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O fundo do poço é no Egito

16 de junho de 2010 5

Tivesse sido contratado para escrever um livro-reportagem a respeito do Egito, o escritor Joca Reiners Terron teria feito um belíssimo trabalho. O grosso do seu recém-lançado Do Fundo do Poço Se Vê a Lua tem tudo para ser classificado como jornalismo literário, esse gênero que gosta de transformar o simples e objetivo em grande evento. Tudo certo, se Terron não tivesse que entregar um romance ou coisa que o valha. E aí sua caudalosa prosa desanda.

Do Fundo do Poço é mais um dos livros escritos a partir do projeto Amores Expressos, bancado em parte pela Companhia das Letras e que levou 17 autores para passar um mês em cidades do mundo com a promessa de voltarem com um história de amor ambientada nesses lugares. Daí já saíram obras que se passam em Lisboa (Estive em Lisboa e Lembrei de Você, de Luiz Ruffato), Buenos Aires (Cordilheira, de Daniel Galera) e São Petersburgo (O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho).

Terron foi para o Cairo, capital egípcia. E pela descrição pormenorizada que faz de cenários, pessoas, hábitos, histórias e lendas, a impressão não foi das melhores. É possível se imaginar castigado pelo vento incessante que enche todas as mucosas de areia enquanto taxistas, comerciantes e toda sorte de malandros de rua tentam, o tempo todo, te ludibriar de alguma forma.

Uma filial do inferno, não há dúvida, mas é para onde segue William, um dos protagonistas da trama. Ele está atrás do irmão gêmeo, Wilson, travesti desaparecido há vinte anos e com o qual nutre uma relação que se revelará mortal. Se revelará entre aspas, porque o leitor experimentado em tramas de mistério não terá dificuldade em entender o que está acontecendo logo nos primeiros capítulos e será capaz de desenhar um final que cumprirá sem muita margem de erro suas expectativas.

Com exceção das soluções criadas aparentemente no desespero, como personagens secundários que tornam-se pivôs de grandes reviravoltas, deixando o leitor se perguntando onde foi que ele deixou escapar alguma evidência. Mas não deixou, porque não existem evidências nesse caso. Ou a solução é óbvia ou ela surge como que por magia para resolver a questão.

O próprio Egito entra na história de maneira um tanto canhestra: Wilson é obcecado pela Cleópatra de Elizabeth Taylor desde a puberdade. Por isso, vai para o Cairo. Simples assim. Se ao invés do filme de Joseph Mankiewicz o rapaz tivesse saído do armário com a Liza Minnelli de Cabaret, a história se passaria em Berlim sem maiores problemas.

O que por outro lado não é um demérito, já que a intenção de Terron parece ter sido a de trabalhar a questão da identidade independente de lugar ou tempo. Só que não consegue competir com o belo livro-reportagem sobre o deserto.

Comentários (5)

  • Segundo Caderno » Arquivo » O fundo do poço é no Egito diz: 16 de junho de 2010

    [...] o post original no Mundo Livro: O fundo do poço é no Egito Compartilhar/Salvar Tags: amor-ambientada, Amores Expressos, buenos-aires, cairo, cairo-simples, [...]

  • Marcus diz: 16 de junho de 2010

    Sei lá, nunca tive muita vontade de ler os livros do Terron, mas ele certmente não escreve pior que a pessoa que cometeu essa ‘crítica’. Taí um texto que vai de nada a lugar nenhum, muito melhor a traveca, que foi ao Cairo sem precisar de muitas razões. Patético.

    E aí, Marcus, tudo bem?
    Não entendi: afinal, tu leu ou não leu o livro do Terron sobre o qual a resenha se refere? Gosto da ideia de puxar um debate na caixa de comentários, por isso acho que poderias ter aprofundado e fundamentado a tua discordância. Dizer que o texto do Gustavo foi “do nada para lugar” nenhum é um bocado vago, não?
    Abraço.

    Carlos André

  • Amanda diz: 17 de junho de 2010

    Não gostei muito essa capa. Parece apelativa de uma maneira que beira ao indecente.
    No entanto, estou louca para ler esse romance!!! Principalmente porque envolve um travesti (e eu adoro narrativas — literárias e fílmicas — com travestis). Será que ele (Wilson) foi ao Egito fazer cirurgia de troca de sexo?

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