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Posts de abril 2010

Três livros musicais*

30 de abril de 2010 0

Like a Rolling Stone, de Greil Marcus
Tradução de Celso Mauro Paciornik. Companhia das Letras, 256 páginas, R$ 42.
Tomando como fio condutor a gravação de uma das canções fundamentais da história do rock, o jornalista americano Greil Marcus, testemunha  ocular da rebeldia roqueira, analisa o impacto de Bob Dylan no mundo da música popular. Com o subtítulo de Bob Dylan na Encruzilhada, o livro de Marcus reconstitui em detalhes o dia 15 de junho de 1965, data em que o compositor entrou em estúdio para gravar a canção que dá título ao livro, tornada posteriormente uma das músicas mais conhecidas do autor e regravada à exaustão. Centrando-se nesse eixo aparentemente tênue, Marcus avança e recua no tempo, esboçando um retrato da época em que a canção foi composta e se tornou sucesso e acompanhando os anos seguintes até o período  contemporâneo, no qual a música é vista como um hino da contracultura.

O Dia em que James Brown Salvou a Pátria, de James Sullivan
Tradução de
Robson Cruz. Jorge Zahar, 208 páginas, R$ 39.
O caos reinava nas cidades dos Estados Unidos em 5 de abril de 1968, o dia seguinte ao assassinato do líder negro Martin Luther King (1929 – 1968). Por coincidência, o ídolo James Brown tinha um show marcado justamente para aquela noite em Boston – espetáculo realizado com boas doses de dramaticidade. O jornalista James Sullivan reconta o episódio com riqueza de detalhes e informações de bastidores, e também aproveita para contextualizar toda a trajetória de Brown até então. Apoiado em farta bibliografia, o autor também tenta explicar as delicadas relações entre a política, a luta pela igualdade de direitos civis, o  mercado  fonográfico e a própria personalidade fascinante e explosiva do cantor, retratado como um autêntico herói americano. O resultado cruza música, história e sociologia e esclarece algumas das principais contradições da vida americana do século 20.

Metendo o Pé na Lama, de Cid Castro
Tinta Negra, 264 páginas, R$ 40
Hoje um calejado publicitário, em 1984 Cid Castro era um ilustrador iniciante na agência Artplan – a empresa que, a partir de uma ideia de Roberto Medina, organizou o primeiro Rock In Rio, realizado em janeiro de 1985. Bem-humorado, o relato de Castro – que ganha reedição pela Tinta Negra depois de haver sido lançado pela Scortecci em 2008 – deixa claro o quanto de risco e improvisação o festival envolveu em todas as suas etapas, do projeto aos dias de lama e caos na Cidade do Rock. O tom leve do texto lembra o das Noites Tropicais de Nelson Motta, mas com menos equilíbrio: como se trata de memórias (bastante) pessoais, a história às vezes se perde em episódios menos relevantes. Mas funciona como testemunho de uma época mais inocente do pop nacional, e há cenas memoráveis – como o acesso de raiva que resultou no logotipo do festival e as pequenas transgressões nos camarins vazios dos artistas internacionais durante os shows.

* Com a colaboração do amigo e crítico de música Luis Bissigo

Os vampiros de del Toro

29 de abril de 2010 3

Tenho em Drácula de Bram Stoker, do Coppola, um dos meus filmes prediletos. Também gostei bastante do primeiro Blade. E acho o game Batman: Arkham Asylum uma obra de arte. Mas nunca li muito a respeito dessa galera quiróptera. Na verdade, nem me lembro se um dia li algum livro com vampiros. Dessa série adolescente de chupadores de sangue vegetarianos eu passei longe. Vi o primeiro filme até o fim por pura e mórbida curiosidade, certo de que poderia ter desligado a TV muito antes.

Então decidi pegar Noturno, parceria do cineasta Guillermo del Toro e do escritor Chuck Hogan, lançado no Brasil em 2009 pela Rocco. E o fiz apenas pela certeza embasbacante de que as livrarias estão a ponto de dedicarem um espaço exclusivo para livros sobre e com vampiros. Quer dizer, eu tinha que ler pelo menos uma obra escrita durante esses anos de febre. Sei lá, esperava pelo menos entender seu zeitgeist.

Mas Noturno foi um negócio tão difícil de engolir quanto _ suponho _ sangue.

Não sei sobre o que versa essa nova literatura vampiresca, mas del Toro optou pelo cruzamento do tradicional com o moderno. Então seu vilão vem da Romênia e dorme num caixão preto cheio de terra. Mas ele está em Nova York a fim de provocar o apocalipse vampiro. Chega de avião e nele faz suas primeiras vítimas. Na cidade está também um velho judeu que conheceu o monstro num campo de concentração nazista e, desde então, se prepara para o derradeiro encontro.

Mas quem aparece antes é um médico de uma divisão governamental treinada para evitar e combater terrorismo biológico. Ele é cético, claro, e custa a acreditar _ Arquivo X feelings. Mas começa a mudar de ideia quando vê os humanos transformados em ação. Aqui, del Toro recicla seus vampiros de Blade 2 (que eu particularmente não simpatizei…). Eles não possuem dentes, e sim um tentáculo munido de ferrão que fica alojado embaixo da língua e pelo qual sugam o sangue de suas vítimas ao mesmo tempo que transmitem o vampirismo _ que, descobre-se depois, é uma espécie de vírus que transmuta seres humanos em bestas mortas-vivas acéfalas sugadoras de… sangue.

E que não morrem tão fácil. Precisam ter a cabeça decepada com uma lâmina de prata. Do contrário, o sistema continua vivo, necessitando apenas de sangue. O velho exterminador de vampiros tem, em seu bunker (que fica embaixo de sua loja de penhores, por deus…), um jarro contendo um coração extraído de uma vampira na década de 70 e que, até hoje, fica todo excitado quando “sente” sangue fresco por perto. Basta uma gota de sangue no jarro para que ele volte a funcionar, como um órgão independente. Pois é.

Capinha style em alto relevo, anyway...

Um plus: esses vampiros são como aquele inseto que transmite a Doença de Chagas, o Barbeiro. Ele se empolga tanto sugando o sangue de sua vítima que seu estômago vai inchando e espremendo outros órgãos, incluindo os intestinos _ que, apertados, o fazem defecar por toda parte, quando transmite a doença. Os vampiros de del Toro fazem o mesmo. Não, eu não sei o porquê e deveria ter parado nessa parte, mas como ficou claro, possuo curiosidade mórbida de sobra.

Cabeças pra lá, sangue pra cá, tripas pra todo lado e é formada então uma equipe de caçadores: o velho judeu dos Cárpatos, o médico e sua assistente e um exterminador russo de ratos. Eles tentam, matam os primeiros contaminados, mas o estrago  já está feito. Até o mestre-vampiro eles chegam perto de destruir. Termina o livro com o surgimento de vampiros caçadores de vampiros (Blade de novo, del Toro, pô rapaz…), a mulher do médico transformada, uma conclave de anciãos vampiros declarando guerra e uma miríade de perguntas sem respostas.

Sei lá, mas acho que como filme daria certo. Bota um filtro azulado, trilha sonora de suspense, cenas de correria com câmera no ombro e uma meia dúzia de sustos que tá feito. Nego vai dar cinco estrelinhas fácil. Mas não, como livro não dá. Talvez melhore no segundo, mostrando como vai ser esse mundo tomado por vampiros, um pequeno grupo de humanos na resistência tentando achar uma maneira eficaz de reverter a situação. Só que ainda assim, pensando bem, ficaria melhor no cinema.

Profecias literárias

23 de abril de 2010 1

Numa época em que Freud ainda não havia aberto toda uma nova gama de motivações interiores para os atos de determinados personagens, a ficção, que não tinha à disposição inconsciente, recalques e pulsões, lidava com o tradicional conceito de “destino” (moira): uma linha já traçada no futuro de alguém, implacável e além de qualquer fuga. Se era admitida a existência dessa linha, também era lógico admitir a existência daqueles com capacidades especiais para lerem seu traçado invisível, e não são poucas as tramas, das mais  clássicas às mais banais, que devem seu potencial dramático à ação dessa casta de visionários com acesso às leis imutáveis do destino.

A própria tragédia que Aristóteles considerava o exemplo mais perfeito do gênero, Édipo Rei, de Sófocles, tem como ponto central uma profecia feita pelo Oráculo segundo a qual Édipo mataria o pai e casaria com a própria mãe. No esforço de fugir do destino, Édipo deixa a casa daqueles que considera seus pais, e é essa viagem que o leva a Tebas, onde termina por concretizar a profecia que queria evitar. O que tanto ele quanto a cidade só saberão pela diligência que Édipo, homem virtuoso e rei justo, emprega em descobrir quem matou seu antecessor e insuspeito pai, Laio. Algo semelhante é contado por Heródoto na História: Creso (século 6 a.C.), o rei lídio, sedento de poder, consulta o Oráculo de Delfos para saber o desfecho de um possível ataque ao rei persa Ciro. Ao ouvir a resposta de que ao atacar estaria apto a destruir um grande império, Creso se entusiasma e vai à guerra contra o adversário. E termina, sim, por destruir um grande império, o seu próprio, anexado aos domínios do governante persa.

Também o clássico Macbeth, de  William Shakespeare, traz videntes que, com sua profecia, terminam por moldar a realidade àquilo que profetizaram. É o encontro com as três bruxas na estrada – e seu vaticínio de que ele será o rei da Escócia – que acende no nobre Macbeth a cobiça pelo trono que o leva ao assassinato do rei Duncan, à obsessão da culpa e à tragédia – a profecia, portanto, é o mote trágico por excelência, pois, como um corpo celeste de gravidade própria, muda com sua própria existência o curso dos acontecimentos. É um círculo: a profecia desperta a ambição ou o medo de sua realização. E o personagem, ao agir para tentar fugir ou correr ao encontro do destino profetizado, acaba por fazer exatamente o contrário do que gostaria. E a tragédia, já dizia de novo Aristóteles, era o relato da desgraça de um homem virtuoso que corria em direção à própria destruição fazendo escolhas que, na intenção, tinham propósito bastante diverso.

O arquétipo da profecia que provoca seu próprio desenlace é tão forte que está presente até mesmo na  literatura de massa contemporânea – e aqui não falo das tralhas como mangás, histórias em quadrinhos e jogos de RPG, mas sim de um dos maiores sucessos planetários dos últimos anos, a série Harry Potter, na qual o vilão Voldemort, ao atacar um garoto que acreditava destinado a destruí-lo, acaba por dotar o menino do que é preciso para derrotá-lo.

No Brasil, esse mote assume significação própria, como explica a professora Aisla Falcão Mashni (UFRGS/Paris V), no Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Tomo Editorial), ao historiar as origens do arquétipo “profeta” na literatura brasileira:

Personagem da História do Brasil, o profeta aparece sempre marcado por um messianismo libertador. É encontrado principalmente em localidades afastadas das capitais e, por isso, marginalizadas pelas autoridades. Na figura do profeta tem-se um novo salvador, enviado pelos céus e pregador da Santa Palavra. Independentes e sem formação teológica, os profetas pregam como portadores das “verdades” do cristãs, sem pertencer, entretanto, a nenhuma religião oficial. Por conseguirem grande número de devotos, acabam sendo perseguidos pelas autoridades que teme perder o poder político-religioso. Os profetas apresentam-se malvestidos, como símbolo do desapego aos bens materiais, além de passarem por diferentes provações físicas e morais, pretendendo assim reafirmar sua “santidade”. Charlatães ou apenas personagens entre a loucura e a razão, os profetas adquiriram uma grande dimensão mítica, tornando-se um símbolo da margem e da transgressão. A figura do profeta está presente na literatura brasileira que retrata o misticismo nacional.
Encontra-se a figura do profeta na literatura brasileira ainda no século XIX, como por exemplo, em
O Ermitão de Muquém (1869), de Bernardo Guimarães, e O Reino Encantado (1878), de Araripe Júnior. No início do século XX, cita-se também Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953), de José Lins do Rego, e Seara Vermelha (1946), de Jorge Amado.

Como vemos nesse trecho, o “profeta” na literatura nacional está mais associado a uma figura como Antônio Conselheiro do que ao vidente com acesso aos caminhos invisíveis, charlatão ou não. Esse segundo tipo de personagem costuma ser apresentado nas obras que tratam das artes divinatórias do candomblé (presentes à larga nas obras de Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro e mais recentemente no romance O Canto da Sereia, de Nelson Motta – Objetiva) ou pelo tipo das “ciganas” – uma delas em particular no centro de um conto clássico da literatura: A Cartomante, de Machado de Assis, ainda que o mestre reelabore o personagem com a ironia ácida que lhe é peculiar. Um homem a caminho de visitar o amigo a quem está traindo conforta-se com a promessa de segurança feita por uma cartomante vigarista porque, em seu medo e desespero, quer acreditar nela para se sentir seguro. Uma pretensão ingênua que é desfeita brutalmente no fim do texto.

Samba literário

22 de abril de 2010 0

O sambista e escritor Nei Lopes (foto: Marcia Moreira/DIvulgação)

Neste ano de 1924, o prestígio da Tribuna do Rio entre as massas populares é incontestável. É a “Tribuna do povo para o povo”, como diz seu reclame. Sua redação e sua grande e bem equipada oficina ficam na rua Gonçalves Dias, num prédio de dois andares, a alguns passos da rua do Ouvidor. Contando com a colaboração de grandes profissionais da imprensa, a Tribuna é um jornal vivo, novo, alegre e movimentado. E explora, como é do tempo, escândalos que são sempre do agrado do grande público. Um dia é a história do “Chupão”, um ser tido como sobrenatural, que, na calada da noite, invade propriedades do sertão carioca, de Jacarepaguá a Santa Cruz, para sorver o sangue de rebanhos inteiros, dizimando-os e atacando até crianças de berço, durante o sono. Outro dia é a história do Dozoio, um pobre rapaz que foi espiar a mulher do vizinho tomar banho no rio Guandu e aí, enfeitiçado por ela, virou, sem qualquer explicação científica plausível, uma espécie de lobisomem, um monstro de olhos esbugalhados e acesos como dois enormes faróis, que sai à noite, em busca da satisfação de seus desejos bestiais. Tudo invencionice, fantasia, mentiras cariocas.
A
Tribuna do Rio mantém inclusive uma bem cuidada sessão de palpites de bicho, dados por alguém – dizem que o próprio doutor Roberto, o dono – que se assina “Borboleta”. Mas o tempo das grandes tiragens mesmo, das vendas espetaculares, é o carnaval. Aí repórteres e redatores percorrem as sedes dos blocos, ranchos e cordões, transformando em celebridades seus modestos diretores, os frequentadores mais assíduos e destacados, promovendo concursos e certames, entregando prêmios e troféus, publicando em gravuras muito bem desenhadas os estandartes das agremiações.

Em um país com uma relação tão extensa e umbilical com o samba e o carnaval, surpreende o ralo número de obras recentes a se dedicar a esmiuçar esse universo que se confunde com o da própria formação do Brasil. É o que faz o sambista, escritor, lexicógrafo Nei Lopes no romance Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova (Língua Geral, 282 páginas), uma deliciosa narrativa que, aproveitando a figura de Honorata, também chamada de Tia Amina, uma das célebres “baianas do Carnaval da Praça Onze”, mergulha em um Rio de Janeiro ainda com pinta da arrabalde, uma Capital alçando seu passo a caminho da modernidade.

Lopes usa a figura de Tia Amina – cuja vida está retratada em um misterioso manuscrito que cai às mãos de um jornalista – para passear pelo Rio de Janeiro em formação entre 1870 e 1930, flagrando personagens históricos fundamentais da trajetória negra no Brasil, como o “monarca do Rio” Dom Obá, o compositor Sinhô, o marinheiro João Cândido, os intelectuais André Rebouças e José do Patrocínio. E, claro, do carnaval, do samba em sua origem clandestina e das “tias baianas” que até hoje são parte integrante da cultura do Rio – não é a toa que toda Escola de Samba por lá tem de ter, obrigatoriamente, uma “ala das Baianas”.

Lopes estará hoje em Porto Alegre, para autografar Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova no Auditório do Espaço Cultural Casa dos Bancários (General Câmara, 424) e conversar sobre o livro com o professor Jefferson Tenório. Outro programa muito recomendável como parte da programação da Festipoa Literária.

A invenção e a mentira de Manoel de Barros

22 de abril de 2010 0

Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro —
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas
Água não era ainda a palavra água
Pedra não era ainda a palavra pedra
E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em uma abelha, era
só abrir a palavra abelha e entrar dentro
dela.
Como se fosse a infância da língua

Os versos acima são do primeiro poema de Canto de Ver, primeira seção do livro Poemas Rupestres (2004), do poeta mato-grossense Manoel de Barros. Publicado originalmente pela Record, esse e os demais livros da carreira do artista estão reunidos no volume recém-lançado Poesia Completa (Leya, 496 páginas, R$ 69,90), cuja capa ilustra este post, uma boa oportunidade para um olhar de conjunto sobre a trajetória do autor. Manoel de Barros é hoje um dos poetas mais populares do Brasil, fazendo uma poesia que busca o maravilhamento e o encanto do leitor inventando a voz da infância em imagens lúdicas e ligadas ao universo natural.

Manoel de Barros é também o tema e a alma do documentário Só Dez Por Cento é Mentira, dirigido por Pedro Cezar, uma investigação sobre o universo poético criado por Manoel de Barros que investe mais na palavra e menos nos fatos da “biografia” do artista – não é à toa que o subtítulo do filme é “Desbiografia oficial de Manoel de Barros“. O filme também se vale de depoimentos de outros poetas admiradores do trabalho do sul-matogrossense, como Elisa Lucinda, Fausto Wolff e Viviane Mosé. Um filme que havia despertado minha curiosidade já quando assisti pela primeira vez o trailer, que vocês podem conferir na janela do Youtube abaixo.

O problema de quem ficou curioso e queria ter a oportunidade de assistir é que filmes como esse, mesmo financiados com recursos da Petrobrás, como se vê no site oficial, nem sempre conseguem uma oportunidade no circuito exibidor de Porto Alegre – claramente defasado em relação ao centro do país em qualquer produção que não seja blockbuster e às vezes até nessas. Por isso, agora é que vem o mais bacana: como parte da programação da Festipoa Literária, Só Dez Por Cento é Mentira será exibido hoje, quinta-feira, no CineBancários (General Câmara, 424), às 15h, 17h e 19h (esta última sessão será precedida de bate-papo e leituras de poemas de Manoel de Barros com Diego Petrarca, Cris Cubas e Andréa Laimer).

Autógrafo do dia no Festipoa

21 de abril de 2010 0

A que mais me intriga é a janela do 7º andar da repartição pública do outro lado da rua. Bate sol da tarde, o ar quebrou e há mais de uma semana está para consertar; as funcionárias começaram a usar roupas sumárias, decotes profundos, nenhum sutiã. Fecham os olhos com entrega, entreabrem os lábios e sorvem o ar morno que um leque, agitado, lhes dá na boca. Na segunda-feira, voltam da hora de almoço equipadas com mini-ventiladores de cinco reais, boa fortuna de algum camelô. Na terça-feira, uma delas leva um ventilador de mesa que lhe esvoaça os cabelos. A veterana passa um creme branco no rosto na frente do computador. O calor só faz piorar. Na quarta-feira não há nenhuma nuvem no céu. Anseio ardorosamente pelas funcionárias do município. Mas a quarta-feira é da paralisação por melhores salários (e condições de trabalho). Na quinta-feira, elas chegam, seminuas, às onze da manhã – e inesperadamente o reparo foi feito. É como assistir um filme mudo. Mandam a estagiária trepar numa cadeira. Cambaleando no salto agulha, ela mexe no termostato sem resultado (encolhe os ombros). Então, resignadas, se apinham num canto, se aconchegam, esfregam os braços uma da outra, os biquinhos duros.
Com o binóculo do meu avô, meus doze anos voltam: Little Computer People e SimCity combinados a meus pés. Eu ficava horas. Horas. Na mesma época em que o After Dark era um
killer app, creio.
No computador da empresa não se pode instalar nada nem acessar um site qualquer. Eles pensam que assim podem obrigar você a trabalhar. Funciona com a maioria das pessoas. Funcionou comigo, até eu começar a trazer meus brinquedos.
Faz dois anos que imitei um golfinho na dinâmica de grupo e entrei como Engenheiro de TI. Não tem cabimento tentar concurso agora. Mesmo que seja para cair no meio do harém do outro lado da rua. Continuo aqui com meu binóculo Zeiss.

O trecho acima foi retirado de Herói, conto do livro Amostragem Complexa (7Letras, 2009, 150 páginas, R$ 34), da carioca Simone Campos, também autora dos romances A Feia Noite (7Letras, 2007) e No Shopping (7Letras, 2000) – este último publicado quando a escritora tinha apenas 17 anos. Simone estará em Porto Alegre hoje para autografar Amostragem Complexa após um debate marcado para 16h, na Livraria Letras & Cia (Osvaldo Aranha, 444). Ela divide a mesa com os também escritores Alexandre Rodrigues e Antonio Xerxenesky. A mediação é da jornalista Luciana Thomé. A função é parte da programação da Festipoa Literária, que vocês podem conferir na íntegra uns dois posts abaixo.

Também hoje, às 20h, no Pé Palito bar (João Alfredo, 577), será lançada a coletânea O Melhor da Festa (editora Casa Verde), produzida especialmente para a Festipoa e que reúne contos, poemas e artigos dos participantes da edição 2009 do Festipoa.

O homem que retraduzia

21 de abril de 2010 3

Boris Schnaiderman (na foto acima. Crédito: arquivo pessoal) não é um patrimônio da literatura brasileira. Não, não é mesmo. Tratar pessoas ainda vivas e produzindo como um patrimônio cultural dá a incômoda ideia de imobilidade, de algo tornado seu próprio monumento, uma estátua de si mesmo, e isso é algo que definitivamente não se enquadra na definição deste ucraniano naturalizado brasileiro que, às vésperas de completar 93 anos, continua refazendo o trabalho de uma vida inteira. Um trabalho que já havia sido amplamente reconhecido e elogiado quando de sua primeira realização, mas no qual Schnaiderman, com a coragem dos perfeccionistas, vê defeitos a corrigir.

Schnaiderman migrou para o Brasil ainda menino (quando garoto, chegou a ver in loco a aglomeração das filmagens da famosa cena da escadaria de O Encouraçado Potemkin, de Eisenstein)  Escritor e professor de literatura, foi o tradutor responsável por apresentar aos leitores brasileiros em versões diretas do russo nomes como Maiakóvski, Dostoiévski, Tchekhov e Leon Tolstói – de quem a Cosac Naify está publicando agora a novela Khádi-Murát, em nova tradução de Schnaiderman (que já havia traduzido o mesmo livro outras três vezes). É sobre essa obsessão por refazer suas próprias traduções, sobre a sensibilidade literária superior de Tolstói e sobre sua experiência na II Guerra como expedicionário que Schnaiderman falou, por telefone, de São Paulo, ao editor de Zero Hora Luiz Antônio Araújo. Parte da entrevista foi publicada hoje na central de livros do Segundo Caderno, mas, como costuma ser necessário no jornal impresso, foi editada. Aqui, como havíamos prometido, publicamos agora a íntegra:

Zero Hora – Por que o senhor decidiu refazer suas traduções do russo?
Boris Schnaiderman –
Esta é a quarta vez que traduzo Khádji-Murát. A primeira vez foi em 1949. Refiz o trabalho porque estava insatisfeito com os resultados anteriores. No final dos anos 40, eu era o único no país a me dedicar à tradução direta do russo. Antes, como na década de 1920, por exemplo, tinha havido tentativas.

ZH – A maioria das edições disponíveis de russo era traduzida de outros idiomas.
Schnaiderman –
Sim. Às vezes, uma obra era traduzida do russo para o francês, do francês para o espanhol e depois para o português. Havia casos muito tristes de deformação. Houve uma grande voga de literatura russa, na década de 1890, e a partir da França ela se espalhou por vários países e chegou ao Brasil.

ZH – Quais foram as dificuldades para o seu trabalho na época?
Schnaiderman –
Não dispunha de material de consulta. Não existia nenhum dicionário russo-português. Havia russo-francês, russo-alemão. Não tinha um dicionário à mão. A primeira tradução foi uma ousadia sem conta, um ato impulsivo. Hoje em dia, eu acho isso condenável.

ZH – Consta que o senhor rejeitou o título que o livro ganhou à época, O Diabo Branco.
Schnaiderman –
Era o título de um filme. Houve vários filmes inspirados em Khádji-Murát. É um romance quase cinematográfico. Sergei Eisenstein chegou a escrever que parecia ter sido feito para o cinema. Eu falei com o editor, mas ele não deu ouvidos. Ele queria o título do filme.

ZH – Qual é, na sua opinião, o lugar desse livro na obra de Tolstói?
Schnaiderman –
O tema hoje em dia parece candente porque trata da luta dos russos com os povos do Cáucaso, inclusive os chechenos. A luta contra os que tinham se revoltado. Uma grande revolta de fundo religioso. Tolstói mostra o absurdo da guerra tanto de um lado como de outro. Os nativos estavam lutando contra o domínio russo, mas ele mostra os absurdos, os exageros e as violências de lado a lado. Quando era moço, me revoltava com atitude de Tolstói de se manter distante dos dois lados. Minha simpatia estava toda com os nativos do Cáucaso. Com a idade madura, percebo a profunda verdade que há nessa novela.

ZH – O senhor foi integrante da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália, na II Guerra Mundial. Já tinha lido Tolstói quando conheceu a guerra de perto?
Schnaiderman –
Já tinha lido o bastante. Fui um dos poucos brasileiros naturalizados que participou da FEB. Logo que houve a declaração de guerra, houve um movimento de arregimentar estrangeiros residentes, mas na hora H, foram bem poucos os brasileiros naturalizados. Não fui voluntário, porque se me apresentasse como voluntário meus pais fariam tudo para que eu não fosse. (Risos.) Eu era engenheiro agrônomo e funcionário do Ministério da Agricultura. Fiz tudo para ser convocado. Me alistei na Artilharia e fiz curso de sargento. Era calculador de tiro.

ZH –  O que mais lhe marcou na guerra?
Schnaiderman –
Tenho lembrança muito forte, principalmente com o convívio com o soldado brasileiro, que na maioria não sabia o que estava fazendo lá. Nós, de uma classe mais privilegiada, éramos exceção. A grande maioria era do povo mais pobre do país, vinda dos quatro cantos e que não sabia o que estava fazendo lá. No entanto, na hora H, eles lutaram como os melhores. Sem nenhum preparo. Toda a organização foi uma vergonha, e no entanto o homem brasileiro lutou. Fiquei profundamente impressionado. Estava certo de que aquilo iria resultar num desastre. Os brasileiros estavam entre os melhores pela capacidade de improvisação, pela agilidade.

Semana de Festa na Cidade

20 de abril de 2010 0

Começa hoje e vai até domingo em Porto Alegre a Festipoa Literária, uma festa que, recém em sua terceira edição, já está se consolidando como o principal evento literário do primeiro semestre da Capital. Dezenas de atividades envolvendo literatura, música, exibição de filmes, performances artísticas, leituras, palestras, debates e sessões de autógrafos põem o livro no centro do debate público em Porto Alegre. Grande parte da programação é de entrada franca. Hoje na capa do Segundo Caderno, falamos um pouco mais sobre a festa e seu homenageado, o escritor Sergio Faraco, um dos maiores contistas em atividade no país. Para quem quiser se programar para acompanhar a festa, informamos agora a programação completa, que não coube nas páginas do jornal por motivo de espaço:

Dia 20 de abril, também conhecido como hoje:
- Na Palavraria (Av. Vasco da Gama, 165)
17h:
Cíntia Moscovich e o crítico paulista e curador de arte Jacob Klintowitz conversam com Sergio Faraco sobre produção de contos e tradução.
18h30: Maratona Literária, com leitura em voz alta, em revezamento, da coletânea de contos Dançar tango em Porto Alegre, de Sergio Faraco.
19h: Edgar Vasques conversa sobre literatura adaptada para HQ com o artista plástico e designer gráfico Fabriano Rocha e o escritor e artista gráfico Leandro Dóro.

- No CineBancários (Rua Gen. Câmara, 424)
15h, 17h e 19hs: Sessões dos filmes Ferreira Gullar, a necessidade da arte; O canto e a fúria; e Por acaso, Gullar, os três sobre a vida e o universo poético de Ferreira Gullar

No Café da Oca:
20h30 às 23h30:
Mostra artística Cabaré do Verbo: música e leituras de poemas, Diego Petrarca, Lorenzo Ribas, Karine Capiotti, Petit Poa-RS, Rádio Putzgrila, Rodolfo Ribas, Rocartê, Projeto Floco.

Dia 21 de abril: Quarta-feira (amanhã, para os íntimos):
Na Livraria Letras & Cia (Av. Osvaldo Aranha, 444):
14h: Edição especial do Papo de Artista com Marcelo Spalding, Nanni Rios e Paulo Tedesco, com o tema “As artes e a literatura na era digital”. Na ocasião será lançada a revista online Expressões Digitais, coordenada por Nanni Rios, editora de arte digital do portal Artistas Gaúchos.
15h30: Leituras com Everton Behenck e Rodrigo Rosp
16h: Debate com os escritores Simone Campos, Alexandre Rodrigues e Antonio Xerxenesky. Mediação de Luciana Thomé. Depois, Simone autografa seu livro de contos Amostragem complexa (7Letras, 2009, R$ 49,00).
18h: Pocket show com Bianca Obino.
18h30: Luis Paulo Faccioli, Luis Dill e o baiano Lima Trindade conversam sobre o conto na literatura brasileira contemporânea.

No CineBancários:
15h, 17h e 19h: Exibição do filme Um Aceno na Garoa, de Mário Nascimento, baseado em conto de Sergio Faraco.

No Pé Palito Bar
20h: Lançamento da coletânea O Melhor da Festa, volume dois (Casa Verde, 152 páginas, R$ 20,00) um livro produzido especialmente para a FestiPoa. A obra reúne poemas, contos e crônicas inéditas de 32 autores que participaram da segunda edição do evento no ano passado.
21h: Baile das Artes:Samba Grego, Nelson Coelho de Castro, Petit Poa-RS, Guto Leite, Everton Behenck e DJ Fred _ Festa

Dia 22 de abril: Quinta-feira:
No CineBancários:
15, 17h e 19h: Exibição do filme Só Dez por Cento é Mentira - desbiografia oficial de Manoel de Barros. A sessão das 19h será precedida de bate-papo e leituras de poemas de Manoel de Barros com Diego Petrarca, Cris Cubas e Andréa Laimer.

No Auditório do Espaço Cultural Casa dos Bancários (Rua Gen. Câmara, 424)
17h: João Gilberto Noll lê trechos dos seus livros Acenos e Afagos (Records/2009), Lorde e Mínimos Múltiplos Comuns (Francis).
18h: O sambista Nei Lopes lança o livro Mandingas da Mulata velha na Cidade Nova (Língua Geral, R$ 34,00) e conversa com o professor Jefferson Tenório.

Na Palavraria:
19h30: Lançamento do Campeonato Gaúcho de Literatura e um debate sobre prêmios e concursos literários com Rodrigo Rosp e Daniel Weller.

Na Sala Álvaro Moreira (Av. Érico Veríssimo, 307):
20h: Olhar de Ana Mariano sobre o mundo, a memória, o sexo e o amor: espetáculo com a atriz Sofia Salvatori, com direção de Margarida Leoni Peixoto.

Dia 23 de abril: Sexta-feira:
Na Palavraria:
16h30: Marco Cena, Samir Machado de Machado e Clô Barcelos falam sobre a criação de capas para livros.
18h: Pocket show com Felipe Azevedo.
18h30: Jorge Furtado, Pena Cabreira e Juarez Fonseca conversam sobre letras de canções na música popular brasileira.

No Espaço Cultural Casa dos Bancários
18h: Leitura de Contos da Vida Breve com Henrique Schneider.
18h30: Carlos André Moreira e Alcy Cheuiche discutem o romance histórico como gênero.

Na Sala Álvaro Moreira
20h:
Leitura da peça Diálogos Espectrais, de Ivo Bender, com Luiz Paulo Vasconcellos, Júlio Conte, Giselle Cecchini e Diones Camargo.

No Zelig:
20h30: Festa Sexta básica – dia do livro e do autor: Grupo Trilho, Cristina Moreira, Leila Teixeira, Lima Trindade, Wladimir Cazé (ES), Guilherme Darisbo, Duo HoffParú e Antonio Falcão e banda.

*Dia 24 de abril: Sábado:
Na livraria Letras & Cia:
09h30: Grupo Nos Lemos (Manuel Estivalet, Bruno Brum Paiva, Janaína Quiroga, Nelson São Bento e Tina Gonçalves); leitura encenada baseado em textos.
10h: Debate com os poetas Bárbara Lia, Wladimir Cazé e Laís Chaffe. Depois, Bárbara autografa A Última Chuva, (Mulheres Emergentes Edições Alternativas, 2007) e Cazé lança Macromundo (Confraria do Vento, 2010).

No Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano (ICBNA) (Rua Riachuelo, 1257)

11h: Projeto Bate Boca Bom: Linhas de fuga e transmigrações da poesia de língua portuguesa: painel com o português Luis Serguilha e Ronald Augusto. Mediação de Liana Timm. Depois, lançamento e sessão de autógrafo do livro Korso (Dulcineia Catadora), de Serguilha
14h: A artista plástica Lúcia Rosa fala sobre o coletivo Dulcinéia Catadora. Lançamento e sessão de autógrafo dos livros Quatro Quartos, de Monique Revillion e Duas Palavras, de Altair Martins;
16h: Exibição de minimetragens do projeto Cidade Poema e leitura de poemas com Everton Behenck, Berenice Sica Lamas, José Antônio Silva, Liana Timm e Laís Chaffe, coordenadora do projeto.
16h30: A poética do mar: da poesia de Castro Alves à canção de Dorival Caymmi, performance que une poesia e música com Marlon de Almeida e Moisés Dornelles
18h30: Vida e obra de Oliveira Silveira, com Jorge Fróes e recital de poesia com Vera Lopes e Grupo. Lançamento da Antologia de Poemas de Oliveira Silveira.

Na Palavraria:
16h: Pedro Gonzaga
conversa com José Hildebrando Dacanal sobre Riobaldo & Eu: a roça imigrante e o sertão mineiro
17h30: Leitura de trechos de Desacordo Ortográfico (Não Editora), com Reginaldo Pujol Filho;
18h: Debate com Xico Sá, Cardoso e Cláudia Tajes. Depois, lançamento e sessão de autógrafo de Chabadabadá – aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha (Ed. Record), de Xico Sá.

Na Praça da Alfândega, em frente ao Clube do Comércio.
16h: Oficina de pintura de capas de papelão e confecção de livros com Lúcia Rosa (coletivo Dulcineia Catadora). Os participantes pintarão as capas e escolherão o título que desejam montar. As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas pelo e-mail jornalvaia@gmail.com ou pelo fone (51) 9892.3603.

Dia 25 de abril: Domingo:
Na Palavraria:
14h: Painel: Conto, Imagem e Construção do Invisível, com Flávio Wild, Olavo Amaral e Cássio Pantaleoni;
15h: Lançamento e sessão de autógrafos de Histórias Para Quem Gosta de Contar Histórias (8Inverso), com Cássio Pantaleoni;
16h: Bate-papo com os escritores Henrique Rodrigues e Diego Petrarca e lançamento com sessão de autógrafos da coletânea de contosComo se não houvesse amanhã (Ed. Record), organizada por Rodrigues, com vinte histórias inspiradas em músicas do grupo Legião Urbana, cada uma escrita por um autor diferente.
18h: Altair Martins conversa com Amilcar Bettega e Marcelino Freire sobre os rumos da narrativa curta.

No OX/OCIDENTE
20h: Festa de encerramento, com Marcelino Freire, Altar Martins, Monique Revillion e outros escritores convidados, além das bandas Bumblebee, Fapo e os humanóides e Suco Elétrico.

Tempestade e Ímpeto

16 de abril de 2010 0

Na próxima segunda-feira, o Instituto Goethe (Rua 24 de Outubro, 112) recebe em seu auditório, às 19h30min, o historiador e filosófo alemão Rüdiger Safranski (Na foto acima: Crédito de Peter-Andreas Hassipen/divulgação). O autor, que publicou notáveis biografias de Schopenhauer, Heidegger e Nietzsche, vai fazer uma palestra sobre a história e o legado artístico do Romantismo alemão surgido no século 18 e que atravessou o século 19 com manifestações estéticas que pretendiam retratar o indivíduo e suas turbulentas paixões, bem como o lugar que ocupava diante da esmagadora natureza. A palestra será seguida de uma sessão de autógrafos do livro que a originou: o ensaio Romantismo: uma Questão Alemã (Estação Liberdade), mais recente obra de Safranski a sair aqui no Brasil.

Safranski não é um viajante de primeira viagem em Porto Alegre. Ele já esteve aqui em 2001 para autografar, como parte da programação da Feira do Livro daquele ano, os livros Nietzsche – Biografia de uma Tragédia e Heidegger – Um Mestre da Alemanha entre o Bem e o Mal, que haviam sido recentemente publicados no Brasil pela Geração Editorial. Na época, ele foi entrevistado pela colega Camila Saccomori, hoje titular do blog Fora de Série, sobre seriados de televisão. Para ter uma palhinha de quem é o palestrante que o Goethe trouxe para esmiuçar um dos movimentos artísticos mais influentes da História, republico abaixo a entrevista, que saiu na ZH em 3/11/2001:

Assim Falou Safranski

Camila Saccomori

Como escritor, Rüdiger Safranski é um fenômeno editorial na Alemanha. Como filósofo, atua na direção e na consultoria do programa Filosofia Hoje, no canal WDR. Como acadêmico, procura espraiar o conhecimento dos grandes pensadores para além dos muros universitários. Durante esta semana, Safranski esteve participando de atividades na programação da 47ª Feira do Livro de Porto Alegre. Além da sessão de autógrafos de Nietzsche – Biografia de uma Tragédia e Heidegger – Um Mestre da Alemanha entre o Bem e o Mal, fez palestras na PUCRS e discorreu sobre A Importância da Filosofia Hoje na tarde de terça-feira, no Santander Cultural.

A trilogia biográfica dos pensadores Nietzsche, Heidegger e Schopenhauer (esta última ainda não traduzida para o português) tornou-se best-seller em pouco tempo na Alemanha. Lançada em 1994, Um Mestre da Alemanha entre o Bem e o Mal é tida como uma das melhores biografias de Martin Heidegger (1889 – 1976) até hoje escritas. Safranski traça com vigor a trajetória intelectual e pessoal da vida do pensador e as forças que moldaram sua personalidade. O entusiasmo político do filósofo alemão ao se filiar ao partido nazista – um dos pontos mais controversos de sua carreira – e sua breve mas agitada passagem pela reitoria da Universidade de Friburgo são abordados com detalhes laboriosamente pesquisados.
Em Biografia de uma Tragédia, são 364 páginas de pesquisa e informação sobre a vida trágica e o pensamento de Friedrich Nietzsche, um dos autores que mais influenciaram a história das idéias, da política e da arte em todo o mundo. Do nascimento do filósofo na Prússia, em 1844, até sua morte, tido como louco em Weimar, em 1900, Safranski aborda os principais fatos da tumultuada existência do autor de Assim Falou Zaratustra e O Nascimento da Tragédia, inserindo-os no pano de fundo histórico de forma a juntar as peças de um quebra-cabeça. Assim como a biografia de Heidegger, também essa foi traduzida diretamente do alemão pela escritora gaúcha Lya Luft. O professor de Filosofia da Unicamp Oswaldo Giacoia Júnior fez a revisão técnica do livro, para adaptar a terminologia própria do filósofo aos conceitos-chaves. A seguir, Safranski comenta algumas das antíteses filosóficas com que deparou:

Racional X irracional
“Escrevo biografias porque me interessa o nexo entre o pensamento e a vida, o drama de como um influencia o outro. A trilogia é uma grande narrativa para compreender e explorar a complexa e monstruosa aventura das origens da filosofia. Quando Schopenhauer for traduzido no Brasil, vocês perceberão como as três figuras estão conectadas umas às outras. Esses homens fizeram um esforço extraordinário para compreender a complexidade enigmática da vida e, nesse sentido, foram os pensadores racionais de tudo que é irracional. E vocês todos conhecem a distinção abismal entre racional e irracional. As maiores coisas que fazem parte da nossa vida são irracionais. A dimensão é essencialmente cerebral. Colocar um monte de pulgas num saco é tentar controlar racionalmente algo que foge do nosso controle.”

Filosofia X política
“É uma questão polêmica e fascinante. Em 1933, Heidegger compactuou com o nazismo e contaminou-se. Foi colocado sob suspeita. A relação com ele ficou difícil, perigosa e delicada. Como esse escândalo político realmente existiu, o fato foi tomado como desculpa para que os intelectuais não mergulhassem no conteúdo de sua obra. Para mim, esse escândalo foi um desafio, porque Heidegger mostra que a grande filosofia também pode sucumbir à sedução do poder político. Até mesmo Platão experimentou essa tentação. No livro, estabeleço a relação tumultuada entre filosofia e política.”

Nós X nós mesmos
Heidegger faz parte dos que ajudaram a constituir a linhagem de pensamento do existencialismo. Todos vamos morrer e temos apenas uma vida, isso é inevitável. Temos, enfim, uma existência. Esse impulso foi renovado posteriormente em Sartre, seu aluno por influência dos livros, não no sentido de discípulo seguidor. Existe ainda um segundo aspecto em Heidegger que poderia ser denominado de ecológico tardio. Ele colocou o homem e o universo no centro de suas perguntas: o que nós fazemos a favor ou contra nós mesmos e o que fazemos em relação ao planeta?”

Técnica X processo
“A idéia subjacente de Heidegger está relacionada à técnica, mas não com propósito meramente instrumental, como se fosse um martelo. A técnica afeta nosso modo de pensar, agir e sentir. Promove uma mutação da intelectualidade do homem. Vivemos numa época em que se pedem resultados. Na filosofia, também, mas me interesso mais pelo caminho e pelo processo. Nietzsche é tão-somente processo. É um autor que está sempre a caminho, viajando no pensamento.”

O filósofo X o psicólogo
“As pessoas me perguntam a que se deve a popularidade de Nietzsche, o popstar da filosofia. Ele é um dos poucos autores capaz de modificar pensamentos dos outros pela força das palavras. Credito essa fama ao pensamento que, por excelência, percorre diferentes estágios, dissecando as forças motrizes da cultura. É uma influência muito poderosa que se prolonga até hoje, mesmo na fase em que ele se deslocou e passou a ser um psicólogo frio, cortante como uma faca. Tanto o Nietzsche filósofo da cultura como o Nietzsche psicólogo nos permitem sacadas muito interessantes. Ele nos atirou na cara suas descobertas e depois nos abandonou. O conhecimento verdadeiro só é possível de forma restrita.”

Globalização X filosofia
“A filosofia se empenha em dar respostas específicas sobre como o homem deve viver, na individualidade e na totalidade. É aí que se insere o processo de globalização como um desafio para a filosofia. A justiça social não poderia ser derivada das forças do mercado. É preciso enfrentar esse império do mundo guiado pelo economicismo atual.”

Estrada à vista

15 de abril de 2010 1

De acordo com meus colegas críticos de cinema responsáveis pelo blog CineClube, está marcada para o dia 21 da semana que vem a estreia nos cinema de A Estrada, filme baseado na magistral obra de Cormac McCarthy (foto acima). Como o filme já teve sua chegada em Porto Alegre adiada uma vez (foi anunciado para sexta desta semana, depois mudou), não tenho como afirmar que não será transferida de novo, mas aproveito o gancho assim mesmo para republicar aqui um texto que escrevi em 2008 sobre McCarthy e sua obra. Na época, falava-se muito do autor justamente porque A Estrada estava em produção e Onde os Fracos Não Têm Vez (adaptação dos Coen para Onde os Velhos não têm Vez) havia recebido o Oscar. De lá para cá, a Alfaguara, que hoje detém os direitos de publicação da obra de McCarthy no Brasil, relançou a obra-prima Meridiano de Sangue (na época do texto, o livro ainda não havia saído, e por isso usei o título da edição antiga) – cuja leitura recomendo entusiasticamente, se alguém aí ainda não leu. Mas eu falava do texto. Vai abaixo.

O autor que entende a violência

Estamos em pleno século 21 e um número cada vez maior de americanos se declaram McCarthistas, e com orgulho – não apenas americanos, pensando bem. Não, não que haja uma nova caçada implacável a hoje inexistentes comunistas, audiências inquisitoriais e boicotes pessoais e profissionais absurdos. O McCarthy em questão não é o infame senador paranóico Joseph McCarthy. É outro, embora a violência e a brutalidade não possam ser deixadas de lado quando se fala de Cormac McCarthy, considerado hoje, com justiça, um dos mais relevantes escritores vivos em língua inglesa.

Tido como recluso, McCarthy foi recentemente trazido aos holofotes pela atuação de terceiros – de Oprah Winfrey, que realizou com ele uma longa entrevista sobre seu romance mais recente, A Estrada, cuja inclusão no “clube da leitura” da apresentadora deu ao autor sua primeira vendagem de best-seller, aos Irmãos Coen, que arrebataram os principais prêmios do Oscar com uma adaptação desconcertante e fidelíssima de seu romance Onde os Velhos não Têm Vez. Ah, sim, e embora isso não seja particularmente um mérito ou um demérito por si só, McCarthy não deve sair desses holofotes por algum tempo. Uma versão de seu livro Meridiano Sangrento está prevista para 2009, e já está em produção uma adaptação de A Estrada - obra que representou uma transformação na carreira literária de McCarthy e que facilmente pode ser definida como uma de suas obras-primas.

McCarthy é um autor que representa como poucos hoje em dia a complexidade humana: seus livros e personagens têm um agudo senso de integração ao ambiente (normalmente as planuras e os vales monumentais do Oeste americano, mas não sempre). Também são seres desconcertantes, capazes de paixão e ternura, mas protagonistas de alguns dos episódios mais grotescos e violentos que um autor já colocou sobre a página impressa. Um olhar de conjunto sobre a obra de McCarthy devolve uma imagem notavelmente coerente apesar das óbvias transformações de estilo de um romance para o outro. Alguns de
seus melhores livros anteriores, como Todos os Belos Cavalos e Meridiano Sangrento, têm uma prosa em caudal, estentórea, com ressonâncias bíblicas que revestem de um poder alegórico e imagético tramas que, embora imaginativas, não respondem pelo total fascínio provocado pelo escritor – até o estouro com sua Trilogia da Fronteira nos anos 1990 e agora com a sua descoberta pelo cinema, McCarthy era um autor “de culto”, venerado por um número restrito de leitores que amam seus livros apaixonadamente.

Meridiano Sangrento e as obras que compõem a Trilogia da Fronteira (Todos os Belos Cavalos, A Travessia, Cidades da Planície) revisitam o Oeste, a paisagem fundadora da mitologia americana, atualizando-a com altas doses de uma violência mais adequada à nossa época. Não mais os duelos ao entardecer ou as brigas caricatas de soco e cadeiradas em saloons empoeirados. A violência neste caso se aproximou tanto dos personagens que atravessou a fronteira da pele, dedicando-se ao retrato de homens e mulheres que se agridem e se violentam psicológica e emocionalmente. A “fronteira” não é só física, é sim o limite em que um homem ainda pode ser considerado humano.

O Oeste de McCarthy é uma amplidão desmedida povoada por seres com a alma em carne viva. E talvez por se sentirem tão desconfortáveis em si mesmas, suas criaturas são seres em constante movimento. Como o protagonista de Todos os Belos Cavalos, que parte em uma jornada em direção ao México buscando algo que não encontra onde está. O México, aliás, em todos os três livros da trilogia, é o símbolo dessa busca e dessa brutalidade da qual só há retorno com muito esforço, o esforço que constrói aquilo que pode ser chamado de “humano”.

Jornadas, estradas, deslocamentos que unem o épico e o individual e representam uma busca mais de si do que de um destino são, como se vê, característicos da ficção de McCarthy. Não deixa de ser apropriado, portanto, que sua obra alcance um ponto notável de síntese justamente em um romance chamado A Estrada - no qual apenas aparentemente o escritor muda tudo para tratar ainda melhor dos temas que sempre o obcecaram. Em A Estrada a linguagem é modulada em outro diapasão, torna-se seca, árida, desolada como a paisagem que seus personagens devassam. Também não estamos mais no Oeste, mas em algum lugar não muito bem certo dos Estados Unidos após um cataclismo nuclear também incerto. Um pai e um filho atravessam as ruínas do país em direção não ao México, mas à costa, ao mar, onde o pai quer, com a esperança mais selvagem e despropositada, encontrar a salvação. O pai e o filho não enfrentam apenas a distância da jornada, feita a pé, empurrando um carrinho de supermercado em uma das outrora impecáveisrodovias americanas. Do céu caem cinzas negras. Em cada esqueleto das antigas cidades, corpos calcinados demarcam o caminho: O pai e o filho viajam evitando a presença de outros sobreviventes, sujeitos em declínio acelerado para a barbárie, que se alimentam de outras pessoas que encontram pelo caminho. Cenas de um horror desesperado, ainda mais angustiante por não ter nenhuma dose de histeria. A narração tem seu próprio ritmo, feito de frases curtas, no tom exato:

Atravessaram a cidade ao meio-dia do dia seguinte. O revólver estava à mão na lona dobrada por cima do carrinho. Mantinha o menino bem perto, ao seu lado. A cidade estava quase toda queimada. Nenhum sinal de vida. Carros na rua incrustada de cinzas, tudo coberto de cinza e poeira. Rastros fósseis na lama seca. Um cadáver na soleira de uma porta seco feito couro. Arreganhando os dentes para o dia. Ele puxou o menino mais para perto. Apenas se lembre que as coisas que você põe na cabeça ficam lá para sempre, falou. Você talvez queira pensar sobre isso.
Você se esquece de algumas coisas, não se esquece?
Sim. Você se esquece do que quer lembrar e se lembra do que quer esquecer.

E ao mesmo tempo, a jornada do pai é também a jornada de uma certa esperança no mundo. O menino nunca conheceu outra realidade que a brutal sobrevivência diária. E mesmo assim o pai esforça-se para incutir nele a fé na mesma Humanidade da qual ambos se escondem para sobreviver. Como se vê, por sob o artifício do relato apocalíptico, McCarthy tece uma intrincada reflexão sobre a condição humana, a moral e o próprio sentido místico e religioso de transcendência (o pai crê com convicção que só sobrevive para salvar a vida do filho porque esta é uma missão da qual foi encarregado por Deus). Os heróis de A Estrada são figuras de uma humanidade nietzschiana. Vagam pela rodovia como a corda pendurada no abismo entre o homem e o além-do-homem de que fala Zaratustra, buscam no mar, na costa, no mítico ambiente de origem do homem um além indefinido para transcender os dias vividos em um meio às ruínas de um planeta
que não existe mais. Mas persistem.