 dias em cidades espalhadas ao redor do mundo com o compromisso de, na volta, escrever uma história de amor ambientada no local. O romance é o terceiro produzido dentro do polêmico projeto. Daniel Galera lançou em outubro de 2008 Cordilheira, resultado de sua estada em Buenos Aires, e a visita de Bernardo Carvalho a São Petersburgo gerou O Filho da Mãe, publicado em março de 2009. Os próximos volumes da série estão previstos para este ano: o livro de Lourenço Mutarelli ambientado em Nova York e o de João Paulo Cuenca passado em Tóquio.

O livro de Ruffato transforma o amor que estava na origem da proposta em um elemento lateral em um panorama conciso das agruras enfrentadas pelos imigrantes nacionais: pobreza, depressão, preconceito, exploração e uma possibilidade cada vez mais remota de voltar à terra natal. Seu personagem central, Sérgio Sampaio, até encontra amor físico, mas o que está no foco da narrativa é a luta diária pela sobrevivência e como essa pugna um tanto desigual esmigalha minuciosamente as ilusões deslumbradas que ele, em sua aventura de imigrante, forjara ao tentar a sorte em Portugal: sim, ele consegue um emprego, em uma tasca (uma das características gráficas do livro é destacar em negrito as palavras peculiares de uso cotidiano em Portugal para designar coisas que nomeamos com outro termo aqui no Brasil. Tasca é uma taberna).

Ruffato consegue com este romance algo raro em projetos de encomenda. Estive em Lisboa e Lembrei de Você atende às demandas do projeto e ao mesmo tempo mantém-se rigorosamente dentro da linha temática e formal que o autor vem desenvolvendo há cinco anos na série Inferno Provisório: um panorama em cinco volumes que pretende cobrir, por meio da ficção, a trajetória errante do proletariado industrial brasileiro. Breve e conciso se comparado a seus antecessores (Mamma Son Tanto Felice, O Mundo Inimigo, Vista Parcial da Noite e O LIvro das Impossibilidades), Estive em Lisboa e Lembrei de Você partilha com eles alguns elementos fundamentais. A história começa na cidade natal de Ruffato, Cataguases, também um dos cenários dos romances de Inferno Provisório. O livro novo, contudo, leva um pouco mais longe (literalmente) a análise da figura do imigrante que deixa sua terra em busca de melhores condições materiais.

Se nos anteriores os personagens iam se dispersando pelo Brasil em direção a São Paulo e Rio de Janeiro, aqui o protagonista Serginho decide viajar a Lisboa picado pelas descrições entusiasmadas do português Oliveira, dono do bar local, de Portugal como uma terra de oportunidades. É Ruffato tratando com uma ironia melancólica brasileiros buscando uma vida melhor na Europa de onde tantos partiram com o mesmo objetivo um século antes em direção ao Brasil.

Chame o Ladrão

26 de março de 2010 4

Policiais de Boston marcham em protesto durante a Greve de 1919

Em visita ao Brasil em 2007 para lançar a edição nacional de seu romance Dança da Chuva, o escritor americano Dennis Lehane defendia o injustamente menosprezado gênero policial como a “tragédia da classe operária”. Com seu mais recente romance lançado por aqui, Naquele Dia, Lehane avança um passo e dota a classe operária de um épico.

Naquele Dia é a obra mais ambiciosa de Lehane, autor de Sobre Meninos e Lobos, Paciente 67 (que está sendo relançado no Brasil com novo nome, Ilha do Medo, em referência à adaptação dirigida por Martin Scorsese) e de uma série de romances policiais de perfil noir mais tradicional, protagonizada pelo casal de detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro (Um Drink Antes da Guerra, Sagrado, Apelo às Trevas, Gone, Baby Gone, Dança da Chuva). O escritor já havia provado que podia abandonar suas criações recorrentes e as fórmulas marcadas da narrativa detetivesca para se dedicar a histórias de crime que transcendiam o gênero. Eu, ao menos, enquanto leitor, sempre achei as obras ocasionais que Lehane comete sem Kenzie e Gennaro muitos pontos acima do que os casos criminais investigados pela dupla. Com Naquele Dia, Lehane prova que não precisa sequer do crime para manter um leitor preso a sua teia narrativa e ao mesmo tempo criar uma romance grandioso.

O livro segue o período compreendido entre 1918 e 1919 na vida de dois personagens fictícios cujos destinos se encontram em Boston, cidade natal do autor e cenário de todos os seus livros. O primeiro é Danny Coughlin, jovem e rebelde descendente de irlandeses, agente da polícia local. O segundo, Luther Laurence, é um rapaz negro nascido no Sul dos Estados Unidos e que foge para Boston, para evitar as consequências de um crime que cometeu em Oklahoma e que o obrigou a deixar para trás a mulher com quem recém havia casado e que esperava um filho seu. Enquanto um luta no andar debaixo de uma sociedade na qual recém havia começado a ação tímida de grupos pleiteando direitos para os negros – a maioria ligados a igrejas –,  o outro é o ramo rebelde e inconformado de uma família abastada e já integrada ao caldeirão americano. Filho de imigrante irlandês, Coughlin vive em um cortiço em um bairro italiano, é um policial de rua mal pago e se vê envolvido na luta contra movimentos sindicais, grupos terroristas de inspiração anarquista e agremiações políticas comunistas (que são, as três coisas, vistas como semelhantes pela assustada burguesia industrial do florescente capitalismo americano). A situação de Coughlin, obrigado a se infiltrar em sindicatos como espião enquanto ele próprio começa a ir a reuniões de policiais insatisfeitos com seu salário é bastante bem explorada por Lehane, ainda que o personagem de Danny (apelido para Aiden, e não para Daniel) seja um tanto incômodo por seu improvável heroísmo monolítico – algo que por vezes até se estranha em um tipo criado por Lehane, magistral nos meios tons do trio de amigos de Sobre Meninos e Lobos.

Intercalando essas duas vidas fictícias, está a figura real de Babe Ruth (1895 – 1946), lenda do beisebol, transformado por Lehane em personagem. Em 1919, Ruth, que mais tarde seria um rebatedor recordista de home runs (aquela rebatida tão forte que manda a bola para fora do campo), já começava a imprimir marcas históricas e a dar os primeiros passos para ser a primeira lenda do esporte aos moldes modernos. Ruth aparece a intervalos dentro da narrativa maior, sua formação e transformação servindo como emblema do novo tempo que estaria por vir no pós-I Guerra (Ruth, apesar de seu status posterior de mito, é retratado como um individualista dado a hedonismos, pouco inteligente e de coragem moral duvidosa. Ele várias vezes ao longo do livro tem a sensação de que o mundo está começando a ficar muito rápido – Lehane localiza aí a gênese de um sentimento que se intensificou até o paroxismo na contemporaneidade).

Em paralelo à história desses três homens, Lehane tece uma acurada rede de episódios que constituem um amplo panorama histórico da Boston do período até culminar na histórica greve deflagrada em setembro de 1919 pelos policiais da cidade em busca de melhores salários — as remunerações haviam sido congeladas desde o início da ainda recente I Guerra Mundial. O episódio, verídico, é um dos marcos da história do sindicalismo americano — tanto pelo ineditismo da greve quanto pela pela feroz repressão movida pelo comissário de polícia de Boston, já que, pelas leis da época, servidores públicos não podiam sindicalizar-se (em algum momento ou outro da história do capitalismo, sempre uma ou outra categoria teve um suposto dever cívico brandido em seu rosto para silenciar discussões de melhores condições de trabalho).

Para quem acha o tema alienígena à realidade brasileira, o aviso: Lehane joga no caldeirão ficcional de suas 696 páginas escritas em ótima prosa lutas sindicais, aviltamento de salários em tempos de aumento do custo de vida, corrupção política, violência policial, a ganância de patrões mais preocupados com a saúde financeira de seus negócios do que com a saúde física de seus trabalhadores – temas que bem poderiam estar na mesa de debates da atual crise financeira. Mas na maior parte do romance Lehane não pesa a mão fazendo comparação alguma, apenas cria um livro magistral que extravasa a fronteira do romance histórico como algumas de suas obras anteriores já haviam transcendido os limites do romance policial. Pode não ser o “grande romance americano” que os americanos gostam de cultuar como entidade mítica, e está longe de ser uma obra-prima do gênero romanesco, mas não deixa de ser, justamente pelas somas de suas virtudes e defeitos, um grande romance. E pronto.

Sobre Cafés, Janelas e Escritores

19 de março de 2010 1

O Michel Laub, autor de O Gato Diz Adeus, O Segundo Tempo e Longe da Água (um texto sobre o primeiro pode ser lido aqui, e um sobre os dois últimos pode ser conferido aqui) também mantém um dos melhores blogs literários da internet. Ele começou lá esta semana, e pretende continuar resto do ano adentro, a publicar uma série de depoimentos que está coletando de escritores contemporâneos sobre seus hábitos, manias de escrita, locais preferidos para produção, ambientes, bebidas, paisagens, etc, que escritores preferem ter diante de si quando estão criando suas obras.

Michel postou, em seis partes, a primeira parte de sua pesquisa, que inclui depoimentos de 30 escritores (como escritor é uma categoria ampla que pode ser resumida a “alguém com livro publicado”, Michel foi gentil o bastante para me incluir na lista e me pedir para responder a enquete). Pretende chegar a 100 ao longo de 2010. É uma dessas brincadeiras curiosas que sempre rende justamente porque, como ofício altamente solitário, a escrita é território de sutilezas e cada autor terá suas idiossincrasias para encontrar o conforto de escrever – mesmo aqueles que não têm idiossincrasia alguma, como depõe Moacyr Scliar. Mas há os que não conseguem escrever sem camisa, como o Carpinejar, e os que escrevem nus (essa imagem vai me perseguir incomodamente por algum tempo, Pellizzari), há os que curtem a proximidade de uma janela, como o Daniel Galera, os que precisam de silêncio, como a Cíntia Moscovich e o Bernardo Ajzenberg, os que só escrevem tomando chimarrão (Carol Bensimon) ou algo que se ajuste ao livro que está escrevendo (Xerxenesky), os que escrevem de manhã (Noll) e os que varam a madrugada (como a Vanessa Bárbara, que tem a mesma mania que eu e me poupa o cabotinismo de me usar como exemplo).

Tá, mas qual é a utilidade disso? Nenhuma, pois. É um divertido inventário, e tão inútil quanto a melhor literatura. Passem lá.

O calombo

19 de março de 2010 8

Se o post é sobre calombos, por que a imagem é de um buraco?
Sei lá, vai ver foi a única que achei

Não sei se já aconteceu com vocês, provavelmente sim, embora só possa falar por mim. Estou, com base própria, desenvolvendo uma tese (uso a palavra no sentido de chute furado, não de trabalho acadêmico), a de que há uma porrada de bons livros por aí, dos livros que são só ok àqueles que são grandes de fato, majestosos, os livros que farão toda a diferença do universo na imaginação de um leitor entusiasta, esses livros, eu dizia, eles, por melhor que sejam, em algum momento trazem um caroço. Um calombo. Um quebra-molas que trava a leitura em um ponto do qual é preciso uma certa força para deixar o atoleiro e seguir a leitura novamente em pista livre.

A questão que me ocorre é: será que esse calombo é real, está lá, produz sempre o mesmo resultado a cada vez que qualquer leitor passa por essa etapa em particular do livro? Ou será que cada um depara com um calombo particular em um determinado momento da narrativa de acordo com aquilo que está aproveitando/fruindo/esperando do livro? Claro que falo isso dos bons livros, porque há aqueles que são um calombo por si só – um desastre de proporções épicas do início ao fim (ao qual muitos, como eu, nem chegam)

Pegando um exemplo de leitura recentes, por exemplo: na nova edição de O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov, tem uma passagem na qual um dos personagens é internado em um manicômio após ter surtado depois de encontrar aquele que, saberemos mais adiante, é o diabo em forma de gente chegando a Moscou. No sanatório, trava contato com outro interno que passa a lhe contar a história de um amor arrebatador que teve por uma mulher que encontrou na rua. O livro é ótimo, é uma pérola de humor e sarcasmo mesmo com muitas alusões criptografadas ao que ocorria na União Soviética durante o Stalinismo, e ainda assim eu empaquei um dia inteiro nessa parte, abrindo o livro várias vezes, voltando sempre ao mesmo ponto no qual o sujeito descreve as tardes em que esperava a chegada de sua amante no andar inferior do palacete em que vivia. Não conseguia sair daquilo, ali foi o momento em que quase me perdi no romance, quase caí em um precipício de onde não tinha mais volta. Se estivesse lendo o livro por pura fruição, não teria dúvida de deixar ele de lado por uns dias para ver se conseguia me conectar outra vez com ele em algum momento no futuro. Mas como estava lendo para fazer um texto para a Zero Hora, me forcei a ir adiante e só depois que essa passagem em particular foi vencida o livro engrenou.

Teria sido um defeito meu e de minha própria rotina atabalhoada que me fez interromper brevemente a leitura justo no trecho mais complicado de retomar, um daqueles acasos cósmicos que só acontecem com azarados de marca maior? Ou será que essa passagem, embora essencial para o livro inteiro, está realmente construída de uma forma que faz a gente patinar, é um caroço que dificulta a deglutição do todo? Claro que é uma tese furada pronta para ser destruída por qualquer um aí que esteja mais ou menos disposto a isso, mas eu a coloquei aqui mais como forma de compartilhar com vocês amigos leitores, um desses insights que a gente tem vagabundamente enquanto está pensando em como funciona para cada um de nós esse delicado processo que é a leitura.

Testemunha das hordas

11 de março de 2010 2

Torcedor desesperado durante a final da copa europeia de 1985, entre Juventus e Liverpool,
em Heysel, na Bélgica, episódio narrado em Entre os Vândalos, de Bill Buford

Este post não deixa de ser uma curiosa junção de retalhos desimportantes da biografia deste que vos escreve, e não que vocês tenham realmente interesse nisso, mas se quiserem continuar lendo, tudo bem, senão, pulem direto ali para o título em letra maior e de cor marrom logo abaixo da imagem de capa do livro e podem continuar direto do ponto em que começa o texto de Luiz Zini Pires sobre a reportagem Entre os Vândalos, escrita pelo americano Bill Buford, uma radiografia ímpar do fenômeno do hooliganismo na Inglaterra dos anos 1980. O livro foi publicado em 1992 no Brasil, pela Companhia das Letras. Fui tomar conhecimento dele em 1994, quando ainda não era jornalista de ZH – para falar a verdade, não era sequer jornalista, estava na metade da faculdade, vivendo um ano de intensas descobertas em vários campos da vida e da profissão, mas isso não vem ao caso. Só fui comprar o livro anos mais tarde, e sua leitura provocou um impacto que  permaneceu comigo até hoje, pelo exemplo de peça jornalística que Entre os Vândalos é (jornalistas, vocês sabem, se consideram intelectuais porque leem livros-reportagem ou obras sobre o próprio jornalismo).

Buford, é melhor deixar claro, não é o baterista do Yes, aquele é o Bill Brufford (faço essa observação porque na época em que comprei o livro e o estava lendo, fui interpelado com a pergunta de se aquele era o “cara do Yes” por quatro dos meus amigos, mas vai ver o problema é com os meus amigos, não com vocês). Ele na época vivia em Londres há mais de uma década, embora fosse americano de nascimento. Para escrever o livro, passou a ir regularmente aos estádios ingleses com grupos de torcedores hooligans (destaque para a turma do Manchester United) e relatar o que viu. Buford é também autor de Calor, livro que foi publicado aqui no Brasil pela mesma Companhia e que alterna sua experiência como aprendiz de cozinha no Babbo, um restaurante chique de Nova York, e o perfil do dono desse restaurante, Mario Batali, destaque da gastronomia nova-iorquina. Buford, como se vê, é um jornalista adepto da imersão e da vivência do tema que está pesquisando (nem sempre com os melhores resultados, claro; em Calor ele narra humilhações, ferimentos, queimaduras e a exaustão física resultante do trabalho pesado em uma cozinha de alta gastronomia; em Entre os Vândalos conta como, viajando com os torcedores do Manchester a Turim, acabou levando uma linda sova no lombo quando a polícia encurralou os hooligans ingleses após o jogo e desceu o cacete).

Mas voltando à junção de fios passados: o que me fez saber do livro em 1994 – e que me levaria a comprá-lo mais tarde, lá por 2000, acho – foi um texto publicado em 6 de novembro de 1994 na Zero Hora (Um domingo, eu não sabia o dia exato, mas me lembrava de que havia sido um domingo. Na época eu era estagiário ganhando supermal na assessoria de imprensa da Febem e ia filar rango na casa da tia da minha então namorada, mais tarde esposa e mais tarde nada, e era na casa dessa tia que eu lia jornais). Esses dias, ao passar por uma livraria, vi que a Companhia está relançando Entre os Vândalos em formato bolso (não deixa de ser interessante notar que naquele primeiro ano do Real a edição em tamanho normal custava R$ 15,50. Hoje, a de bolso custa R$ 24). Aproveitando a oportunidade (o “gancho” como diríamos), fui ao banco de dados de Zero Hora para desencavar aquele primeiro artigo lá de 1994 que me despertou o interesse pelo livro – ele é assinado, e isso eu não me lembrava, pelo jornalista Luiz Zini Pires, titular da coluna Bola Dividida de ZH e do blog de mesmo nome (daquele tempo pra cá o ZIni já editou Mundo, Caderno Donna, a página 3, o Caderno Cultura e agora está de volta aos esportes). Consultei o Zini e ele me permitiu republicar aqui seu texto de 15 anos atrás. Aproveitem:

Uma viagem com os hooligans
Luiz Zini Pires

Uma inevitável pergunta persegue o norte-americano Bill Buford, 40 anos, jornalista e escritor, a cada entrevista: “você ainda frequenta estádios de futebol?” Buford sempre responde seca e rapidamente, sem qualquer cacoete visível, com um preciso e definitivo “não”. É natural. Para escrever o excelente Entre os Vândalos: a Multidão e a Sedução da Violência, da Companhia das Letras, Buford passou 10 anos, quase toda a década de 80, vivendo, bebendo e viajando com a mais alucinada e temida elite do “hooliganismo” inglês. Foi tempo suficiente. O resultado desta experiência é espantoso. Tem sabor de goleada para o leitor, de título inédito para o escritor, de derrota para os desordeiros.

O livro não tem a chatice de alguns tratados sociológicos, nem o mofo de certos escritos acadêmicos, nem mesmo o superficialismo de determinados artigos. Bufford recheou seu livro com histórias reais dos vândalos e de suas gangues. garantiu a descrição da violência não somente por parte de suas vítimas. Mas também por quem inventa essa violência. A leitura flui então como num romance. Só que os personagens não são fictícios. Os parentes das vítimas ainda buscam consolo para explicar mortes de gente tão jovem, tão cheia de vida.

INIMIGOS: Os vândalos, os temíveis e terríveis hooligans são um legítimo produto made in England, tipo exportação. Quando saem da Inglaterra então arrastam junto um nacionalismo barato e doentio. Vivem dopados de raiva, lotados de repulsa, tomados de fúria. Hoje são tratados como inimigos dentro e fora de casa. São a escória dos torcedores ingleses, uma vergonha para a mais fiel, mais barulhenta e mais festiva torcida do mundo.

Antes, durante e depois de atacarem as pessoas, preferencialmente negros, indianos e árabes, os hooligans depredam trens, quebram carros, arrasam bares e dão aos centros urbanos uma maquiagem típica de Bagdá depois das bombas. Não satisfeito em ser um espectador privilegiado da ação dos vândalos nem de ouvir as suas mais estranhas e terríveis histórias, o norte-americano Bill Buford foi viver com eles, ser um deles, mas não agiu como eles.

Não usou cassetete, nem correntes ou facas Stanley, o bem-equipado uniforme dos desordeiros bons de briga. Mas bebeu cerveja e vodka com os torcedores do Manchester United. Agitou com os skinheads do Chelsea e percorreu o sul do Tâmisa, o rio que banha Londres, com os ensandecidos fãs do Milwall, sequiosos por um combate contra as hordas do Tottenham Hotspur. Seguiu o rastro da torcida do Arsenal após uma derrota em Highbury, seu estádio.

GENERAIS: Buford fez ainda o perfil dos generais em comando da turba. Descobriu alguns ladrões em potencial. Contou os confrontos com a polícia. Deu nomes e datas. Somou feridos e mortos. Desmascarou um dos braços ingleses do National Front, o partido nazista do Reino Unido. Mostrou ainda como as gangues se movimentam antes dos jogos e ficou no meio da explosão, mas sempre estratigicamente distante dos terríveis retalhadores do Manchester United que, amparados em pequenas facas Stanley, fazem a linha de frente do Cockney Reds, uma das torcidas organizadas do time.

Bill Buford foi descobrir a maioria dos seus vândalos na decadente classe trabalhadora do Reino Unido. Viu e apontou uma geração entediada, desiludida, desempregada, oca e sem perspectivas. Uma geração que bebe e se droga mais do que o normal. Gente de excessos que ainda não tem 30 anos e que usa e abusa da violência para disparar uma energia má armazenada em corações de pedra. Sem nenhuma preocupação em medir a textura do seu alvo. Pedra, lata ou carne. Às vezes esta diferença simplesmente não existe. Tanto faz.

Serviu a Kapuscinki

06 de março de 2010 0

Ryzard Kapuscinski – Foto de Andrzej Rybczynski, AP

No caderno Cultura de hoje publicamos um texto do The Guardian sobre a recém lançada biografia do jornalista polonês Ryszard Kapuscinsk – tem uns acentos em consoantes poloneses que não posso fazer neste teclado brasileiro. O livro, que saiu esta semana na Polônia e tem 600 páginas, é assinado pelo jornalista polonês Artur Domoslawski. Desmistificar um biografado não é novidade no ramo das biografias, principalmente iluminando os aspectos menos luminosos da vida pessoal do retratado. O que acontece nesta em particular é que Domoslawski lança algumas dúvidas sobre aquilo que tornava Kapuscinski um mito: sua vida profissional. Ele diz que Kapuscinski com frequência se afastava das regras estritas do “jornalismo anglo-saxão” e se deixava levar pela tentação de ajustar os fatos da história que acompanhava ao seu texto. A informação provocou protestos indignados de admiradores do autor e críticas ácidas de seus detratores, que também eram em bom número.

Como prometemos nas páginas do jornal, vai abaixo um texto escrito pelo jornalista Luiz Zini Pires, titular da coluna e do blog Bola Dividida, ex-editor do Caderno Cultura e leitor atento da obra de Kapuscinski – o que permite um olhar complementar à matéria que está no jornal. E ainda adicionei links para alguns dos livros do autor que já havíamos comentado aqui no Mundo Livro. Divirtam-se:

Viagens de um Polonês
Luiz Zini Pires

Ryszard Kapuscinski é um nome difícil de pronunciar. O polonês é língua árida. O sobrenome, mesmo inóspito, é fácil de guardar porque é único.
Seus livros, entre eles, A Guerra do Futebol (Companhia das Letras, 2008), sobre a luta de 1969 entre Honduras e El Salvador e duas inacreditáveis partidas de futebol, e O Imperador (Companhia das Letras, 2005), um estudo sobre Haile Selassié, um clássico tirano africano do século 20, permanecem na memória. Guardam espaço em qualquer boa, média, ótima biblioteca. Se você quiser um, fique com os dois. Eles completam o autor em coragem, porque a morte passou ao seu lado, chamou e ele não embarcou, bons textos e histórias extraordinárias.
Kapuscinski foi correspondente estrangeiro na América mais pobre, na África paupérrima. Ele mesmo, apertado, fazia as contas na ponta do lápis todas os meses. Não tinha o mesmo dinheiro dos bem nutridos norte-americanos ou dos conterrâneos de uma Europa mais rica. Se movimentava com certa dificuldade – embora tenha melhorado de vida nos anos 1980 depois que começou a ser publicado em inglês e alemão. Os jornais e agência de notícias da sua Polônia natal não costumavam ser pródigas em salários, especialmente depois que a Cortina de Ferra a enclausurou, fazendo do país um satélite comunista.
Kapuscinski foi repórter, bom, excelente, um dos melhores, mas deixou seu texto avançar, sair das laudas do jornal, ocupar o livro de 300 páginas. Kapuscinski fez da reportagem pura arte literária. É um dos seus grandes representantes, é referência, bússola. Seu talento se mede nas suas histórias. Se ele não é 100% fiel, qual o correspondente em terra estranha pode ser?
Por certo não seguiu a realidade como ela é, nem contou o que viu exatamente como viu em determinados momentos. Quem se importa? Eu não. Seus textos, depois da denúncia de que nem tudo que ele disse é verdade, não perderam um só centavo do seu bilionário valor.
Seu velho mundo, do ensurdecedor tique taque, tique taque, das máquinas de escrever a  morosidade do telex, era mais do texto, menos da imagem. Hoje, as câmaras estão acopladas nos capacetes do Mariners e na alça de mira dos canhões. Quando elas não pegam, o satélite mostra. Kapuscinski é de outro tempo. Nasceu num mundo imenso, de lugares distantes e inexpugnáveis, não conectados. Ganhou, com o seu talento, textoe repito (coragem) licença poética para criar em cima da verdade (verdade?), o que não diminui sua história em nada.
Vou agora mesmo reler um pedaço de A Guerra do Futebol.

Mônica Leal fala sobre sua gestão

06 de março de 2010 0

Mônica Leal em Caxias, em março deste ano. Foto: Daniela Xu

Como parte de nosso extenso dossiê sobre os rumos da Cultura no Estado, vamos publicar agora outro aspecto do debate. No Caderno Cultura deste sábado, vocês poderam ler o balanço que a própria secretária Mônica Leal fez de seu período à frente da Secretaria Estadual da Cultura. Por questões de espaço no jornal, a entrevista, concedida por e-mail ao colega Daniel Feix, editor do Segundo Caderno, crítico de cinema e um dos titulares do blog Cine Clube, precisou ser editada. Como prometido nas páginas do caderno, vai abaixo a íntegra da entrevista, na qual a secretária, que já anunciou sua exoneração do cargo em abril para concorrer à Assembleia Legislativa, avalia sua passagem pela Sedac:

Zero Hora – Como a senhora avalia sua passagem pela Sedac? Considera que foi boa? Pôde fazer o que queria fazer ou há algo que gostaria de ter feito que não conseguiu?
Mônica Leal –
Creio que não foi apenas passagem, pois ficará a marca indelével do choque de gestão que implementei na secretaria. O resultado obtido foi o fortalecimento da pasta através do saneamento de suas finanças, em especial a Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS). Os investimentos culturais não acontecem se o caixa estiver deficitário, como o encontrei. Implementei medidas saneadoras e deixei a Sedac em condições de incrementar políticas culturais, com encaminhamentos imprescindíveis como o concurso público que mudará o quadro defasado de funcionários que temos hoje, já que só houve um concurso em 1991; como o projeto de lei Pró-Cultura, que modifica, e muito, o sistema LIC e implementa o FAC (Fundo de Apoio à Cultura), democratizando e socializando os investimentos culturais; como o sistema automatizado na LIC, com mecanismos de controle ágeis e eficientes; como toda a tramitação para essa concretização, que requer processos complexos, dependentes de outros órgãos, secretarias e até de outros poderes. Ficaram muitas coisas a fazer _ algumas ações não foram possíveis de concretizar, mas tenho tranquilidade em afirmar que tudo o que estava ao nosso alcance, a partir dos nossos parcos recursos, tanto humanos como financeiros, foi feito.

ZH – Sua gestão conviveu com um corte de gastos muito grande, e com, inclusive, uma redução no número de pessoas trabalhando pela cultura, sobretudo diretores acumulando a direção de mais de uma instituição. Qual o impacto disso na implementação de uma política cultural pública no Estado?
Mônica –
A redução no custeio a partir de corte de gastos integrou um projeto maior, de política de governo, que todas as secretarias tiveram que aderir. A Cultura é a que detém o menor orçamento. Isso somado ao fato de termos poucos funcionários nos levou a preencher funções técnicas com os cargos destinados às chefias, os chamados Cargos em Comissão, razão pela qual alguns diretores de departamentos acumularam acumularam também a direção de instituições vinculadas aos mesmos. Dá para se ter uma ideia do quão árdua foi essa redução. Nesta gestão começamos, antes de tudo, com investimentos na infra-estrutura da pasta e de suas instituições vinculadas. Não se faz política cultural sem ter uma infra-estrutura consistente e uma estrutura sólida.

ZH – Que tipo de política cultural pública a senhora considera ideal para um Estado como o Rio Grande do Sul?
Mônica –
Uma política cultural acessível às diversas camadas sociais e aos diversos segmentos culturais. Isso inclui o fortalecimento da identidade através do resgate e da proteção do patrimônio cultural, fomentos às atividades culturais, estruturação e manutenção constante de equipamentos, pesquisa e difusão cultural e incentivo às manifestações culturais populares. Nesta gestão conseguimos desenvolver atividades nesta linha como o projeto Viver e Inspirar Cultura, realizado na Casa de Cultura Mario Quintana, que proporciona atividades gratuitas, e os Programas Estruturantes, constituído por atividades de teatro, fotografia e leitura que a Sedac leva a todas as regiões do Estado, além da parceria para a realização das aulas de balê para deficientes visuais, o incentivo à música gaúcha e aos novos talentos em oportunidades como o Verão Sociocultural e os shows da Expointer.

ZH – Quando a senhora assumiu, afirmou que a LIC-RS precisava de um choque de gestão para poder seguir em funcionamento. Por favor, explique que tipo de operação foi realizado.
Mônica –
Ao assumirmos a Sedac, a LIC apresentava um passivo de R$ 14 milhões (recursos a serem recebidos para a realização dos projetos e que formavam uma espécie de fila, atrasando a aprovação de novos projetos). E este era só um dos pontos de descontrole do sistema. A CAGE (Contadoria e Auditoria Geral do Estado) recomendou a suspensão do mecanismo por no mínimo oito meses. Nenhum projeto poderia ser aprovado nesse período. Foi então que a coordenação da LIC fez uma análise detalhada de cada projeto contemplado e que tinha algo a receber neste montante. Foram detectadas ações que ainda não haviam sido realizadas, outras que já haviam sido realizadas _ prescindindo os recursos da lei _ e também produtores em situação de inadimplência junto ao Setor de Tomada de Contas. Conforme tudo foi sendo regularizado e os recursos, liberados, depois de muita dedicação, em 12 de dezembro de 2007, conseguimos zerar o passivo. E garantimos que este problema não voltará, porque a aprovação de projetos pelo Conselho Estadual da Cultura, agora, está limitada à autorização mensal concedida pela Sedac, que planeja a liberação gradual para não ultrapassar o valor anual de renúncia fiscal.

ZH – Como se chegou a esta situação?
Mônica -
Aprovando, anualmente, a concessão de até R$ 80 milhões, quando a verba anual de renúncia de ICMS permitida pela lei era tão somente de R$ 28 milhões. Além disso, havia problemas de inércia administrativa: inexistia análise das prestações de contas que, em sua maioria, eram regularmente entregues após a execução dos projetos culturais. O estoque de projetos aumentava a cada mês a ponto de não haver demanda de pessoal e equipamentos para proceder as análises. Só foi possível retomar o funcionamento da LIC, depois da suspensão de oito meses, porque o então presidente do Tribunal de Contas, Sandro Pires, concedeu-nos um voto de confiança ao tomar conhecimento do nosso planejamento estratégico para sanar a lei. Apresentamos relatórios mensais ao presidente e ao então representante do Ministério Público Especial junto ao TCE, Cezar Miola.

ZH – A senhora considera que organizar as finanças da cultura foi o seu foco principal à frente da Sedac?
Mônica –
Não foquei o saneamento das finanças. Quis atender os anseios da comunidade cultural de acordo com a política do governo legitimamente eleito. Mas, da forma como encontrei a Sedac, não teria como cumprir sequer com a rotina administrativa se não arrumasse as contas. Já no primeiro mês efetuamos consertos e reparos urgentes e imprescindíveis para que algumas instituições pudessem manter as suas atividades. Posso dizer que no primeiro e segundo ano tivemos essas tarefas – arrumar, sanear, regulamentar. No terceiro ano já houve espaço e recursos para investimentos culturais. Entretanto, ocorreu a denúncia e a descoberta de uma fraude, ainda no primeiro semestre (as assinaturas de três secretários foram falsificadas buscando a liberação de recursos em falsas cartas de habilitação). Ora, eu que pauto minha conduta pela lei, tive que novamente focar em três ações urgentes: a primeira foi formalizar a denúncia ao MP e solicitar a sua atuação no sentido de apurar os fatos e os seus responsáveis. A segunda foi adotar medidas administrativas internas para coibir novas falsificações e solicitar auditoria da CAGE, que se instalou junto à Sedac por mais de três meses. E a terceira, mais demorada, foi a avaliação da atual legislação e suas normativas, diagnosticando os mecanismos passíveis de falhas. Essa avaliação redundou na necessidade de alteração da lei. Criou-se um grupo técnico de trabalho, multidisciplinar, para elaboração de um projeto de lei que mantivesse as potencialidades da legislação original, mas que alterasse os pontos nevrálgicos. O resultado foi surpreendente: o grupo propôs um Sistema Unificado de Financiamento Cultural, no qual parte dos recursos obtidos na LIC passassem a capitalizar o FAC (Fundo de Apoio à Cultura), viabilizando assim o financiamento de projetos que não possuem viés comercial. O PL-294 foi protocolado na Assembléia Legislativa em dezembro de 2008. Infelizmente interesses advindos do sectarismo político mobilizaram-se no sentido de que a lei não fosse votada. Participei de discussões, aceitei algumas alterações por meio de emendas e, mesmo assim, continuo aguardando a votação. Não por mim, já que estou saindo, mas por toda a comunidade cultural, seja o autor ou o espectador, que está sendo profundamente prejudicada com a demora na implementação.

ZH – A senhora considera que faltou dinheiro para implementar projetos ou prefere não lamentar a escassez de recursos com que teve de trabalhar?
Mônica -
O problema da falta de recursos nas pastas de Cultura não é só do Rio Grande do Sul, mas da maioria dos Estados do Brasil. Mesmo assim, sempre obtive o apoio do governo para buscar parcerias e obtive êxito em sua maioria, porém, se tivéssemos mais recursos, poderia ter investido em ações culturais. Mas não sou o tipo da pessoa que fica se lamentando. Podemos dizer que a Sedac efetivou parcerias e incentivou inúmeros projetos _ pela LIC. As instituições não ficaram paradas por falta de orçamento, pois as direções usaram de muita criatividade e contaram com o apoio das associações de amigos, que são muito comprometidas e atuantes. Frente ao quadro que encontramos de problemas físicos nas nossas casas, busquei patrocínios para a Cinemateca Paulo Amorim, para a Casa de Cultura Mario Quintana, para o Museu Júlio de Castilhos, para o Margs e o Museu de Comunicação, este com nossa contrapartida considerável advinda do Programa Monumenta (do governo federal, em parceria com a prefeitura de Porto Alegre). Com isso esses equipamentos culturais puderam continuar de portas abertas, manter suas atividades, desenvolver suas programações e receber projetos e propostas da comunidade cultural.

ZH – Por que, na sua opinião, o Rio Grande do Sul não consegue solucionar impasses fundamentais da área cultural como a finalização do Multipalco, a construção do Teatro da Ospa e a construção do novo Cais do Porto? Não me refiro especificamente à atuação da secretaria, mas ao próprio status quo da cultura no Estado, que transcende o poder público: o que faz com que esse tipo de projeto, mesmo sendo importante para o Estado, capaz de ser propulsor de um crescimento na produção cultural, não consiga superar detalhes para ser efetivamente realizado?
Mônica –
Por mais que sejamos um Estado com histórico e tradição de bons níveis de educação e cultura, parece que guardamos isso como um troféu, mas não percebemos que para mantê-los temos que mirar em direção ao futuro e não só colecionar glórias já conquistadas. Creio que falta um pouco de visão desenvolvimentista para abarcar o potencial cultural que temos, que cresce junto com a população e que precisa ser acolhido em programas e espaços. E isso está ligado também ao turismo, à cidadania, à auto-estima. Os projetos citados são o reflexo dessa necessidade que a sociedade aponta e que é condizente com esse potencial que falei. A Sedac está atenta e acompanha os andamentos de todos esses processos, que por uma questão financeira dependem de recursos de leis de renúncia fiscal, de patrocínios e da luta constante de seus administradores. Em 2009, todos esses projetos deram passos adiante: o teatro da Ospa recebeu a licença prévia da prefeitura da Capital, o Multipalco concluiu etapas com ênfase na Concha Acústica e, em relação ao Cais, o projeto que estabelece regime urbanístico para a área foi aprovado pela maioria do plenário da Câmara Municipal de Porto Alegre, em dezembro. Este último projeto, a meu ver, sofreu muito, desde a sua origem, em 1995, com o confronto e a disputa política decorrentes dos diferentes mandatos dos executivos das três esferas: municipal, estadual e federal. Considero o que ocorreu lastimável, pois a população é que perde com isso. Em 2010, creio que se continuará avançando, mesmo frente às dificuldades financeiras do Estado e os excessos de burocracia, que não podem ser superiores à mobilização da sociedade e dos gestores públicos envolvidos.

ZH – Por seus problemas na prestação de contas, o Multipalco foi o projeto que mais exigiu a sua atenção nesta gestão? Como a presidente da fundação que mantém o Theatro São Pedro, Eva Spher, a senhora também se considera decepcionada com o atraso nas obras?
Mônica –
O Multipalco é um projeto muito importante para a cultura do Rio Grande do Sul. É ousado e monumental e isso obviamente atinge um custo que supera a realidade tanto da secretaria quanto da Fundação TSP, daí a necessidade de aportes financeiros originados de formas diversas. Além de recursos orçamentários, foram necessários recursos da LIC-RS e da Lei Rouanet. A decepção de Dona Eva decorre possivelmente do fato de ela desconhecer que a LIC possui regulamentos que balizam a possibilidade de liberação de recursos. O Multipalco foi, sim, beneficiado pela LIC em parte da obra – enquanto tramitou em condições de regularidade no sistema. Ao assumir a Sedac, constatei irregularidades no projeto, o que me impediu de liberar novos aportes de recursos. Busquei todas as medidas preventivas possíveis no intuito de solucionar a questão, tendo em vista a importância desse equipamento para o nosso Estado, mas realmente não houve forma de sanar as irregularidades cometidas. Felizmente o Multipalco continuou com outros patrocínios diretos, advindos de importantes e reconhecidos parceiros e no tempo certo estará funcionando em sua plenitude, mesmo sem o aporte de incentivo fiscal estadual.

ZH – Diante da realidade financeira do Estado, instituições e projetos que ainda precisam se afirmar, como o Museu de Arte Contemporânea e mesmo o pólo de cinema há bastante tempo sonhado pela classe cinematográfica, podem ser de fato implementados?
Mônica -
A luta por um espaço mais adequado para o MAC (que está provisoriamente sediado na Casa de Cultura Mario Quintana) é uma preocupação da Sedac. O museu foi contemplado no projeto do novo Cais do Porto, que já está na prefeitura para os devidos encaminhamentos. A secretaria teve representação ativa na comissão executiva do projeto, garantido o espaço para a instalação do MAC. Com o espaço assegurado e superadas as tramitações administrativas, o MAC terá a sua sede e melhores condições de funcionamento. Quanto ao pólo do cinema gaúcho, houve avanços na questão, com um convênio interinstitucional já firmado. Invariavelmente, projetos da área de cinema, em especial a produção, envolvem, além de recursos financeiros substanciais, questões de tecnologia e mão de obra qualificada. Os aportes maiores decorrem de incentivos e subsídios federais, mas estamos atentos e abertos à discussão. A direção do Instituto Estadual do Cinema participa ativamente da divulgação, do apoio, da discussão e da pesquisa na área cinematográfica.

O Estado perde por não investir

06 de março de 2010 0

Luciano Alabarse em imagem de fevereiro de 2009. Foto: Carlos Edler

Continuamos com nossas postagens especiais sobre a atual situação da Cultura do Estado, desta vez com uma entrevista concedida por e-mail pelo coordenador do Porto Alegre em Cena e figura de destaque no teatro da Capital, Luciano Alabarse, diretor de, entre outros projetos, Hamlet e Antígona.

Zero Hora – Grandes eventos da área cultural do Estado, como o Fronteiras do Pensamento e mesmo a Feira do Livro são resultado da iniciativa privada, mesmo que financiados por leis de incentivo. O Estado abandonou seu papel de fomentador direto em benefício da isenção fiscal?
Luciano Alabarse -
Me parece que é uma característica dos tempos brasileiros, essa aproximação entre Estado e patrocínio através da renúncia fiscal, inclusive em relação a grandes eventos realizados pelo poder público. Todos sabemos que o orçamento da pasta é pequeno, o menor de todos. Então, para que grandes eventos aconteçam, esse foi um caminho encontrado. Como todo o caminho, essa relação precisa ser devidamente pavimentada, através do equilíbrio e da oportunidade de aperfeiçoamento. Que uma pasta que lida com cruciais dificuldades financeiras tente essas parcerias não me parece o problema. Problema, pra mim, é quando se cancelam projetos e benefícios sob a alegação de falta de verbas.

ZH – Em sua opinião, como o Estado chegou na atual situação na área da Cultura, sem dinheiro para investimentos, sem programa definido e com seus aparelhos culturais estagnados?
Alabarse -
Historicamente, não houve no país uma situação muito diferente da atual, talvez agravada com as sucessivas crises econômicas mundiais. O Rio Grande do Sul, há muito, vem perdendo espaço e importância dentro do panorama brasileiro, não só na área cultural. Essa idéia separatista, que nos acompanha há muito, contribui para nosso isolamento – não só geográfico. Trabalho, na parte que me toca, por um Rio Grande mais cosmopolita, menos aferrado às glórias do passado, mais dinâmico em relação às demandas do presente, menos burocrático, menos estagnado – porque, para que haja mudança, é preciso não só ter um diagnóstico realista, mas uma atitude propositiva que mude esse quadro.É muito triste ver que agimos como se nosso Estado estivesse muito bem, quando a dificuldade de produzir e mostrar a produção cultural é cada vez mais afuniladora e dificultada. Pessoas sem perfil para os cargos de liderança na área, sem dúvida, também contribuem para o agravamento desse quadro.

ZH – Houve críticas dos produtores e agentes culturais nos últimos governos a uma ausência de política na área cultural – não há sequer uma reunião com o setor em período eleitoral, ao contrário de outras áreas. Por que parece tão difícil para os governos recentes elaborar essa política? A cultura perdeu mesmo importância no planejamento de governo?
Alabarse -
Há tantos problemas e de tantas ordens que o descaso com a cultura encontra nessas dificuldades a sua legítima defesa. É um verdadeiro absurdo, porque não adianta nada termos ruas asfaltadas, esgotos e obras de infra-estrutura, programas sociais essenciais, sem que se legitime a essência e o direito do nosso público à fruição da arte e da cultura. Fica tudo muito pobre, muito lamentável sem um Estado culturalmente importante.Há uma crise generalizada de lideranças políticas nessa área, há que reconhecer isso, e chamar os políticos a uma compreensão mais exata sobre a importância da cultura na vida cotidiana do cidadão.

ZH – A crise na Cultura, mais do que política ou financeira, é de ideias?
Alabarse -
Boas idéias, sem dúvida, amenizam qualquer agrura econômica. Mas não é bom romantizar esse aspecto. Cultura pode e é uma atividade econômica extraordinária. Hollywood não nos deixa mentir. Então, é preciso compreender que a cultura precisa de verbas, de inteligência, de políticas públicas ativas. O Governo deve, sim, tratar a cultura com mais respaldo e inversão econômica. Do contrário, daqui há pouco, os artistas serão responsabilizados pela falta de investimentos. Mais dinheiro com boas idéias – eis o que poderíamos pleitear aqui.

ZH – O que, em sua opinião, deveria ser feito para que o estado recupere seu papel de fomentador? Ou esse papel não será assumido tão cedo?
Alabarse –
Não tenho paciência com gente apocalíptica, arautos da desgraça e do chororô. Então, é preciso fortalecer a idéia de que, ao não investir mais e melhor na Cultura, quem sai perdendo é o próprio Estado. A cultura é um poderoso agente turístico. Um calendário de eventos realmente significativos, apoiados sem migalhas, é o que fortaleceria e traria vigor e turistas ao Estado, o que nos revelaria ao mundo. Os artistas, os produtores culturais fazem sua parte, alguns realmente de forma expressiva, outros nem tanto. Mas que nossos políticos deveriam ter a inteligência de apostar na vida cultural e no calendário desses eventos significativos, isso é o que é urgente reivindicar. Não esmola, não quinze minutos de atenção, mas uma postura de inteligência pública a serviço de um segmento que, em outras paragens, se revela fonte segura de retorno – emocial, espiritual e econômico.

O Estado da Cultura

06 de março de 2010 1

Uma das grandes dúvidas que assaltam não apenas a mim, mas provavelmente a qualquer um de vocês interessados em Cultura é como a cada troca de governo o discurso oficial para a Cultura continua sendo o da falta de verbas – há uma abordagem econômica para praticamente todas as áreas de governo, e para a da produção e fomento à Cultura e à memória a única coisa que temos é o apertar dos cintos?

Como já escrevemos aqui na quinta-feira, hoje estamos entrando com vigor nesse debate, apresentando neste espaço opiniões e textos sobre os casos mais recentes envolvendo a gestão estadual da Cultura – hoje, como prometemos nas páginas da matéria que já aborda o assunto no Caderno Cultura, vamos publicar duas entrevistas sobre os rumos da Cultura e a íntegra da avaliação feita pela própria secretária sobre sua gestão. Continuaremos ao longo do fim de semana incluindo opiniões e depoimentos de figuras de relevo na cultura do Estado e que já atuaram à frente de instituições fundamentais do setor. A primeira, já que abrimos falando da cultura como economia, será com o economista e professor de Economia da Cultura Leandro Valiati, que fala sobre a Cultura como área de gestão do Estado:

Zero Hora – Grandes eventos da área cultural do Estado, como o Fronteiras do Pensamento e mesmo a Feira do Livro são resultado da iniciativa privada, mesmo que financiados por leis de incentivo. O Estado abandonou seu papel de fomentador direto em benefício da isenção fiscal?
Leandro Valiati —
Em parte sim. O conceito de financiamento à cultura a partir de renúncia fiscal assume que existem menores custos de transação no fato dos recursos partirem da iniciativa privada diretamente ao realizador cultural, com posterior desconto do imposto devido pelo financiador. Antecipa-se recursos com uma agilidade muito maior do que um projeto tramitando nas instâncias públicas e ainda nos casos em que há contrapartidas das empresas, se acrescentam recursos privados. Contudo, o problema principal da forma como esse tipo de mecanismo é utilizado em escala nacional e aqui no estado é que os governos têm confundido um instrumento de política cultural (LIC, Rouanet) com apolítica cultural.
A política cultural tem que responder a um programa, um pacto da socidedade em formar seus valores e objetivos com relação aos bens culturais que deseja e para a execução disso é preciso que o Estado possua poder instrumental sobre esse produto. No formato atual das leis, que assumem importância majoritária no orçamento do segmento, o Estado perde poder de atuação que é tranferido às empresas que decidem para quem, quando e onde serão produzidos os referidos bens culturais. Reforço que as leis de incentivo são um instrumento importante, mas jamais podem substituir investimentos diretos do Estado, que devem amparar particularmente aquelas atividades culturais que não tem um poder de atração aos investimentos de impresas privada, seja pelo baixo poder de marketing ou mesmo pela dificuldade em se aproximar de investidores. Lembramos sempre que o recurso privado investido nos sistemas de leis de incentivo, descontando as contrapartidas quando existem, é recurso público muitas vezes utilizado em total consonância com os objetivos das empresas privadas. Mas isso é permitido pelo sistema, pelo que as empresas apenas fazem seu papel dentro do que é legal e permitido. Logo, o ajuste deve ser dar a partir de uma reavalização do sistema como um todo.

ZH – Em sua opinião, como o Estado chegou na atual situação na área da Cultura, sem dinheiro para investimentos, sem programa definido e com seus aparelhos culturais estagnados?
Valiati –
Bem, é sabido que nos últimos anos a situação financeira do estado era muito difícil, pelo que passamos por um inevitável ajuste recente. Naturalmente, setores com menor apelo (e não menos importância) em termos de gerações de multiplicadores de emprego e renda, sofreram mais com o ajuste de contas. A questão passa por uma lógica maior: se é sabido que a cultura gera emprego e renda qualificados, inserção social e uma sociedade mais madura, crítica e com poder de reação, por que é deixada de lado em momentos de crise, tal qual a “era das trevas” do governo Collor? Para mim, a explicação passa por três pontos: a) falta de estudos e estatísticas que explicitem os retornos quantitativos do investimento à cultura que concedam poder de barganha à pasta diante de outras (agricultura, indústria, etc); b) um desequilíbrio no sistema de financiamento, que legou a decisão às empresas financiadoras que orientam suas ações a partir de seu plano de marketing; c) por fim, uma certa passividade da secretaria de estado ao propor ações inovadores (parcerias públicos privadas, OSCIPS, pactos sociais pela diversidade e fortalecimento de ações culturais no estado).

ZH – Houve críticas dos produtores e agentes culturais nos últimos governos a uma ausência de política na área cultural – não há sequer uma reunião com o setor em período eleitoral, ao contrário de outras áreas. Por que parece tão difícil para os governos recentes elaborar essa política? A cultura perdeu mesmo importância no planejamento de governo?
Valiati –
Sim, em boa parte pelas questões que coloco acima e soma-se a isso mais um elemento: cultura não é assistência social. É uma área que pode ter retornos econômicos diretos se bem conduzida pelo poder público, explorando as vantagens comparativas culturais do Rio Grande de Sul que são muitas. E o saldo disso é, para além do emprego, renda e tributos gerados, saldos de valor cultural que são ainda que de mais difícil mensuração são facilmente perceptíveis, tais como autoestima e formação de capital humano.

ZH – O que, em sua opinião, deveria ser feito para que o estado recupere seu papel de fomentador? Ou esse papel não será assumido tão cedo?
Valiati –
Deve-se repensar a política cultural como um todo. Ou seja, considerar cada instrumento a partir de seu objeto. Leis de incentivo para mercados incompletos e iniciativa privada sem recursos públicos para os mercados completos. Quando os governos entenderem que cultura tem um lado de mercado completo (shows populares, filmes”blockbusters” ou “globobusters”, atividades que se autofinanciam com a venda de ingressos) e outro lado de mercado não completo (ópera, artes visuais, etc) trará mais eficiência ao uso de recursos públicos escassos. E não é questão de gosto, mas sim de maximizar a eficiência do recurso público a partir do que a sociedade demanda como bem cultural e a partir de bens de mérito ( que a sociedade muitas vezes não demanda, mas são relevantes). Tenho todos os discos do Caetano Veloso, mas enquanto o sistema permitir que recursos públicos sejam aportados a shows desse quilate, o que sobra para a Banda de Pífanos de Caruaru? O atual sistema trata como iguais os desiguais, gerando graves distorções. Assim, para que o Estado recupere seu papel de fomentador é preciso inovações que tratem do sistema como um todo e não um acúmulo de instrumentos sobre uma estrutura já corroída (vales-cultura, novos aportes à LIC, etc). E isso passa por dois elementos cruciais: maximizar a eficiência dos recursos públicos existentes (através de estudos de impacto e de efetividade que fornecem instrumentos aos gestores, reestruturação de leis de incentivo) e de uma nova relação com o setor privado (OSCIPS, parcerias públicos privadas).

Vamos trocar umas ideias?

04 de março de 2010 2

Não deixem de visitar o seu blog literário favorito neste fim de semana. Vamos transformar o Mundo Livro em um grande fórum para discutir as políticas da Secretaria Estadual da Cultura e a estagnação do atual cenário cultural – cujos sinais mais recentes foram a demissão de Voltaire Schilling da direção do Memorial do Rio Grande do Sul e o fechamento da Sala Norberto Lubisco, espaço cinematográfico na Casa de Cultura Mario Quintana que levava o nome de um dos principais fotógrafos do cinema gaúcho. A Norberto Lubisco foi fechada no início do ano. Dos funcionários do cinema da CCMQ, antes em número de 10, três foram demitidos, reduzindo o número para sete. Mesmo o perfil peculiar da sala, que abriu com a proposta de se tornar um espaço para filmes de arte em Porto Alegre, já havia sido desvirtuado há tempos, como provam os  últimos filmes exibidos na Norberto Lubisco: Código de Conduta e Um Namorado para Minha Esposa, na semana que se encerrou em 20 de dezembro.

O fechamento rendeu diversas manifestações na internet – um e-mail assinado pelo poeta e radialista Marcelo Noah foi amplamente retransmitido na última semana de fevereiro (você pode ler o texto completo neste post do blog O Dilúvio) e o próprio filho de Lubisco, Ricardo, criou, em seu blog Uma Dose de Cinema, um espaço para protestar contra o fechamento – que, indiretamente, extingue uma bela homenagem da comunidade cultural a um nome fundamental de sua história.

Os dois episódios geraram uma ampla discussão sobre qual deve ser o papel de uma secretaria de cultura no nosso cenário cultural – e muitos protestos contra a atuação da atual administração. Para refletir um tanto sobre isso, teremos, a partir deste sábado e avançando ao longo da próxima semana, uma série de postagens especiais sobre os rumos da Cultura no Estado, entrevistas, textos opinativos e depoimentos de figuras relevantes de nossa cultura sobre a atual situação da Cultura. Acompanhem e contribuam para o debate – na caixa de comentários ou pelo e-mail do editor deste blog: carlos.moreira@zerohora.com.br.