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McLaren e o Punk

10 de abril de 2010 5

Os Pistols assinam novo contrato com a A&M em frente ao Palácio de Buckingham em janeiro de 1977
Da esquerda para a direita: Johnny Rotten, Steve Jones, Paul Cook (com a cara na mesa),
Syd Vicious e Malcolm McLaren (com as mãos nos bolsos)

A essa altura até o fã mais fofinho de Los Hermanos já deve ter lido em algum lugar por aí que o inglês Malcolm McLaren, o empresário dos Sex Pistols e autoproclamado pai do punk bateu os coturnos. Numa cena musical e artística marcada pelo niilismo, pelo individualismo e pelo hedonismo exacerbado, McLaren conseguia ser uma das figuras mais polêmicas justamente por ter sido o cara que transformou toda aquela energia punk em marketing e autopromoção – tanto que ainda persiste o mito do empresário, designer e performer como o “inventor” dos Sex Pistols e do próprio punk (quando McLaren sacava muito de factoides, mas não era responsável pelas músicas nem pela sonoridade. Ele foi, antes, o responsável por oferecer o pacote embalado pra consumo – e tem muita gente consumindo até hoje).

Mas as raízes do punk estavam fundadas em outros terrenos, na cena artística e alternativa que fervia em Nova York nos anos 1960 e com a qual McLaren teve contato ao tentar empresariar os New York Dolls durante uma passagem pelos Estados Unidos. Não vou contar a história toda aqui porque ela, bem como outras subtramas dessa novela pop-punk, já foi magistralmente contada em Mate-me Por Favor: a história sem censura do punk, escrita por Legs Mcneil e Gillian McCain (L&PM, tradução de Lúcia Brito). Baseado em entrevistas com os participantes daquele período de excesso, drogas, marginalidade e música, o livro é uma colagem de depoimentos, um formato muito interessante porque totalmente apropriado ao tema. Na cena individualista e anárquica do punk rock, não haveria espaço para um único discurso narrativo que tentasse condensar o que foi o movimento, e, portanto, os autores apresentam várias vozes que se contrapõem, se desmentem, numa operação irônica que mostra a força descentralizada e ao mesmo tempo paroquial que gerou um dos movimentos mais importantes da música pop na segunda metade do século. Do embrião da cena, com os New York Dolls, os Stooges e o Velvet Underground, até os heróis do estilo, Iggy Pop e os Ramones, chegando finalmente na aparição dos Sex Pistols – que, como o livro é escrito por uma dupla interessada em provar que o punk surgiu na América, é identificada com a diluição e a decadência das propostas originais de arte e independência, degenerando em violência e rebeldia adolescentes. Achei que seria oportuno desenterrrar alguns trechos que falam da relação de McLaren e dos Pistols com o movimento (a L&PM relançou o livro em dois volumes de uma edição de bolso, mas chorem, mortais, porque a que eu tenho é a primeira edição nacional, de 1997 – comprada em 1999 num sebo na Marcílio Dias –, em um único volume tamanho livro convencional e com a clássica capa laranja que ilustra o trecho abaixo e que eu acho muito mais legal):

Malcolm McLaren: Eu era pelo menos uma geração mais velho que a geração que eu empresariava. Eu não era da geração dos Sex Pistols, era da geração dos anos sessenta. Por isso minha relação com os Sex Pistols era uma ligação direta com aquela opressiva angústia existencial, motivo primordial para fazer qualquer coisa no rock& roll – abandonando a noção de carreira –, e com aquele espírito amador de faça-você-mesmo típico do rock & roll. Foi assim que cresci, com a ideia de que você podia fazer coisas.
Lá pelo começo dos anos setenta, a filosofia era de você não podia fazer nada sem um monte de dinheiro. Então minha filosofia se voltou para “foda-se, a gente não se importa se não sabe tocar e não tem instrumentos realmente bons, a gente ainda está fazendo porque acha que vocês são um bando de escrotos.”
No fundo, acho que foi isto que criou a raiva – a raiva era simplesmente por causa do dinheiro, porque a cultura tinha se tornado corporativa, porque a gente não a possuía mais, e todo mundo estava desesperado para tê-la de volta. Essa era uma geração tentando fazer isso.

Mary Harron (escritora e ex-repórter especial da revista Punk): Fui ver Malcolm McLaren na loja dele. Ele tinha um jeito meio fresco – muito teatral. Levemente afetado. Sarcástico. Mas muito legal. Conversei com ele muito rapidamente, e ele disse que ia deixar meu nome na porta pro show dos Sex Pistols no Eric’s, em Liverpool.
Como todos os eventos legendários a que assisti, o concerto dos Sex Pistols estava semivazio. Havia umas cinco pessoas vestidas como punk, e todas elas se conheciam.
Era como na época do punk em Nova York – havia cem pessoas envolvidas, e todo mundo conhecia todo mundo. O show foi ruim. Foi desleixado. Houve uma pontinha de pentelhação casual, Johnny meio que segurando o microfone e dizendo: “Foda-se o sol!” Ele era muito sarcástico e dançava de um jeito esquisito. Adorei.
Era como se algo de verdade estivesse acontecendo no palco. Era como se eles estivessem vivenciando uma coisa muito excitante. Me senti tipo: “Oh, meu, isso é um evento extraordinário da vida real!”

Bob Gruen (fotógrafo de rock e cineasta): No dia seguinte fui ao loft onde os Sex Pistols ensaiavam e fiz uma sessão de fotos com eles pra Rock Scene. Quando entrei no loft, Steve Jones disse: “Aceita um pouco de chá?”
Eu tinha ouvido falar da reputação da banda antes de chegar na Inglaterra, daí pensei: “Esses caras são completamente normais.” Sabe como é: “Onde é que está a esquisitice?” Fiquei olhando pra eles – ninguém cuspiu no chá, sabe? Não atiraram uma garrafa em mim, nem nada. Era um bando de caras totalmente comuns, sentados tomando chá numa tarde inglesa.
Daí apareceu Johnny Rotten. Ele era um pouquinho estranho porque tinha uma autêntica maldade, aquela negatividade em torno dele, como se estivesse se esforçando para conseguir aquilo. Ele dizia coisas sarcásticas e cinicas realmente surpreendentes. “Uau, me desculpe por estar na sua vida.” Mas todos os outros pareceram sociáveis e muito legais. E Johnny pareceu se acalmar um pouco.
Então comecei a tirar as fotos e sugeri fazer algumas deles tocando no lugar onde ensaiavam, no andar de baixo. Johnny Rotten tinha uma garganta sensível, então eu disse que não precisava cantar de verdade. Fotos sem som, certo? Mas Johnny começou a cantar Substitute, do Who. O que foi maravilhoso, porque eu era um grande fã do Who. Estava tirando fotos e pensando: “O que há de tão estranho nisso? Eles são apenas uma boa banda de rock & roll. Onde está o chamariz? Tipo, quando aparece a parte muito louca?”
Não captei.

Mary Harron: Eu conhecia a Inglaterra, tinha crescido lá, por isso pra mim foi como um cartum que virasse realidade. Quer dizer, não inteiramente. Havia um monte de pose naquilo. Era horripilante – havia aquela gente esquisita e desconexa perambulando por lá. Circulei pelo backstage sem problema. Eu estava muito assustada. Eu era facilmente intimidável. Afinal, era Johnny Rotten.
Mas ele era fascinante. Bem, Johnny era, os outros não. Johnny me protegeu dos outros – Steve Jones e Glen Matlock estavam bêbados e fazendo uns comentários grosseiros pra mim, e Johnny dizia: “Ela é legal, deixem pra lá.”
Eu estava usando minha camiseta da revista Punk, e ele foi muito legal comigo porque eu era uma garota de um fanzine, essencialmente do primeiro fanzine.
Eu tinha ido pra entrevista com uma comitiva, porque tinha conhecido aqueles garotos com calças emborrachadas que pareciam aterrorizantes, mas eram apenas cabeleireiros de Liverpool cujo maior sonho era conhecer os Sex Pistols. Bem, Johnny Rotten ficou meio puto com a comitiva, mas foi muito legal comigo. Ele disse: “Não, parem com isso, ela é legal, estas perguntas são interessantes”.
Lembro de pensar o quão incrivelmente esperto ele era – era uma das pessoas mais espertas que eu já tinha conhecido – alguém muito jovem que tinha um ponto de vista e por algum motivo estava absolutamente no centro desse redemoinho, porque eles personificavam o que estavam representando. Não era papo furado. eles deram respostas completamente claras, profundas, muito espertas, muito seguras, divertidas – eles viam claramente o culto do qual eram os pregadores e sabiam exatamente o que estava rolando naquilo. De todas as entrevistas que já fiz, com certeza a de John Rotten foi a mais impressionante.
Fui com um ex-namorado, que se aborreceu. Ele disse pra mim: “Sinto muito, mas essa coisa toda é um fraude – tudo não passa de onda, arquitetada por Malcolm McLaren.”
Daí ele me disse que eu era uma idiota por ter caído naquela.

Malcolm McLaren: No começo, quando achei que os Sex Pistols não estavam acontecendo, pensei: “Oh, talvez eu faça Richard Hell vir e se juntar ao Sex Pistols. Ou talvez pegue até Syl Sylvain.
Era uma ideia estúpida da minha parte, porque não haveria como Hell ou Syl se encaixar nos Pistols – as sensibilidades deles estavam anos à frente dos Sex Pistols – e os Pistols eram incrivelmente ingênuos. Eles me pareciam muito ingênuos, por isso era assim que eu os tratava. Quer dizer, provavelmente eu era o ingênuo, e aqueles caras eram muito mais informados e conscientes do que eu.
Nem trepei com nenhuma daquelas garotas da cena do punk rock, bem que eu queria ter, mas na época pensei que todas elas fossem inocentes garotinhas virgens!
Não sabia que elas estavam se picando nos banheiros e trepando com um milhão de caras. Eu costumava me virar pros entrevistadores e dizer: “Do que você está falando? Essas pessoas são virgens!” Só porque usam umas porras de umas coleiras de cachorro e eu vendo camisetas emborrachadas pra elas não significa que elas estejam trepando com um exército de caras num ponto de ônibus.”
Eu estava totalmente errado, é claro. Fiquei completamente pasmo ao descobrir quão errado, cinco anos depois daquele episódio. Eu disse: “Quer dizer que de fato você fez todas essas coisas nos banheiros enquanto do lado de fora eu tentava acertar o show? Você estava me dizendo que estava trepando com a mesma garota que Steve Jones? Não pensei que nenhum de vocês estivesse fazendo esse tipo de merda.”
Fiquei estupefato. Ainda estou chocado. Até onde iam as drogas, eu não sabia o que as pessoas estavam usando. Não tinha a menor ideia.
Eu era apenas esse sujeito estranho com aquele sonho louco. Estava tentando fazer com os Sex Pistols o que fracassar em fazer com os New York Dolls. Estava pegando as nuances de Richard Hell, a veadagem pop dos New York Dolls, a política do tédio e misturando tudo pra fazer uma afirmação, talvez a minha afirmação final. E irritar aquela cena rock& roll, era isso que eu estava fazendo.

Comentários (5)

  • Larry diz: 10 de abril de 2010

    Sempre achei meio bobo atribuir mérito ou status de gênio a alguém por colocar uns moleques despossuidos sem perspectivas aparentes e doidos à latir e rosnar contra a rainha e o reino unido, coisa que era razoavelmente fácil devido a conjuntura política/social daquela época na ilha britânica.

    E aí, Larry. Na verdade o toque de “gênio” de McLaren pode ser atribuído a seu senso de marketing. A cena punk e o espirito da época já estavam rolando nos Estados Unidos bem uma década antes, mas McLaren soube capitalizar, provocar polêmica, garantir o espaço de divulgação e publicidade para os latidos e rosnados daquela gurizada. Fica bem claro por trechos como os daí de baixo que McLaren não tinha muita ideia sobre o aspecto musical do trabalho dos caras. Ele entendia era do marketing.
    Abraço

    Carlos André

  • Christian diz: 14 de abril de 2010

    E ae. Muito bacana teu texto, li o livro há uns anos atrás e tinha um tempo que ue não via ninguém citando ele. também tenho a edição capa laranja com preto, hehehe, muito melhor o formato livro. Acho que mesmo quem não curte o som ou o estilo – e mesmo levando em conta que sim teve toda uma sacada muito marqueteira do que ideológica – não tem como negar a importância do que foi criado pela banda e diretamente pelo McLaren. Foi um pouco o começo da transgressão embalada como produto pra ser vendido, mas também foi a transgressão como arte alcançando canais e sendo vista pelo mundo.
    Pô, só o ‘foda-se’ do Johnny Rotten em rede nacional numa época como aquela já valia a existência da banda e todo trabalho do McLaren :)
    Abração, parabéns pelo blog.

  • thais diz: 24 de abril de 2010

    bah!
    vou ler esse livro
    deve ser o máximo
    parabens pelo blog!

    Valeu, Thais, volte sempre.
    Abraço

    Carlos

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