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O BOOK e o L.I.V.R.O.

17 de maio de 2010 3

Devo ter recebido a mensagem contendo o vídeo abaixo de umas 10 pessoas diferentes, todas sugerindo que eu publicasse o bagulho aqui no blog. Eu vi o vídeo e achei bem bacaninha, mas relutei em colocar aqui no Mundo Livro justamente pela grande difusão da brincadeira, que a essa altura todo mundo já viu no twitter ou encontrou em algum outro blog por aí. Claro que você já viu, o vídeo em questão é um esquete em espanhol no qual um rapaz — com óculos de frequentador de rave e blusa fosforescente que parece feita com o mesmo tecido daqueles coletes de polícia rodoviária que brilham no escuro — apresenta um “produto revolucionário” chamado Dispositivo de Conhecimento Bio-Óptico Organizado (o que, imagino, dá a sigla em inglês Bio-Optical Organized Knowledge device, o que justifica a abreviação BOOK). Na prática, é a apresentação de uma tecnologia ancestral, a do livro, como se se tratasse do mais novo gadget desenvolvido especialmente para estes tempos eletrônicos

Se você não se lembra ou, caso improvável, não viu, pode assistir aí embaixo, na janelinha do Youtube, que já voltamos.

Cá estamos de novo. Como eu disse, eu não ia colocar o vídeo aqui no blog justamente por achar que ele já havia circulado demais e não era novidade, mas aí esses dias me deu o estalo do que eu poderia acrescentar à exibição do vídeo, pura e simples: a minha perplexidade com a semelhança que esse texto apresenta, em conceito e ideias, com um texto antigo, bem antigo do mestre Millôr Fernandes, propagandeando justamente as virtudes de um dispositivo semelhante: o Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O. Ele andou sendo republicado faz uns anos, acho que 2006 ou 2007, na coluna de Millôr na Veja, mas é bem anterior, tanto que acho que ele está incluído entre os verbetes da primeira edição ainda do Millôr Definitivo (L&PM, 1994) – espero que esta informação esteja correta, o meu exemplar do livro está em São Gabriel e não tenho como consultá-lo no momento. O fato é que o texto, que reproduzo abaixo (preservando os termos destacados em negrito pelo próprio autor), vai exatamente na mesma linha do vídeo, como vocês podem ver:

L.I.V.R.O.

Existe entre nós, muito utilizado, mas que vem perdendo prestígio por falta de propaganda dirigida, e comentários cultos, embora seja superior a qualquer outro meio de divulgação, educação e divertimento, um revolucionário conceito de tecnologia de informação.

Chama-se de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O.

L.I.V.R.O. que, em sua forma atual, vem sendo utilizado há mais de quinhentos anos, representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, nem pilhas. Não necessita ser conectado a nada, ligado a coisa alguma. É tão fácil de usar que qualquer criança pode operá-lo. Basta abri-lo!

Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de folhas numeradas, feitas de papel (atualmente reciclável), que podem armazenar milhares, e até milhões, de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém permanentemente em seqüência correta. Com recurso do TPO – Tecnologia do Papel Opaco - os fabricantes de L.I.V.R.O.S podem usar as duas faces (páginas) da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os custos à metade!

Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para fazer L.I.V.R.O.S com mais informações, basta usar mais folhas. Isso porém os torna mais grossos e mais difíceis de ser transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema, visivelmente influenciados pela nanoestupidez.

Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, no próprio cérebro, sem qualquer formatação especial. Lembramos apenas que, quanto maior e mais complexa a informação a ser absorvida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.

Vantagem imbatível do aparelho é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite acesso instantâneo à próxima página. E a leitura do L.I.V.R.O. pode ser retomada a qualquer momento, bastando abri-lo. Nunca apresenta “ERRO FATAL DE SENHA“, nem precisa ser reinicializado. Só fica estragado ou até mesmo inutilizável quando atingido por líquido. Caso caia no mar, por exemplo. Acontecimento raríssimo, que só acontece em caso de naufrágio.

O comando adicional moderno chamado ÍNDICE REMISSIVO, muito ajudado em sua confecção pelos computadores (L.I.V.R.O. se utiliza de toda tecnologia adicional), permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder na busca com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com esse FOFO (softer) instalado.

Um acessório opcional, o marcador de páginas, permite também que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização, mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou tipo de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. Todo L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso o usuário deseje manter selecionados múltiplos trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com a metade do número de páginas do L.I.V.R.O.

Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O., por meio de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada – L.A.P.I.S.

Elegante, durável e barato, L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro, como já foi de todo o passado ocidental. São milhões de títulos e formas que anualmente programadores (editores) põem à disposição do público utilizando essa plataforma.

E, uma característica de suprema importância: L.I.V.R.O. não enguiça!

Mas será que não enguiça mesmo? O carinha desse outro vídeo logo abaixo talvez tivesse outro depoimento a dar:

Comentários (3)

  • Simone Saueressig diz: 17 de maio de 2010

    MA-RA-VI-LHO-SO (ambos vídeos e apesar do gostinho de plágio do Book…)

    Abraços,

    Simone

  • Kelli Pedroso diz: 17 de maio de 2010

    Eu já conhecia o texto do Millor, mas desconhecia o vídeo. Adoro teu blog. Beijo!

    Opa, obrigado, Kelli. Continue nos visitando.
    Abraço.

    Carlos André

  • Tássia Kastner diz: 18 de maio de 2010

    Olá, Carlos

    A informação do ano de publicação está correta. E desde 2002, o livro está disponível também na Coleção L&PM Pocket.
    ;-)

    Na verdade a informação que eu torcia para estar correta era que o texto está incluído no livro – o ano eu tinha certeza. Rere.

    Carlos André

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