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Orwell e as manhas da profissão

05 de maio de 2010 4

Duas coisas me levaram a escrever este post em particular. A primeira delas é uma recorrência: a toda vez que sou chamado a participar de algum encontro sobre literatura, me é feita a pergunta sobre “como você faz para ler todos os livros que chegam” — não se faz, claro, a gente seleciona, mas a pergunta também comporta uma curiosidade sobre os mecanismos do trabalho de um crítico literário. Não que haja lá fora uma curiosidade brutal sobre o que eu, pessoa física ínfima e sem relevância, estou fazendo, mas parece claro que há uma curiosidade sobre o que um resenhista literário de um jornal de grande circulação faz. E como eu ocupo esta função agora, como outros já o fizeram e outros farão depois, vejo a curiosidade como natural. Sempre que estou lá, respondendo, me vêm à cabeça uma das mais impiedosas e hilárias caricaturas do ofício da resenha literária em jornal, o texto Confissões de Um Resenhista, de George Orwell (na foto acima), reunido recentemente na coletânea Dentro da Baleia, publicada pela Companhia das Letras (Tradução de José Antônio Arantes, 2005).

A segunda razão é que, ao reler esse texto específico para escolher um trecho e colocar aqui no blog, não pude deixar fazer uma relação entre esse artigo, publicado em 1946, e a recente e incendiária polêmica envolvendo o texto no qual a crítica literária Flora Süssekind, no jornal O Globo, defendeu que o pensamento crítico nacional devia se dedicar a “matar pela segunda vez” o já falecido Wilson Martins, emblema, segundo ela, de um “crítico que já não existe mais”. Flora referia-se a textos elogiosos escritos sobre Martins por três outros críticos em atividade: Alcir Pécora, Miguel Sanches Neto e Sergio Rodrigues. O artigo de Flora, e sua vinda a público depois da morte de Martins, provocou uma onda de respostas que vão desde a veemência de um Affonso Romano de Sant’Anna à resposta de Sergio Rodrigues no próprio O Globo – passando por comentários de Deonísio da Silva e Luís Antônio Giron por exemplo. Como bem apontou o Antônio Xerxenesky, em um texto que ele publicou e depois mudou de ideia e apagou (e que, depois que eu publiquei este post, só pra me quebrar ele resolveu publicar de novo), todos os artigos citados tem lá sua parcela de razão (não é assim com todos os textos?), mas algo me parece um tanto deslocado quando uma crítica de renome e valor comprovado resolve personificar os males de uma determinada situação (a irrelevância do debate literário, o caráter ralo do atual debate crítico) em uma única pessoa – morta ainda por cima. Não sou fã, por temperamento, do argumento ad hominem: se é pra polemizar, que se polemizem ideias. Se a questão for pessoal, as pessoas fariam muito melhor saindo na porrada do que se atacando pelos jornais, e o triste na história toda é que a deselegância do ataque a um morto tomou o lugar da real discussão que Flora tentou, truculentamente, levantar.

Não pude deixar de pensar em Flora, seus argumentos sobre a irrelevância do espaço crítico hoje em dia e nessa confusão toda ao ler coisas semelhantes nesse texto de Orwell publicado em 1946 – quatro anos, portanto, antes de Martins haver começado sua carreira de crítico, provando que o problema da irrelevância progressiva da literatura e da crítica é muito mais antigo do que a vida de um único acusado a quem se apontar o dedo depois de morto. Leiam o texto e me digam se não concordam:

Confissões de um Resenhista
George Orwell

Num apartamento conjugado frio, mas abafado, cheio de pontas de cigarro e xícaras de chá pela metade, um homem de roupão surrado está sentado a uma mesa bamba, tentando achar espaço para a máquina de escrever entre as pilhas de papéis empoeirados que a rodeiam. Não pode jogar os papéis fora porque a cesta de lixo já está transbordando, e, além disso, em algum lugar entre as cartas não respondidas e as contas não pagas, é possível que haja um cheque no valor de dois guinéus que ele quase com certeza esqueceu de depositar no banco. Há ainda cartas com endereços que ele tem de passar para a agenda. Perdeu a agenda, e pensar em procurá-la, ou mesmo em procurar qualquer coisas, aflige-o com impulsos suicidas agudos.
É um homem de trinta e cinco anos, mas aparenta cinquenta. É calvo, tem varizes e usa óculos, ou os usaria se o único par não estivesse perdido o tempo todo. Se as coisas estiverem normais com ele, ele está sofrendo de subnutrição, mas se recentemente teve um período de sorte, está sofrendo de ressaca. No momento são onze e meia da manhã, e de acordo com os planos ele deveria ter começado a trabalhar duas horas atrás; mas mesmo que tivesse feito algum esforço sério para começar, teria se frustrado com os quase contínuos toques do telefone, os berros do bebê, o estrépito de uma perfuradora elétrica na rua e o ressoar dos sapatos pesados de seus credores subindo e descendo a escada. A interrupção mais recente foi a segunda entrega de correspondência, que lhe trouxe duas circulares e uma cobrança do imposto de renda impressa em vermelho.
Desnecessário dizer que essa pessoa é um escritor. Poderia ser um poeta, um romancista ou um escritor de roteiros para cinema ou programas de rádio, porque todos os literatos são bastante semelhantes, mas digamos que ele seja um resenhista literário. Meio escondido entre as pilhas de papéis está um opulento pacote contendo cinco volumes mandados por seu editor junto com um bilhete que sugere que “formam um bom conjunto”. Chegaram há quatro dias, mas por quarenta e oito horas a paralisia moral impediu o resenhista de abrir o pacote. Ontem, num momento de decisão, ele arrancou o basbante e constatou que os cinco volumes eram Palestina at the cross roads [Palestina nas encruzilhadas], Scientific dairy farming [A fazenda de leite científica], A short history of European democracy [Breve história da democracia europeia] (este com 680 páginas e quase dois quilos), Tribal customs in Portuguese east Africa [Costumes tribais na África portuguesa do leste] e um romance, It’s nicer lying down [Melhor quando deitados], provavelmente incluído por engano. A resenha — de oitocentas palavras, digamos – tem de estar “lá” até o meio-dia de amanhã.
Três desses livros tratam de assuntos que ele desconhece de tal maneira que terá de ler ao menos cinquenta páginas, se quiser evitar algum disparate que o denuncie não só para o autor (que, é claro, conhece todos os hábitos de um resenhista) como até mesmo para o leitor em geral. Às quatro da tarde terá tirado o papel que embrulhava os livros, mas ainda estará sofrendo de uma incapacidade nervosa para abri-los. A perspectiva de precisar lê-los e até o cheiro do papel, abala-o tanto quanto a perspectiva de comer pudim de arroz frio temperado com óleo de rícino. E no entanto, curiosamente, seu texto chegará à redação na hora. De alguma maneira sempre chega lá na hora. Por volta das nove da noite, sua cabeça estará de certa forma mais clara e até a madrugada ele ficará sentado num cômodo que se torna cada vez mais frio, enquanto a fumaça de cigarro se torna cada vez mais densa, passando habilmente de um livro para outro e pondo cada um de lado com um comentário conclusivo: “Meu Deus, que porcaria!”. de manhã, com a vista inflamada, mal-humorado e barba por fazer, fitará uma folha de papel em branco por uma ou duas horas até que, assustado com o ponteiro ameaçador do relógio, entrará em ação. Então, de repente, dá-lhe um estalo. Todas as velhas frase batidas – “um livro que ninguém deve perder”, “algo memorável em cada página”, “de especial valor são os capítulos que abordam” etc. etc. — encaixam-se em seus lugares num salto, como limalha de ferro obedecendo ao ímã, e a resenha terminará exatamente no tamanho certo e faltando cerca de três minutos para ser despachada. Enquanto isso, outro monte de livros heterogêneos e insossos terá chegado pelo correio. E assim vai. No entanto, com que grandes esperanças essa criatura oprimida e exasperada iniciou a carreira há apenas alguns anos.
Pareço exagerar? Pergunto a qualquer resenhista regular — qualquer um que resenhe, digamos, um mínimo de cem livros por ano — se pode afirmar com honestidade que seus hábitos e seu caráter não são como os que descrevi. Todo escritor é bem esse tipo de pessoa, mas a resenha de livros indiscriminada e prolongada é uma tarefa exaustiva, irritante e excepcionalmente ingrata. Envolve não só elogiar a produção sem valor — embora também envolva isso, como veremos mais adiante — como inventar a todo tempo reações a livros em relação aos quais não se tem nenhum sentimento espontâneo. O resenhista, conquanto possa estar embotado, é profissionalmente interessado em livros e, dos milhares que aparecem todo ano, é quase certo que existam cinquenta ou cem sobre os quais teria prazer em escrever. Se for de primeira categoria na profissão, pode conseguir dez ou vinte deles: é mais provável que consiga dois ou três. O resto de seu trabalho, por mais consciencioso que ele possa ser ao elogiar ou desaprovar, é em essência uma farsa. Ele desperdiça seu espírito imortal despejando-o na pia, meio litro por vez.
A grande maioria das resenhas oferece um relato inadequado e enganoso do livro que aborda. Desde a guerra, as editoras têm sido menos capazes do que antes de influenciar os editores dos suplementos literários e invocar um peã de louvores para cada livro que produzem, mas de outro lado o padrão da recensão caiu, devido à falta de espaço e a outros inconvenientes. Diante dos resultados, as pessoas às vezes sugerem que a solução reside em tirar as resenhas de livros das mãos de escrevinhadores. Livros sobre assuntos especializados deveriam ser abordados por especialistas e, de outro lado, uma boa quantidade de resenhas, em especial de romances, poderia ser feita por amadores. Quase todo livro é capaz de provocar sentimentos apaixonados, mesmo que apenas uma aversão apaixonada, neste ou naquele leitor, cujas ideias sobre ele decerto valeriam mais do que as de um profissional entediado. Mas lamentavelmente, como todo editor sabe, é muito difícil organizar-se esse tipo de coisa. Na prática, o editor sempre se vê recorrendo de novo à sua equipe de escrevinhadores — os “fixos”, como os chama.
Nada disso é remediável enquanto se supuser que todo livro merece ser resenhado. É quase impossível mencionar livros a granel sem enaltecer de forma grosseira a maioria deles. Antes de se ter algum tipo de relação profissional com livros, não se descobre quão ruim é a maioria deles. Em bem mais do que nove entre dez casos, a única crítica objetivamente verdadeira seria: “este livro não tem mérito”, enquanto a verdade sobre a reação do próprio resenhista provavelmente seria: “Este livro não me interessa de forma alguma, e não escreveria sobre ele a não ser que fosse pago para isso”. O público, entretanto, não pagará para ler esse tipo de coisa. Por que deveria? O público quer algum tipo de orientação para os livros que é convidado a ler, e quer algum tipo de avaliação. Mas assim que valores são mencionados, os padrões caem. Porque se alguém diz — e quase todo resenhista diz esse tipo de coisa ao menos uma vez por semana — que Rei Lear é uma boa peça e The four just men [Os quatro homens justos, de Edgar Wallace] é um bom thriller, o que significa a palavra “bom”?
Sempre me pareceu que a melhor prática seria simplesmente ignorar a grande maioria dos livros e dedicar resehas bastante longas – mil palavras no mínimo – aos poucos que parecem importar. Notas breves de uma ou duas linhas sobre livros a serem lançados podem ser úteis, mas a habitual resenha de tamanho médio de cerca de seiscentas palavras está destinada a ser inútil, ainda que o resenhista deseje com toda a sinceridade escrevê-la. De modo geral ele não deseja escrevê-la, e a produção de excertos semana após semana logo o reduz à figura oprimida de roupão que descrevi no início deste artigo. No entanto, todos neste mundo têm alguém que podem desprezar, e devo dizer, com base em minha experiência nas duas atividades, que o crítico de livros está numa situação melhor que a do crítico de cinema, que não pode sequer fazer seu trabalho em casa, devendo comparecer a eventos promocionais às onze da manhã, e de quem se espera, com uma ou duas exceções notáveis, que venda sua honra por um copo de xerex ordinário.

Comentários (4)

  • Jorge Barcellos diz: 5 de maio de 2010

    Parabens pelo novo site do segundo caderno. O texto é muito bom, e me inspira a sobreescreve-lo da seguinte forma.

    Confissões de um aspirante a resenhista
    jorge barcellos
    Num apartamento de dois quartos do bairro petrópolis, numa mesa de sala de jantar equipada com um notebook ultrapassado, outro homem de moleton surrado sentado em frete a uma pilha de livros tenta escrever mais uma resenha que será recusada novamente por vários editores. Ele não entende porque, apesar de seu esforço em reunir papéis e livros, poucas vezes consegue ter seus textos aprovados pelas redações dos jornais. Ele sequer imagina, se publicado, pedir pagamento por isso. Tem diante de si livros que acredita serem merecedores de resenhas; ao lado, uma série de e-mails de cadernos e suplementos culturais para quem enviar seus artigos. Tudo em vão, praticamente não o publicam.
    Ele sabe que está no fim do túnel, já que se chegou aos 45 anos sem publicar nenhum livro, é porque provavelmente nunca conseguirá publicar um, mesmo que tenha textos suficientes para isso. Tem barriga adquirida por anos de postura errada e falta de exercícios, tempo que preferiu dedicar as resenhas que nunca chegaram a ser publicadas. Em qualquer outro pais, seria um resenhista de sucesso e suas resenhas seriam disputadas por editores, que enviariam livros para que resenhasse. Mas á vida de nosso homem não é assim. Teve o infortúnio de nascer no sul de um pais terceiro mundista – a concepção de terceiro mundo é polêmica, como já apontou em resenha de outras obras de ciências sociais que já não lhe vem mais a memória. Recentemente – vamos contar isso como mais ou menos dois meses -teve um momento de sorte e viu publicado um artigo seu de opinião em um jornal, mesmo que, no mesmo período, houvesse enviado dez para a imprensa. Estava faceiro “publiquei um, estou no lucro! Pensava. Seu telefone nunca toca com um editor pedindo-lhe um artigo, ainda que este fosse seu sonho secreto. Olha pela janela e inveja aqueles resenhistas que recebem livros a granel – cada obra que consegue é pedida por doação. È que cada vez que deseja escrever um artigo que não será publicado, precisa se humilhar frente aos editores de plantão por um livro. A humilhação vem sob a forma de um carimbo, que é colocado no livro uma palavra impressa em letras garrafais: “cortesia”. Franceses e americanos não fazem isso. Quando você pede por e-mail uma obra, mesmo que por doação, a obra não tem as marcas da humilhação. No Brasil tem. Nossos editores fazem questão de humilhar sus resenhistas com um carimbo que lembra a marca daquele filme da Demi Moore – pensa nosso homem “como se chama mesmo?” Que inveja do resenhista de Welles, capaz de receber dezenas de livros em sua porta, pacotes, imagina. Quando nosso resenhista excluído recebe uma obra – talvez uma por semestre, e ao contrário, ao sinal do carteiro, corre para a porta para abrir o pacote nas raras vezes em que isso acontece. Embasbacado, lembra da alegria de receber Michel Maffesoli no original, anos antes de sua publicação no Brasil, ou obras de Paul Virilio, em francês, numa época em que sequer se falava em sua obra. Adiante de seu tempo, mas colocado atrás dele por editores, ninguém acreditava que as obras que aquele zé ninguém queria resenhar tinham alguma importância. Anos depois, quando algum medalhão da academia, tratava de publicar a resenha da TRADUÇÃo da obra, enfileiravam-se admiradores. Nada mais injusto! Nosso homem dá de ombros.

    Nunca arriscou discorrer sobre livros ou autores que desconhecesse. Alias, seu leque de resenhas era resumido sempre aos mesmos autores, numa eterna repetição: baudrillard, maffesoli, virilio, lyotard, deleuze, finkielkraut, bruckner, zizek, castells, castel, bauman. Sua ladainha tinha um fundamento: era preciso acompanhar toda a obra de um autor, cada uma, importando-a se fosse necessário, para ligar os argumentos do desenvolvimento do pensamento de um autor. Curiosamente, não se fez filosofo de formação, mas historiador. Não existia nada de muito significativo em seus autores, apenas unidos pelo fato do interesse em explicar o mundo.

    Para nosso homem, era disso de que devia tratar todas as resenhas, dos diveros modos de explicar o mundo. Ou ao menos as principais. Ou ao menos as abordagens da sociologia e da historia. Ou da política e da filosofia. Mas um autor de cada vez, abordado densamente, de um livro para outro, única forma de banir para a mente a expressão: “Meu Deus, que porcaria!”. Pois em autores selecionados, raras vezes temos obras ruins – ok, Maffesoli é repetitivo, baudrillard é hermético, virilio abusa das maiúsculas, lyotard é maluco, deleuze o acompanha, finkielkraut – afinal, este é de direita ou é de esquerda? – Bruckner é o melhor ensaísta que há, zizek é o novo arauto da esquerda, castells é o pensador da sociedade em rede, castel, o da sociedade e do perigo e baumam, bom, abusa da sociedade líquida que dá dó. Mas ele sabe que cada um destes autores tem uma forma original de escrever e que ele sonha secretamente imitar; que os conceitos com que trabalham dão a base para um novo discurso sobre o social, e que são lugares das mesmas frases batidas de que fala Wells – “um livro que ninguém deve perder”, “algo memorável em cada página”, “de especial valor são os capítulos que abordam” .

    Se há assim resenhistas regulares entediados com seu oficio, por outro lado há aspirantes a resenhistas que sonham com um pedaço de sombra no universo de nossos suplementos culturais. Há escritores de todo o tipo, fadados ao sucesso, ao meio sucesso e ao fracasso. È certo que nosso home é pertencente a esta ultima categoria, a do resenhista excluído, que envolve não só alguém que produz muito mas não consegue publicar, mas alguém que a maioria das pessoas nunca ouviu falar.Ele sequer consegue ser uma farsa, simplesmente porque sequer sabem de sua existência. Ele despeja litros de seu espírito por vez na pia.
    Se ao menos lhe fosse dada uma chance de resenhar, ofereceria sua visão pessoal dos livros que recebe. Mesmo que criticasse, seria uma critica baseada num certo olhar.Na prática, como todos sabem, não há lugar para todos. E os espaços dos jornais já estão todos ocupados pelos fixos, e quando surge a possibilidade de publicar em novos universos , como o virtual, através de blogs, é para ver, a cada dia “0 comentários”, ou ainda, 1 pessoa seguindo. As vezes você mesmo, que por um tropeço de teclado, incluiu-se em seu próprio séquido de não seguidores. Este sim, é pior do que o critico de cinema, que tem de sair de casa para critica: o aspirante a critico faz parte da maioria silenciada, incapaz sequer de ver pronunciada sua opinião.

  • Jorge Barcellos diz: 5 de maio de 2010

    Considerar este. Foi revisto.
    Jorge Barcellos

    Confissões de um aspirante a resenhista
    Jorge Barcellos

    Num apartamento de dois quartos do bairro Petrópolis, numa mesa de sala de jantar equipada com um notebook ultrapassado, outro homem de moleton surrado sentado em frete a uma pilha de livros tenta escrever mais uma resenha que será recusada novamente por vários editores. Ele não entende porque, apesar de seu esforço em reunir papéis e livros, poucas vezes consegue ter seus textos aprovados pelas redações dos jornais. Ele sequer imagina, se publicado, pedir pagamento por isso. Tem diante de si livros que acredita serem merecedores de resenhas; ao lado, uma série de e-mails de cadernos e suplementos culturais para quem enviar seus artigos. Tudo em vão, praticamente não o publicam.
    Ele sabe que está no fim do túnel, já que se chegou aos 45 anos sem publicar nenhum livro, é porque provavelmente nunca conseguirá publicar um, mesmo que tenha textos suficientes para isso. Tem barriga adquirida por anos de postura errada e falta de exercícios, tempo que preferiu dedicar as resenhas que nunca chegaram a ser publicadas. Em qualquer outro pais, seria um resenhista de sucesso e suas resenhas seriam disputadas por editores, que enviariam livros para que resenhasse. Mas á vida de nosso homem não é assim. Teve o infortúnio de nascer no sul de um pais terceiro mundista – a concepção de terceiro mundo é polêmica, como já apontou em resenha de outras obras de ciências sociais que já não lhe vem mais a memória. Recentemente – vamos contar isso como mais ou menos dois meses -teve um momento de sorte e viu publicado um artigo seu de opinião em um jornal, mesmo que, no mesmo período, houvesse enviado dez para a imprensa. Estava faceiro “publiquei um, estou no lucro! Pensava. Seu telefone nunca toca com um editor pedindo-lhe um artigo, ainda que este fosse seu sonho secreto. Olha pela janela e inveja aqueles resenhistas que recebem livros a granel – cada obra que consegue é pedida por doação. È que cada vez que deseja escrever um artigo que não será publicado, precisa se humilhar frente aos editores de plantão por um livro. A humilhação vem sob a forma de um carimbo, que é colocado no livro uma palavra impressa em letras garrafais: “cortesia”. Franceses e americanos não fazem isso. Quando você pede por e-mail uma obra, mesmo que por doação, a obra não tem as marcas da humilhação. No Brasil tem. Nossos editores fazem questão de humilhar sus resenhistas com um carimbo que lembra a marca daquele filme da Demi Moore – pensa nosso homem “como se chamava mesmo?” Que inveja do resenhista de Orwel, capaz de receber dezenas de livros em sua porta, pacotes, imagina. Quando nosso resenhista excluído recebe uma obra – talvez uma por semestre, e ao contrário, ao sinal do carteiro, corre para a porta para abrir o pacote nas raras vezes em que isso acontece. Embasbacado, lembra da alegria de receber Michel Maffesoli no original, anos antes de sua publicação no Brasil, ou obras de Paul Virilio, em francês, numa época em que sequer se falava em sua obra. Adiante de seu tempo, mas colocado atrás dele por editores, ninguém acreditava que as obras que aquele zé ninguém queria resenhar tinham alguma importância. Anos depois, quando algum medalhão da academia, tratava de publicar a resenha da TRADUÇÃO da obra, enfileiravam-se admiradores. Nada mais injusto! Nosso homem dá de ombros.

    Nunca arriscou discorrer sobre livros ou autores que desconhecesse. Alias, seu leque de resenhas era resumido sempre aos mesmos autores, numa eterna repetição: Baudrillard, Maffesoli, Virilio, Lyotard, Deleuze, Finkielkraut, Bruckner, Zizek, Castells, Castel, Bauman. Sua ladainha tinha um fundamento: era preciso acompanhar toda a obra de um autor, cada uma, importando-a se fosse necessário, para ligar os argumentos do desenvolvimento do pensamento de um autor. Curiosamente, não se fez filosofo de formação, mas historiador. Não existia nada de muito significativo em seus autores, apenas unidos pelo fato do interesse em explicar o mundo.

    Para nosso homem, era disso de que devia tratar todas as resenhas, dos diveros modos de explicar o mundo. Ou ao menos as principais. Ou ao menos as abordagens da sociologia e da historia. Ou da política e da filosofia. Mas um autor de cada vez, abordado densamente, de um livro para outro, única forma de banir para a mente a expressão: “Meu Deus, que porcaria!”. Pois em autores selecionados, raras vezes temos obras ruins – ok, Maffesoli é repetitivo, Baudrillard é hermético, Virilio abusa das maiúsculas, Lyotard é maluco, Deleuze o acompanha, Finkielkraut – afinal, este é de direita ou é de esquerda? – Bruckner é o melhor ensaísta que há, Zizek é o novo arauto da esquerda, Castells é o pensador da sociedade em rede, Castel, o da sociedade e do perigo e Baumam, bom, abusa da sociedade líquida que dá dó. Mas ele sabe que cada um destes autores tem uma forma original de escrever e que ele sonha secretamente imitar; que os conceitos com que trabalham dão a base para um novo discurso sobre o social, e que são lugares das mesmas frases batidas de que fala Orwel – “um livro que ninguém deve perder”, “algo memorável em cada página”, “de especial valor são os capítulos que abordam” .

    Se há assim resenhistas regulares entediados com seu oficio, por outro lado há aspirantes a resenhistas que sonham com um pedaço de sombra no universo de nossos suplementos culturais. Há escritores de todo o tipo, fadados ao sucesso, ao meio sucesso e ao fracasso. È certo que nosso home é pertencente a esta ultima categoria, a do resenhista excluído, que envolve não só alguém que produz muito mas não consegue publicar, mas alguém que a maioria das pessoas nunca ouviu falar.Ele sequer consegue ser uma farsa, simplesmente porque sequer sabem de sua existência. Ele despeja litros de seu espírito por vez na pia.
    Se ao menos lhe fosse dada uma chance de resenhar, ofereceria sua visão pessoal dos livros que recebe. Mesmo que criticasse, seria uma critica baseada num certo olhar.Na prática, como todos sabem, não há lugar para todos. E os espaços dos jornais já estão todos ocupados pelos fixos, e quando surge a possibilidade de publicar em novos universos , como o virtual, através de blogs, é para ver, a cada dia “0 comentários”, ou ainda, 1 pessoa seguindo. As vezes você mesmo, que por um tropeço de teclado, incluiu-se em seu próprio séquido de não seguidores. Este sim, é pior do que o critico de cinema, que tem de sair de casa para critica: o aspirante a critico faz parte da maioria silenciada, incapaz sequer de ver pronunciada sua opinião.

  • xerxenesky diz: 6 de maio de 2010

    Haha! O mais engraçado é que republiquei sem ter visto que estava citado aqui… Santa indecisão, Batman.

    Esses jovens…

    Carlos André

  • Sérgio Rodrigues diz: 6 de maio de 2010

    Carlos, obrigado pela dica. Não conhecia o texto do Orwell. Muito oportuno e muito divertido.
    Um abraço, Sérgio

    Opa, Sérgio, valeu a visita, grande abraço.
    Carlos André

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