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O silêncio das viagens

13 de maio de 2010 3

Encontrei a tumba de Géricault, no Père Lachaise, num domingo de outubro. As ruas do cemitério de Paris estavam amarelas, cobertas por folhas de plátanos. Os túmulos arejados pela brisa constante e gélida. Balzac, Chopin, Proust, Jim Morrison rodeado por uma multidão, com guitarras e flores vermelhas. Mausoléus de cheiro ácido. Uma lápide com poderes de fertilidade. O caminhar amaciado pelas folhas, seguindo por aleias tortas.
Oscar Wilde está aqui, soprou Laura, abraçada ao seu jazigo de concreto, carimbado por beijos de batom. Outras sepulturas, revestidas com musgo entre as gramíneas, comprovavam os séculos esquecidos. O tempo para sempre perdido. Bebi um gole de vinho bordeaux sentado nas escadarias da eternidade, conversando com almas notáveis. Outros goles a esse exílio involuntário, em forma de cadáver, que não acaba nunca.
Nessa cidade gótica, de edifícios vazios, através das lajes mal-assentadas, o vento renova o cheiro da urina dos gatos. E há tantas lajes sinuosas, até nos degraus dos longos passeios, que tudo aqui parece acomodar-se, de tempos em tempos, ao ritmo dos mortos.
As vozes embaraçadas de outros turistas, em meio aos túmulos, faziam coro para o miado dos felinos. “Por aqui, por ali…”, diziam. Ao longe, a música de Rossini. Allan Kardec e um rangido de portas. Eles também nos ouvem do outro lado do mármore.
Desviamos por um caminho lateral, mais estreito, seguindo o burburinho de vozes. Próximo ao túmulo de Edith Piaf, um grupo de pessoas vestidas de preto acompanhava um enterro. O cadáver estava cercado por uma notável vizinhança. Apenas os lenços, enxugando as lágrimas, eram brancos. Combinavam com o céu, recortdado pelos galhos secos das árvores. Uma senhora esguia assoou o nariz, fazendo balançar as abas de renda do seu chapéu. O homem de cavanhaque comprido soltou baforadas com um cachimbo, enquanto consolava o choro de um menino.

A coletânea Silêncio em Siena (Editora 7Letras, 200 páginas, R$ 32), estreia na ficção do artista gráfico e fotógrafo Flávio Wild, subverte a noção comum associada à expressão “livro de viagem”. O livro – resultado de andanças do autor pela Europa – alterna textos e fotos para narrar episódios ficcionais ocorridos em 15 cidades do velho continente. Wild não faz contos de turista. Suas histórias acompanham, ao longo dos 15 contos, um casal de viajantes por cada uma das cidades europeias — mas o cenário não toma o controle da narrativa. Em vez da descrição estéril de pontos turísticos, Wild concentra-se em episódios: encontros com personagens da paisagem local, iluminuras que remetem a sonho e delírio

O primeiro conto, O Sorriso de Fiona, apresenta o casal de protagonistas, o narrador e sua esposa, Laura, personagens que se repetirão ao longo do livro e que, numa operação metaficcional que acrescenta mais uma camada ao livro, são baseados no próprio artista e em sua esposa. Afetada pela falta de sono da longa viagem, a dupla termina por ver, em Edimburgo, uma dupla natureza, maligna e benigna, ecoando a cisão entre Doutor Jekyll e Mister Hyde narrada pelo escocês Robert Louis Stevenson no clássico O Médico e o Monstro. Para o casal, o ancestral castelo de Edimburgo, não é um ponto de interesse, mas um refúgio para se esconder da dona da hospedaria em que se alojaram, criatura cujo sorriso se derrete em um esgar maligno, seja ele real ou delírio provocado pelo cansaço.

Quase todos os contos são permeados por essa aura onírica, a sublinhar que a viagem física é também um deslocamento entre realidades, entre planos que se entrechocam e se invadem pelo deslocamento: o real e o irreal. Levando consigo a realidade íntima do lugar de onde partiu, é natural que o viajante veja nos destinos em que desembarca limites pouco delineados entre o real e o irreal. Em Amsterdã, no conto À Beira do Amstel, após uma “viagem” de maconha (legalizada no país) o casal encontra um cadáver desfigurado boiando no rio Amstel. O cadáver  se revela uma estátua de cera desaparecida. Em O Velho do Parc Güell, o casal se perde pelas labirínticas e indistintas ruas de Barcelona, guiados por um velho desconhecido cuja identidade guarda uma sobrenatural interrogação.

A cada conto, a cada cidade, fotografias tiradas pelo próprio Wild, em solene preto-e-branco, adicionam uma nova camada visual à trama da viagem (a imagem que ilustra este post foi fotografada por Flávio Wild em Paris, cenário do conto Do Alto dos Mausoléus, do qual reproduzimos o trecho acima). As imagens, belíssimas, compõem um mosaico de detalhes visuais de cada cidade – o resultado é visualmente impactante, mas fotos e contos não chegam a se unir em um todo narrativo, e por isso o recurso, em Silêncio em Siena, não chega a ter o brilho que W.G. Sebald soube tirar dele em obras como Austerlitz, por exemplo. Uma que outra narrativa também abusa da repetição do mesmo mote sobrenatural para sua conclusão – a própria Do Alto dos Mausoléus tem um desfecho que lembra o também já citado O Velho do Parc Guell, e tal redundância prejudica o clima de estranhamento tão bem construído em ambos. Mas Wild sabe trabalhar os subentendidos com sutileza, e, no conjunto, o livro é preciso em apresentar o clima de estranheza tão familiar aos viajantes que adentram não apenas outras fronteiras, mas outras dimensões.

Comentários (3)

  • PEDRO GIRARDI diz: 13 de maio de 2010

    EM BRÉVE SERÁ LANÇADO EM PORTO ALEGRE UM DOS MAIS ESPERADOS LIVROS DE FICÇÃO DOS ULTIMOS TEMPOS( CRONICAS DOS SENHORES DE CASTELO) G BRASMAM X G NÓRRIS…..UM ESPETÁCULO Á HISTÓRIA ENVOLVENTE…É UMA SAGA DE QUATRO EDIÇÕES QUE TE LEVA Á VIAJAR NA MAGIA DA FICÇÃO……E ESTÁ COTADO INCLUSIVE PARA UM GRANDE FILME NOS EEUU…….AGUARDEM……….

  • Mundo Livro » Arquivo » Os Vencedores do Açorianos diz: 13 de dezembro de 2010

    [...] Flávio Wild, por Silêncio em Siena, de Flávio Wild [...]

  • 3por4 » Arquivo » Marco de Menezes leva Açorianos diz: 14 de dezembro de 2010

    [...] Flávio Wild, por Silêncio em Siena, de Flávio Wild [...]

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