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Ensaio sobre o romancista

18 de junho de 2010 3

José Saramago durante visita a Porto Alegre em 2005 para o Fórum Social Mundial.
Foto: Carlos Rodrigues

Até 1992 eu não fazia a menor ideia de quem era José Saramago. Eu tinha 17 anos e trabalhava como técnico e locutor em uma emissora de rádio na minha cidade natal (não, minha voz nunca fez jus ao rádio, nem naquela época nem agora, mas atuava mais como repórter de campo, então isso não chegava a ser um grande problema). Em uma noite do primeiro semestre de 1992, eu estava cobrindo ao vivo uma sessão solene da Câmara de Vereadores local (bem-vindos ao rádio do Interior, pessoas), quando, em um dos intervalos da transmissão, saí da sala das linhas telefônicas (que ficava ao lado do plenário) e fui até a sala do cafezinho. Havia, jogada por ali, uma revista semanal – agora não vou me lembrar se era a Veja ou a Istoé Senhor. Lembro que lá pelas últimas páginas da revista, depois de um perfil de duas páginas do Antônio Calloni, que na época representava um papel de sucesso numa novela da Globo (aquela com a Letícia Sabatella e o Beija-Flor), havia uma página falando sobre O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que acabava de ser publicado em Portugal. A matéria de cara me interessou, embora, pelo que me lembre, o texto enfocasse o aspecto escandaloso e algo sensacionalista do romance, ressaltando que a cena de abertura já era a iconoclasta descrição de como José engravidava Maria após uma relação – bom, eu tinha 17 anos, talvez eu tenha me interessado justamente por isso.

Mas ali também era contada a singular experiência que levou à redação do romance: o fato de Saramago haver passado por uma banca de revistas e enxergado em uma das publicações expostas a manchete O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Voltou à banca e viu que não havia revista ou jornal algum com aquela frase, e ficou com ela na cabeça até resolver escrever um romance para aquele que era um tão bom título. A matéria contava também a ronha envolvendo as pressões católicas para que o livro fosse retirado do Prêmio Europeu de Literatura, no qual representava Portugal. Também insistia no fato de que Saramago era um dos mais populares autores em Portugal, e um nome reconhecido na Europa. Mas eu, como havia comentado antes, nunca ouvira falar dele. Poucos meses depois daquilo, mudei para Porto Alegre para cursar a faculdade. Outros meses depois, a Biblioteca da Fabico recebeu, no início de 1993, dois exemplares do Evangelho, mas uma aparição recente de Saramago no Programa do Jô (à época acho que ainda era conhecido como Jô Soares Onze e Meia) havia tornado a iconoclastia do livro popular entre os jovens futuros jornalistas, e havia uma lista de espera na biblioteca para pegar emprestado um daqueles dois exemplares. Pus meu nome na lista e só fui ter notícia dois meses depois.

Quando finalmente peguei o livro emprestado, fui apresentado àquele primeiro capítulo, escrito com uma precisão de iluminura, uma descrição minuciosa e póetica de um vitral mostrando a crucificação de cristo como a conhecemos da iconografia cristã, um prenúncio do desmonte iconoclasta que viria mais tarde. Peguei o livro numa sexta-feira, comecei a ler antes do primeiro período do dia, e quando a aula começou e eu fechei o livro me senti disperso e inquieto, louco para voltar outra vez para a leitura, o que fiz assim que cheguei à Casa do Estudante e não parei mais até a tarde de sábado, siderado porque aquele livro, embora fosse exatamente o que aquele primeiro texto havia mencionado, não era nada do que eu esperava, era outra coisa, maior, mais forte, e fui tomado, como em febre, pela ousadia daquela narrativa que crucificava José, o pai do Cristo, que fazia de Satanás o amigo da humanidade, que promovia um encontro entre Deus, o Adversário e Jesus em um bote no meio de um mar que só poderia haver na alma de um português. Muito ouvi falar, depois, de como a sintaxe de Saramago era difícil e arrevesada, complexa, mas eu não senti essa dificuldade – provavelmente era tão estúpido que nem sabia que aquele livro era para ser difícil, o que é uma coisa a se pensar, no fim das contas.

Minha relação de leitor com Saramago sempre foi passional: o mesmo autor podia escrever livros que me deixavam fissurado por dias e depois me decepcionar com algum livro que ficava bem abaixo do que eu esperava dele – o impacto foi intenso com Ensaio sobre a Cegueira e Todos os Nomes, por exemplo, ou com A Jangada de Pedra e O Ano da Morte de Ricardo Reis, e a decepção foi grande com A Caverna e O Homem Duplicado, por exemplo. Não que ele devesse cumprir as minhas expectativas, claro, só digo isso porque não é uma relação que mantenho com muitos escritores – Lobo Antunes, o eterno rival, por exemplo, me enleva da mesma forma, mas quando me decepciona não decepciona tanto provavelmente porque eu não esperava tanto. Parte daquelas idiossincrasias de leitor: a relação de expectativa que se desenvolve com ele, o autor, principalmente, devo acrescentar, nas leituras de juventude. Depois de uma certa idade as coisas assumem outra perspectiva e tal comprometimento se torna menos intenso, mais cético, mais… crítico, chegamos à palavra fatal.

Perspectiva crítica e cinismo são coisas que muitos incautos confundem – não sentir mais esse tipo de febre de leitor porque o tempo passou e outras coisas aconteceram é uma coisa, mas desdenhar disso nas novas gerações já é outra, bem diversa. A leitura forma o leitor, que de-forma suas leituras e as reconstrói como parte de uma nova leitura, e assim por diante, em um processo que, nos melhores casos, prossegue ao infinito – ou melhor, até o fim não da leitura, mas do leitor, este ser destinado ao desaparecimento.

É esquecer que, por longínquo que seja o desenrolar da corrente, sempre terá havido autores de eleição no início.

Comentários (3)

  • Segundo Caderno » Arquivo » Ensaio sobre o romancista diz: 19 de junho de 2010

    [...] o post original no Mundo Livro: Ensaio sobre o romancista Compartilhar/Salvar Tags: homem-duplicado, interior, jesus-cristo, jos, leitura, Literatura, mundo [...]

  • Larissa diz: 19 de junho de 2010

    belíssimo texto. fiquei tentada a dar mais uma chance ao velho. parabéns.

  • Eleizer diz: 21 de junho de 2010

    Saramago é singular, suas obras são reflexivas, questionadoras, inquietas.Jamais seremos os mesmos após sua leitura, elas exigem que nos posicionemos, seja a favor ou contra, idolatrando-as ou rejeitando-as. “Ensaio sobre a Cegueira” foi meu batismo e desde então sou fã incondicional.

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