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Samba literário

22 de abril de 2010 0

O sambista e escritor Nei Lopes (foto: Marcia Moreira/DIvulgação)

Neste ano de 1924, o prestígio da Tribuna do Rio entre as massas populares é incontestável. É a “Tribuna do povo para o povo”, como diz seu reclame. Sua redação e sua grande e bem equipada oficina ficam na rua Gonçalves Dias, num prédio de dois andares, a alguns passos da rua do Ouvidor. Contando com a colaboração de grandes profissionais da imprensa, a Tribuna é um jornal vivo, novo, alegre e movimentado. E explora, como é do tempo, escândalos que são sempre do agrado do grande público. Um dia é a história do “Chupão”, um ser tido como sobrenatural, que, na calada da noite, invade propriedades do sertão carioca, de Jacarepaguá a Santa Cruz, para sorver o sangue de rebanhos inteiros, dizimando-os e atacando até crianças de berço, durante o sono. Outro dia é a história do Dozoio, um pobre rapaz que foi espiar a mulher do vizinho tomar banho no rio Guandu e aí, enfeitiçado por ela, virou, sem qualquer explicação científica plausível, uma espécie de lobisomem, um monstro de olhos esbugalhados e acesos como dois enormes faróis, que sai à noite, em busca da satisfação de seus desejos bestiais. Tudo invencionice, fantasia, mentiras cariocas.
A
Tribuna do Rio mantém inclusive uma bem cuidada sessão de palpites de bicho, dados por alguém – dizem que o próprio doutor Roberto, o dono – que se assina “Borboleta”. Mas o tempo das grandes tiragens mesmo, das vendas espetaculares, é o carnaval. Aí repórteres e redatores percorrem as sedes dos blocos, ranchos e cordões, transformando em celebridades seus modestos diretores, os frequentadores mais assíduos e destacados, promovendo concursos e certames, entregando prêmios e troféus, publicando em gravuras muito bem desenhadas os estandartes das agremiações.

Em um país com uma relação tão extensa e umbilical com o samba e o carnaval, surpreende o ralo número de obras recentes a se dedicar a esmiuçar esse universo que se confunde com o da própria formação do Brasil. É o que faz o sambista, escritor, lexicógrafo Nei Lopes no romance Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova (Língua Geral, 282 páginas), uma deliciosa narrativa que, aproveitando a figura de Honorata, também chamada de Tia Amina, uma das célebres “baianas do Carnaval da Praça Onze”, mergulha em um Rio de Janeiro ainda com pinta da arrabalde, uma Capital alçando seu passo a caminho da modernidade.

Lopes usa a figura de Tia Amina – cuja vida está retratada em um misterioso manuscrito que cai às mãos de um jornalista – para passear pelo Rio de Janeiro em formação entre 1870 e 1930, flagrando personagens históricos fundamentais da trajetória negra no Brasil, como o “monarca do Rio” Dom Obá, o compositor Sinhô, o marinheiro João Cândido, os intelectuais André Rebouças e José do Patrocínio. E, claro, do carnaval, do samba em sua origem clandestina e das “tias baianas” que até hoje são parte integrante da cultura do Rio – não é a toa que toda Escola de Samba por lá tem de ter, obrigatoriamente, uma “ala das Baianas”.

Lopes estará hoje em Porto Alegre, para autografar Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova no Auditório do Espaço Cultural Casa dos Bancários (General Câmara, 424) e conversar sobre o livro com o professor Jefferson Tenório. Outro programa muito recomendável como parte da programação da Festipoa Literária.

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