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Duas vezes Saramago

18 de junho de 2010 1

Duas leituras de José Saramago:

1. Um trecho de Encontros com 40 Grandes Autores, do jornalista australiano Ben Naparstek (Leya, 256 páginas):

Em Estilo Tardio, Edward Said sugere que a aproximação da morte frequentemente provoca nos escritores uma de duas reações. Alguns assumem a imagem popular do velho sábio, cujo trabalho reflete uma nova serenidade e a reconciliação com o mundo. Para outros, o comprometimento da saúde se manifesta como contradiçao e discórdia insolúveis, levando-os a reabrir questões incômodas e complexas de significado e identidade.
No livro de José Saramago
As Intermitências da Morte, a morte não apenas o tema central, mas também a principal personagem. Publicado inicialmente em português, em 2005, o livro foi traduzido para o inglês em 2008, por Margaret Jull Costa. Agora, aos 86 anos, o romancista parece quase parodiar a obsessão pela morte de um escritor cujos olhos estão voltados para a ampulheta. No entanto, ao personificar comicamente a Grande Foice como uma mulher, estará Saramago adentrando suavemente a noite ou tramando uma rebelião inútil contra a injustiça da mortalidade?
As intermitências da morte situa-se entre as duas categorias de Said de “estilo final” — não traz nem uma indignidade desenfreada nem a segurança de um fecho moral. Aparentemente, trata-se de uma fábula sobre a importância da morte para a civilização. Repentinamente, a população de um país não definido para de morrer – Saramago concede à humanidade seu antigo desejo por uma vida eterna, a fim de imaginar suas terríveis consequências. Mas esse é também um romance pós-moderno, com uma voz autoral autoconsciente, que chama a atenção para sua natureza construída e insiste em interpretações alternativas.

2. Um Trecho de Saramago: Uma Biografia, do português João Marques Lopes (Leya, 248 páginas)

Afinal, o que muda e o que permanece na ficção saramaguiana? De um lado, e tendo consciência aqui e ali nas obras do escritor, há o corte com a realidade portuguesa, a ruptura mais geral com coordenadas espaçotemporais concretas, o “enxugamento” do estilo barroco., a transmudação da tendência “coral” na concentração em personagens individuais e a metamorfose do todo ficcional em alegorias. De outro lado, fica a marca oral que tornara Saramago singular, o narrador heterodiegético intrometido e a utilização de provérbios, ditos populares e outras miudezas de uma linguagem mais próxima do cotidiano para efeitos narrativos inesperados. Numa visão de conjunto, o traço dominante mais inovador parece confluir para o fato de estarmos agora diante de alegorias que funcionam como distopias de um mundo abandonado pela razão. Da barbárie do Ensaio sobre a cegueira à gélida burocratização em base ontológica, gnoseológica, ética e política de Todos os nomes; da absolutização do mercado em A caverna à opacidade da identidade do eu a si próprio em O homem duplicado e à ilusão da democracia em Ensaio sobre a lucidez – tal parece ser agora o eixo da ficção saramaguiana

Comentários (1)

  • Segundo Caderno » Arquivo » Duas vezes Saramago diz: 18 de junho de 2010

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