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Posts de maio 2010

Artistas da conversa

31 de maio de 2010 1

Zuenir e Verissimo em uma das sessões de prosa de Conversa sobre o Tempo – Foto: Bruno Veiga

ZV: Essa olimpíada para saber em que governo houve mais alianças espúrias, isso não tem sentido. Eu acho que os dois são responsáveis. Se tivesse havido a convergência do PSDB e não haveria hoje essa hegemonia do PMDB, que é um saco de gatos onde predomina o que há de pior na política deste país. Pena, né? Porque a gente teve a sorte de ter os dois como presidentes, um depois do outro, e ao mesmo tempo esse desastre de eles nunca terem se unido para um governo melhor.
LFV: Eu acho que há uma diferença importante que deve ser citada também. O Fernando Henrique governou com uma imprensa mais ou menos tolerante. Não tão fiscalizadora, e não tão contrária como esta é ao Lula. A grande imprensa.
ZV: Não sei. Aí eu não concordo muito, não. O Fernando Henrique reclamava da mesma maneira que o Lula reclama hoje. Que estavam em cima dele, que a imprensa o perseguia. Acho que esse é um discurso próprio de quem está no poder. Eu, particularmente, cobro mais do Lula. E desculpe a pretensão de “cobrar”. Mas acho que ele deve mais porque eu esperava mais dele. Até porque veio depois do governo Fernando Henrique. Até porque fez uma oposição de denúncia – e foi uma oposição muito competente. E aí aconteceu o que aconteceu, o escândalo do mensalão e toda essa coisa. Eu esperava mais. Eu votei no Lula. Eu acompanhei o Lula durante meses na Caravana da Cidadania. E aprendi que ele é mesmo uma figura extraordinária. Não pode ter essa leniência em relação à corrupção. Isso eu acho uma tragédia.

Saber conversar também é uma arte – como anunciam manuais variados em qualquer livraria. E quando dois artistas da palavra são reunidos para exercitar essa arte, o resultado pode ser uma prazerosa e profícua troca de ideias, como a que ocorre entre Zuenir Ventura e Luis Fernando Verissimo no recém-lançado Conversa sobre o Tempo. Iniciativa da editora Agir, selo do conglomerado Ediouro, o livro é o primeiro de uma série que pretende registrar debates entre intelectuais brasileiros a respeito dos temas que são perenes no questionamento da condição humana. No caso de Verissimo e Zuenir, a proposta ainda reuniu dois escritores que mantêm uma longa relação de amizade, o que dá ao debate um colorido peculiar.

Conversa sobre o Tempo é a versão em livro, editada e polida, de um encontro realizado em julho de 2009: uma estada de cinco dias da dupla em uma fazenda no Areal, na região serrana do Rio de Janeiro, registradas no gravador. Em sessões diárias, os dois amigos abordariam cinco temas: amizade, família, política, paixões e morte, trocando impressões e suas próprias experiências sobre cada um dos temas. Na edição final do livro, amizade e família terminaram por ser fundidos em uma única seção e o livro ficou repartido em quatro temas. Para evitar o que acontece com frequência em qualquer conversa, o silêncio ou o beco sem saída  sobre um assunto que parece ter chegado ao limite, o jornalista e escritor Arthur Dapieve foi escalado como um híbrido de entrevistador e mediador. É ele quem conduz a conversa, provocando o diálogo, agindo como um repórter apresentando questões ora a um ora a outro. Como convém a um livro que segue o fio da conversa aberta entre dois grandes amigos, o diálogo entre Zuenir e Verissimo flui sem método ou trajetória, seguindo ora os pretextos que um oferece ao outro, ora as provocações de que Dapieve lança mão para garantir que ambos realmente se engajem em uma troca de ideias. O alvo principal da mediação, claro, ao menos no início, é o próprio Luis Fernando Verissimo, famoso pela introversão e pelo temperamento silente. Verissimo realmente fala menos ao longo do livro do que o eloquente Zuenir, mas não deixa de comparecer com longas intervenções.

O resultado não apresenta necessariamente muitas novidades a respeito das opiniões e das trajetórias de Verissimo e Zuenir. O que muda é o modo como todas essas informações se articulam – compondo um dos mais completos retratos já realizados de duas personalidades literárias no Brasil. No desenrolar do livro, Verissimo fala de sua introversão natural – algo já tratado em muitas reportagens e até em crônicas do próprio. Zuenir conta suas reações ao diagnóstico de um câncer, nos anos 1990 – parte importante de seu livro Inveja, Mal Secreto, escrito em 1999 para a coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva. Verissimo fala da relação com seu pai, Erico, uma mistura de afeto e reserva – algo que o próprio Erico já comentava na segunda parte de Solo de Clarineta. Zuenir aborda a glória e a tragédia do Rio, cidade cuja beleza natural convive com purulentas feridas sociais e políticas, o que é apenas a atualização de seu livro dos anos 1990 Cidade Partida. Até aqui, portanto, nada que não se pudesse ler em outro lugar, mas a diferença está na maneira como essas informações se encadeiam, uma conversa amigável – os dois são amigos há anos – que, mais do que apresentar visões originalísssimas ou aprofundadas sobre os temas de discussão propriamente ditos, ajudam a montar um perfil de cada um tanto pelo que definem quanto pelo que têm dificuldade em definir. Um exemplo é o debate sober o que seria a esquerda hoje, esquerda à qual os dois são filiados. Tanto Verissimo quanto Zuenir insistem que a percepção de que o fracasso do bloco socialista nos anos 1990 não significou a vitória final do capitalismo, e que a esquerda hoje tem a bandeira voltada para as questões sociais em um país de disparidades imensas como o Brasil. Zuenir, contudo, consegue definir melhor sua decepção com a Cuba castrista, cuja defesa Verissimo chega a fazer vagamente.

No caso de Verissimo, com sua reserva e sua timidez já tornadas folclóricas, há também mais pontos que teriam escapado a seus leitores habituais, como a narrativa de sua breve “vida de playboy” na juventude, com direito a carro do pai e sexo pago. Ou o relato da noite em 1975 em que viu a morte inesperada de Erico: “…ele estava em pé no escritório e sentiu uma tontura. ‘Tô ficando tonto’, disse. Aí ele se sentou numa cadeira e eu vi os olhos dele ficarem vazios. O olhar dele ficou vazio“. Há também espaço para as alegrias
de cada um, a paixão comum pelo futebol – que Zuenir, contudo, alega ter deixado de lado nos anos 1990 para não sofrer tanto com o Fluminense da época -, a vida familiar, a personalidade firme e companheira das esposas de ambos, timoneiras da vida prática do casal.

Steiner e a crítica

25 de maio de 2010 2

Livros de crítica e interpretação literárias tendem a possuir vida curta. Há exceções, é claro. O tratado crítico de, digamos, Aristóteles ou Samuel Johnson ou Coleridge torna-se, ele próprio, literatura. Isso acontece devido à força filosófica, à particularidade de estilo ou pela contiguidade. Há casos em que o argumento teórico-crítico é parte integral da obra imaginativa (a polêmica de Proust contra Saint-Beuve; os estudos de T.S.Eliot). Tais casos, no entanto, continuam sendo excepcionais. A maioria dos estudos literários, eminentemente acadêmicos ou acadêmico-jornalísticos, tem dias curtos. Corporificam um momento mais ou menos específico da história do gosto, valoração e debate terminológico. rapidamente, eles encontram enterro decente nas notas de rodapé ou acumulam a silenciosa poeira das estantes das bibliotecas.

O veterano crítico francês George Steiner, no prefácio do ótimo Tolstói ou Dostoiévski (Perspectiva, 2006, tradução de Isa Kopelmann). Mostrando que entende muito do ofício.

O assombro do gênio

24 de maio de 2010 2

Pense lá em um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) , daqueles bem conhecidos ou que todo mundo já ouviu por aí ao menos um verso ou uma estrofe. Pode ser até este aqui mesmo, que representou revolução temática e é controverso para muitos até hoje, pela maneira como transforma em matéria poética uma série de repetições de uma frase aparentemente banal:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Pode tentar lembrar de outro. Quem sabe Quadrilha, também muito popular, já parodiado e relido de ene formas, e do qual o “público em geral” costuma lembrar mais desta parte:

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém
.

Lembrou de outro? Claro, tem também aquele que começa assim:

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

Mais um? Que tal o belo belo Infância, cujos versos finais, bem conhecidos, ensinados no colégio – donde espero que a maioria aí ainda lembre – são:

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

O que esses quatro poemas têm em comum, além do fato óbvio de serem do mesmo autor, é que foram todos publicados no assombroso Alguma Poesia, livro que Drummond publicou em 1930, aos 27 anos – seu primeiro livro, melhor dizendo, uma estreia singular que está completando 80 anos agora. O livro saiu quando Drummond já beirava os trinta, mas os poemas datavam de muito antes, burilados com um perfeccionismo inseguro que o levou muitas vezes a questionar a própria validade da obra. Um daqueles casos raros de autor que já começa elevando o nível e as expectativas do que vem a seguir. Muitos deles ligados ainda à atmosfera do recente Movimento Modernista, os versos de Drummond têm, entretanto, um caminho próprio, que aproveita algumas das principais bandeiras do grupo, como a busca da poesia em situações aparentemente sem transcendência, um certo humor, o verso livre. Mas torna suas tais características, aliadas a um olhar evocativo, lírico, no qual aflora, também, raiva e amargura. Uma poesia de vigor e força que ganhou lugar no cânone da literatura nacional e ao mesmo tempo na memória popular – o que num país de educação precária como o Brasil é sempre um elogio a ser feito.

Justamente para marcar os 80 anos dessa estreia de fôlego invulgar, Alguma Poesia está ganhando nova edição no fim deste mês, organizada pelo poeta Eucanaã Ferraz, com patrocínio do Instituto Moreira Salles. A nova edição (Instituto Moreira Salles, 392 páginas, R$ 50), traz o fac-símile do exemplar da tiragem de 1930 que pertenceu ao próprio Drummond, e que, portanto, traz suas anotações de próprio punho, rasuras e emendas. O livro terá também uma apresentação crítica de Eucanaã Ferraz – autor de Desassombro e Cinemateca. E ele recupera justamente o fio que une Drummond aos modernistas de 22, em especial Mario de Andrade, mestre com quem o poeta de Itabira muito se correspondia e a quem dedicou o livro – pago do próprio bolso, a prestações.

Ferry, a família e a filosofia

20 de maio de 2010 2

Luc Ferry em Porto Alegre em 2007 - Foto: Carlos Rodrigues

A editora executiva do Segundo Caderno e colunista de Zero Hora, Cláudia Laitano, entrevistou, via e-mail, o intelectual francês Luc Ferry, ex-ministro da Educação na França e professor de filosofia tido como um dos grandes responsáveis pela “onda pop” da disciplina nos últimos anos. Com livros que unem rigor e didatismo mas não se furtam de falar também para o leitor leigo sem formação filosófica profissional, Ferry tornou-se um filósofo de amplas vendas com o conjunto formado pelos livros Aprender a Viver e A Sabedoria dos Mitos Gregos. Ferry é um militante da ideia de que a filosofia precisa lutar para recuperar seu espaço na vida intelectual da gente comum, e que deve ser uma fonte de questionamentos espirituais e de ação concreta. Em suma, que deve ser, como o foi na Antiguidade, a ciência da vida boa. Ou, nas palavras da apresentação da entrevista feita por Cláudia, também chamada de “a chefe”: “Falar de filosofia, acredita Ferry, é tratar dos temas cotidianos da existência humana: o outro, o amor, a morte, a felicidade, a dor, a transcendentalidade.”

Essa urgência da filosofia de voltar ao âmago da vida política e social levou Ferry a agir politicamente como ministro da Educação na França. Durante sua gestão, assinou a polêmica disposição proibindo aos alunos da rede pública o uso de símbolos religiosos (incluindo aí crucifixos cristãos, o véu islâmico e a estrela de David judaica).  Em 2007, quando esteve em Porto Alegre como o convidado inaugural da primeira conferência do primeira edição do Fronteiras do Pensamento, Ferry foi questionado pela plateia a respeito da decisão, controversa por ser tomada pela França berço do pensamento liberal iluminista. Respondeu: “É preciso avaliar o contexto. A França tem a maior comunidade islâmica da Europa e a terceira maior comunidade judaica do mundo, atrás apenas de Israel e Estados Unidos. O que aconteceu no início dos anos 2000, à época da aprovação da lei, foi um recrudescimento do conflito árabe-israelense. Pequenos judeus e magrebinos estavam usando símbolos como se fossem armas em um conflito ideológico. O objetivo daquela lei foi impedir a guerra de se introduzir no ambiente escolar.

Três anos depois, Ferry estará de volta a Porto Alegre amanhã, como como um dos convidados do 6º Fórum Político Unimed/RS, que se realiza das 9h às 17h30min, no BarraShoppingSul (Diário de Notícias, 300) – e para antecipar um pouco dos temas que o filósofo deve abordar em sua palestra, Cláudia Laiano fez a  entrevista abaixo – que, infelizmente, não coube toda no espaço restrito da página de jornal, mas que pode ser lida na íntegra aqui no blog. Uma entrevista na qual Ferry discorre sobre a filosofia hoje, o papel da família no mundo contemporâneo, o declínio das vanguardas e uma pá de outros temas. Divirtam-se:

Zero Hora — Há um “novo ateísmo” defendido por autores célebres como Richard Dawkins, Christopher Hitchens e o senhor mesmo? Nossa época é mais receptiva a esse tipo de reflexão?
Luc Ferry —
Eu sou descrente, agnóstico, mas o ateísmo militante sempre me pareceu absurdo. Primeiro, porque respeito as religiões, mas também porque não se pode evidentemente demonstrar a inexistência de Deus mais do que sua existência.

ZH — A polêmica sobre a proibição da burca está viva na França e na Bélgica. Não é o caso da Grã-Bretanha, um país com muitos imigrantes. O senhor tem  uma explicação para esse fenômeno?
Ferry —
Francamente, a burca é um horror, e todas as mulheres livres no mundo árabe suplicam literalmente aos ocidentais que não deixem o islamismo radical mais fanático se desenvolver. Eu respeito profundamente a religião muçulmana, mas a burca não é um signo religioso. É uma postura política agressiva. A Grã-Bretanha se deixa de quando em quando devorar pelo fanatismo em nome de uma lógica de tolerância de guetos que considero detestável. É um pouco como os guetos negros americanos, que não deram nada de bom e mesmo levaram à catástrofe. Eu creio que meus amigos ingleses acabarão pagando muito caro por isso…

ZH — O senhor escreveu sobre a importância da redescoberta da filosofia pelos jovens na série Aprender a Viver. Mas há muitos leitores mais velhos que compram e leem essas obras. O que é mais difícil: a conquista de novos leitores para a filosofia ou o convívio com a crítica de colegas que temem uma suposta banalização dos conceitos filosóficos?
Ferry —
O que ocorreu foi que vimos na arte como na literatura e na filosofia o fim das vanguardas. Por definição, os autores de vanguarda não se dirigiam ao povo, à massa, mas sempre a uma elite. Eles estavam “à frente”, eles eram os guias geniais, como Stalin ou Kim il Sung. Hoje, todos os filósofos e escritores de minha geração se reconciliaram com a democracia, como antes de nós haviam feito os maiores. Sejam de esquerda ou de direita, se dirigem a todos e escrevem claramente. Nos reencontramos com o ideal democrático. Lembro que Rousseau, Voltaire ou Sartre eram lidos pelo povo, como Kundera, Philip Roth ou García Márquez hoje. Derrida é um total desconhecido assim que você deixa o solo das universidades americanas. Jamais encontrei um não-universitário que tenha lido Derrida. Essa época vanguardista, que não construiu nada de bom ou grandioso, ficou para trás. Por outro lado, devo lhe dizer que sou professor universitário há 30 anos, dei aulas em todos os níveis, orientei teses de doutorado ao longo dos anos e nunca tive a menor crítica de meus colegas sobre a questão da popularização da filosofia porque mais de 3 mil entre eles utilizam meu livro em suas aulas! Passei em torno de 20 anos de minha vida traduzindo, editando e comentando os maiores filósofos alemães, Kant, Fichte, Schelling, Hegel, Adorno, Horkheimer, Cassirer e outros mais. Não sou um desses intelectuais midiáticos que vivem à margem da universidade e que não conhecem seus clássicos. Na verdade, meu livro não se dirige especialmente às crianças. É uma forma de dizer, um artifício literário, um procedimento retórico que usei para me forçar a contar a história da filosofia e explicar os conceitos mais difíceis de maneira simples.

ZH — No livro Famílias, Amo Vocês, o senhor escreveu que a família, as crianças em particular, tomou o lugar da religião e das ideologias na vida espiritual do homem moderno. Quais serão as consequências desse fenômeno num país como o Brasil, onde não existe uma tradição republicana sólida?  Esse “retorno ao lar” pode ser contraditório com a construção de uma sociedade mais justa?
Ferry —
É preciso saber que, na Idade Média, não se casava jamais por amor. Pode-se dizer que houve, desde o Antigo Regime, três idades da família. Na Idade Média, como os historiadores das mentalidades nos mostraram, não se casava jamais por amor. O objetivo do casamento era sobretudo a transmissão do nome, do patrimônio, mas também a necessidade econômica: se trata de fabricar os braços para fazer viver o negócio. Isso não se discute mais. O nascimento do trabalho assalariado vai subverter essa situação porque vai levar a emancipar os indivíduos do peso das comunidades tradicionais e por uma razão simples: o mercado de trabalho que nasce com o capitalismo constrange os indivíduos à ir trabalhar nas cidades. De um só golpe, eles se libertam das formas tradicionais de controle social e, ao mesmo tempo, eles adquirem, graças ao salário, precisamente, uma autonomia financeira. O que os levará a querer não se casar mais à força, mas por escolha, e portanto, se possível, por afinidade eletiva, ou seja, por amor. É o nascimento do casamento por amor. Mas antes desse último se tornar a regra para todas as uniões (ou quase), como é o caso de hoje, há uma época intermediária, a da família burguesa, que mistura o casamento arranjado e o casamento sentimental em proporções variadas. Bem entendido, há um ponto fraco: nas grandes cidades europeias, pode-se dizer que cerca de 50% dos casamentos terminam em divórcio — a vitória do casamento por amor é também a do divórcio! Com efeito, se se casa exclusivamente por razões sentimentais, o amor dá lugar ao ódio, que, como sabemos, uma vez presente, não deixa motivo para se permanecer juntos e ocorrem as separações. O problema, certamente, são as crianças, que vivem frequentemente mal essa situação. Ou seja, é preciso evitar idealizar as épocas onde as pessoas se divorciavam menos. Na família burguesa do início do século passado, certamente, ninguém se separava: isso não se fazia em um meio decente! Mas o preço a pagar era muito pesado, notadamente para as mulheres que sacrificavam com frequência sua vida profissional, e muito rapidamente, sua vida privada, a um marido que lhes passava para trás alegremente. Hoje, as pessoas se divorciam e se separam, mas, paradoxalmente, se ocupam por vezes mais e melhor das crianças por meio de um “divórcio seguro” do que por um casamento falido, minado pelas mentiras, as hipocrisias e os segredos de família…

ZH — O que a filosofia pode ensinar aos jovens que usam antidepressivos?
Ferry —
Nossas sociedades, pelo menos na Europa, têm os direitos do homem e o mercado, ou seja, o respeito ao outro e à riqueza. Em sentido contrário, elas carecem de espiritualidade, elas são desprovidas de sentido e é isso que empurra os jovens em direção à droga ou às seitas. Para compreender bem isso, é preciso evitar uma confusão que, por ser muito frequente, sacrifica de saída toda compreensão da noção de espiritualidade laica: é, de fato, indispensável distinguir claramente dois tipos de valores, os valores morais de um lado e os valores espirituais, de outro. Nada é mais prejudicial ao entendimento da filosofia, mas sobretudo da realidade humana, do que misturar essas duas esferas claramente distintas. Constantemente, a confusão se instala entre elas, não somente no interior do debate público e político, mas por vezes também na literatura filosófica onde o termo vago e geral “ética”, empregado a torto e a direito, vem borrar permanentemente as fronteiras. As coisas são, porém, muito simples. A moral, em qualquer sentido que a entendamos e qualquer que seja sua doutrina de referência, é, em primeiro lugar e antes de mais nada, o respeito ao outro, a quem é preciso dar as boas-vindas, a generosidade e mesmo, usemos a palavra, a bondade. Pode-se com certeza consagrar, se for o caso, um seminário universitário de um ano a essa definição de moral, mas pode-se também dizer as coisas simplesmente: eu me conduzo moralmente com meus vizinhos e próximos quando os respeito e os ajude, quando lhes reconheço um direito imprescritível a pensar diferentemente de mim e que, mesmo nessa hipótese, faço o que posso para que lhe tornar a vida mais doce e mais fácil. Para nós, europeus de hoje, a moral comum tomou essencialmente a forma de uma declaração, a dos direitos do homem, à qual é bom acrescentar, como tenho sugerido, a vontade de fazer o bem, de ajudar ativamente os outros _ aquilo que se chama, na acepção correta, a benfeitoria. A organização humanitária Irmã Emmanuelle, os direitos do homem e a bondade, o respeito ao outro e a generosidade, a moral comum da qual comungam hoje a maior parte de nossos concidadãos.

ZH — Desse ponto de vista, qual é a fronteira entre moral, religião e filosofia?
Ferry —
Sonhemos um pouco e imaginemos um instante, pelo prazer da reflexão, que dispomos de um bastão mágico que nos permitiria fazer, de um só golpe, todos os seres humanos deste mundo se conduzirem de maneira perfeitamente moral em relação ao outro. Não haveria mais neste planeta nem massacres nem violações, nem roubos nem mortes, nem injustiças, nem guerras, nem genocídios. No limite, as nações não teriam mais necessidade de exército, de polícia, de prisões nem de sistema judiciário repressivo. Isso seria simplesmente uma revolução. Porém, e aí aparece em plena luz a diferença entre valores morais e valores espirituais, isso não nos impediria nem de envelhecer, nem de morrer, nem de perder um ente querido, de experimentar a dor de um ser amado, nem mesmo de ser infelizes no amor, estar enamorados de quem não nos ama, de sofrer um acidente ou, simplesmente, de nos aborrecer no curso de uma vida cotidiana engolida pela banalidade. Quem nunca sonhou com outra existência? Ou pensou alguma vez, como Rimbaud, que a “verdadeira vida está lá fora”? Quem jamais se cansou de acordar cada manhã com o mesmo homem ou a mesma mulher na mesma cama, com o mesmo trabalho, os mesmos narizes das mesmas pessoas ao redor de si? A lógica do amor e a da moral são coisas muito diferentes. A literatura é cheia de histórias sentimentais que terminam mal porque as pessoas corretas moralmente não são amadas por aqueles pelos quais se enamoram. De resto, nós poderíamos nos conduzir como santos, viver na generosidade, o respeito e a bondade mais admiráveis que existam, aplicar os princípios da moral mais sublime da maneira mais perfeita que isso não mudaria nada: não apenas o amor não é questão de razão nem de ética, mas também perdemos aqueles que amamos, não escapamos do sofrimento, da doença, da banalidade e do tédio. Quem ousará imaginar que esses diferentes temas existenciais não são investidos de valores, e mesmo de valores mais poderosos e mais preocupantes que os valores morais? Você pode viver como um santo ou uma santa, respeitar e ajudar os outros, aplicar os direitos do homem como pessoa… e envelhecer, e morrer, e sofrer. Porque essas realidades, como disse Pascal, são de outra ordem, que releva bem a que a filosofia tem, de fato, pela “vida do espírito”, e que chamo aqui, com fidelidade à tradição, as “espiritualidades”, que vão além da moral, mas não se confundem com as religiões. Mesmo que os valores espirituais não se reduzam em nada aos valores morais, deve-se compreender que existem dois tipos muitos diferentes de espiritualidades. Um deles trata de Deus, e são as religiões, e os outros não, e são as grandes filosofias. Para dizer as coisas da forma mais simples possível, as espiritualidades religiosas tentam definir a boa vida, a vida feliz como diz Santo Agostinho, em referência a um deus. Daí vem a ênfase que elas colocam em geral sobre as virtudes de certa humildade em nome da qual se remete ao Ser Supremo para o que é saudável. As grandes filosofias, ao contrário, culminam sempre numa tentativa de propor uma resposta laica à questão da vida boa, por uma operação de sabedoria que não passa nem por um deus nem pela fé, mas pelos meios laterais, aceitando a condição de mortal, e pela simples ludicidade da razão. Os teólogos não falham jamais, desde o início dos tempos, em denunciar a fatuidade da filosofia, de acusá-la a todo momento de pecar por orgulho à maneira de Santo Agostinho, chamando “Vós, os soberbos” aos filósofos neoplatonianos que tanto gostaria de convencer a aderir a sua fé.

ZH — A filosofia tem cumprido o seu papel no mundo contemporâneo?
Ferry —
Uma das grandes falhas intelectuais do período contemporâneo é que, sob efeito do fortalecimento das ciências humanas e do pensamento do inconsciente, a filosofia cedeu muito frequentemente à tendência de desertar das interrogações sobre a sabedoria e a vida boa, a deixar, sendo resolutamente laica, o terreno das espiritualidades às religiões. De repente, a filosofia se reduziu na maior parte do tempo a ser a crítica da tradição, a ser a desconstrução, genealogia ou arqueologia dos sistemas de pensamento anteriores. E quando quis ser mais positiva, limitou-se no essencial a uma reflexão sobre a esfera moral e política, como se vê, por exemplo, em autores, de resto muito respeitáveis, como Rawls e Habermas. Essa redução da filosofia a uma simples moral foi acompanhada por vezes do que se chama uma epistemologia, uma reflexão sobre o conhecimento tocante às ciências duras (Popper é um bom exemplo) em relação às ciências humanas (Habermas é outro). Mas, em todo caso, desertou-se do essencial da filosofia, que fazia seu nome e seu objetivo: a sabedoria, essa aprendizagem da vida boa sem a qual a noção mesma de filosofia não teria nenhum sentido nem a menor razão de ser.

Os livros pela capa

18 de maio de 2010 3

Claro que há alguma verdade na velha e surrada expressão “julgar o livro pela capa”, mas ela funciona muito mais como metáfora edificante do que propriamente como juízo aplicado à literatura. Livros são fetiche de consumo, é claro que são, o que inclui, obviamente, o deleite visual e tátil que advém de olhar uma capa bacana ou folhear uma edição bem cuidada em papel de boa textura – e é inevitável que seja cada vez mais assim numa época em que o conteúdo de um livro está lá no computador para ser baixado numa caixinha eletrônica que mais parece um gameboy de gente grande.

Já discutimos capas bregas e apelativas de uma época em que o mercado nacional parecia mais interessado em tornar o livro uma versão sem figuras da Playboy, e um que outro leitor já me perguntou porque eu não fazia alguns posts sobre capas de livros que eu tenha achado bacanas, em vez de bregas. A ideia é boa, claro, mas como a maioria das boas ideias já tem alguém lá fora a pondo em prática com mais qualidade, como é o caso do escritor e designer Samir Machado de Machado, que mantém o blog Sobrecapas,  no qual analisa as capas que considera mais bacanas da produção nacional. Não que eu não vá falar de capas de vez em quando, mas tirando o fato de saber desenhar um pouquinho, não tenho lá muito o que acrescentar em termos de linguagem gráfica. Minha apreciação é mais na linha do gostei ou não gostei, como gostei – e muito, das capas que ilustram este post.

Elas pertencem à coleção Penguin Ink, iniciativa da editora Penguin para comemorar seus 75 anos. A casa selecionou seis livros de seu catálogo, Grana, de Martin Amis; À espera dos Bárbaros, de J.M. Coetzee; O Diário de Bridget Jones, de Helen Fielding; From Rússia With Love, de Ian Flemming; The Bone People, de Keri Hulme e The Broom of the System, de David Foster Wallace, e encomendou para eles novas capas, cada uma produzida por um tatuador ou ilustrador. Confesso minha ignorância quanto ao nome e ao valor dos sujeitos escolhidos, mas o resultado, que você pode conferir neste link, dispensa considerações. Tá certo que, ao menos para mim, parece um recurso muito sofisticado para uma naba como o livro da Bridget Jones ou para um típico pulp de espionagem como o livro de Flemming, mais uma aventura do espião 007. Mas é certo que o resultado ficou belíssimo.

Mais um gol da mesma editora que já havia criado maravilhas na coleção Penguin Classics Deluxe Edition, também chamada de Penguin Graphic Classics, que tinha uma ideia semelhante à da Penguin Ink: trazer para a arte das capas de alguns de seus livros profissionais renomados na indústria dos quadrinhos. O que resultou em coisas como Frank Miller criando a capa de O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon, Art Spiegelman fazendo a da Trilogia de Nova York, de Paul Auster, e Dan Clowes responsável pela capa de Frankenstein, de Mary Shelley. A série completa pode ser conferida aqui, no Flickr do diretor de arte da coleção, Paul Buckley

Os domínios da Stasi

18 de maio de 2010 0

Berlim, Inverno de 1996

Estou de ressaca e avanço como um carro pela multidão na estação Alexanderplatz. Por várias vezes calculo mal o espaço que ocupo e raspo num latão ou num daqueles postes com propaganda. Amanhã, manchas roxas vão aparecer em minha pele, como uma foto surgindo do negativo.
Junto da parede, um homem se volta, sorrindo e fechando a braguilha. Faltam-lhe os cordões do sapato e alguns dentes — rosto e sapato igualmente negligentes. Outro homem, de macacão, segurando uma vassoura do tamanho daquelas usadas para limpar as quadras de tênis, joga bolinhas de desinfetante pela plataforma. Constrói arcos de pó verde, cigarro e urina. Um bêbado matinal caminha como se o chão não fosse segurá-lo.
Vou pegar o metrô para a Ostbahnhof, a estação ferroviária de onde sai um trem regional para Leipzig, a cerca de duas horas de Berlim. Sento-me num banco verde, contemplo azulejos verdes, respiro ar verde. De repente, não me sinto muito bem. Preciso chegar rapidinho à superfície e faço o caminho de volta, escada acima. No nível da rua, a Alexanderplatz é uma gigantesca extensão em concreto cinza, projetada para fazer com que as pessoas se sintam pequenas. Funciona.
Está nevando lá fora. Sigo pela neve suja e derretida em direção aos banheiros. Como as linhas de metrô, os banheiros ficam embaixo da terra, mas ninguém pensou em conectá-los à estação correspondente. À medida que vou descendo os degraus, o cheiro enjoado de desinfetante é onipresente.
Uma mulher enorme, de avental roxo e maquiagem pesada, encontra-se postada lá embaixo. De pé, encostada num balcão de vidro, ela guarda sua pilha de preservativos, rolos de papel e absorventes. Sem dúvida, uma mulher que não teme o lixo da vida. Sua pele é suave e brilhante, e ela exibe muitos queixos macios. Deve ter uns 65 anos.
“Bom Dia”, cumprimento. Sinto-me esquisita. Ouvi histórias sobre pesarem a comida ingerida e as fezes expelidas por bebês alemães na tentativa de se obter a medida da vida. Sempre achei inapropriado esse tipo de espectadora maternal. Usei o toalete, saí e depositei uma moeda na bandeja dela. Penso comigo que o propósito das gotas de desinfetante é mascarar os cheiros dos corpos humanos com coisa pior.
“Como está o tempo lá em cima?”, a mulher pergunta, sinalizando com a cabeça para o topo da escada.
“Bem frio.” Ajeito minha pouca bagagem. “Mas não está tão ruim, a camada de gelo fino na rua ainda não está tão grande.”
“Isso ainda não é nada”, ela desdenha.
Não sei se é ameaça ou bazófia. É o que chamam por aqui de
Berliner Schnauze — aquela tromba berlinense. A postura habitual, estampada na cara. Não quero ficar ali nem tampouco subir a escada rumo ao frio. O cheiro de desinfetante é tão forte que não sei dizer se estou me sentindo melhor ou mais enjoada.
“Faz vinte e um anos que estou aqui, desde o inverno de 1975. Vi coisa bem pior do que isso.”
“É bastante tempo”
“Com certeza. Tenho meus fregueses habituais, posso dizer a você. Eles me conhecem, eu conheço todos. Uma vez veio um príncipe, um Von Hohenzollern.”
Imagino que ela use o truque do príncipe com todo mundo. Mas funciona: estou curiosa. “Ã-hã, e isso foi antes ou depois da queda do muro?”
“Antes. Ele veio do lado ocidental para passar o dia aqui. Costumavam aparecer muitos ocidentais, você sabe. Ele me convidou” — ela dá uns tapinhas com a mão espalmada nos seios enormes — “para visitar seu palácio. Mas é claro que não pude ir.”
Claro que ela não pôde ir: O Muro de Berlim estendia-se por alguns quilômetros a partir dali, e não havia com passar para o outro lado. Junto com a Grande Muralha da China, era uma das estruturas mais extensas jamais construídas para separar as pessoas. Elá está perdendo credibilidade com rapidez cada vez maior, e sua história vai melhorando na mesma proporção. De repente, já não consigo sentir cheiro nenhum. “Você já foi viajar depois que o muro caiu?”, pergunto. Ela joga a cabeça para trás. Noto que está usando um delineador roxo que, visto daquele ângulo, tem um brilho fosforescente.
“Ainda não. Mas gostaria de ir. Para Bali, ou coisa do tipo. Ou para a China. É, para a China, talvez.” Ela tamborila as unhas pintadas no balcão de vidro e sonha, contemplando a meia distância por sobre meu ombro esquerdo. “Você sabe o que eu gostaria mesmo de fazer? Adoraria dar uma olhada naquela muralha deles.”

O Muro de Berlim caiu há mais de 20 anos, mas a alma dos alemães orientais traz até hoje a marca dos tempos em que ele simbolizava um regime de força responsável por perseguições, mortes, desaparecimentos e torturas. Mais do que tijolos e cimento, o muro era sustentado pelo trabalho repressor de milhares de colaboradores e simpatizantes do governo da então República Democrática da Alemanha. Entre os mais temidos estavam os que serviam à Stasi, a polícia política. Para contar como funcionava essa polícia secreta e entender o que levava vizinhos e até parentes a fazer denúncias, a jornalista australiana Anna Funder entrevistou vítimas, algozes e colaboradores. O resultado é Stasilândia (Companhia das Letras, 476 páginas, tradução de Sérgio Tellaroli), um livro forte e contundente.

No passado, a função do Stasi era proteger do povo o Partido Comunista e tinha plenos poderes. A polícia secreta detinha, encarcerava e interrogava quem bem entendesse. Violava correspondência, ouvia telefonemas, plantava escutas, espionava diplomatas (uma realidade retratada no filme A Vida dos Outros, dirigido por Florian Henckel von Donnersmarc, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007). A organização tinha universidades, hospitais, centros esportivos e programas de treinamentos para seus espiões. Em Berlim, Anna colocou um anúncio no jornal em busca de ex-oficiais e colaboradores informais da Stasi. Recusou os que se apresentaram exigindo dinheiro em troca de entrevista.  Marcou encontros secretos, ouviu confissões, desabafos e até arrependimentos daqueles que trocaram de papel e temiam ser reconhecidos por quem denunciaram e trairam.

Stasilândia — que ganhou o Samuel Johnson Award, da Grã-Bretanha — é escrito em primeira pessoa (como comprova o texto acima), porque Anna não se furta o direito de dar opiniões, na maioria das vezes resultado de sua indignação. Como quando percorre o museu da Stasi, em Leipzig, centro da revolução pacífica contra a ditadura comunista na Alemanha Oriental. Não conseguiu ficar indiferente aos frascos que pareciam vazios, mas que continham “amostras de cheiro”, odores retirados de pedaços de roupas para que cães farejadores encontrassem as vítimas, além de cartas confiscadas escritas por crianças, cartões de aniversário, bolsas com microfones embutidos. Não esconde a revolta com a história de Miriam Weber, que aos 16 anos tentou fugir para o Ocidente e que ainda busca entender o motivo pelo qual seu marido foi morto depois de preso pelo regime. São histórias das quais os alemães orientais guardam marcas, apesar de tentarem esquecer, que registraram e puseram em museu, para não que não desapareçam no tempo e permitam entender um pouco do espírito amargurado dos que sobreviveram.

Por Bete Duarte

O BOOK e o L.I.V.R.O.

17 de maio de 2010 3

Devo ter recebido a mensagem contendo o vídeo abaixo de umas 10 pessoas diferentes, todas sugerindo que eu publicasse o bagulho aqui no blog. Eu vi o vídeo e achei bem bacaninha, mas relutei em colocar aqui no Mundo Livro justamente pela grande difusão da brincadeira, que a essa altura todo mundo já viu no twitter ou encontrou em algum outro blog por aí. Claro que você já viu, o vídeo em questão é um esquete em espanhol no qual um rapaz — com óculos de frequentador de rave e blusa fosforescente que parece feita com o mesmo tecido daqueles coletes de polícia rodoviária que brilham no escuro — apresenta um “produto revolucionário” chamado Dispositivo de Conhecimento Bio-Óptico Organizado (o que, imagino, dá a sigla em inglês Bio-Optical Organized Knowledge device, o que justifica a abreviação BOOK). Na prática, é a apresentação de uma tecnologia ancestral, a do livro, como se se tratasse do mais novo gadget desenvolvido especialmente para estes tempos eletrônicos

Se você não se lembra ou, caso improvável, não viu, pode assistir aí embaixo, na janelinha do Youtube, que já voltamos.

Cá estamos de novo. Como eu disse, eu não ia colocar o vídeo aqui no blog justamente por achar que ele já havia circulado demais e não era novidade, mas aí esses dias me deu o estalo do que eu poderia acrescentar à exibição do vídeo, pura e simples: a minha perplexidade com a semelhança que esse texto apresenta, em conceito e ideias, com um texto antigo, bem antigo do mestre Millôr Fernandes, propagandeando justamente as virtudes de um dispositivo semelhante: o Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O. Ele andou sendo republicado faz uns anos, acho que 2006 ou 2007, na coluna de Millôr na Veja, mas é bem anterior, tanto que acho que ele está incluído entre os verbetes da primeira edição ainda do Millôr Definitivo (L&PM, 1994) – espero que esta informação esteja correta, o meu exemplar do livro está em São Gabriel e não tenho como consultá-lo no momento. O fato é que o texto, que reproduzo abaixo (preservando os termos destacados em negrito pelo próprio autor), vai exatamente na mesma linha do vídeo, como vocês podem ver:

L.I.V.R.O.

Existe entre nós, muito utilizado, mas que vem perdendo prestígio por falta de propaganda dirigida, e comentários cultos, embora seja superior a qualquer outro meio de divulgação, educação e divertimento, um revolucionário conceito de tecnologia de informação.

Chama-se de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O.

L.I.V.R.O. que, em sua forma atual, vem sendo utilizado há mais de quinhentos anos, representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, nem pilhas. Não necessita ser conectado a nada, ligado a coisa alguma. É tão fácil de usar que qualquer criança pode operá-lo. Basta abri-lo!

Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de folhas numeradas, feitas de papel (atualmente reciclável), que podem armazenar milhares, e até milhões, de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém permanentemente em seqüência correta. Com recurso do TPO – Tecnologia do Papel Opaco - os fabricantes de L.I.V.R.O.S podem usar as duas faces (páginas) da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os custos à metade!

Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para fazer L.I.V.R.O.S com mais informações, basta usar mais folhas. Isso porém os torna mais grossos e mais difíceis de ser transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema, visivelmente influenciados pela nanoestupidez.

Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, no próprio cérebro, sem qualquer formatação especial. Lembramos apenas que, quanto maior e mais complexa a informação a ser absorvida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.

Vantagem imbatível do aparelho é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite acesso instantâneo à próxima página. E a leitura do L.I.V.R.O. pode ser retomada a qualquer momento, bastando abri-lo. Nunca apresenta “ERRO FATAL DE SENHA“, nem precisa ser reinicializado. Só fica estragado ou até mesmo inutilizável quando atingido por líquido. Caso caia no mar, por exemplo. Acontecimento raríssimo, que só acontece em caso de naufrágio.

O comando adicional moderno chamado ÍNDICE REMISSIVO, muito ajudado em sua confecção pelos computadores (L.I.V.R.O. se utiliza de toda tecnologia adicional), permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder na busca com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com esse FOFO (softer) instalado.

Um acessório opcional, o marcador de páginas, permite também que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização, mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou tipo de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. Todo L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso o usuário deseje manter selecionados múltiplos trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com a metade do número de páginas do L.I.V.R.O.

Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O., por meio de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada – L.A.P.I.S.

Elegante, durável e barato, L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro, como já foi de todo o passado ocidental. São milhões de títulos e formas que anualmente programadores (editores) põem à disposição do público utilizando essa plataforma.

E, uma característica de suprema importância: L.I.V.R.O. não enguiça!

Mas será que não enguiça mesmo? O carinha desse outro vídeo logo abaixo talvez tivesse outro depoimento a dar:

Tradução e Reação - 12

17 de maio de 2010 4

A volta às livrarias do clássico Facundo, monumental estudo sobre a formação do gaúcho escrito pelo político e intelectual argentino Domingos Faustino Sarmiento (1811-1888), proporciona o gancho apropriado para resgatarmos uma série que vínhamos negligenciando injustamente: a da comparação entre traduções diferentes de uma mesma obra literária. É o tipo de brincadeira que eu particularmente gosto muito, acho que é sempre fascinante e, por que não, instrutivo, ver que tipos de soluções um determinado tradutor encontrou para uma determinada dificuldade oferecida pelo texto original (tenho a esperança de que esse seja um tipo de distração que agrada aos leitores em geral, embora a maioria das pessoas que eu conheça que curtem esse tipo de brincadeira sejam tradutores de ofício, inclusive eu).

Facundo foi escrito na década de 1840, quando seu autor, político atuante do partido unitarista, estava exilado da pátria devido às constantes mudanças da encapelada maré política local. É considerado um dos pilares da literatura argentina e latino-americana. Sarmiento (o cidadão simpático com cara de buldogue na foto acima) estava no Chile quando começou a escrevê-lo, e o ensaio veio a público em 1845, em 25 capítulos editados em fascículos no jornal El Progreso, de Santiago – no jornal, a série saiu com o o extenso nome de Civilización i Barbarie: Vida de Juan Facundo Quiroga i Aspecto Fisico, Costumbres i Ábitos de la República Argentina. Para edições posteriores em livro, o título foi reduzido para Facundo, Civilización i Barbárie.

Não é por acaso que Sarmiento dá ao relato o nome de uma figura real, o caudilho Juan Facundo Quiroga (1788-1835), morto em uma emboscada. Facundo fora um dos generais a serviço do tirano Juan Manuel de Rosas (1793-1877) – e foi por sua filiação ao grupo dos adversários políticos de Rosas que Sarmiento precisou embarcar para o exílio chileno, que se estenderia por Europa, África e Estados Unidos antes de o autor conseguir voltar ao país, em 1851.

A vida de Facundo é apenas uma parte do que o escritor reproduz em seu livro, que também esmiúça os tipos e os costumes do pampa, o modelo social e econômico vigente no latifúndio argentino e a maneira como tal modelo dava forma à atuação política no país. Nessas páginas, o autor ataca com virulência e paixão o tirano Rosas. Sarmiento nunca passou da escola primária, mas foi um dos grandes responsáveis pelos altos ínidces de instrução e alfabetização que os vizinhos hermanos ostentam ainda hoje – sua reforma do ensino no país assentou as bases sobre as quais se formaram gerações. Ele foi um dos nomes mais discutidos por Borges em seus ensaios e poemas sobre a identidade argentina.

Facundo volta às livrarias em breve em uma belíssima edição da Cosac Naify, com tradução e notas de Sérgio Alcides. O que nos fornece um pretexto para uma comparação com outra edição, esta de 1996, publicada em parceria pelas editoras da PUCRS e da UFRGS e com tradução do escritor gaúcho Aldyr Garcia Schlee, autor de mais de duas dezenas de livros e, curiosamente, do desenho do novo uniforme da Seleção Brasileira, escolhido em concurso em 1953 para substituir o branco associado à derrota de 1950. Sim, eu sei, isso não tem nada a ver com o post, mas é época de Copa de qualquer forma, não é mesmo?

Vamos então comparar os primeiros parágrafos do texto de Sarmiento, primeiramente na tradução feita por Schlee, também autor do prefácio da edição:

Sombra terrível de Facundo! Vou evocar-te para que, sacudindo o ensangüentado pó que cobre tuas cinzas, venhas a explicar-nos a vida secreta e as convulsões internas que dilaceram as entranhas de um povo, nobre povo!
Tu possuis o segredo: revela-no-lo!
Mesmo depois de 10 anos de tua morte trágica, tanto o homem das cidades quanto o gaúcho das planícies argentinas, tomando diversos caminhos no descampado, ainda diziam: “Não! Ele não está morto! Ainda vive! Ele virá!”.
Certo! Facundo não morreu: está vivo nas tradições populares, na política e nas revoluções argentinas; em Rosas, seu herdeiro, seu complemento – pois a alma de Facundo passou para este outro molde mais acabado, mais perfeito; e o que nele era só instinto, iniciação, tendência, converteu-se, em Rosas, em método, efeito e fim. A natureza campestre, colonial e bárbara, transformou-se, nesta metamorfose, em arte, em sistema e em política regular, apresentando-se ao mundo como o modo de ser de um povo encarnado num homem que aspirou tomar ares de gênio capaz de dominar os acontecimentos, as pessoas e as coisas. Facundo, provinciano, bárbaro, valente, audaz, foi substituído por Rosas, filho da culta Buenos Aires, sem ser culto ele mesmo; por Rosas, falso, coração frio, espírito calculista, que faz o mal sem paixão e organiza lentamente o despotismo com toda a inteligência de um Maquiavel. Tirano sem rival hoje na terra, por que seus inimigos querem contestar-lhe o título de Grande, que lhe prodigalizam seus cortesãos? Pois grande e muito grande é, para glória e vergonha de sua pátria; porque, se pôde encontrar milhares de seres degradados que se atrelam ao seu carro para arrastá-lo por cima de cadáveres, também se encontram aos milhares as almas generosas que em 15 anos de lide sangrenta não desesperaram de vencer o monstro que nos propõe o enigma da organização política da República. Um dia virá, finalmente, em que se resolverá o enigma – e a Esfinge Argentina, metade mulher pelo que tem de covarde, metade tigre pelo de sanguinária, morrerá, dando à Tebas do Prata a condição elevada que lhe cabe entre as nações do Novo Mundo.
Contudo, para desatar este nó que a espada não pôde cortar, é preciso estudar cuidadosamente as voltas e revoltas dos fios que o formam e buscar nos antecedentes nacionais, na configuração do solo, nos costumes e tradições populares, os pontos em que estão presos.

Vamos agora comparar com o mesmo trecho na nova tradução feita por Sérgio Alcides para a edição mais recente, da Cosac, que traz um prólogo assinado pelo escritor argentino Ricardo Piglia e um posfácio de Francisco Foot Hardman, crítico literário e professor titular da Unicamp:

Sombra terrível de Facundo, vou evocar-te, para que te ergas, sacudindo o pó ensanguentado que cobre tuas cinzas, e nos explique a vida secreta e as convulsões internas que dilaceram as entranhas de um povo nobre! Tu possuis o segredo: revela-o para nós! Dez anos depois de tua trágica morte, o homem das cidades e o gaúcho das planícies argentinas, ao tomarem diferentes sendeiros no deserto, ainda diziam: “Não, não morreu! Ainda vive! Ele virá!”. Certo! Facundo não morreu: está vivo nas tradições populares, na política e nas revoluções argentinas; em Rosas, seu herdeiro, seu complemento: sua alma passou para outro molde, mais acabado, mais perfeito; e o que nele era só instinto, iniciação, tendência, com Rosas se converteu em sistema, efeito e fim. A natureza campestre, colonial e bárbara se transformou, nessa metamorfose, em arte, sistema e política regular, capaz de se apresentar em face do mundo como o modo de ser de um povo encarnado num homem que aspirou a tomar os ares de um gênio que domina os acontecimentos, os homens e as coisas. Facundo, provinciano, bárbaro, valente, audaz, foi substituído pelo general Rosas, filho da culta Buenos Aires, sem o ser ele próprio; pelo general Rosas, falso, coração gelado, espírito calculista, que faz o mal sem paixão e organiza lentamente o despotismo com toda a inteligência de um Maquiavel. Tirano hoje sem rival na terra, por que seus inimigos lhe contestam o título de Grande, que lhe foi prodigalizado por seus cortesãos? Sim, grande e muito grande ele é, para glória e vergonha de sua pátria, porque, se encontrou milhares de seres degradados que se atiram sobre seu carro a fim de arrastá-lo por cima de cadáveres, também se acham aos milhares as almas generosas que em quinze anos de sangrenta lide, não desesperaram de vencer o monstro que nos propõe o enigma da organização política da República. Virá o dia, enfim, em que o resolvam: e a Esfinge Argentina, metade mulher, pelo que tem de covarde, metade tigre, pelo que tem de sanguinário, morrerá por terra, dando à Tebas do Prata o grau elevado que lhe cabe entre as nações do Novo Mundo.
No entanto, para desatar esse nó que a espada não pôde cortar, é preciso estudar prolixamente as voltas e as revoltas dos fios que o formam, e buscar nos antecedentes nacionais, na configuração do solo, nos costumes e nas tradições populares, os pontos em que estão presos.

Como seria de se esperar de duas versões de um texto em espanhol de não ficção, as mudanças entre um e outro restringem-se mais a nuanças de do que particularmente a pontos cruciais – a edição de Schlee abre mais parágrafos, por exemplo, do que a de Alcides, que nisso fica mas próxima da original. Confesso também que a mesóclise no final da frase “Tu possuis o segredo: revela-no-lo!” me soou menos fluente do que a solução encontrada por Alcides, mas aqui é Schlee quem segue de perto o original espanhol. Mas o que me parece é que ambos os tradutores foram felizes em preservar o tom feroz do passional Sarmiento quando fala do tirano que o exilara – algo que é possível comprovar pelo mesmo trecho no idioma original, abaixo (espero que o esquema dos acentos ao contrário do espanhol sobreviva na configuração dos computadores de vocês):

¡Sombra terrible de Facundo, voy a evocarte, para que, sacudiendo el ensangrentado polvo que cubre tus cenizas, te levantes a explicarnos la vida secreta y las convulsiones internas que desgarran las entrañas de un noble pueblo! Tú posees el secreto: ¡revélanoslo! Diez años aún después de tu trágica muerte, el hombre de las ciudades y el gaucho de los llanos argentinos, al tomar diversos senderos en el desierto, decían: «¡No, no ha muerto! ¡Vive aún! ¡Él vendrá!» ¡Cierto! Facundo no ha muerto; está vivo en las tradiciones populares, en la política y revoluciones argentinas; en Rosas, su heredero, su complemento: su alma ha pasado a este otro molde, más acabado, más perfecto; y lo que en él era sólo instinto, iniciación, tendencia, convirtióse en Rosas en sistema, efecto y fin. La naturaleza campestre, colonial y bárbara, cambióse en esta metamorfosis en arte, en sistema y en política regular capaz de presentarse a la faz del mundo, como el modo de ser de un pueblo encarnado en un hombre, que ha aspirado a tomar los aires de un genio que domina los acontecimientos, los hombres y las cosas. Facundo, provinciano, bárbaro, valiente, audaz, fue reemplazado por Rosas, hijo de la culta Buenos Aires, sin serlo él; por Rosas, falso, corazón helado, espíritu calculador, que hace el mal sin pasión, y organiza lentamente el despotismo con toda la inteligencia de un Maquiavelo. Tirano sin rival hoy en la tierra, ¿por qué sus enemigos quieren disputarle el título de Grande que le prodigan sus cortesanos? Sí; grande y muy grande es, para gloria y vergüenza de su patria, porque si ha encontrado millares de seres degradados que se unzan a su carro para arrastrarlo por encima de cadáveres, también se hallan a millares las almas generosas que, en quince años de lid sangrienta, no han desesperado de vencer al monstruo que nos propone el enigma de la organización política de la República. Un día vendrá, al fin, que lo resuelvan; y la Esfinge Argentina, mitad mujer, por lo cobarde, mitad tigre, por lo sanguinario, morirá a sus plantas, dando a la Tebas del Plata el rango elevado que le toca entre las naciones del Nuevo Mundo.
Necesítase, empero, para desatar este nudo que no ha podido cortar la espada, estudiar prolijamente las vueltas y revueltas de los hilos que lo forman, y buscar en los antecedentes nacionales, en la fisonomía del suelo, en las costumbres y tradiciones populares, los puntos en que están pegados
.

E vocês? o que acharam?

>>> Confira aqui os demais posts da série Tradução e Reação

Os semifinalistas do Portugal Telecom

16 de maio de 2010 3

A curadoria do Prêmio Portugal Telecom divulgou neste fim de semana a lista dos 54 semifinalistas ao prêmio — um dos que mais pagam a um único autor no Brasil. Dentre as cinco centenas de semifinalistas — que serão reduzidos a 10 finalistas em 31 de agosto, quando o júri intermediário do prêmio definir as obras que concorrem ao prêmio de R$ 100 mil — há medalhões da literatura nacional e portuguesa, escritores jovens de carreira já consolidada e autores do continente africano, como o moçambicano Mia Couto e os angolanos Ondjaki e José Eduardo Agualusa. Uma das peculiaridades do Prêmio Portugal Telecom é que, diferentemente do Prêmio Passo Fundo ou do Prêmio São Paulo, ele não premia apenas romances, nem divide a premiação por categorias, como faz o Jabuti. Concorrem na mesma lista romances, peças de teatro, livros memórias e coletâneas de contos e poemas. O grande vencedor será conhecido no dia 8 de novembro.

Da literatura brasileira, comparecem na relação dos semifinalistas deste ano nomes como Rubem Fonseca, por sua controversa volta ao romance com O Seminarista, Chico Buarque, por Leite Derramado, a estreia no conto de Milton Hatoum, com A Cidade Ilhada, e as memórias de Nélida Piñon em Coração Andarilho. Na turma dos gaúchos, três quatro nomes, dois três deles romancistas: Luís Fernando Verissimo, com Os Espiões, Michel Laub, com O Gato Diz Adeus, e Menalton Braff, com Moça com Chapéu de Palha, além do poeta Eduardo Sterzi, que concorre por Aleijão.

O Nobel Saramago concorre com o romance Caim, bem como seu compatriota e desafeto público António Lobo Antunes, que tem não apenas um, mas dois livros na lista: O Meu Nome é Legião e Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?. É o único autor na relação a concorrer por mais de uma obra.

A lista de semifinalistas foi obtida com o voto de três centenas de jornalistas, professores e escritores participantes do júri inicial — e que escolheu também os 11 jurados que vão compôr o júri intermediário, responsável pela escolha dos finalistas. Abaixo, a lista completa dos semifinalistas, com um link para matérias sobre o livro aqui no blog quando já comentamos a obra no Mundo Livro:

* A boca da verdade, de Mario Sabino (Record)
* A casa deles, de Ana Paula Pacheco (Nankin Editorial)
* A cidade ilhada, de Milton Hatoum (Companhia das Letras)
* A minha alma é irmã de Deus, de Raimundo Carrero (Record)
* A passagem tensa dos corpos, de Carlos de Brito Mello (Companhia das Letras)
* A teoria do jardim, de Dora Ribeiro (Companhia das Letras)
* Aleijão, de Eduardo Sterzi (7Letras)
* Algum lugar, de Paloma Vidal (7Letras)
* Antes de nascer o mundo, de Mia Couto (Companhia das Letras)
* Avó dezanove e o segredo do soviético, de Ondjaki (Companhia das Letras)
* Barroco tropical, de Jose Eduardo Agualusa (Companhia das Letras)
* Bili com limão verde na mão, de Decio Pignatari (Cosac Naify)
* Boa noite, Senhor Soares, de Mario Claudio (7Letras)
* Caim, de Jose Saramago (Companhia das Letras)
* Céu de origamis, de Luiz Alfredo Garcia-Roza (Companhia das Letras)
* Cine privê, de Antônio Carlos Viana (Companhia das Letras)
* Coração andarilho, de Nélida Piñon (Record),
* Crônicas da Mooca, de Mino Carta (Boitempo)
* Do que ainda, de Júlio Castañon Guimarães (Contra Capa)
* Escarnho, de Paulo Franchetti (Ateliê Editorial)
* Estive em Lisboa e lembrei de você, de Luiz Ruffato (Companhia das Letras)
* Golpe de ar, de Fabricio Corsaletti (Editora 34)
* Inverdades, de Andre Sant’Anna (7Letras)
* Lar,, de Armando Freitas Filho (Companhia das Letras)
* Leite derramado, de Chico Buarque (Companhia das Letras)
* Mandingas da mulata velha na cidade nova, de Nei Lopes (Lingua Geral)
* Matriuska, de Sidney Rocha (Iluminuras)
* Meu amor, de Beatriz Bracher (Editora 34)
* Miguel e os demônios, de Lourenço Mutarelli (Companhia das Letras)
* Moça com chapéu de palha, de Menalton Braff (Lingua Geral)
* Monodrama, de Carlito Azevedo (7Letras)
* No mundo dos livros, de Jose Mindlim (Agir)
* O albatroz azul, de João Ubaldo Ribeiro (Nova Fronteira)
* O filho da mãe, de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras)
* O gato diz adeus, de Michel Laub (Companhia das Letras)
* O livro dos mandarins, de Ricardo Lísias (Objetiva/Alfaguara)
* O meu nome é legião, de António Lobo Antunes (Objetiva/Alfaguara)
* O seminarista, de Rubem Fonseca (Agir)
* O sexo vegetal, de Sergio Medeiros (Iluminuras)
* Olhos secos, de Bernardo Ajzenberg (Rocco)
* Os espiões, de Luis Fernando Veríssimo (Objetiva/Alfaguara)
* Outra vida, de Rodrigo Lacerda (Objetiva/Alfaguara)
* Passageira em trânsito, de Marina Colasanti (Record)
* Perdidos na toscana, de Afonso Romano de Sant’Anna (L&PM)
* Poemas do Brasil, de Maria Teresa Horta (Brasiliense)
* Pornopopéia, de Reinaldo Moraes (Objetiva)
* Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, de António Lobo Antunes (Objetiva/Alfaguara)
* Rei do cheiro, de João Silverio Trevisan (Record)
* Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre (Record)
* Sob o céu de Samarcanda, de Ruy Espinheira Filho (Bertrand Brasil)
* Tabasco, de Lucila Nogueira (Selo Off FLIP)
* Um a menos, de Heitor Ferraz Mello (7Letras)
* Violetas e pavões, de Dalton Trevisan (Record)
* Yuxin, de Ana Miranda (Companhia das Letras)

O silêncio das viagens

13 de maio de 2010 3

Encontrei a tumba de Géricault, no Père Lachaise, num domingo de outubro. As ruas do cemitério de Paris estavam amarelas, cobertas por folhas de plátanos. Os túmulos arejados pela brisa constante e gélida. Balzac, Chopin, Proust, Jim Morrison rodeado por uma multidão, com guitarras e flores vermelhas. Mausoléus de cheiro ácido. Uma lápide com poderes de fertilidade. O caminhar amaciado pelas folhas, seguindo por aleias tortas.
Oscar Wilde está aqui, soprou Laura, abraçada ao seu jazigo de concreto, carimbado por beijos de batom. Outras sepulturas, revestidas com musgo entre as gramíneas, comprovavam os séculos esquecidos. O tempo para sempre perdido. Bebi um gole de vinho bordeaux sentado nas escadarias da eternidade, conversando com almas notáveis. Outros goles a esse exílio involuntário, em forma de cadáver, que não acaba nunca.
Nessa cidade gótica, de edifícios vazios, através das lajes mal-assentadas, o vento renova o cheiro da urina dos gatos. E há tantas lajes sinuosas, até nos degraus dos longos passeios, que tudo aqui parece acomodar-se, de tempos em tempos, ao ritmo dos mortos.
As vozes embaraçadas de outros turistas, em meio aos túmulos, faziam coro para o miado dos felinos. “Por aqui, por ali…”, diziam. Ao longe, a música de Rossini. Allan Kardec e um rangido de portas. Eles também nos ouvem do outro lado do mármore.
Desviamos por um caminho lateral, mais estreito, seguindo o burburinho de vozes. Próximo ao túmulo de Edith Piaf, um grupo de pessoas vestidas de preto acompanhava um enterro. O cadáver estava cercado por uma notável vizinhança. Apenas os lenços, enxugando as lágrimas, eram brancos. Combinavam com o céu, recortdado pelos galhos secos das árvores. Uma senhora esguia assoou o nariz, fazendo balançar as abas de renda do seu chapéu. O homem de cavanhaque comprido soltou baforadas com um cachimbo, enquanto consolava o choro de um menino.

A coletânea Silêncio em Siena (Editora 7Letras, 200 páginas, R$ 32), estreia na ficção do artista gráfico e fotógrafo Flávio Wild, subverte a noção comum associada à expressão “livro de viagem”. O livro – resultado de andanças do autor pela Europa – alterna textos e fotos para narrar episódios ficcionais ocorridos em 15 cidades do velho continente. Wild não faz contos de turista. Suas histórias acompanham, ao longo dos 15 contos, um casal de viajantes por cada uma das cidades europeias — mas o cenário não toma o controle da narrativa. Em vez da descrição estéril de pontos turísticos, Wild concentra-se em episódios: encontros com personagens da paisagem local, iluminuras que remetem a sonho e delírio

O primeiro conto, O Sorriso de Fiona, apresenta o casal de protagonistas, o narrador e sua esposa, Laura, personagens que se repetirão ao longo do livro e que, numa operação metaficcional que acrescenta mais uma camada ao livro, são baseados no próprio artista e em sua esposa. Afetada pela falta de sono da longa viagem, a dupla termina por ver, em Edimburgo, uma dupla natureza, maligna e benigna, ecoando a cisão entre Doutor Jekyll e Mister Hyde narrada pelo escocês Robert Louis Stevenson no clássico O Médico e o Monstro. Para o casal, o ancestral castelo de Edimburgo, não é um ponto de interesse, mas um refúgio para se esconder da dona da hospedaria em que se alojaram, criatura cujo sorriso se derrete em um esgar maligno, seja ele real ou delírio provocado pelo cansaço.

Quase todos os contos são permeados por essa aura onírica, a sublinhar que a viagem física é também um deslocamento entre realidades, entre planos que se entrechocam e se invadem pelo deslocamento: o real e o irreal. Levando consigo a realidade íntima do lugar de onde partiu, é natural que o viajante veja nos destinos em que desembarca limites pouco delineados entre o real e o irreal. Em Amsterdã, no conto À Beira do Amstel, após uma “viagem” de maconha (legalizada no país) o casal encontra um cadáver desfigurado boiando no rio Amstel. O cadáver  se revela uma estátua de cera desaparecida. Em O Velho do Parc Güell, o casal se perde pelas labirínticas e indistintas ruas de Barcelona, guiados por um velho desconhecido cuja identidade guarda uma sobrenatural interrogação.

A cada conto, a cada cidade, fotografias tiradas pelo próprio Wild, em solene preto-e-branco, adicionam uma nova camada visual à trama da viagem (a imagem que ilustra este post foi fotografada por Flávio Wild em Paris, cenário do conto Do Alto dos Mausoléus, do qual reproduzimos o trecho acima). As imagens, belíssimas, compõem um mosaico de detalhes visuais de cada cidade – o resultado é visualmente impactante, mas fotos e contos não chegam a se unir em um todo narrativo, e por isso o recurso, em Silêncio em Siena, não chega a ter o brilho que W.G. Sebald soube tirar dele em obras como Austerlitz, por exemplo. Uma que outra narrativa também abusa da repetição do mesmo mote sobrenatural para sua conclusão – a própria Do Alto dos Mausoléus tem um desfecho que lembra o também já citado O Velho do Parc Guell, e tal redundância prejudica o clima de estranhamento tão bem construído em ambos. Mas Wild sabe trabalhar os subentendidos com sutileza, e, no conjunto, o livro é preciso em apresentar o clima de estranheza tão familiar aos viajantes que adentram não apenas outras fronteiras, mas outras dimensões.