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Will Self, o Oriente e o Brasil

28 de junho de 2010 4

Will Self e a Guimba em Paris. Foto de Gabriel Brust / Especial

Está saindo agora no Brasil o romance A Guimba, do delirante escritor britânico Will Self, que chega aqui um ano depois do romance O Livro de Dave. Self é um autor cuja imaginação sempre me diverte pelo inusitado de suas premissas e pela forma às vezes cruel com que leva essas premissas até as últimas consequências depois de começar o romance. Em Cock & Bull, obra que o tornou mundialmente famoso, Self narrava duas histórias: a de uma garota em quem certo dia começava a nascer um pênis e a de um garoto que certo dia descobria que uma vagina havia nascido atrás da dobra de um de seus joelhos. Em Como Vivem os Mortos uma mulher era encaminhada, depois de morrer, até uma infernal máquina burocrática responsável pela adaptação dos antigos viventes ao plano invisível da eternidade. O Livro de Dave alternava a história de um taxista desbocado, misógino e paranóico, nos nossos dias, com o retrato, cinco séculos no futuro, de uma humanidade pós-apocalíptica na qual a sociedade remanescente era organizada com os estamentos de uma nova religião, baseada no “livro de Dave” – na verdade um diário mantido pelo taxista que, descoberto séculos mais tarde, era tomado como a bíblia de uma nova religião. É essa capacidade de misturar banalidade, absurdo e um humor cínico e ácido herdeiro dos melhores satiristas britânicos que faz dos livros de Self grandes experiências de leitura.

A Guimba também tem um pé na sátira e outro no absurdo. É Self misturando no mesmo coquetel insólito Swift e Kafka para contar a história de um turista estrangeiro em um exótico país fictício. Entediado com a viagem, o homem joga de uma sacada a guimba ainda incandescente do que deveria ser o seu último cigarro. A bagana cai na careca de um outro turista, um velho casado com uma nativa de uma tribo local. O cigarro forma uma bolha e na noite desse mesmo dia o homem passa mal, envolvendo o incauto turista em um pesadelo com aparência de sistema judiciário – pelas intrincadas leis locais, o homem é cidadão do país, já que é casado com uma nativa.

O lançamento de A Guimba casou com uma correspondência trocada com o colega jornalista Gabriel Brust, ex-repórter de Zero Hora e atualmente um intelectual mundano estudando na Sorbonne e usando gola rulê nas ruas de Paris. Ele havia assistido a uma palestra de Will Self em um festival literário e me oferecia um texto sobre o cara. Achei a ideia ótima e o Brust mandou um belo texto apresentando Psycho Too, coletânea inédito por aqui de crônicas e relatos de viagem de Self (que também foi cronista de imprensa aqui no Brasil. Suas impressões blasés sobre futebol foram publicadas na Folha de S.Paulo durante a Copa de 2002 – na qual, inclusive, o Brasil bateu a Inglaterra, mas isso não vem ao caso). Deixo vocês, então, com o texto mandado pelo Gabriel e com uma das crônicas do livro, na qual Self narra com sua verve impiedosa uma visita a Parati para a Festa Internacional de Literatura – que, a propósito, começa a vender ingressos para a edição 2010 no próximo dia 5. A crônica foi traduzida pelo próprio Gabriel, com uma pequena revisão de minha parte e o acréscimo das notas lá no fim.

Psychoself
Gabriel Brust

Lançado no final do ano passado nos EUA e Europa – mas ainda sem versão em português - Psycho Too, do britânico Will Self, é um volumão de 255 páginas que chama atenção de cara pelas ilustrações. As 53 crônicas de viagem são acompanhadas pelo traço já clássico de Ralph Steadman, mais conhecido por ter sido o “parceiro de ilustração” de Hunter S. Thompson, pioneiro do new (ou gonzo) journalism.

Antes das crônicas de viagem – todas relativamente curtas e previamente publicadas em jornais -, o livro abre com uma espécie de ensaio, Walking to the World, em que Self conta sua viagem entre a casa de J.G. Ballard, em Shepperton, Inglaterra, até os arranha-céus de Dubai. Escrito durante os últimos dias de vida de Ballard, o ensaio é uma espécie de homenagem ao autor que tanto influenciou Self.

Uma das curiosidades do livro que encontrei folheando o livro foi a crônica em que ele relata sua passagem pelo Brasil, para a Festa Literária Internacional de Paraty de 2007. Estive na Flip naquele ano e lembro que Self acabou se tornando a grande sensação da Festa, com seu jeito descontraído e bem humorado, tanto em suas participações no evento quanto no trato com a imprensa. Na crônica publicada em Psycho Too, no entanto, temos uma idéia daqueles dias do inverno brasileiro na visão do autor. E a experiência não parece ter sido das melhores.

Com a mesma irreverência demonstrada em Paraty em 2007, Self participou de uma leitura/debate, na semana passada, no festival da lendária livraria Shakespeare and Company, aqui em Paris, arrancando risadas do público o todo tempo. Apesar da má impressão sobre o Rio relatada no livro, Self foi curto e grosso ao me responder um “yeah, definitely“, sem tirar o cigarro da boca, quando perguntei se pensaria em voltar ao Brasil. Vai abaixo a crônica, ilustrada por Ralph Steadman. A ilustração, reproduzida com uma câmera de celular, não ficou lá muito boa, mas dá a ideia:

Epitáfio para um pequeno perdedor (1)
Will Self

Deixe-me contar sobre minhas últimas viagens, um giro de 15 mil milhas pelas Américas, do Norte e do Sul, que deixou como rastro uma série gigantesca de emissões de carbono, mas me deu poucas oportunidades reais de esticar as pernas. Eu culpo as crianças: dois garotos pequenos são estorvo o suficiente para inviabilizar qualquer possibilidade de uma caminhada mais longa, a não ser quando feita em uma esteira em frente a uma maratona com todos os filmes de Harry Potter.

Caminhada 1: Aeroporto de São Paulo. Distância: 260 metros. Tempo: 2,5 horas.

Não se deixe enganar pela distância e nível do terreno – relativamente curtos – para achar que será um passeio fácil. Dividido em quatro etapas (guichê para o check-in de vôos domésticos, guichê de passagens TAM, check-in da TAM e setor de segurança), a caminhada – ou “a fila”, como é popularmente conhecida – pode se tornar especialmente difícil se você enfrentá-la, como nós fizemos, no dia seguinte a uma greve dos controladores de vôo brasileiros. Voamos às 6h30 da manhã, zonzos, mas depois de haver “caminhado” por três horas, sabíamos exatamente onde estávamos. No purgatório.

Caminhada 2: do início do bondinho até a base da estátua do Cristo Redentor. Distância: 200 metros. Tempo, incluindo parada para refresco: 1 hora.

Todo mundo, todo mundo mesmo, tem que visitar essa imensa estátua quando vai ao Rio. É muito grande e a vista de cima da montanha é magnífica. Pelo menos nos dias bonitos. No dia do nosso passeio havia tantas nuvens que não podíamos ver nada, para cima ou para baixo. O mais jovem da nossa turma gritou “Oh meu Deus!” quando viu o Cristo surgindo na neblina, mas mesmo que isso possa ter parecido apropriado, a verdade é que ele também é – aos cinco anos de idade – completamente crédulo.

Caminhada 3: Copacabana a Ipanema. Distância: 1,5 quilômetros. Tempo: 2 horas.

Esqueça tudo a respeito de Astrud Gilberto e da Garota de Ipanema. A beira da praia no Rio pode não ser mais tão ameaçadora quanto da última vez em que estive aqui, no início dos anos 90, mas, sendo inverno, continuava nebulosa, fria, uma paisagem ligeiramente suja, como a esposa do autor não se cansava de lembrá-lo.
Os garotos gostaram de caminhar até a praia – que, para ser franco, mantém seu frescor original -  e voltar à Avenida Atlântica, várias vezes. Finalmente, consegui convencê-los a fazer um desvio pela rua Francesco Otavacano (sic) (2) até Ipanema, passando por assustadores iconostasis católicos (figuras de gesso de tamanho natural e santos com aparência de leprosos). Estava escuro quando entramos na Avenida Francesco Behring (sic) (3), e não havia absolutamente nenhuma pessoa na praia. As ondas rolavam a partir do Atlântico e as luzes dos subúrbios montanhosos ao sul se acendiam, como se o Cristo Redentor estivesse ele próprio criando o céu.
Ao final ficava o Parque Garota. A esposa do autor entendeu que esse escuro matagal, com seu nome de sonoridade um tanto sinistra, não se qualificava como um local para um passeio familiar, mas eu observei que “garota” é na verdade “girl” em português, e que o parque ganhou seu nome por causa da música. “Se é assim”, retrucou a senhora Self, “porque ele está cheio de homens solteiros espreitando pelos arbustos?”

Caminhada 4: Paraty, Brasil. Ida e volta do hotel Marquesa. Distância: 2 quilômetros. Tempo: 1,5 hora.

Se você for visitar o charmoso refúgio à beira-mar Parati, três horas e meia de estrada em direção ao norte do Rio, prepare-se para caminhar a pé por suas famosas ruas desniveladas e de pedras largas. O traçado reto e a pintura descascada do casario baixo será familiar a qualquer um que já tenha visto um faroeste spaghetti.
Abandonando os garotos no hotel, ganhei robustos companheiros de caminhada, a saber: a equipe inteira do British Council Office no Rio de Janeiro, junto com um jornalista do Il Globo (sic), seu fotógrafo e o jipe que eles haviam alugado.
Perguntei por que eles estavam na minha cola, e eles explicaram que haviam pago minha passagem de avião para o festival literário que estava sendo realizado em Paraty, e eles queriam passar um tempo comigo. Isso era novidade para mim, eu não gosto de ter qualquer relação com o Council, que é uma seção adjunta do Foreign Office encarregada de converter os rebanhos com reprises da série The Vicar of Dibley (4). Eles queriam dar uma volta de jipe, eu insisti em caminhar. Eu ganhei, e nós partimos para o cais onde os barcos de passeio são contratados, e o tropel da mídia em fila atrás de nós.
O jornalista me fez perguntas, o fotógrafo tirou umas fotos. O chefe do British Council e eu tivemos uma conversa suficientemente amável. (É impossível fazer qualquer outra coisa com eles, como Holly Martins descobriu em O Terceiro Homem (5), ao encontrar o representante do British Council, Crabbin, memoravelmente interpretado por Wilfrid Hyde-White.) Passamos pelo molhe e então, depois de um pouco mais de polidez excruciante, consegui me livrar deles. Felicidade.

(1) O título da crônica no original é uma paráfrase do título que o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, recebeu em sua tradução para o inglês: Epitaph for a Small Winner (Epitáfio para um pequeno vencedor)
(2) Self aqui deve estar se referindo à rua Francisco Otaviano, em Copacabana
(3) O nome correto da rua é Francisco Bhering.
(4) Popular série britânica protagonizada pela atriz Dawn French como a “Vigária” de Dibley. Foi exibida de 1994 a 2007.
(5) FIlme clássico de 1949, roteiro de Graham Greene e direção de Carol Reed, com Joseph Cotten no papel de Holly Martins, escritor de segunda linha que se vê envolvido em uma trama de espionagem na Viena do Pós-Guerra.

Comentários (4)

  • Segundo Caderno » Arquivo » Will Self, o Oriente e o Brasil diz: 28 de junho de 2010

    [...] o post original no Mundo Livro: Will Self, o Oriente e o Brasil Compartilhar/Salvar Tags: british-council, literatura em ingl, m, mundo livro, paris, psycho too, [...]

  • Gabriel diz: 29 de junho de 2010

    Só li o “O livro de Dave”. Achei muito bom, apesar da dificuldade inicial com o “miguxês” utilizado nos diálogos qu se passam no futuro.

  • Yuri diz: 30 de junho de 2010

    Will Self é desses caras que eu decidi, por puro preconceito, que não ia ler (é, vida de leitor tem disso, o senhor sabe). Não sei, pelo pouco que folheei ele na livraria, ele parece ser um desses autores que fazem literatura jovem, chuck palahniuk style. Entretanto, é preciso admitir, o cara (e o palahniuk também, pode ser) tem motes interessantes pros livros dele. O Mia Couto uma vez disse (e eu nunca vou esquecer) que o escritor, mais do que saber escrever, deve ter uma boa história para contar. Achamos um monte de escritor renomado por aí, que faz aquela velha sabatina de solidão-incompreensão-outro clichê. Tava na hora dessas gerações se encontrarem pra um churrasco, hein?
    Grande abraço!

  • Will Self na Shakespeare and Co. | gabriéu diz: 1 de agosto de 2013

    [...] texto publicado no blog de literatura do jornal Zero Hora, sobre a passagem do escritor Will Self pela livraria Shakespeare and Co, em Paris. [...]

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