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A velocidade do passado

10 de maio de 2010 5

Sou um leitor extremamente rápido — uma espécie de facilidade natural que foi alimentada até virar habilidade profissional. Dependendo do livro, posso derrubar umas 200 páginas no período de uma hora— claro, isso funciona melhor para a ficção, mas consigo ler rapidamente ensaios e livros teóricos, também, e às vezes até me pego com uma vaga nostalgia dos tempos de faculdade, quando lia desesperadamente mas isso não era parte do meu trabalho, o que significava que durante os períodos ao longo do dia nos quais eu estava trabalhando em uma biblioteca ou estagiando em alguma assessoria de imprensa eu ficava remoendo longamente a leitura mais recente (e boa parte das minhas recordações são facilitadas porque tenho, como indicador a me guiar, a lembrança de que livro eu estava lendo em determinado período da minha vida. Os livros são meus marcos temporais, e eu outra hora falo disso melhor, não era esse meu assunto principal). Hoje, lendo muito rápido para escrever muito rápido, no calor da hora, sobre um livro com data de lançamento marcada, esse remoer é mais direcionado, mais apressado e menos espontâneo, mas são as circunstâncias do jornalismo diário, não há muito a meu alcance que possa ser feito para mudar a situação, a não ser o que eu já faço: dedicar a cada leitura atenção e profissionalismo máximos.

Mas de vez em quando eu esbarro em um livro que me faz demorar bem mais do que o planejado – e não pelo calombo eventual sobre o qual já escrevi aqui mesmo no blog, e sim porque é um livro tão desconcertante que vai criando ressonâncias na minha cabeça, e passo mais tempo pensando nos ecos que o livro produz em mim do que efetivamente lendo.

Arrumando umas estantes, topei com um romance cuja leitura produziu exatamente esse efeito em mim: O Passado, de Alan Pauls, lançado por aqui em 2007, e cuja edição belissima da Cosac Naify (com tradução de Josely Baptista Vianna, 480 páginas) eu comecei a ler no mais comezinho e prosaico dos ambientes: sentado, em um sábado de maio daquele ano, em uma lavanderia na Getúlio Vargas, para onde havia levado uma sacola de roupas que precisavam ser levadas depois de eu ter viajado para minha cidade natal para o aniversário de minha filha, que mora lá com a mãe. Depois daquela uma hora e meia em uma cadeira plástica desconfortável sentindo no ar cheiro de sabão em pó e amaciante, eu havia sido profundamente perturbado pela maneira como Pauls — que eu só conhecia como personagem do romance O Mal de Montano, do espanhol Villa-Matas, e que por isso achava que nem existia de verdade — fazia a dissecção impiedosa e ao mesmo tempo comovente de um amor putrefato.

Não foi apenas gostar da leitura. Talvez por circunstâncias muito íntimas daquela época, o livro me arrebatou de tal modo que não consegui parar de lê-lo, cada frase, cada página florescia na minha frente como uma daquelas coisas lindas que a gente precisa ler aos poucos porque se sente compelido a escrever na própria cabeça uma história como aquela – essa divagação perdida que mencionei faz pouco. É um romance que dialoga com coisas enterradas e muito profundas, — e faço esta avaliação não com a pressa ou a tecnicidade de um suposto crítico, e sim consciente do caráter extremamente subjetivo desta apreciação (apreciações subjetivas que eu, se fosse realmente inteligente, evitaria, porque não foram poucas as vezes em que eu indiquei a alguém um livro que havia me perturbado com paixão e dor e a criatura, ao lê-lo, não encontrou naquelas páginas motivo nenhum para minha exaltação, não viu um reles fragmento do que eu havia visto).

Não é à toa que muita teoria já se fez sobre a experiência da leitura e o quanto as circunstâncias pessoais da vida de um leitor influem na natureza de seu encontro com um livro e o quanto elas próprias são também responsáveis pela fruição do livro, pela sua recepção, pela mágica que ele provoca e que por vezes desaparece no meio do processo. As pequenas mudanças que se processam em nós no período que demoramos para ler um livro podem transformar a obra que começamos a ler em outra totalmente diferente quando a concluímos.

Mas eu falava de O Passado, e essa falta de conexão com outros leitores do livro ficou clara no momento em que outras pessoas que eu conhecia também se puseram a lê-lo — algumas delas motivadas pelo filme que Hector Babenco fez baseado no romance e que, ao ver, considerei um pálido resumo, quase uma anotação rala tentando preservar a trama do livro, uma trama em si bem banal: o que a torna única é a maneira minuciosa e obsessiva como ele se dedica a desconstruir — por meio de uma linguagem suntuosa, com um pé no barroco e outro no científico — filamentos microscópicos do que se passa ao longo de uma relação e de uma separação. E de como a fantasia do amor eterno, olhada com a crueldade necessária, é antes a obsessão eterna, um jogo de loucura e violência.

O Passado paralisou minha velocidade de leitura — uma, duas páginas e eu estava viajando longe do caminho para o qual o romance pretendia me levar, mas ao mesmo tempo trilhava nessa viagem uma vereda aberta pelas associações despertadas pelo romance. Não é à toa que demorei mais de 15 dias para concluí-lo, e o carreguei para cima e para baixo, espantado com a história de seu protagonista, um livro que diz que “o amor é uma torrente contínua”, um livro sobre Rímini, um sujeito apático que, tradutor de ofício (por coincidência mais ou menos na  mesma época ou um pouco depois saíram por aqui edições de Travessuras da Menina Má, de Vargas Llosa, e Coração Tão Branco, de Javier Marías, dois outros romances nos quais o protagonista é também tradutor e intérprete profissional) vai perdendo, com os traumas causados nele pela obsessão mórbida da ex-namorada, a capacidade do segundo idioma.

Mas talvez você o tenha lido bem rápido e não concorde em nada comigo. Ou talvez ainda venha a lê-lo e igualmente discorde de minha apreciação fervorosa. Talvez a leitura e suas circunstâncias sejam em nós elas próprias um segundo idioma, tão difícil de traduzir e de recuperar para quem não os desenvolveu como é para o Rímini do livro recuperar o que perdeu.

Comentários (5)

  • Segundo Caderno » Arquivo » Há livros que nos paralisam: “O Passado”, de Alan Pauls diz: 10 de maio de 2010

    [...] Confira o post na íntegra ali no Mundo Livro. Share/Save Tags: Literatura Estrangeira Escrito por da Redação em 10/05/10 às 12:54 [...]

  • Camila diz: 15 de maio de 2010

    Também demorei um bocado de tempo lendo esse livro, mais do dobro do que costumo demorar em leituras comuns de livros de porte semelhante.E praticamente pelo mesmo motivo: o livro transcendia a mera recorrência de imagens já vistas e vividas, ele era simplesmente desconcertante no modo como tratava de todos os assuntos de maneira obsessiva, característica que o acompanha ao longo de toda a história. Às vezes me deparava com passagens que não conseguia transpor, elas ficavam ecoando em minha cabeça…

    Considero um ótimo livro, mas de difícil indicação justamente por isso. Não é algo que vá encontrar apelo em qualquer um, pessoas que você conheça apenas superficialmente. Para alguns pode ser até uma leitura exremamente penosa, se a levarem adiante.

    P.S.: realmente, a versão adaptada para os cinemas, que além de tudo substitui o pintor ficitício por Klimt, soa como fragmentos perdidos de uma vida rumo à destruição. Não me agradou, muita condensação que pouco transmite a real inquietação.

  • p. diz: 21 de maio de 2010

    Um dos livros mais lindos que já li!

  • Sofia Aimée diz: 17 de setembro de 2010

    Feliz em ler esse post. Faz algum tempo que realizei a leitura de “O passado”, e, confesso, cheguei a me sentir culpada pela demora, enquanto alguns colegas disseram ler com rapidez. Mas, ao ler seu post fiquei aliviada, rs. Sensações parecidas…
    Abraços,
    Sofia Aimée

  • Paula diz: 23 de novembro de 2011

    estou lendo “o passado” no momento. e bem devagar também. parece ser uma história que, de tão arrebatadora, precisa ser digerida aos poucos. ainda me falta muito para terminar a leitura, mas o livro definitivamente já me conquistou.
    ah, no mesmo caminho das histórias de tradutores que sofrem por amor, conto aqui que li “as travessuras da menina má”. gostei demais do livro, o qual, ao contrário de “o passado”, li de modo compulsivo, sem conseguir largar por um minuto até que chegasse ao fim!
    beijos

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