Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Tradução e Reação - 12

17 de maio de 2010 4

A volta às livrarias do clássico Facundo, monumental estudo sobre a formação do gaúcho escrito pelo político e intelectual argentino Domingos Faustino Sarmiento (1811-1888), proporciona o gancho apropriado para resgatarmos uma série que vínhamos negligenciando injustamente: a da comparação entre traduções diferentes de uma mesma obra literária. É o tipo de brincadeira que eu particularmente gosto muito, acho que é sempre fascinante e, por que não, instrutivo, ver que tipos de soluções um determinado tradutor encontrou para uma determinada dificuldade oferecida pelo texto original (tenho a esperança de que esse seja um tipo de distração que agrada aos leitores em geral, embora a maioria das pessoas que eu conheça que curtem esse tipo de brincadeira sejam tradutores de ofício, inclusive eu).

Facundo foi escrito na década de 1840, quando seu autor, político atuante do partido unitarista, estava exilado da pátria devido às constantes mudanças da encapelada maré política local. É considerado um dos pilares da literatura argentina e latino-americana. Sarmiento (o cidadão simpático com cara de buldogue na foto acima) estava no Chile quando começou a escrevê-lo, e o ensaio veio a público em 1845, em 25 capítulos editados em fascículos no jornal El Progreso, de Santiago – no jornal, a série saiu com o o extenso nome de Civilización i Barbarie: Vida de Juan Facundo Quiroga i Aspecto Fisico, Costumbres i Ábitos de la República Argentina. Para edições posteriores em livro, o título foi reduzido para Facundo, Civilización i Barbárie.

Não é por acaso que Sarmiento dá ao relato o nome de uma figura real, o caudilho Juan Facundo Quiroga (1788-1835), morto em uma emboscada. Facundo fora um dos generais a serviço do tirano Juan Manuel de Rosas (1793-1877) – e foi por sua filiação ao grupo dos adversários políticos de Rosas que Sarmiento precisou embarcar para o exílio chileno, que se estenderia por Europa, África e Estados Unidos antes de o autor conseguir voltar ao país, em 1851.

A vida de Facundo é apenas uma parte do que o escritor reproduz em seu livro, que também esmiúça os tipos e os costumes do pampa, o modelo social e econômico vigente no latifúndio argentino e a maneira como tal modelo dava forma à atuação política no país. Nessas páginas, o autor ataca com virulência e paixão o tirano Rosas. Sarmiento nunca passou da escola primária, mas foi um dos grandes responsáveis pelos altos ínidces de instrução e alfabetização que os vizinhos hermanos ostentam ainda hoje – sua reforma do ensino no país assentou as bases sobre as quais se formaram gerações. Ele foi um dos nomes mais discutidos por Borges em seus ensaios e poemas sobre a identidade argentina.

Facundo volta às livrarias em breve em uma belíssima edição da Cosac Naify, com tradução e notas de Sérgio Alcides. O que nos fornece um pretexto para uma comparação com outra edição, esta de 1996, publicada em parceria pelas editoras da PUCRS e da UFRGS e com tradução do escritor gaúcho Aldyr Garcia Schlee, autor de mais de duas dezenas de livros e, curiosamente, do desenho do novo uniforme da Seleção Brasileira, escolhido em concurso em 1953 para substituir o branco associado à derrota de 1950. Sim, eu sei, isso não tem nada a ver com o post, mas é época de Copa de qualquer forma, não é mesmo?

Vamos então comparar os primeiros parágrafos do texto de Sarmiento, primeiramente na tradução feita por Schlee, também autor do prefácio da edição:

Sombra terrível de Facundo! Vou evocar-te para que, sacudindo o ensangüentado pó que cobre tuas cinzas, venhas a explicar-nos a vida secreta e as convulsões internas que dilaceram as entranhas de um povo, nobre povo!
Tu possuis o segredo: revela-no-lo!
Mesmo depois de 10 anos de tua morte trágica, tanto o homem das cidades quanto o gaúcho das planícies argentinas, tomando diversos caminhos no descampado, ainda diziam: “Não! Ele não está morto! Ainda vive! Ele virá!”.
Certo! Facundo não morreu: está vivo nas tradições populares, na política e nas revoluções argentinas; em Rosas, seu herdeiro, seu complemento – pois a alma de Facundo passou para este outro molde mais acabado, mais perfeito; e o que nele era só instinto, iniciação, tendência, converteu-se, em Rosas, em método, efeito e fim. A natureza campestre, colonial e bárbara, transformou-se, nesta metamorfose, em arte, em sistema e em política regular, apresentando-se ao mundo como o modo de ser de um povo encarnado num homem que aspirou tomar ares de gênio capaz de dominar os acontecimentos, as pessoas e as coisas. Facundo, provinciano, bárbaro, valente, audaz, foi substituído por Rosas, filho da culta Buenos Aires, sem ser culto ele mesmo; por Rosas, falso, coração frio, espírito calculista, que faz o mal sem paixão e organiza lentamente o despotismo com toda a inteligência de um Maquiavel. Tirano sem rival hoje na terra, por que seus inimigos querem contestar-lhe o título de Grande, que lhe prodigalizam seus cortesãos? Pois grande e muito grande é, para glória e vergonha de sua pátria; porque, se pôde encontrar milhares de seres degradados que se atrelam ao seu carro para arrastá-lo por cima de cadáveres, também se encontram aos milhares as almas generosas que em 15 anos de lide sangrenta não desesperaram de vencer o monstro que nos propõe o enigma da organização política da República. Um dia virá, finalmente, em que se resolverá o enigma – e a Esfinge Argentina, metade mulher pelo que tem de covarde, metade tigre pelo de sanguinária, morrerá, dando à Tebas do Prata a condição elevada que lhe cabe entre as nações do Novo Mundo.
Contudo, para desatar este nó que a espada não pôde cortar, é preciso estudar cuidadosamente as voltas e revoltas dos fios que o formam e buscar nos antecedentes nacionais, na configuração do solo, nos costumes e tradições populares, os pontos em que estão presos.

Vamos agora comparar com o mesmo trecho na nova tradução feita por Sérgio Alcides para a edição mais recente, da Cosac, que traz um prólogo assinado pelo escritor argentino Ricardo Piglia e um posfácio de Francisco Foot Hardman, crítico literário e professor titular da Unicamp:

Sombra terrível de Facundo, vou evocar-te, para que te ergas, sacudindo o pó ensanguentado que cobre tuas cinzas, e nos explique a vida secreta e as convulsões internas que dilaceram as entranhas de um povo nobre! Tu possuis o segredo: revela-o para nós! Dez anos depois de tua trágica morte, o homem das cidades e o gaúcho das planícies argentinas, ao tomarem diferentes sendeiros no deserto, ainda diziam: “Não, não morreu! Ainda vive! Ele virá!”. Certo! Facundo não morreu: está vivo nas tradições populares, na política e nas revoluções argentinas; em Rosas, seu herdeiro, seu complemento: sua alma passou para outro molde, mais acabado, mais perfeito; e o que nele era só instinto, iniciação, tendência, com Rosas se converteu em sistema, efeito e fim. A natureza campestre, colonial e bárbara se transformou, nessa metamorfose, em arte, sistema e política regular, capaz de se apresentar em face do mundo como o modo de ser de um povo encarnado num homem que aspirou a tomar os ares de um gênio que domina os acontecimentos, os homens e as coisas. Facundo, provinciano, bárbaro, valente, audaz, foi substituído pelo general Rosas, filho da culta Buenos Aires, sem o ser ele próprio; pelo general Rosas, falso, coração gelado, espírito calculista, que faz o mal sem paixão e organiza lentamente o despotismo com toda a inteligência de um Maquiavel. Tirano hoje sem rival na terra, por que seus inimigos lhe contestam o título de Grande, que lhe foi prodigalizado por seus cortesãos? Sim, grande e muito grande ele é, para glória e vergonha de sua pátria, porque, se encontrou milhares de seres degradados que se atiram sobre seu carro a fim de arrastá-lo por cima de cadáveres, também se acham aos milhares as almas generosas que em quinze anos de sangrenta lide, não desesperaram de vencer o monstro que nos propõe o enigma da organização política da República. Virá o dia, enfim, em que o resolvam: e a Esfinge Argentina, metade mulher, pelo que tem de covarde, metade tigre, pelo que tem de sanguinário, morrerá por terra, dando à Tebas do Prata o grau elevado que lhe cabe entre as nações do Novo Mundo.
No entanto, para desatar esse nó que a espada não pôde cortar, é preciso estudar prolixamente as voltas e as revoltas dos fios que o formam, e buscar nos antecedentes nacionais, na configuração do solo, nos costumes e nas tradições populares, os pontos em que estão presos.

Como seria de se esperar de duas versões de um texto em espanhol de não ficção, as mudanças entre um e outro restringem-se mais a nuanças de do que particularmente a pontos cruciais – a edição de Schlee abre mais parágrafos, por exemplo, do que a de Alcides, que nisso fica mas próxima da original. Confesso também que a mesóclise no final da frase “Tu possuis o segredo: revela-no-lo!” me soou menos fluente do que a solução encontrada por Alcides, mas aqui é Schlee quem segue de perto o original espanhol. Mas o que me parece é que ambos os tradutores foram felizes em preservar o tom feroz do passional Sarmiento quando fala do tirano que o exilara – algo que é possível comprovar pelo mesmo trecho no idioma original, abaixo (espero que o esquema dos acentos ao contrário do espanhol sobreviva na configuração dos computadores de vocês):

¡Sombra terrible de Facundo, voy a evocarte, para que, sacudiendo el ensangrentado polvo que cubre tus cenizas, te levantes a explicarnos la vida secreta y las convulsiones internas que desgarran las entrañas de un noble pueblo! Tú posees el secreto: ¡revélanoslo! Diez años aún después de tu trágica muerte, el hombre de las ciudades y el gaucho de los llanos argentinos, al tomar diversos senderos en el desierto, decían: «¡No, no ha muerto! ¡Vive aún! ¡Él vendrá!» ¡Cierto! Facundo no ha muerto; está vivo en las tradiciones populares, en la política y revoluciones argentinas; en Rosas, su heredero, su complemento: su alma ha pasado a este otro molde, más acabado, más perfecto; y lo que en él era sólo instinto, iniciación, tendencia, convirtióse en Rosas en sistema, efecto y fin. La naturaleza campestre, colonial y bárbara, cambióse en esta metamorfosis en arte, en sistema y en política regular capaz de presentarse a la faz del mundo, como el modo de ser de un pueblo encarnado en un hombre, que ha aspirado a tomar los aires de un genio que domina los acontecimientos, los hombres y las cosas. Facundo, provinciano, bárbaro, valiente, audaz, fue reemplazado por Rosas, hijo de la culta Buenos Aires, sin serlo él; por Rosas, falso, corazón helado, espíritu calculador, que hace el mal sin pasión, y organiza lentamente el despotismo con toda la inteligencia de un Maquiavelo. Tirano sin rival hoy en la tierra, ¿por qué sus enemigos quieren disputarle el título de Grande que le prodigan sus cortesanos? Sí; grande y muy grande es, para gloria y vergüenza de su patria, porque si ha encontrado millares de seres degradados que se unzan a su carro para arrastrarlo por encima de cadáveres, también se hallan a millares las almas generosas que, en quince años de lid sangrienta, no han desesperado de vencer al monstruo que nos propone el enigma de la organización política de la República. Un día vendrá, al fin, que lo resuelvan; y la Esfinge Argentina, mitad mujer, por lo cobarde, mitad tigre, por lo sanguinario, morirá a sus plantas, dando a la Tebas del Plata el rango elevado que le toca entre las naciones del Nuevo Mundo.
Necesítase, empero, para desatar este nudo que no ha podido cortar la espada, estudiar prolijamente las vueltas y revueltas de los hilos que lo forman, y buscar en los antecedentes nacionales, en la fisonomía del suelo, en las costumbres y tradiciones populares, los puntos en que están pegados
.

E vocês? o que acharam?

>>> Confira aqui os demais posts da série Tradução e Reação

Comentários (4)

  • Segundo Caderno » Arquivo » Nova edição de Facundo, de Sarmiento diz: 17 de maio de 2010

    [...] tradução nova e uma versão anterior da obra assinada pelo escritor gaúcho Aldyr Garcia Schlee. Clique aqui Share/Save Tags: Domingos Faustino Sarmiento, Ensaio, Facundo, Literatura Argentina Escrito por [...]

  • Cultura ZH » Arquivo » 200 anos de Argentina diz: 21 de maio de 2010

    [...] ainda pouco conhecido em nosso país. Mais informações sobre o lançamento da Cosac Naify no blog Mundo Livro. Outro lançamento importante é Prólogos _ Com um Prólogo de Prólogos, de Jorge Luis Borges, no [...]

  • xnesky diz: 23 de maio de 2010

    Eu tinha lido a edição em português antiga porque apanhei para o espanhol do século XIX e, pelos excertos, posso dizer que a nova da Cosac parece mais interessante. Maior fluência, sem dúvida.

  • E dá-lhe Fierro… | Mundo Livro diz: 23 de fevereiro de 2012

    [...] o presidente argentino Domingo Faustino Sarmiento, inimigo político de Hernández e autor de Facundo, outra obra clássica da literatura argentina, para quem o gaúcho do pampa era um "selvagem" que atravancava a processo de "civilização" da [...]

Envie seu Comentário