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O novo Harry Potter... mesmo

06 de abril de 2010 8

Departamentos de marketing adoram rotular um produto como o “novo-alguma-coisa-que-fez-um-sucesso-do-cacete-faz-algum-tempo”, tentando atrair público na base do sofisma: proposição a) você gostou do filme/livro A; proposição b) o filme/livro B é o “novo filme/livro a”; conclusão: logo, você vai gostar do filme/livro B também. Obviamente não funciona assim, como já explicou Rubem Fonseca em outra circunstância e falando de outra coisa, como você pode ler aqui. Mas o pessoal continua tentando. Às vezes não é mera tentativa. Considerando o quanto o sucesso de um livro (ou de um filme) detona a imediata caça ao tesouro por algo que seja o “novo-aquele-outro”, é inevitável que ganhem espaço e visibilidade obras que tenham pontos de contato flagrantes com o que antes fez sucesso, para ver se a fórmula mágica se repete. Foi assim com a infindável sucessão de romances “Quero Ser Código da Vinci” lançados na esteira do best-seller de Dan Brown ou as inúmeras variações em torno do Iraque ou do Afeganistão após o sucesso de O Caçador de Pipas.

Depois que J.K. Rowling encerrou uma das séries literárias e cinematográficas de maior sucesso de todos os tempos ao finalmente concluir a saga de Harry Potter (que deve acabar também no cinema em mais um ou dois anos), abriu-se um espaço, no entendimento do mercado editorial, para que esse posto fosse ocupado – e foi assim que ganharam a luz do dia filmes como A Bússola de Ouro, baseado na série de Philip Pullmann, Coração de Tinta, adaptação do romance de Cornelia Funke, ou a malfadada Eragon, para citar só alguns. Esses três exemplos que eu citei ganharam também o direito de ocupar as livrarias em edições bem cuidadas – às vezes até mais bem cuidadas do que seu conteúdo constrangedor merecia.

No fim do ano passado chegou aqui no Brasil, por artes da editora Intrínseca, a série Percy Jackson e os Olimpianos (opção pessoal minha, claro, mas não consigo deixar de lamentar que os tradutores tenham escolhido “olimpiano” em vez de “olímpico” para designar os habitantes do Olimpo, ou seja, os Deuses Gregos). Que a esta altura, como vocês já sabem, também virou filme, Percy Jackson e o Ladrão de Raios, que andava passando pelos cinemas por aí.

Escrita ao longo da última década pelo professor americano de ensino médio Rick Riordan, a série já vendeu (de acordo com a editora, é sempre bom lembrar) nove milhões de livros no mundo todo – 130 mil deles no Brasil, onde já saíram quatro episódios: O Ladrão de Raios, O Mar de Monstros, A Maldição do Titã e A Batalha do Labirinto. Com esses números, não demorou para a série ganhar o apelido de “O Novo Harry Potter”. O que me surpreendeu na leitura dos quatro livros foi que essa qualificação cai como uma luva, não se restringindo apenas a um chamariz marqueteiro. De fato, se abstrairmos o pano de fundo de ambas as narrativas (bruxaria no primeiro e mitologia grega no segundo), há muito mais semelhanças do que diferenças, como vocês podem ver abaixo:

Nota desnecessária número 1: PJ = Percy Jackson, HP = Harry Potter.
Nota desnecessária número 2: não tenho paciência com frangotes com medo de spoiler. Não quer saber, não leia.

O herói
PS: Percy Jackson, jovem desajustado que, aos 12 anos de idade, descobre que, por fatores especiais de hereditariedade e nascimento, tem os poderes especiais de um semideus.
HP: Harry Potter, jovem desajustado que, aos 11 anos de idade, descobre que, por fatores especiais de hereditariedade e nascimento, tem os poderes especiais de um bruxo.

A formação
PS: Ao se descobrir um semideus, Percy é enviado para um acampamento de verão lotado de outros semideuses como ele, onde vai aprender a usar seus poderes e às vezes se meter em encrenca confrontando a figura autoritária do administrador, o deus Dionísio.
HP: Ao se descobrir um bruxo, Harry é enviado para um colégio interno lotado de outros bruxos como ele, onde vai aprender a usas seus poderes e às vezes se meter em encrenca confrontando a figura autoritária do professor Severo Snape.

Os parceiros fieis
PS: Em suas aventuras, Percy Jackson conta com a ajuda de uma colega bonita e muito inteligente (mais até do que ele) chamada Annabeth, filha da deusa Atena, e de um sátiro atrapalhado, mas leal e de bom coração, chamado Grover.
HP: Em suas aventuras, Harry Potter conta com a ajuda de uma colega bonita e muito inteligente (mais até do que ele) chamada Hermione e de um bruxo atrapalhado, mas leal e de bom coração, chamado Roni.

O lar humano
PS: Percy começa a história vivendo com a mãe e com o padrasto Gabe, um sujeito repulsivo e mesquinho que o trata mal e o tiraniza – mas que, por ironia, é o elemento que o manteve seguro durante a infância, a salvo de seus inimigos.
HP: Harry começa a história vivendo com seus tios e seu primo, sujeitos repulsivos e mesquinhos que o tratam mal e o tiranizam – mas que, por ironia, formam o elemento que o manteve seguro durante a infância, a salvo de seus inimigos.

O vilão
PS
: Todas as agruras sofridas por Percy em suas jornadas e aventuras são devido a maquinações de Cronos, o Deus do Tempo, um vilão cruel e manipulador que, outrora todo-poderoso, agora é uma sombra incorpórea lutando para recuperar seu poder e até mesmo sua forma física.
HP: Todas as agruras sofridas por Harry em suas jornadas e aventuras são devido a maquinações de Voldemort, senhor das Trevas, um vilão cruel e manipulador que, outrora todo-poderoso, agora é uma sombra incorpórea lutando para recuperar seu poder e até mesmo sua forma física.

A profecia
PS: Percy é estigmatizado por uma profecia segundo a qual um semideus, jovem filho de um dos três grandes deuses irmãos (Zeus, Poseidon e Hades) está destinado a mudar o curso da história e a destruir ou salvar o Olimpo. Embora tudo aponte para ele, a profecia muito bem poderia se aplicar a outros dois semideuses que aparecem ao longo da história, um deles filho de Zeus e outro, de Hades.
HP: Harry Potter é estigmatizado por uma profecia segundo a qual um jovem bruxo nascido no final do mês de julho estaria destinado a mudar o curso da história e a derrotar Voldemort. Embora tudo aponte para ele, a profecia muito bem poderia se aplicar a outro bruxo, Neville Longbottom.

Comentários (8)

  • Gabriel diz: 6 de abril de 2010

    Acampamento de jovens de 12 anos administrado por DIONíSIO?!?!?!

    Esse dionísio é o mesmo dionísio, gestado na coxa de deus, deus visceral do vinho e da devassidão?

    Esse mesmo, Gabriel. Na história urdida por Riordan, Dionísio na verdade está administrando o acampamento como punição para sua vida devassa, por haver perseguido uma ninfa fora dos limites nos bosques. Ele então é condenado a gerir o campo e a ficar sem beber por cem anos. Digamos que o acampamento é a Rehab do Dionísio.
    Carlos André

  • Simone Saueressig diz: 6 de abril de 2010

    Nãããã… o pior não é Dionísio administrando um acampamento de jovens, o pior é ver Dionísio mau-humorado, sem nenhuma alegria, irritante mesmo. Nada a ver com o deus do vinho e da alegria que a gente conheceu nos mitos gregos. Tá, de vez em quando ele exercia uma vingançazinha aqui ou ali, mas faz parte. Agora, Dionísio jogando cartas… pelamordeZeus!
    No mais, eu até que me diverti em Percy Jackson, aliás, me diverti mais do que em Harry Potter, justamente pela utilização dos personagens dos mitos gregos. Mas que HP virou receita de bolo, ah, isso virou!

  • pedro henrique diz: 6 de abril de 2010

    Eu ñ tinha pescebido essas semelhanças, bem nem todas, adorei a meteria, foi mt boa msm…
    Adoro Harry Potter li todos os livros (até os especiais) evi todos os filmes (qu ja foram lançados), amo mt essa serie. A serie percy jackoson eu ainda ñ li toda mas ja li os dois primeiros livros e vi o primeiro filme, mas ñ tenho nada q reclamar eu adorei e mt bom, apesar de harry potter ser bem melhor e é claro, mais autentico.

    adorei a materia, e bom saber q ainda existem escritores competentes!

  • André Knewitz diz: 6 de abril de 2010

    Hehehe… É ótimo ver um post sobre livros ridículos com tanto bom humor e detalhismo. As comparações são fabulosas.
    “Avadra-kedrava” para eles!! ( xii, minha varinha com pena de quero-quero do banhado quebrou).
    Adorei, Carlos.

  • Beatriz diz: 13 de abril de 2010

    Ééé, você forçou um pouquinho a barra em alguns pontos, mas nem eu que sou viciada em PJ e HP havia percebido algumas dessas semelhanças!

    E Simone, o Dinísio está mal-humorado porque ele está preso em um acampamento cheio de adolescentes que só criam problemas sem poder beber seu vinho e sem poder fazer suas festas. Você não ficaria mal-humorada e irritada? hehehehe
    Bjss

  • Majú diz: 22 de abril de 2010

    Harry Potter é Harry Potter e Percy Jackson é Percy Jackson. Amo as duas sagas, mas não se compara.

    Olha, Majú. Discordo. Discordo tanto que até comparei.
    Abraço

    Carlos André

  • Simone Saueressig diz: 23 de abril de 2010

    Oi Betriz!

    Olha, você vai me desculpar, mas depois do que andei vendo na TV, acho que o Dinísio não só ia ficar muito satisfeito de ter um bando de adolescentes ao seu redor, como ainda ia aprender com eles algumas coisas que não conhecia…

    Quanto à gostar das sagas e compará-las, como a Majú colocou, não acho que uma coisa exclua as outras. Creio que as pessoas gostam de coisas semelhantes: quem gosta de Harry Potter gosta de Percy Jackson pela semelhanças entre as duas séries. Quem gosta de Crepúsculo vai gostar ou de Morto até o Anoitecer, ou de Diários do Vampiro, pelas semelhanças entre eles, uma pelo lado mais erótico-exótico (desculpe pelo hífem, mas não vejo outra maneira de fazer a relação), outra pelo romance juvenil.

    Quem quiser um artigo diferente, mas dentro do mesmo tema, procurará outras leituras.

    Abraços

  • Mundo Livro » Arquivo » Cinquenta Clones Cinzas diz: 10 de dezembro de 2012

    [...] de Tinta, de Cornelia Funke, ou a série Percy Jackson, de Rick Riordan – esta, em particular, divide com o menino bruxo um bom número de similaridades estruturais, como já apontamos aqui. Essa primeira vaga tem contribuído para tirar o gênero do gueto a que era contido até os anos [...]

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