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Jorge Amado e os bonecos

24 de junho de 2010 1

Imagem da peça O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá,
do grupo El retablo / Foto: Divulgação

Enquanto isso, o Gato Malhado levantou-se, estirou os braços e as pernas, eriçou o dorso para melhor captar o calor do sol subitamente doce, abriu as narinas para aspirar os novos odores que rolavam no ar, deixou que todo o rosto feio e mau se abrisse num sorriso cordial para as coisas e os seres em torno. Começou a andar.
Aconteceu então uma debandada geral. O grande Pato Negro arrastou a pequena Pata Branca para o fundo do lago e assim, num mergulho que bateu todos os seus recordes anteriores, atravessou para a outra margem, onde pôs sua mulherzinha a salvo. Os pombos recolheram-se todos ao pombal, silenciando os arrulhos de amor nos galhos das árvores onde nasciam e se multiplicavam brotos verdes no mesmo minuto transformados em folhas cheias de sombra. Os cães pararam de correr e pular, fizeram como se estivessem muito ocupados em desencavar ossos escondidos. Os botões que começavam a virar flores suspenderam momentaneamente seu trabalho, e uma rosa que, apressada, já se abrira, deixou cair todas as pétalas sobre o chão. Meunos uma que ficou volteando no ar, ao sabor da brisa.
Toda essa correria fez um certo ruído, despertando a atenção do Gato Malhado. Olhou espantado. Por que fugiam todos se era tão belo o parque naquela hora de chegada da primavera?
Não havia tempestade, não corria o vento frio derrubando as folhas, a chuva não desabava em lágrimas sobre os telhados.
Como fugir e esconder-se quando a Primavera chegava trazendo consigo a doçura de viver? Será que a Cobra Cascavel havia voltado, havia ousado retornar ao parque? O Gato Malhado procurou-a com os olhos. Se fosse ela, dar-lhe-ia nova lição para que jamais ali viesse roubar ovos, tirar pássaros dos ninhos, comer pintos e pomba-rolas. Mas não, a Cascavel não estava. O Gato Malhado  refletiu. E compreendeu então que fugiam dele, há tanto tempo que não o viam miar nem sorrir que agora se amedrontavam.
Foi uma triste constatação. Primeiro deixou de sorrir, mas, depois, encolheu os ombros num gesto de indiferença. Era um gato orgulhoso, pouco lhe importava o que pensassem dele.
Até piscou – num gesto um pouco forçado – um olho malandro para o sol, e esse gesto, ainda mais inesperado, fez com que uma enorme Pedra, que há muitíssimos anos residia nas proximidades do lugar onde o Gato estava, rolasse correndo para o mato.
O Gato Malhado aspirou a plenos pulmões a Primavera recém-chegada. Sentia-se leve, gostaria de dizer palavras sem compromisso, de andar à toa, até mesmo de conversar com alguém. Procurou mais uma vez com os olhos pardos, mas não viu ninguém. Todos haviam fugido.
Não, todos não. No ramo de uma árvore a Andorinha Sinhá fitava o Gato Malhado e sorria-lhe. Somente ela não havia fugido.  De longe seus pais a chamavam em gritos nervosos.
E, dos seus esconderijos, todos os habitantes do parque miravam espantados a Andorinha Sinhá, que sorria para o Gato Malhado. Em torno era a primavera, o sonho de um poeta.

Quem leu a Zero Hora de hoje viu, na capa do Segundo Caderno, uma reportagem de Vanessa Franzosi sobre o começo do 22º Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Canela, que vai até domingo apresentando a arte de grupos daqui e de fora. Um deles, El Retablo, é espanhol, e traz à serra gaúcha um espetáculo baseado no livro de Jorge Amado cujo trecho vocês puderam ler logo acima: O Gato Malhado & A Andorinha Sinhá, história que Jorge escreveu para o filho, João Jorge, quando este era criança, e que foi pubilcada nos anos 1970 por insistência do próprio João Jorge já adulto.

Na história, apresentada por Jorge Amado como um conto de amor, o temido e selvagem Gato Malhado conhece e se apaixona pela andorinha e ambos enfrentam o estranhamento de todo o parque dadas as óbvias diferenças entre ambos.  Confesso que a antropomorfização de coisas e bichos que é a ferramenta centtral de muita literatura para crianças hoje me incomoda um pouco, mas o problema é meu, não dos livros, claro. E já que o El Retablo, dirigida pelo argentino radicado na Espanha Pablo Vergne, vem a  Canela com uma adaptação bonequeira de O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, recupero um trecho do livro, que foi reeditado em 2008 no selo Cia. das Letrinhas da Companhia das Letras. A história é ilustrada pelo parceiro de longa data de Jorge em seus livros adultos: o artista Carybé.

Os espetáculos do Festival Internacional de Canela são apresentados em praças de Canela, com entrada franca, e também nos espaços Casa de Pedra, Lage de Pedra e Teatro Municipal, com ingressos a R$ 25, R$ 15 (menores de 10 anos) e R$ 12,50 (idosos). Confira a programação de hoje no site www.bonecoscanela.com.br.

Comentários (1)

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