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Luiz Nelson Brás de Oliveira

07 de junho de 2010 3

Seja como escritor ou como organizador de antologias, Nelson de Oliveira sempre pautou seu trabalho por um equilíbrio entre a experimentação literária formal e uma observação minuciosa e realista do cotidiano. Seu livro mais recente leva a experimentação mais longe, em um romance sombrio e cáustico que flerta abertamente com o gênero da ficção científica.

Poeira: Demônios e Maldições retrata o Brasil em outra realidade – um mundo futurista ou uma dimensão alternativa, o autor não chega a bater o martelo em relação a isso – na qual a publicação e a circulação de livros foram proibidas por decreto presidencial. Como um Brasil alternativo, contudo, ainda será o Brasil, a ordem não é cumprida de imediato. Milhares de livros devem ser cadastrados nas monstruosas bibliotecas construídas para armazenar os volumes. Já que não param de aparecer novos livros mesmo com a interdição, a solução do governo é fazer de conta que nada aconteceu e continuar construindo depósitos para os livros que em tese não deveriam existir.

Organizador das controversas antologias Geração 90 – aquelas mesmas que acabaram por colar em seus participantes o rótulo de “transgressores” que hoje alguns deles renegam – Oliveira conduz sua história pelos pontos de vista de um diretor de biblioteca, Frederico, e dos personagens que gravitam em torno dele: sua mulher, Estela; sua filha, Renata; o genro, Rodrigo, e um investigador chamado Pedro Penna, em obscura missão oficial no  complexo que abriga a biblioteca – onde os títulos ainda não catalogados tomam conta de todas as dependências, como banheiros, refeitórios e até as lajes externas. Em um cenário nonsense e apocalíptico no qual as estrelas incendeiam o céu e o caos urbano é a paisagem cotidiana, os personagens vão gradativamente desaparecendo à medida que mais e mais livros novos, editados depois da interdição, misteriosamente se espalham pela biblioteca – dois mistérios que têm uma resolução sarcástica e com um pé no fantástico.

Embora sua produção literária consagrada pela crítica – e de corte mais afeito ao realismo – aborde temas e conceitos bastante diversos desse universo de fantasia e ficção científica, Oliveira não é um estranho ao meio. Ele organizou, em 2007, a coletânea Futuro Presente (Editora Record) e revistas de um projeto chamado Portal, partindo da premissa de cruzar em um mesmo espaço escritores mais ligados à literatura de gênero e os que praticam a chamada “ficção literária” ou “literatura mainstream” (e aí a questão da dificuldade de nomear os conceitos quando o assunto é ficção científica fica claro, uma vez que há prosa “literária” em ficção científica e o que se entende comercialmente por “mainstream” se ajustaria melhor aos
best-sellers, por exemplo, do que à literatura de viés mais artístico).

O novo livro é, contudo, um dos raros textos de ficção científica escritos por Nelson com seu próprio nome. O autor já ensaiara incursões no gênero com o nome de Luiz Bras – foi assim que assinou seu conto na antologia Futuro Presente, por exemplo. É também o último livro de Nelson de Oliveira – doravante, as obras do autor saem assinadas por sua “persona” Luiz Bras.

Comentários (3)

  • leticia diz: 9 de junho de 2010

    hm.. deu vontade de ler .. sou apenas eu que acho, ou os libres andam cada vez mais caros ? adora ler, mas não da mais pra comprar um por mês.. a gente tem que ler muito na internet sobre o livro.. se depois de ler muito ele ainda parecer interessante .. então comprar..

    Também percebo isso, Letícia. Mesmo sem pagar impostos como Cofins e IPI os livros estão caros para o padrão médio brasileiro – mas esse é um problema que assola tod a área cultural. Houve épocas em que o preço de um LP e o ingresso de um show quase se equivaliam – algo impossível de imaginar hoje. O jeito é fazer essa coinsulta prévia de que falas e investir nas edições mais em conta, como livros de bolso (hoje há boas coleções disponíveis em mis de uma editora: L&PM, Companhia, Best Bolso)
    Abraço

    Carlos André

  • Segundo Caderno » Arquivo » Luiz Nelson Brás de Oliveira diz: 17 de junho de 2010

    [...] o post original no Mundo Livro: Luiz Nelson Brás de Oliveira Compartilhar/Salvar Tags: brasil, fantasia, fic, nas-monstruosas, nelson de oliveira, oliveira, [...]

  • Mundo Livro » Arquivo » Eu preciso aprender a ser só diz: 12 de setembro de 2012

    [...] de Poeira, Demônios e Maldições (leia mais aqui) ficção científica distópica lançada em 2010, Bras se tornou o nom de plume oficial de [...]

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