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Artistas da conversa

31 de maio de 2010 1

Zuenir e Verissimo em uma das sessões de prosa de Conversa sobre o Tempo – Foto: Bruno Veiga

ZV: Essa olimpíada para saber em que governo houve mais alianças espúrias, isso não tem sentido. Eu acho que os dois são responsáveis. Se tivesse havido a convergência do PSDB e não haveria hoje essa hegemonia do PMDB, que é um saco de gatos onde predomina o que há de pior na política deste país. Pena, né? Porque a gente teve a sorte de ter os dois como presidentes, um depois do outro, e ao mesmo tempo esse desastre de eles nunca terem se unido para um governo melhor.
LFV: Eu acho que há uma diferença importante que deve ser citada também. O Fernando Henrique governou com uma imprensa mais ou menos tolerante. Não tão fiscalizadora, e não tão contrária como esta é ao Lula. A grande imprensa.
ZV: Não sei. Aí eu não concordo muito, não. O Fernando Henrique reclamava da mesma maneira que o Lula reclama hoje. Que estavam em cima dele, que a imprensa o perseguia. Acho que esse é um discurso próprio de quem está no poder. Eu, particularmente, cobro mais do Lula. E desculpe a pretensão de “cobrar”. Mas acho que ele deve mais porque eu esperava mais dele. Até porque veio depois do governo Fernando Henrique. Até porque fez uma oposição de denúncia – e foi uma oposição muito competente. E aí aconteceu o que aconteceu, o escândalo do mensalão e toda essa coisa. Eu esperava mais. Eu votei no Lula. Eu acompanhei o Lula durante meses na Caravana da Cidadania. E aprendi que ele é mesmo uma figura extraordinária. Não pode ter essa leniência em relação à corrupção. Isso eu acho uma tragédia.

Saber conversar também é uma arte – como anunciam manuais variados em qualquer livraria. E quando dois artistas da palavra são reunidos para exercitar essa arte, o resultado pode ser uma prazerosa e profícua troca de ideias, como a que ocorre entre Zuenir Ventura e Luis Fernando Verissimo no recém-lançado Conversa sobre o Tempo. Iniciativa da editora Agir, selo do conglomerado Ediouro, o livro é o primeiro de uma série que pretende registrar debates entre intelectuais brasileiros a respeito dos temas que são perenes no questionamento da condição humana. No caso de Verissimo e Zuenir, a proposta ainda reuniu dois escritores que mantêm uma longa relação de amizade, o que dá ao debate um colorido peculiar.

Conversa sobre o Tempo é a versão em livro, editada e polida, de um encontro realizado em julho de 2009: uma estada de cinco dias da dupla em uma fazenda no Areal, na região serrana do Rio de Janeiro, registradas no gravador. Em sessões diárias, os dois amigos abordariam cinco temas: amizade, família, política, paixões e morte, trocando impressões e suas próprias experiências sobre cada um dos temas. Na edição final do livro, amizade e família terminaram por ser fundidos em uma única seção e o livro ficou repartido em quatro temas. Para evitar o que acontece com frequência em qualquer conversa, o silêncio ou o beco sem saída  sobre um assunto que parece ter chegado ao limite, o jornalista e escritor Arthur Dapieve foi escalado como um híbrido de entrevistador e mediador. É ele quem conduz a conversa, provocando o diálogo, agindo como um repórter apresentando questões ora a um ora a outro. Como convém a um livro que segue o fio da conversa aberta entre dois grandes amigos, o diálogo entre Zuenir e Verissimo flui sem método ou trajetória, seguindo ora os pretextos que um oferece ao outro, ora as provocações de que Dapieve lança mão para garantir que ambos realmente se engajem em uma troca de ideias. O alvo principal da mediação, claro, ao menos no início, é o próprio Luis Fernando Verissimo, famoso pela introversão e pelo temperamento silente. Verissimo realmente fala menos ao longo do livro do que o eloquente Zuenir, mas não deixa de comparecer com longas intervenções.

O resultado não apresenta necessariamente muitas novidades a respeito das opiniões e das trajetórias de Verissimo e Zuenir. O que muda é o modo como todas essas informações se articulam – compondo um dos mais completos retratos já realizados de duas personalidades literárias no Brasil. No desenrolar do livro, Verissimo fala de sua introversão natural – algo já tratado em muitas reportagens e até em crônicas do próprio. Zuenir conta suas reações ao diagnóstico de um câncer, nos anos 1990 – parte importante de seu livro Inveja, Mal Secreto, escrito em 1999 para a coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva. Verissimo fala da relação com seu pai, Erico, uma mistura de afeto e reserva – algo que o próprio Erico já comentava na segunda parte de Solo de Clarineta. Zuenir aborda a glória e a tragédia do Rio, cidade cuja beleza natural convive com purulentas feridas sociais e políticas, o que é apenas a atualização de seu livro dos anos 1990 Cidade Partida. Até aqui, portanto, nada que não se pudesse ler em outro lugar, mas a diferença está na maneira como essas informações se encadeiam, uma conversa amigável – os dois são amigos há anos – que, mais do que apresentar visões originalísssimas ou aprofundadas sobre os temas de discussão propriamente ditos, ajudam a montar um perfil de cada um tanto pelo que definem quanto pelo que têm dificuldade em definir. Um exemplo é o debate sober o que seria a esquerda hoje, esquerda à qual os dois são filiados. Tanto Verissimo quanto Zuenir insistem que a percepção de que o fracasso do bloco socialista nos anos 1990 não significou a vitória final do capitalismo, e que a esquerda hoje tem a bandeira voltada para as questões sociais em um país de disparidades imensas como o Brasil. Zuenir, contudo, consegue definir melhor sua decepção com a Cuba castrista, cuja defesa Verissimo chega a fazer vagamente.

No caso de Verissimo, com sua reserva e sua timidez já tornadas folclóricas, há também mais pontos que teriam escapado a seus leitores habituais, como a narrativa de sua breve “vida de playboy” na juventude, com direito a carro do pai e sexo pago. Ou o relato da noite em 1975 em que viu a morte inesperada de Erico: “…ele estava em pé no escritório e sentiu uma tontura. ‘Tô ficando tonto’, disse. Aí ele se sentou numa cadeira e eu vi os olhos dele ficarem vazios. O olhar dele ficou vazio“. Há também espaço para as alegrias
de cada um, a paixão comum pelo futebol – que Zuenir, contudo, alega ter deixado de lado nos anos 1990 para não sofrer tanto com o Fluminense da época -, a vida familiar, a personalidade firme e companheira das esposas de ambos, timoneiras da vida prática do casal.

Comentários (1)

  • Ariele Goulart diz: 9 de junho de 2010

    Olá… quero muito ler este livro, o título é suave e me encantou.
    Admiro os trabalhos do Veríssimo e Zuenir..
    O livro já está na minha lista de compras!

    beijo grande

    Opa, Ariele – obrigado pela visita, volte quando quiser.
    Abraço.

    Carlos André

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