Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

O Olhar das crianças

07 de abril de 2010 4

Reveja os lançamentos dos últimos anos e faça o balanço de quantas crianças você viu nos livros que leu, quantas obras romanescas lançadas nos últimos tempos centram o desenvolvimento da narrativa no olhar ou na voz de crianças, narradores ou protagonistas – ou as duas coisas. Não estamos falando de livros voltados para as crianças ou adolescentes, e sim de obras adultas que se valem do olhar infantil para conduzir o leitor. Num rápido e pouco criterioso apanhado, chegaríamos a O Rei Branco, do húngaro György Dragomán; Como o Soldado Conserta o Gramofone, do bósnio Sasa Stanisic; o sentimental O Menino do Pijama Listrado, do britânico John Boyne – cuja fórmula de sucessoo autor repetiu com O Garoto no Convés, lançado por aqui no ano passado –; o lírico Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer e até mesmo O Estranho Caso do Cachorro Morto, de Mark Haddon, que apresenta ainda a dificuldade narrativa adicional de ser contado pelo ponto de vista de um garoto autista.

Tivemos também um exemplo recente em Os Monstros, de Dave Eggers. Eggers escreveu o roteiro para o filme de Spike Jonze adaptando Onde Vivem os Monstros, livro infantil de Maurice Sendak. Da experiência, fez sua própria interpretação do original em um romance. Enquanto o livro de Sendak é uma obra para crianças, o livro de Eggers cria subtramas e novos personagens para uma história que no original ocupa 50 páginas – com ilustrações. O que poderia soar como picaretagem adquire feição própria porque Eggers tem o talento, comprovado em Uma Comovente Obra de Espantoso Talento, de mesclar em sua prosa sentimento e qualidade para abordar a complexidade das relações familiares. Mas como mencionamos lá em cima, Os Monstros é apenas um entre vários. Por quê? O que leva a esse interesse pela voz infantil como processo natrrativo?

Uma das explicações possíveis é que esse recurso continua eficiente como nunca em produzir um olhar ao mesmo tempo sincero e carregado de estranhamento – já de saída dois objetivos bastante desejáveis da boa literatura. Muitas vezes, escondem-se das crianças as circunstâncias mais dramáticas do núcleo familiar. Mas, como entes dotados de curiosidade implacável, elas terminam por ter contato com o mundo que os pais tentaram manter distante. É também comum crianças serem ignoradas – o que lhes dá uma posição singular: veem sem ser vistas e absorvem como esponja o mundo que os cerca. Há ainda outro fator: a menos que enunciado por uma criança, o registro de admiração e encantamento parece inviável na atual ficção – por demais consciente de seu próprio status como criação simbólica. Para a criança, as impressõesdo mundo têm o sabor de novidade real, e colaboram na criação da credibilidade da narrativa perante os leitores mais cínicos.

Outro ponto a ser levado em consideração é que crianças absorvem o mundo sem elaborar determinadas sínteses só possíveis aos adultos, e por isso seu olhar é perfeito para retratar com sutileza situações de horror. Cenas de brutalidade exasperante podem ser descritas com as elipses naturais da incompreensão infantil, o que torna ainda maior o impacto no no leitor adulto. Como Hitchcock ensinou durante toda sua carreira, ver com os olhos inteiros o que o ingênuo ou o desinformado só enxerga parcialmente pode ser devastador.

Em O Rei Branco (Intrínseca, 2009), Dzsátá, um menino de 11 anos, vê o pai ser levado em um domingo pela polícia política do regime comunista. Como o pai sumiu em um domingo, Dzsátá se convence de que também voltará no domingo, e evita sair nesse dia. Dragomán é eficiente em mostrar o dilema de um garoto que, em troca de uma esperança, abdica de aproveitar aquele que, na juventude, é o mais doce dos dias. Já Sasa Stanisic, em Como o Soldado Conserta o Gramofone (Record, 2009), alia lirismo e fantasia ao ancorar seu romance na imaginação do falante Aleksandar, garoto que adora contar histórias em um vilarejo bósnio ás vésperas das atrocidades nos Bálcãs.

O investimento no olhar infantil como condutor da narrativa, contudo, nem sempre é uma aposta ganha – depende da habilidade do escritor, e é esse o maior pecado de O Menino do Pijama Listrado (Companhia das Letras, 2007): exagerar os aspectos inocentes da personalidade de seu protagonista, Bruno, ao ponto de confundir ingenuidade com puro e simples alheamento. Aos nove anos, Bruno, filho de um oficial alemão transferido para Auschwitz, conhece do outro lado da cerca o garoto Shmuel, que usa um pijama listrado. Bruno parece não perceber, até o fim do livro, o que acontece por trás daquela cerca – algo que vai ter consequências trágicas.

O difícil é aceitar que um menino de nove anos, nascido em uma família em boa situação financeira, seja tão devagar. Já naquela época a iconografia do cinema e das tiras de jornal havia consolidado pijamas listrados, guardas armados e grades como sinônimo de prisão – e Bruno poderia perceber mais cedo que algo ali está errado. Mas como o livro é bem escrito e exala bons sentimentos, comove a maioria. Também na linguagem a criança é um narrador interessante. Embora não tenha o vocabulário e a gramática plenamente estruturados, o narrador infantil é de franqueza desconcertante, por não ter, em tese, as inibições dos adultos com palavras tabu. Tal recurso é pouco utilizado pelos livros já citados – e seu exemplo mais representativo é, paradoxalmente, um livro publicado há 50 anos, Zazie no Metrô, de Raymond Queneau, que conta o passeio frustrado ao metrô de Paris da desbocada Zazie, vinda do interior sob os cuidados de um tio. Há meio século, a espoleta Zazie já era esperta o suficiente para pôr o ingênuo Bruno no bolso.

Comentários (4)

  • Pablo Vallejos diz: 8 de abril de 2010

    Ótimo post, Carlos!!!!

  • JANE FOLHARINI BARBOSA diz: 14 de abril de 2010

    Carlos, seu texto ficou ótimo. Adoro ler e fiz o possível para passar para o meu filho este gosto pela leitura. Acredito estar bem encaminhado, pois ele tem 10 anos e já leu toda a coleção do Harry Potter, O Livro Proibido para Meninos, O Homem que Calculava, entre outros, e agora está lendo o Senhor dos Anéis. Costumo acrescentar em seus presentes, sempre um bom livro. Gostei deste post em especial, pois o fato de termos bons filmes no cinema com essa narrativa e olhar infantil, pode ajudar os pais a incentivar a leitura. Quando levo o Rafael no cinema e ele gosta muito de um filme, logo trato de comprar o livro pra ele ler. No caso do Percy Jackson e o Ladrão de Raios, ele adorou o filme. No aniversário dele vou presenteá-lo com toda coleção do Percy Jackson. O interesse dele pelo filme vai se transformar na leitura de quatros livros.

  • dy… diz: 12 de outubro de 2010

    Nossa…
    Estou impressionada com seu post, de verdade.
    Sempre fui fã de livros assim e li o garoto no convés, o menino do pijama listrado, o estranho caso do cachorro morto.(Estão na lista dos favoritos)
    Se você gosta de livros assim, eu lhe recomendo o Dizem que sou louco do George Harrar.

    Obs: Já li outros assim, mas com algumas diferenças…
    *As chaves do reino-Garth Nix (Porém é infanto-juvenil e em 3ª pessoa)
    *A menina que roubava livros (Porém não é em 1ª pessoa)
    *A menina que não sabia ler (Porém é de suspense, próximo ao terror)

    Obs2: Mas posso garantir que gostei muito de todos, apesar de tudo.

    Obs3: Também recomendo A sombra do vento, apesar de não ser do mesmo tipo, pois o personagem, apesar de começar com 10 anos(acho..)termina com 18.

    Oi, Dy. Agradeço as sugestões. Algumas delas eu já havia lido, mas foram uma grande lembranaç. A Menina que Roubava Livros já foi tema de uma resenha de uma colega do jornal aqui mesmo no blog, você pode ler neste link. Grande abraço e continue nos visitando.
    Carlos André.

  • A festa do menino mimado | Mundo Livro diz: 17 de fevereiro de 2012

    [...] Neste post, publicado no Mundo Livro em abril de 2010, eu listava um bom número de romances publicados naquela época nas quais o protagonista e a voz narrativa eram entregues a uma criança. Ali eu também arriscava algumas hipóteses sobre por que um narrador infantil pode representar um grande artifício técnico para um escritor. Com a devida bondade de vocês, reproduzo abaixo o centro dessa argumentação em particular, explicarei mais tarde a razão: [...]

Envie seu Comentário