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Os domínios da Stasi

18 de maio de 2010 0

Berlim, Inverno de 1996

Estou de ressaca e avanço como um carro pela multidão na estação Alexanderplatz. Por várias vezes calculo mal o espaço que ocupo e raspo num latão ou num daqueles postes com propaganda. Amanhã, manchas roxas vão aparecer em minha pele, como uma foto surgindo do negativo.
Junto da parede, um homem se volta, sorrindo e fechando a braguilha. Faltam-lhe os cordões do sapato e alguns dentes — rosto e sapato igualmente negligentes. Outro homem, de macacão, segurando uma vassoura do tamanho daquelas usadas para limpar as quadras de tênis, joga bolinhas de desinfetante pela plataforma. Constrói arcos de pó verde, cigarro e urina. Um bêbado matinal caminha como se o chão não fosse segurá-lo.
Vou pegar o metrô para a Ostbahnhof, a estação ferroviária de onde sai um trem regional para Leipzig, a cerca de duas horas de Berlim. Sento-me num banco verde, contemplo azulejos verdes, respiro ar verde. De repente, não me sinto muito bem. Preciso chegar rapidinho à superfície e faço o caminho de volta, escada acima. No nível da rua, a Alexanderplatz é uma gigantesca extensão em concreto cinza, projetada para fazer com que as pessoas se sintam pequenas. Funciona.
Está nevando lá fora. Sigo pela neve suja e derretida em direção aos banheiros. Como as linhas de metrô, os banheiros ficam embaixo da terra, mas ninguém pensou em conectá-los à estação correspondente. À medida que vou descendo os degraus, o cheiro enjoado de desinfetante é onipresente.
Uma mulher enorme, de avental roxo e maquiagem pesada, encontra-se postada lá embaixo. De pé, encostada num balcão de vidro, ela guarda sua pilha de preservativos, rolos de papel e absorventes. Sem dúvida, uma mulher que não teme o lixo da vida. Sua pele é suave e brilhante, e ela exibe muitos queixos macios. Deve ter uns 65 anos.
“Bom Dia”, cumprimento. Sinto-me esquisita. Ouvi histórias sobre pesarem a comida ingerida e as fezes expelidas por bebês alemães na tentativa de se obter a medida da vida. Sempre achei inapropriado esse tipo de espectadora maternal. Usei o toalete, saí e depositei uma moeda na bandeja dela. Penso comigo que o propósito das gotas de desinfetante é mascarar os cheiros dos corpos humanos com coisa pior.
“Como está o tempo lá em cima?”, a mulher pergunta, sinalizando com a cabeça para o topo da escada.
“Bem frio.” Ajeito minha pouca bagagem. “Mas não está tão ruim, a camada de gelo fino na rua ainda não está tão grande.”
“Isso ainda não é nada”, ela desdenha.
Não sei se é ameaça ou bazófia. É o que chamam por aqui de
Berliner Schnauze — aquela tromba berlinense. A postura habitual, estampada na cara. Não quero ficar ali nem tampouco subir a escada rumo ao frio. O cheiro de desinfetante é tão forte que não sei dizer se estou me sentindo melhor ou mais enjoada.
“Faz vinte e um anos que estou aqui, desde o inverno de 1975. Vi coisa bem pior do que isso.”
“É bastante tempo”
“Com certeza. Tenho meus fregueses habituais, posso dizer a você. Eles me conhecem, eu conheço todos. Uma vez veio um príncipe, um Von Hohenzollern.”
Imagino que ela use o truque do príncipe com todo mundo. Mas funciona: estou curiosa. “Ã-hã, e isso foi antes ou depois da queda do muro?”
“Antes. Ele veio do lado ocidental para passar o dia aqui. Costumavam aparecer muitos ocidentais, você sabe. Ele me convidou” — ela dá uns tapinhas com a mão espalmada nos seios enormes — “para visitar seu palácio. Mas é claro que não pude ir.”
Claro que ela não pôde ir: O Muro de Berlim estendia-se por alguns quilômetros a partir dali, e não havia com passar para o outro lado. Junto com a Grande Muralha da China, era uma das estruturas mais extensas jamais construídas para separar as pessoas. Elá está perdendo credibilidade com rapidez cada vez maior, e sua história vai melhorando na mesma proporção. De repente, já não consigo sentir cheiro nenhum. “Você já foi viajar depois que o muro caiu?”, pergunto. Ela joga a cabeça para trás. Noto que está usando um delineador roxo que, visto daquele ângulo, tem um brilho fosforescente.
“Ainda não. Mas gostaria de ir. Para Bali, ou coisa do tipo. Ou para a China. É, para a China, talvez.” Ela tamborila as unhas pintadas no balcão de vidro e sonha, contemplando a meia distância por sobre meu ombro esquerdo. “Você sabe o que eu gostaria mesmo de fazer? Adoraria dar uma olhada naquela muralha deles.”

O Muro de Berlim caiu há mais de 20 anos, mas a alma dos alemães orientais traz até hoje a marca dos tempos em que ele simbolizava um regime de força responsável por perseguições, mortes, desaparecimentos e torturas. Mais do que tijolos e cimento, o muro era sustentado pelo trabalho repressor de milhares de colaboradores e simpatizantes do governo da então República Democrática da Alemanha. Entre os mais temidos estavam os que serviam à Stasi, a polícia política. Para contar como funcionava essa polícia secreta e entender o que levava vizinhos e até parentes a fazer denúncias, a jornalista australiana Anna Funder entrevistou vítimas, algozes e colaboradores. O resultado é Stasilândia (Companhia das Letras, 476 páginas, tradução de Sérgio Tellaroli), um livro forte e contundente.

No passado, a função do Stasi era proteger do povo o Partido Comunista e tinha plenos poderes. A polícia secreta detinha, encarcerava e interrogava quem bem entendesse. Violava correspondência, ouvia telefonemas, plantava escutas, espionava diplomatas (uma realidade retratada no filme A Vida dos Outros, dirigido por Florian Henckel von Donnersmarc, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007). A organização tinha universidades, hospitais, centros esportivos e programas de treinamentos para seus espiões. Em Berlim, Anna colocou um anúncio no jornal em busca de ex-oficiais e colaboradores informais da Stasi. Recusou os que se apresentaram exigindo dinheiro em troca de entrevista.  Marcou encontros secretos, ouviu confissões, desabafos e até arrependimentos daqueles que trocaram de papel e temiam ser reconhecidos por quem denunciaram e trairam.

Stasilândia — que ganhou o Samuel Johnson Award, da Grã-Bretanha — é escrito em primeira pessoa (como comprova o texto acima), porque Anna não se furta o direito de dar opiniões, na maioria das vezes resultado de sua indignação. Como quando percorre o museu da Stasi, em Leipzig, centro da revolução pacífica contra a ditadura comunista na Alemanha Oriental. Não conseguiu ficar indiferente aos frascos que pareciam vazios, mas que continham “amostras de cheiro”, odores retirados de pedaços de roupas para que cães farejadores encontrassem as vítimas, além de cartas confiscadas escritas por crianças, cartões de aniversário, bolsas com microfones embutidos. Não esconde a revolta com a história de Miriam Weber, que aos 16 anos tentou fugir para o Ocidente e que ainda busca entender o motivo pelo qual seu marido foi morto depois de preso pelo regime. São histórias das quais os alemães orientais guardam marcas, apesar de tentarem esquecer, que registraram e puseram em museu, para não que não desapareçam no tempo e permitam entender um pouco do espírito amargurado dos que sobreviveram.

Por Bete Duarte

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