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Seis bons romances policiais

25 de junho de 2010 3

Organizando um lado das minhas estantes dedicado só a livros policiais, encontro alguns dos meus preferidos do gênero. Como a gripe bateu pesado e não estou com a disposição física e intelectual necessária para grandes elucubrações, hoje apenas reparto com vocês cinco desses livros já lidos, todos com mais de cinco anos de publicação. Se alguém encontrar um deles por aí, pode ir sem medo às páginas:

Perseguido, de Luiz Alfredo García-Roza
Este livro é o quarto da série protagonizada pelo personagem recorrente de García-Roza, o delegado Espinosa, lotado na delegacia de Copacana, no Rio de Janeiro. Em Perseguido, ele recebe um pedido de ajuda de um psiquiatra que se diz perseguido por um paciente. A maneira como o autor delineia o pesadelo que o psiquiatra vai vivenciando com a perseguição que o jovem lhe faz, a princípio imotivada e sutil, é um dos pontos fortes da trama. García-Roza é um dos autores que trabalham o esgarçamento dos limites do policial clássico, levando a trama até um ponto além (ou aquém) da já manjada “resolução do crime” no fim da história. Fazer isso, contudo, sem cair na irresolução total, é difícil, e não tenho certeza se ele consegue neste romance– é o caso também do primeiro livro da série, O Silêncio da Chuva.

A Leoa Branca, de Henning Mankel
Bem antes de Stieg Larsson colocar a Suécia no mapa mundial da literatura de crime, este autor já escrevia ótimas narrativas protagonizadas pelo investigador Kurt Wallander. A Suécia não era, até a aparição da trilogia Millenium, um cenário comum para o romance policial – e este aqui, em particular, estende ramificações até a Àfrica do Sul de que hoje tanto falamos em dias de copa. . O detetive Wallander, ao investigar um assassinato que parecia ser um caso rotineiro, o de uma dona de casa na pacata Yistad, descobre ligações entre o crime e um um complô tramado na Africa do Sul para assassinar uma proeminente figura do novo governo de Nelson Mandela às vésperas da queda do Apartheid. Mankel recentemente teve outro livro publicado no Brasil, O Guerreiro Solitário, mas esse eu confesso que não li.

Sangue do Céu, de Marcelo Fois
Em uma pequena aldeia da Córsega no fim do século 19, o advogado Bustianu é contratado para defender um jovem com problemas mentais acusado de um assassinato. O jovem se mata na cadeia, e Bustianu descobre que não há muita gente interessada, na polícia ou na família, em elucidar se ele realmente se matou ou se foi assassinado — a morte do rapaz parece ter posto fim à curiosidade de todo mundo e mesmo à vergonha do crime. Este é daquele tipo de romance que se pretende mais literatura e menos mistério –  o foco é na construção psicológica e na descrição sufocante e muito eficiente de uma Córsega chuvosa e apegada a tradições atávicas. A terra vermelha saturada de água da chuva escorre pela cidade em uma enxurrada vermelha que não deixa de ecoar o próprio crime. Consta que o protagonista é inspirado em um personagem real.

A Dália Negra, de James Ellroy
Obra prima, não apenas uma obra-prima de Ellroy mas um marco vários pontos acima do próprio gênero. Tenso, violento e primoroso, narra uma investigação criminal para elucidar o assassinato brutal de uma jovem encontrada violentada e cortada ao meio em um terreno baldio na Hollywood dos anos 40. Andava difícil de achar na edição antiga, mas a Record reeditou por ocasião do lançamento do filme de Brian de Palma – um filme decepcionante quando pensamos no que o livro é, no que De Palma já provou que pode fazer e na massa anódina que o filme acabou sendo. Elroy disfarça sobre a trama de um romance policial — e da progressiva obsessão da dupla de policiais encarregada do caso — uma vigorosa história da formação de Los Angeles, com suas tensões raciais, conflitos sociais e a inevitável corrupção imobiliária.

Nem os Mais Ferozes, de Edward Bunker
Bunker foi um ex-presidiário que passou a maior parte de sua vida em cana. Saiu, virou escritor e se tornou pop, com direito a tietagem de Quentin Tarantino, que o levou para uma ponta no clássico Cães de Aluguel. As obras de Bunker não são romances de mistério, e sim histórias urbanas de crime e violência, escritas na perspectiva do bandido. O que impressiona é justamente a crueza com que o mundo do crime é tratado, conseqüência (“mérito” seria uma palavra inadequada neste caso) da experiência pessoal do autor. Apesar da onda em torno de seu nome, na minha imodesta opinião o único livro realmente bom escrito por Bunker, é este, em que ele narra a história meio autobiográfica de um ladrão que está deixando a cadeia depois de um bom tempo preso e tenta se reabilitar à sociedade, mas esbarra em preconceito, suspeita da sociedade e, convenhamos, falta de vontade dele próprio.

Sobre Meninos e Lobos, de Denis Lehane
Grande livro de Denis Lehane, contando como as vidas de três ex-colegas de infância são marcadas pelo rapto e abuso sexual sofrido por um deles. Anos depois, com os três já adultos, um deles virou policial, outro criminoso reabilitado e dono de loja e o terceiro, o abusado, um banana qualquer aí. Quando a filha do dono de loja é morta, pairam suspeitas de que o assassino seja o banana. Uma tragédia como as clássicas, levantando questões como honra masculina, deveres familiares, o destino mudando a direção de uma vida e o quanto um homem pode ou não se opôr à sua verdadeira natureza. Virou um ótimo filme do Clint Eastwood, o que significa que quem já viu pode não se entusiasmar a ler o livro – o que seria uma pena. Lehane lançou recentemente outro baita romance, o ambicioso Naquele Dia, sobre o qual já escrevi aqui.

Comentários (3)

  • Segundo Caderno » Arquivo » Cinco bons romances policiais diz: 25 de junho de 2010

    [...] o post original no Mundo Livro: Cinco bons romances policiais Compartilhar/Salvar Tags: a leoa branca, africa, bunker, denis lehane, henning mankel, marcelo [...]

  • Everson diz: 26 de junho de 2010

    Carlos, na resenha do “Perseguido” tu trocaste o nome do autor pelo do personagem. Como o García-Roza é psicanalista, deixemos isso como um caso clássico de ato falho… :-)

    Eu só li o primeiro livro, “O silêncio da chuva”. Gostei do estilo, mas achei o final forçado, que foi justamente a tua crítica.

    Verdade, Everson, pode ter sido ato falho ou ato grípico, já que estava meio grogue de Descon quando escrevi esse treco. Valeu o toque, vou arrumar ali.
    Abraço

    Carlos André

  • Equipe Digital diz: 6 de julho de 2010

    Ótimo post !
    Abraços da Equipe Digital do Beto Albuquerque

    Obrigado pelo comentário, Equipe Digital. Vou aproveitar a ocasião para deixar alguns procedimentos editoriais do Mundo Livro bem claros: este blog pode falar, ocasionalmente, de política em sentido amplo ou pelo viés filosófico, pode falar, eventualmente, de política cultural em sentido específico para a área do livro e da leitura, mas não falará, definitivamente, de política partidária. Agradecemos a visita e damos as boas-vindas se quiserem voltar em outras ocasiões para falar de livros, leituras, sugerir títulos, discordar de interpretações que tenhamos feito. Mas, para deixar a medida bastante clara, apaguei a parte do comentário de vocês que pedia visitação ao site da campanha do deputado. Esse tipo de prática, a de comentar qualquer coisa para deixar um link aberto pedindo visitação, já contraria a cortesia do mundo virtual quando feita por um particular, mais ainda quando parte de um candidato em período eleitoral. Como este foi a primeira vez que algo assim aconteceu, estou aqui dando a devida explicação. Nas próximas vezes, vou simplesmente apagar tudo.
    Abraço

    Carlos André.

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