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Posts de junho 2010

Will Self, o Oriente e o Brasil

28 de junho de 2010 4

Will Self e a Guimba em Paris. Foto de Gabriel Brust / Especial

Está saindo agora no Brasil o romance A Guimba, do delirante escritor britânico Will Self, que chega aqui um ano depois do romance O Livro de Dave. Self é um autor cuja imaginação sempre me diverte pelo inusitado de suas premissas e pela forma às vezes cruel com que leva essas premissas até as últimas consequências depois de começar o romance. Em Cock & Bull, obra que o tornou mundialmente famoso, Self narrava duas histórias: a de uma garota em quem certo dia começava a nascer um pênis e a de um garoto que certo dia descobria que uma vagina havia nascido atrás da dobra de um de seus joelhos. Em Como Vivem os Mortos uma mulher era encaminhada, depois de morrer, até uma infernal máquina burocrática responsável pela adaptação dos antigos viventes ao plano invisível da eternidade. O Livro de Dave alternava a história de um taxista desbocado, misógino e paranóico, nos nossos dias, com o retrato, cinco séculos no futuro, de uma humanidade pós-apocalíptica na qual a sociedade remanescente era organizada com os estamentos de uma nova religião, baseada no “livro de Dave” – na verdade um diário mantido pelo taxista que, descoberto séculos mais tarde, era tomado como a bíblia de uma nova religião. É essa capacidade de misturar banalidade, absurdo e um humor cínico e ácido herdeiro dos melhores satiristas britânicos que faz dos livros de Self grandes experiências de leitura.

A Guimba também tem um pé na sátira e outro no absurdo. É Self misturando no mesmo coquetel insólito Swift e Kafka para contar a história de um turista estrangeiro em um exótico país fictício. Entediado com a viagem, o homem joga de uma sacada a guimba ainda incandescente do que deveria ser o seu último cigarro. A bagana cai na careca de um outro turista, um velho casado com uma nativa de uma tribo local. O cigarro forma uma bolha e na noite desse mesmo dia o homem passa mal, envolvendo o incauto turista em um pesadelo com aparência de sistema judiciário – pelas intrincadas leis locais, o homem é cidadão do país, já que é casado com uma nativa.

O lançamento de A Guimba casou com uma correspondência trocada com o colega jornalista Gabriel Brust, ex-repórter de Zero Hora e atualmente um intelectual mundano estudando na Sorbonne e usando gola rulê nas ruas de Paris. Ele havia assistido a uma palestra de Will Self em um festival literário e me oferecia um texto sobre o cara. Achei a ideia ótima e o Brust mandou um belo texto apresentando Psycho Too, coletânea inédito por aqui de crônicas e relatos de viagem de Self (que também foi cronista de imprensa aqui no Brasil. Suas impressões blasés sobre futebol foram publicadas na Folha de S.Paulo durante a Copa de 2002 – na qual, inclusive, o Brasil bateu a Inglaterra, mas isso não vem ao caso). Deixo vocês, então, com o texto mandado pelo Gabriel e com uma das crônicas do livro, na qual Self narra com sua verve impiedosa uma visita a Parati para a Festa Internacional de Literatura – que, a propósito, começa a vender ingressos para a edição 2010 no próximo dia 5. A crônica foi traduzida pelo próprio Gabriel, com uma pequena revisão de minha parte e o acréscimo das notas lá no fim.

Psychoself
Gabriel Brust

Lançado no final do ano passado nos EUA e Europa – mas ainda sem versão em português - Psycho Too, do britânico Will Self, é um volumão de 255 páginas que chama atenção de cara pelas ilustrações. As 53 crônicas de viagem são acompanhadas pelo traço já clássico de Ralph Steadman, mais conhecido por ter sido o “parceiro de ilustração” de Hunter S. Thompson, pioneiro do new (ou gonzo) journalism.

Antes das crônicas de viagem – todas relativamente curtas e previamente publicadas em jornais -, o livro abre com uma espécie de ensaio, Walking to the World, em que Self conta sua viagem entre a casa de J.G. Ballard, em Shepperton, Inglaterra, até os arranha-céus de Dubai. Escrito durante os últimos dias de vida de Ballard, o ensaio é uma espécie de homenagem ao autor que tanto influenciou Self.

Uma das curiosidades do livro que encontrei folheando o livro foi a crônica em que ele relata sua passagem pelo Brasil, para a Festa Literária Internacional de Paraty de 2007. Estive na Flip naquele ano e lembro que Self acabou se tornando a grande sensação da Festa, com seu jeito descontraído e bem humorado, tanto em suas participações no evento quanto no trato com a imprensa. Na crônica publicada em Psycho Too, no entanto, temos uma idéia daqueles dias do inverno brasileiro na visão do autor. E a experiência não parece ter sido das melhores.

Com a mesma irreverência demonstrada em Paraty em 2007, Self participou de uma leitura/debate, na semana passada, no festival da lendária livraria Shakespeare and Company, aqui em Paris, arrancando risadas do público o todo tempo. Apesar da má impressão sobre o Rio relatada no livro, Self foi curto e grosso ao me responder um “yeah, definitely“, sem tirar o cigarro da boca, quando perguntei se pensaria em voltar ao Brasil. Vai abaixo a crônica, ilustrada por Ralph Steadman. A ilustração, reproduzida com uma câmera de celular, não ficou lá muito boa, mas dá a ideia:

Epitáfio para um pequeno perdedor (1)
Will Self

Deixe-me contar sobre minhas últimas viagens, um giro de 15 mil milhas pelas Américas, do Norte e do Sul, que deixou como rastro uma série gigantesca de emissões de carbono, mas me deu poucas oportunidades reais de esticar as pernas. Eu culpo as crianças: dois garotos pequenos são estorvo o suficiente para inviabilizar qualquer possibilidade de uma caminhada mais longa, a não ser quando feita em uma esteira em frente a uma maratona com todos os filmes de Harry Potter.

Caminhada 1: Aeroporto de São Paulo. Distância: 260 metros. Tempo: 2,5 horas.

Não se deixe enganar pela distância e nível do terreno – relativamente curtos – para achar que será um passeio fácil. Dividido em quatro etapas (guichê para o check-in de vôos domésticos, guichê de passagens TAM, check-in da TAM e setor de segurança), a caminhada – ou “a fila”, como é popularmente conhecida – pode se tornar especialmente difícil se você enfrentá-la, como nós fizemos, no dia seguinte a uma greve dos controladores de vôo brasileiros. Voamos às 6h30 da manhã, zonzos, mas depois de haver “caminhado” por três horas, sabíamos exatamente onde estávamos. No purgatório.

Caminhada 2: do início do bondinho até a base da estátua do Cristo Redentor. Distância: 200 metros. Tempo, incluindo parada para refresco: 1 hora.

Todo mundo, todo mundo mesmo, tem que visitar essa imensa estátua quando vai ao Rio. É muito grande e a vista de cima da montanha é magnífica. Pelo menos nos dias bonitos. No dia do nosso passeio havia tantas nuvens que não podíamos ver nada, para cima ou para baixo. O mais jovem da nossa turma gritou “Oh meu Deus!” quando viu o Cristo surgindo na neblina, mas mesmo que isso possa ter parecido apropriado, a verdade é que ele também é – aos cinco anos de idade – completamente crédulo.

Caminhada 3: Copacabana a Ipanema. Distância: 1,5 quilômetros. Tempo: 2 horas.

Esqueça tudo a respeito de Astrud Gilberto e da Garota de Ipanema. A beira da praia no Rio pode não ser mais tão ameaçadora quanto da última vez em que estive aqui, no início dos anos 90, mas, sendo inverno, continuava nebulosa, fria, uma paisagem ligeiramente suja, como a esposa do autor não se cansava de lembrá-lo.
Os garotos gostaram de caminhar até a praia – que, para ser franco, mantém seu frescor original -  e voltar à Avenida Atlântica, várias vezes. Finalmente, consegui convencê-los a fazer um desvio pela rua Francesco Otavacano (sic) (2) até Ipanema, passando por assustadores iconostasis católicos (figuras de gesso de tamanho natural e santos com aparência de leprosos). Estava escuro quando entramos na Avenida Francesco Behring (sic) (3), e não havia absolutamente nenhuma pessoa na praia. As ondas rolavam a partir do Atlântico e as luzes dos subúrbios montanhosos ao sul se acendiam, como se o Cristo Redentor estivesse ele próprio criando o céu.
Ao final ficava o Parque Garota. A esposa do autor entendeu que esse escuro matagal, com seu nome de sonoridade um tanto sinistra, não se qualificava como um local para um passeio familiar, mas eu observei que “garota” é na verdade “girl” em português, e que o parque ganhou seu nome por causa da música. “Se é assim”, retrucou a senhora Self, “porque ele está cheio de homens solteiros espreitando pelos arbustos?”

Caminhada 4: Paraty, Brasil. Ida e volta do hotel Marquesa. Distância: 2 quilômetros. Tempo: 1,5 hora.

Se você for visitar o charmoso refúgio à beira-mar Parati, três horas e meia de estrada em direção ao norte do Rio, prepare-se para caminhar a pé por suas famosas ruas desniveladas e de pedras largas. O traçado reto e a pintura descascada do casario baixo será familiar a qualquer um que já tenha visto um faroeste spaghetti.
Abandonando os garotos no hotel, ganhei robustos companheiros de caminhada, a saber: a equipe inteira do British Council Office no Rio de Janeiro, junto com um jornalista do Il Globo (sic), seu fotógrafo e o jipe que eles haviam alugado.
Perguntei por que eles estavam na minha cola, e eles explicaram que haviam pago minha passagem de avião para o festival literário que estava sendo realizado em Paraty, e eles queriam passar um tempo comigo. Isso era novidade para mim, eu não gosto de ter qualquer relação com o Council, que é uma seção adjunta do Foreign Office encarregada de converter os rebanhos com reprises da série The Vicar of Dibley (4). Eles queriam dar uma volta de jipe, eu insisti em caminhar. Eu ganhei, e nós partimos para o cais onde os barcos de passeio são contratados, e o tropel da mídia em fila atrás de nós.
O jornalista me fez perguntas, o fotógrafo tirou umas fotos. O chefe do British Council e eu tivemos uma conversa suficientemente amável. (É impossível fazer qualquer outra coisa com eles, como Holly Martins descobriu em O Terceiro Homem (5), ao encontrar o representante do British Council, Crabbin, memoravelmente interpretado por Wilfrid Hyde-White.) Passamos pelo molhe e então, depois de um pouco mais de polidez excruciante, consegui me livrar deles. Felicidade.

(1) O título da crônica no original é uma paráfrase do título que o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, recebeu em sua tradução para o inglês: Epitaph for a Small Winner (Epitáfio para um pequeno vencedor)
(2) Self aqui deve estar se referindo à rua Francisco Otaviano, em Copacabana
(3) O nome correto da rua é Francisco Bhering.
(4) Popular série britânica protagonizada pela atriz Dawn French como a “Vigária” de Dibley. Foi exibida de 1994 a 2007.
(5) FIlme clássico de 1949, roteiro de Graham Greene e direção de Carol Reed, com Joseph Cotten no papel de Holly Martins, escritor de segunda linha que se vê envolvido em uma trama de espionagem na Viena do Pós-Guerra.

Seis bons romances policiais

25 de junho de 2010 3

Organizando um lado das minhas estantes dedicado só a livros policiais, encontro alguns dos meus preferidos do gênero. Como a gripe bateu pesado e não estou com a disposição física e intelectual necessária para grandes elucubrações, hoje apenas reparto com vocês cinco desses livros já lidos, todos com mais de cinco anos de publicação. Se alguém encontrar um deles por aí, pode ir sem medo às páginas:

Perseguido, de Luiz Alfredo García-Roza
Este livro é o quarto da série protagonizada pelo personagem recorrente de García-Roza, o delegado Espinosa, lotado na delegacia de Copacana, no Rio de Janeiro. Em Perseguido, ele recebe um pedido de ajuda de um psiquiatra que se diz perseguido por um paciente. A maneira como o autor delineia o pesadelo que o psiquiatra vai vivenciando com a perseguição que o jovem lhe faz, a princípio imotivada e sutil, é um dos pontos fortes da trama. García-Roza é um dos autores que trabalham o esgarçamento dos limites do policial clássico, levando a trama até um ponto além (ou aquém) da já manjada “resolução do crime” no fim da história. Fazer isso, contudo, sem cair na irresolução total, é difícil, e não tenho certeza se ele consegue neste romance– é o caso também do primeiro livro da série, O Silêncio da Chuva.

A Leoa Branca, de Henning Mankel
Bem antes de Stieg Larsson colocar a Suécia no mapa mundial da literatura de crime, este autor já escrevia ótimas narrativas protagonizadas pelo investigador Kurt Wallander. A Suécia não era, até a aparição da trilogia Millenium, um cenário comum para o romance policial – e este aqui, em particular, estende ramificações até a Àfrica do Sul de que hoje tanto falamos em dias de copa. . O detetive Wallander, ao investigar um assassinato que parecia ser um caso rotineiro, o de uma dona de casa na pacata Yistad, descobre ligações entre o crime e um um complô tramado na Africa do Sul para assassinar uma proeminente figura do novo governo de Nelson Mandela às vésperas da queda do Apartheid. Mankel recentemente teve outro livro publicado no Brasil, O Guerreiro Solitário, mas esse eu confesso que não li.

Sangue do Céu, de Marcelo Fois
Em uma pequena aldeia da Córsega no fim do século 19, o advogado Bustianu é contratado para defender um jovem com problemas mentais acusado de um assassinato. O jovem se mata na cadeia, e Bustianu descobre que não há muita gente interessada, na polícia ou na família, em elucidar se ele realmente se matou ou se foi assassinado — a morte do rapaz parece ter posto fim à curiosidade de todo mundo e mesmo à vergonha do crime. Este é daquele tipo de romance que se pretende mais literatura e menos mistério –  o foco é na construção psicológica e na descrição sufocante e muito eficiente de uma Córsega chuvosa e apegada a tradições atávicas. A terra vermelha saturada de água da chuva escorre pela cidade em uma enxurrada vermelha que não deixa de ecoar o próprio crime. Consta que o protagonista é inspirado em um personagem real.

A Dália Negra, de James Ellroy
Obra prima, não apenas uma obra-prima de Ellroy mas um marco vários pontos acima do próprio gênero. Tenso, violento e primoroso, narra uma investigação criminal para elucidar o assassinato brutal de uma jovem encontrada violentada e cortada ao meio em um terreno baldio na Hollywood dos anos 40. Andava difícil de achar na edição antiga, mas a Record reeditou por ocasião do lançamento do filme de Brian de Palma – um filme decepcionante quando pensamos no que o livro é, no que De Palma já provou que pode fazer e na massa anódina que o filme acabou sendo. Elroy disfarça sobre a trama de um romance policial — e da progressiva obsessão da dupla de policiais encarregada do caso — uma vigorosa história da formação de Los Angeles, com suas tensões raciais, conflitos sociais e a inevitável corrupção imobiliária.

Nem os Mais Ferozes, de Edward Bunker
Bunker foi um ex-presidiário que passou a maior parte de sua vida em cana. Saiu, virou escritor e se tornou pop, com direito a tietagem de Quentin Tarantino, que o levou para uma ponta no clássico Cães de Aluguel. As obras de Bunker não são romances de mistério, e sim histórias urbanas de crime e violência, escritas na perspectiva do bandido. O que impressiona é justamente a crueza com que o mundo do crime é tratado, conseqüência (“mérito” seria uma palavra inadequada neste caso) da experiência pessoal do autor. Apesar da onda em torno de seu nome, na minha imodesta opinião o único livro realmente bom escrito por Bunker, é este, em que ele narra a história meio autobiográfica de um ladrão que está deixando a cadeia depois de um bom tempo preso e tenta se reabilitar à sociedade, mas esbarra em preconceito, suspeita da sociedade e, convenhamos, falta de vontade dele próprio.

Sobre Meninos e Lobos, de Denis Lehane
Grande livro de Denis Lehane, contando como as vidas de três ex-colegas de infância são marcadas pelo rapto e abuso sexual sofrido por um deles. Anos depois, com os três já adultos, um deles virou policial, outro criminoso reabilitado e dono de loja e o terceiro, o abusado, um banana qualquer aí. Quando a filha do dono de loja é morta, pairam suspeitas de que o assassino seja o banana. Uma tragédia como as clássicas, levantando questões como honra masculina, deveres familiares, o destino mudando a direção de uma vida e o quanto um homem pode ou não se opôr à sua verdadeira natureza. Virou um ótimo filme do Clint Eastwood, o que significa que quem já viu pode não se entusiasmar a ler o livro – o que seria uma pena. Lehane lançou recentemente outro baita romance, o ambicioso Naquele Dia, sobre o qual já escrevi aqui.

Jorge Amado e os bonecos

24 de junho de 2010 1

Imagem da peça O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá,
do grupo El retablo / Foto: Divulgação

Enquanto isso, o Gato Malhado levantou-se, estirou os braços e as pernas, eriçou o dorso para melhor captar o calor do sol subitamente doce, abriu as narinas para aspirar os novos odores que rolavam no ar, deixou que todo o rosto feio e mau se abrisse num sorriso cordial para as coisas e os seres em torno. Começou a andar.
Aconteceu então uma debandada geral. O grande Pato Negro arrastou a pequena Pata Branca para o fundo do lago e assim, num mergulho que bateu todos os seus recordes anteriores, atravessou para a outra margem, onde pôs sua mulherzinha a salvo. Os pombos recolheram-se todos ao pombal, silenciando os arrulhos de amor nos galhos das árvores onde nasciam e se multiplicavam brotos verdes no mesmo minuto transformados em folhas cheias de sombra. Os cães pararam de correr e pular, fizeram como se estivessem muito ocupados em desencavar ossos escondidos. Os botões que começavam a virar flores suspenderam momentaneamente seu trabalho, e uma rosa que, apressada, já se abrira, deixou cair todas as pétalas sobre o chão. Meunos uma que ficou volteando no ar, ao sabor da brisa.
Toda essa correria fez um certo ruído, despertando a atenção do Gato Malhado. Olhou espantado. Por que fugiam todos se era tão belo o parque naquela hora de chegada da primavera?
Não havia tempestade, não corria o vento frio derrubando as folhas, a chuva não desabava em lágrimas sobre os telhados.
Como fugir e esconder-se quando a Primavera chegava trazendo consigo a doçura de viver? Será que a Cobra Cascavel havia voltado, havia ousado retornar ao parque? O Gato Malhado procurou-a com os olhos. Se fosse ela, dar-lhe-ia nova lição para que jamais ali viesse roubar ovos, tirar pássaros dos ninhos, comer pintos e pomba-rolas. Mas não, a Cascavel não estava. O Gato Malhado  refletiu. E compreendeu então que fugiam dele, há tanto tempo que não o viam miar nem sorrir que agora se amedrontavam.
Foi uma triste constatação. Primeiro deixou de sorrir, mas, depois, encolheu os ombros num gesto de indiferença. Era um gato orgulhoso, pouco lhe importava o que pensassem dele.
Até piscou – num gesto um pouco forçado – um olho malandro para o sol, e esse gesto, ainda mais inesperado, fez com que uma enorme Pedra, que há muitíssimos anos residia nas proximidades do lugar onde o Gato estava, rolasse correndo para o mato.
O Gato Malhado aspirou a plenos pulmões a Primavera recém-chegada. Sentia-se leve, gostaria de dizer palavras sem compromisso, de andar à toa, até mesmo de conversar com alguém. Procurou mais uma vez com os olhos pardos, mas não viu ninguém. Todos haviam fugido.
Não, todos não. No ramo de uma árvore a Andorinha Sinhá fitava o Gato Malhado e sorria-lhe. Somente ela não havia fugido.  De longe seus pais a chamavam em gritos nervosos.
E, dos seus esconderijos, todos os habitantes do parque miravam espantados a Andorinha Sinhá, que sorria para o Gato Malhado. Em torno era a primavera, o sonho de um poeta.

Quem leu a Zero Hora de hoje viu, na capa do Segundo Caderno, uma reportagem de Vanessa Franzosi sobre o começo do 22º Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Canela, que vai até domingo apresentando a arte de grupos daqui e de fora. Um deles, El Retablo, é espanhol, e traz à serra gaúcha um espetáculo baseado no livro de Jorge Amado cujo trecho vocês puderam ler logo acima: O Gato Malhado & A Andorinha Sinhá, história que Jorge escreveu para o filho, João Jorge, quando este era criança, e que foi pubilcada nos anos 1970 por insistência do próprio João Jorge já adulto.

Na história, apresentada por Jorge Amado como um conto de amor, o temido e selvagem Gato Malhado conhece e se apaixona pela andorinha e ambos enfrentam o estranhamento de todo o parque dadas as óbvias diferenças entre ambos.  Confesso que a antropomorfização de coisas e bichos que é a ferramenta centtral de muita literatura para crianças hoje me incomoda um pouco, mas o problema é meu, não dos livros, claro. E já que o El Retablo, dirigida pelo argentino radicado na Espanha Pablo Vergne, vem a  Canela com uma adaptação bonequeira de O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, recupero um trecho do livro, que foi reeditado em 2008 no selo Cia. das Letrinhas da Companhia das Letras. A história é ilustrada pelo parceiro de longa data de Jorge em seus livros adultos: o artista Carybé.

Os espetáculos do Festival Internacional de Canela são apresentados em praças de Canela, com entrada franca, e também nos espaços Casa de Pedra, Lage de Pedra e Teatro Municipal, com ingressos a R$ 25, R$ 15 (menores de 10 anos) e R$ 12,50 (idosos). Confira a programação de hoje no site www.bonecoscanela.com.br.

A Descoberta da América pelos árabes

22 de junho de 2010 1

Das noites frias e áridas no meio do deserto sírio para a desconcertante exuberância de terras e cores no Brasil. É essa a trajetória do protagonista de Mohamed, O Latoeiro (Primavera Editorial, 432 páginas, R$ 47,80.), romance de estreia que o autor Gilberto Abrão, 67 anos, autografa hoje às 19h30min na Fnac do BarraShoppingSul. Em mais de 400 páginas, o romance faz da trajetória de seu protagonista uma alegoria ficcional da saga de todos os imigrantes árabes.

Embora tenha desempenhado seu papel na formação do povo brasileiro, a imigração árabe ainda é minoritária como temática na ficção nacional. À parte exceções notáveis como Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, A Descoberta da América pelos Turcos, de Jorge Amado, e obras de Milton Hatoum como Relato de um Certo Oriente e Dois Irmãos, a vinda dos árabes para o país não despertou nos romancistas brasileiros o mesmo interesse de outros movimentos migratórios, como a transferência para o país de italianos, alemães ou judeus. Por esse prisma, Mohamed, O Latoeiro já se diferencia.

O Mohamed do título nasce em 1908, na Síria então parte do Império Otomano. Filho de um pastor de poucos recursos, perde a mãe muito cedo e ainda é um menino quando o território é engolfado pelas consequências da declaração da I Guerra Mundial, em 1914. Mohamed cresce, descobre a carne e o dever ao ser seduzido pela sobrinha de sua madrasta, faz um casamento sem dote e resolve emigrar para o Brasil, para onde seu melhor amigo, Khamil, já havia se transferido e se radicado em Curitiba.

Com o intuito de uma mirada épica, Abrão narra sua história com vagar, concentrando-se nos hábitos e costumes dos árabes em suas aldeias natais, no cenário político da Síria sob domínio otomano e mais tarde sob o mandato francês e britânico ao fim da I Guerra _ incluindo a animosidade entre os árabes cristãos (os maronitas) e árabes muçulmanos. Para montar esse panorama histórico, Abrão _ ele próprio descendente de sírios, nasceu em Curitiba, viveu anos no Líbano e está radicado há décadas no Rio Grande do Sul _ constrói um épico, um romanção ao estilo narrativo convencional tributário dos moldes clássicos do realismo. Mas peca por não sustentar na totalidade do texto a ambição (termo aqui usado como elogio) de sua proposta: em várias passagens a prosa que sustenta o romance cede ao banal ou ao descuido, ou explica as circunstâncias históricas com muito didatismo. Em outros momentos, porém, Abrão, faz jus à melhor prosa narrativa da tradição árabe, como em passagens eróticas de grande beleza e na descrição instigante dos costumes dos imigrantes.

Efeméride

21 de junho de 2010 9

Eu não ia ser bobo de fazer post sobre isso em dia de jogo do Brasil e pedir para que ninguém lesse, mas aproveito hoje, que as partidas da copa já se desenrolaram e até a segunda rodada da competição acabou. É que há exatos quatro anos, no dia 20 de junho de 2006, bem no meio de outra Copa que estava se desenrolando (o que mostra que timing não é exatamente o forte deste blogueiro), pusemos no ar o primeiro post do Mundo Livro.

Ao longo destes quatro anos lemos muito, discutimos muito, escrevemos muito, ficamos uma que outra vez largados às moscas ou atualizando devagar em alguns períodos, e levantamos posts que renderam de discussões ricas a provocações gratuitas, todas elas sempre bem-vindas. Falamos de literatura portuguesa, alemã, polonesa, chinesa, japonesa, falamos de escritores e de livros e de políticas de leitura e de autores nacionais e do cânone e do novo. Não que não tenhamos perdido o pique em algum momento, mas mantivemos a motivação. Por tudo isso, um abraço a quem vem nos acompanhando ao longo desse tempo, a quem chegou depois e continua, a quem lia e foi embora, a quem não lia e começou faz pouco e a quem ainda vai se juntar à nossa tripulação de leitores. O bolo é pra vocês (fiz o melhor que pude munido de pressa e do paintbrush, combinação que promete desastre, mas o que conta é a intenção, não?).

Novamente obrigado a vocês que mantêm o Mundo Livro no ar.

Ensaio sobre o romancista

18 de junho de 2010 3

José Saramago durante visita a Porto Alegre em 2005 para o Fórum Social Mundial.
Foto: Carlos Rodrigues

Até 1992 eu não fazia a menor ideia de quem era José Saramago. Eu tinha 17 anos e trabalhava como técnico e locutor em uma emissora de rádio na minha cidade natal (não, minha voz nunca fez jus ao rádio, nem naquela época nem agora, mas atuava mais como repórter de campo, então isso não chegava a ser um grande problema). Em uma noite do primeiro semestre de 1992, eu estava cobrindo ao vivo uma sessão solene da Câmara de Vereadores local (bem-vindos ao rádio do Interior, pessoas), quando, em um dos intervalos da transmissão, saí da sala das linhas telefônicas (que ficava ao lado do plenário) e fui até a sala do cafezinho. Havia, jogada por ali, uma revista semanal – agora não vou me lembrar se era a Veja ou a Istoé Senhor. Lembro que lá pelas últimas páginas da revista, depois de um perfil de duas páginas do Antônio Calloni, que na época representava um papel de sucesso numa novela da Globo (aquela com a Letícia Sabatella e o Beija-Flor), havia uma página falando sobre O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que acabava de ser publicado em Portugal. A matéria de cara me interessou, embora, pelo que me lembre, o texto enfocasse o aspecto escandaloso e algo sensacionalista do romance, ressaltando que a cena de abertura já era a iconoclasta descrição de como José engravidava Maria após uma relação – bom, eu tinha 17 anos, talvez eu tenha me interessado justamente por isso.

Mas ali também era contada a singular experiência que levou à redação do romance: o fato de Saramago haver passado por uma banca de revistas e enxergado em uma das publicações expostas a manchete O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Voltou à banca e viu que não havia revista ou jornal algum com aquela frase, e ficou com ela na cabeça até resolver escrever um romance para aquele que era um tão bom título. A matéria contava também a ronha envolvendo as pressões católicas para que o livro fosse retirado do Prêmio Europeu de Literatura, no qual representava Portugal. Também insistia no fato de que Saramago era um dos mais populares autores em Portugal, e um nome reconhecido na Europa. Mas eu, como havia comentado antes, nunca ouvira falar dele. Poucos meses depois daquilo, mudei para Porto Alegre para cursar a faculdade. Outros meses depois, a Biblioteca da Fabico recebeu, no início de 1993, dois exemplares do Evangelho, mas uma aparição recente de Saramago no Programa do Jô (à época acho que ainda era conhecido como Jô Soares Onze e Meia) havia tornado a iconoclastia do livro popular entre os jovens futuros jornalistas, e havia uma lista de espera na biblioteca para pegar emprestado um daqueles dois exemplares. Pus meu nome na lista e só fui ter notícia dois meses depois.

Quando finalmente peguei o livro emprestado, fui apresentado àquele primeiro capítulo, escrito com uma precisão de iluminura, uma descrição minuciosa e póetica de um vitral mostrando a crucificação de cristo como a conhecemos da iconografia cristã, um prenúncio do desmonte iconoclasta que viria mais tarde. Peguei o livro numa sexta-feira, comecei a ler antes do primeiro período do dia, e quando a aula começou e eu fechei o livro me senti disperso e inquieto, louco para voltar outra vez para a leitura, o que fiz assim que cheguei à Casa do Estudante e não parei mais até a tarde de sábado, siderado porque aquele livro, embora fosse exatamente o que aquele primeiro texto havia mencionado, não era nada do que eu esperava, era outra coisa, maior, mais forte, e fui tomado, como em febre, pela ousadia daquela narrativa que crucificava José, o pai do Cristo, que fazia de Satanás o amigo da humanidade, que promovia um encontro entre Deus, o Adversário e Jesus em um bote no meio de um mar que só poderia haver na alma de um português. Muito ouvi falar, depois, de como a sintaxe de Saramago era difícil e arrevesada, complexa, mas eu não senti essa dificuldade – provavelmente era tão estúpido que nem sabia que aquele livro era para ser difícil, o que é uma coisa a se pensar, no fim das contas.

Minha relação de leitor com Saramago sempre foi passional: o mesmo autor podia escrever livros que me deixavam fissurado por dias e depois me decepcionar com algum livro que ficava bem abaixo do que eu esperava dele – o impacto foi intenso com Ensaio sobre a Cegueira e Todos os Nomes, por exemplo, ou com A Jangada de Pedra e O Ano da Morte de Ricardo Reis, e a decepção foi grande com A Caverna e O Homem Duplicado, por exemplo. Não que ele devesse cumprir as minhas expectativas, claro, só digo isso porque não é uma relação que mantenho com muitos escritores – Lobo Antunes, o eterno rival, por exemplo, me enleva da mesma forma, mas quando me decepciona não decepciona tanto provavelmente porque eu não esperava tanto. Parte daquelas idiossincrasias de leitor: a relação de expectativa que se desenvolve com ele, o autor, principalmente, devo acrescentar, nas leituras de juventude. Depois de uma certa idade as coisas assumem outra perspectiva e tal comprometimento se torna menos intenso, mais cético, mais… crítico, chegamos à palavra fatal.

Perspectiva crítica e cinismo são coisas que muitos incautos confundem – não sentir mais esse tipo de febre de leitor porque o tempo passou e outras coisas aconteceram é uma coisa, mas desdenhar disso nas novas gerações já é outra, bem diversa. A leitura forma o leitor, que de-forma suas leituras e as reconstrói como parte de uma nova leitura, e assim por diante, em um processo que, nos melhores casos, prossegue ao infinito – ou melhor, até o fim não da leitura, mas do leitor, este ser destinado ao desaparecimento.

É esquecer que, por longínquo que seja o desenrolar da corrente, sempre terá havido autores de eleição no início.

O 1984 de Saramago

18 de junho de 2010 2

“Os habitantes da cidade doente de peste estão reunidos na praça grande que assim ficou conhecida porque todas as outras se atulharam de ruínas

Foram tirados das suas casas por uma ordem que ninguém ouviu

Porém segundo estava escrito em lendas antiquíssimas haveria vozes vindas do céu ou trombetas ou luzes extraordinárias e todos quiseram estar presentes

Alguma coisa podia talvez suceder no mundo antes do triunfo final da peste nem que fosse uma peste maior

Ali estão pois na praça angustiados e em silêncio à espera

E depois nada mais se ouve que uma aérea e delicada música de cravo

Qualquer fuga composta há duzentos e cinqüenta anos por João Sebastião Bach em Leipzig.

É então que os homens e as mulheres sem esperança se deixam cair no pavimento estalado da praça.”

Uma das primeiras pessoas em quem pensei ao saber da morte de José Saramago, hoje, foi Priscilla Ferreira, ex-colega de redação e ex-colaboradora deste blog (na verdade ela poderia continuar sendo colaboradora se não andasse sempre viajando atrás do agrobusiness como repórter do Canal Rural). Doutoranda em Literatura Portuguesa pela UFRGS, Priscilla fez de O Ano da Morte de Ricardo Reis o tema de sua dissertação de mestrado, e era uma das pessoas mais apaixonadas por Saramago que eu já conheci. Quando ela trabalhou conosco aqui no Segundo Caderno, foi exatamente na época em que a Companhia das Letras estava lançando O Ano de 1993, um objeto um tanto inclassificável no conjunto da obra de Saramago: uma coletânea de textos alegóricos, misto de prosa e poesia, lançada em 1975 e que projetava seu fiapo de história para um futuro distópico quase vinte anos no futuro, contando a história de um mundo tiranizado por máquinas – essa ambientação e o título do livro, remetendo a um ano, dialogam abertamente com o 1984 de Orwell. A linguagem, como vocês podem ler no trecho ali em cima, é elusiva, metafórica, escrita com frases sem pontos finais, distribuídas na página como estrofes de um poema (o livro é muitas vezes enquadrado entre os livros de poesia de Saramago). Em 2008, O Ano de 1993 ganhou sua primeira edição no Brasil, e Priscilla escreveu o seguinte texto sobre ele, que eu aproveito para republicar aqui em homenagem a todos os que, a exemplo dela, tinham com a obra de Saramago uma ligação que transcendia a leitura e transbordava para o afeto:

O Futuro do Passado

PRISCILLA FERREIRA
Um livro difícil de classificar, seja pela estrutura, pela linguagem ou pelo conteúdo. Assim é O Ano de 1993, do escritor prêmio Nobel de Literatura José Saramago. A obra, escrita em 1975 – cinco anos antes do autor adotar seu peculiar estilo narrativo -, causa certo estranhamento. São 30 pequenas histórias alegóricas, unidas pelo discurso distópico.
Em
O Ano de 1993, somos apresentados a um Saramago diferente, que usa uma escrita sintética, cheia de elipses e sugestões, indeciso entre a prosa e a poesia. Os textos são compostos de frases sem rima, sem vírgula, sem ponto. Por isso, muitas vezes é apontado como um livro de transição, onde já seria possível observar indícios do futuro estilo ficcional do escritor. Mas não é só a linguagem narrativa que chama a atenção, alguns temas abordados também nos remetem para obras escritas posteriormente.
Ao descrever uma cidade doente de peste, onde os moradores, tirados de suas casas, são reunidos em uma praça, Saramago estaria antecipando em 15 anos o cenário do célebre
Ensaio Sobre a Cegueira (1995). A praça parece o sanatório onde irão parar os cegos do romance em que o premiado escritor mostra o desmoronamento de uma sociedade que, por causa da doença, perde tudo aquilo que considera civilização.
Saramago afirma que escreveu a primeira história de
O ano de 1993 em 1974, um mês antes da revolução que pôs fim à ditadura salazarista em Portugal. E só teria voltado ao texto no ano seguinte, quando a situação política do país já era bem outra. Mas ao invés de celebrar a revolução e a queda de Salazar, o que vemos no livro é um certo desencanto e uma descrença no futuro.
Misto de narrativa fantástica e ficção científica, as várias histórias mostram cidades destruídas, homens em guerra, gente sem esperança. Em 1975, o futuro de Saramago não era nada animador. As sociedades em 1993 são dominadas por torturadores cruéis, por máquinas potentes ou até por animais mecânicos,  comedores de carne humana. Os habitantes desse mundo devastado e caótico são escravizados e oprimidos.
Mas nem tudo está perdido, ainda resta uma esperança. E por isso mesmo, o livro é definido pelo próprioautor como um manifesto contra todas as formas de violência e de opressão.

Duas vezes Saramago

18 de junho de 2010 1

Duas leituras de José Saramago:

1. Um trecho de Encontros com 40 Grandes Autores, do jornalista australiano Ben Naparstek (Leya, 256 páginas):

Em Estilo Tardio, Edward Said sugere que a aproximação da morte frequentemente provoca nos escritores uma de duas reações. Alguns assumem a imagem popular do velho sábio, cujo trabalho reflete uma nova serenidade e a reconciliação com o mundo. Para outros, o comprometimento da saúde se manifesta como contradiçao e discórdia insolúveis, levando-os a reabrir questões incômodas e complexas de significado e identidade.
No livro de José Saramago
As Intermitências da Morte, a morte não apenas o tema central, mas também a principal personagem. Publicado inicialmente em português, em 2005, o livro foi traduzido para o inglês em 2008, por Margaret Jull Costa. Agora, aos 86 anos, o romancista parece quase parodiar a obsessão pela morte de um escritor cujos olhos estão voltados para a ampulheta. No entanto, ao personificar comicamente a Grande Foice como uma mulher, estará Saramago adentrando suavemente a noite ou tramando uma rebelião inútil contra a injustiça da mortalidade?
As intermitências da morte situa-se entre as duas categorias de Said de “estilo final” — não traz nem uma indignidade desenfreada nem a segurança de um fecho moral. Aparentemente, trata-se de uma fábula sobre a importância da morte para a civilização. Repentinamente, a população de um país não definido para de morrer – Saramago concede à humanidade seu antigo desejo por uma vida eterna, a fim de imaginar suas terríveis consequências. Mas esse é também um romance pós-moderno, com uma voz autoral autoconsciente, que chama a atenção para sua natureza construída e insiste em interpretações alternativas.

2. Um Trecho de Saramago: Uma Biografia, do português João Marques Lopes (Leya, 248 páginas)

Afinal, o que muda e o que permanece na ficção saramaguiana? De um lado, e tendo consciência aqui e ali nas obras do escritor, há o corte com a realidade portuguesa, a ruptura mais geral com coordenadas espaçotemporais concretas, o “enxugamento” do estilo barroco., a transmudação da tendência “coral” na concentração em personagens individuais e a metamorfose do todo ficcional em alegorias. De outro lado, fica a marca oral que tornara Saramago singular, o narrador heterodiegético intrometido e a utilização de provérbios, ditos populares e outras miudezas de uma linguagem mais próxima do cotidiano para efeitos narrativos inesperados. Numa visão de conjunto, o traço dominante mais inovador parece confluir para o fato de estarmos agora diante de alegorias que funcionam como distopias de um mundo abandonado pela razão. Da barbárie do Ensaio sobre a cegueira à gélida burocratização em base ontológica, gnoseológica, ética e política de Todos os nomes; da absolutização do mercado em A caverna à opacidade da identidade do eu a si próprio em O homem duplicado e à ilusão da democracia em Ensaio sobre a lucidez – tal parece ser agora o eixo da ficção saramaguiana

Os dias em flor de James Joyce

16 de junho de 2010 3

James Joyce em foto de 1915 do fotógrafo Alex Ehrenzweig

Desde que fizemos, há duas Feiras do Livro, uma seção no caderno da Feira intitulada de A a Z, eu tinha vontade de colocar aqui no blogue algo semelhante – não tenho uma justificativa técnica de por que o formato de verbetes em abecedário a respeito de um único tema me parece uma forma bastante agradável de apresentar um assunto, mas o fato é que gosto deles. Pois como eu dizia, fazia horas que vinha pensando em publicar um A a Z sobre alguma coisa, qualquer coisa, mas parar e fazer é um pouco diferente com o tempo exíguo que se tem. A oportunidade surgiu agora com o Bloomday, que se comemora hoje. O Bloomsday, como alguns aí podem saber, é o dia em que malucos por James Joyce realizam leituras, eventos, conferências, festas, bebedeiras em homenagem ao radical romance Ulisses, do autor irlandês, que se passa em um único dia: 16 de junho de 1904. É mais ou menos aquele momento em que os mergulhados na cultura literária erudita se assemelham aos nerds de Star Wars, celebrando de forma alegre seu tema de eleição. Em 2004, quando o Bloomsday completou cem anos, eu e a então colega de redação Cíntia Moscovich elaboramos um material especial sobre a data, publicado em Zero Hora, de onde retirei o necessário para o Joyce de A a Z que publico aí embaixo:

Alter Ego - Um dos personagens centrais do romance Ulisses é o jovem poeta e professor Stephen Dedalus, uma representação do próprio Joyce que já havia aparecido em Retrato do Artista quando Jovem. Episódios vividos por Dedalus em Ulisses - como a perda da mãe – são relato de experiências vividas pelo próprio Joyce. Dedalus também seria o protagonista do romance autobiográfico inconcluso Stephen Hero, que foi abandonado e totalmente reescrito como Retrato do Artista…

Bloom – sobrenome de Leopold Bloom, o personagem mais conhecido de Joyce. Bloom é um vendedor de anúncios, judeu, e Ulisses é um relato de suas andanças por Dublin ao longo do dia 16 de junho de 1904, o chamado Bloomsday. Ele acorda, come rins no café da manhã, visita uma biblioteca, um jornal e um bordel – no meio do caminho, Bloom, o Ulisses prosaico, encontra Stephen Dedalus, a representação joyceana de Telêmaco na busca por um pai “espiritual”.

Ciclope - Em um dos momentos-chave de Ulisses, Leopold Bloom, depois de ferrenha discussão, é agredido por um antissemita que usa um tapa-olho. É a versão joyceana da luta de Ulisses com o ciclope Polifemo, na Odisséia. Bloom, como o astucioso Odisseu, foge.

Dublinenses - Reunião de 15 contos sobre cenas e personagens de Dublin, escritos quando Joyce tinha 23 anos. Os textos apresentam retratos de gente comum de Dublin e ainda são influenciados pelo naturalismo. Concluído em 1907, só foi publicado em 1914, e provocou revolta pela feroz caricatura que Joyce fez de seus conterrâneos. Como o tempo – e o reconhecimento dos outros – cura tudo, hoje a cidade se orgulha de seu filho ilustre.

Ezra Pound – Crítico e poeta. Amigo e mentor de Joyce. Foi um de seus grandes incentivadores na composição do Ulisses. Pound publicou, em capítulos, na revista que editava, The Egoist, a primeira novela de Joyce, Retrato do Artista quando Jovem, veiculada entre 1914 e 1915. Foi também Pound o responsável por dar a público alguns capítulos avulsos de Ulisses, na revista The Little Review, em 1918.

Finnegans Wake - Última e mais radical obra de Joyce, publicada em 1939. Um relato das camadas mais fundas da consciência recriadas numa linguagem fragmentada e escrita em uma profusão de línguas.
Nos anos 2000, ganhou sua primeira tradução integral para o português, feita por Donaldo Schüler, com o título Finnicius Revém – este emprestado da tradução de trechos feita por Haroldo de Campos.

Glaucoma – De 1923 até o fim da vida, Joyce sofreu com problemas de visão. Nos últimos anos de Paris, já não conseguia ler.

HCE – Iniciais que aparecem várias vezes em Finnegans Wake: Howth Castle and Environs; Here Comes Everybody; Haveth Children Everywhere e Haroun Childeric Eggenberth. Escrito em tom de pesadelo, o livro enumera episódios aparentemente desconexos que pretendem apresentar, pelo ponto de vista de uma família, um relato da evolução da própria humanidade.

Introibo Ad Altare Dei -  Frase proferida no início de Ulisses, pelo blasfemo Buck Mulligan, estudante de medicina amigo de Stephen Dedalus. Significa “Eu me aproximarei do altar de Deus” e faz parte da liturgia católica. Seu uso no livro, com Mulligan segurando um vaso de barbear em vez de um ostensório, já apresenta o tom paródico e insolente da obra.

Judaísmo – Filho de católicos que estudou em um colégio jesuíta, Joyce criou com a jornada de Leopold Bloom uma metáfora da errância judaica da diáspora. Bloom, um judeu, busca sua identidade no seio de seu povo e de sua cidade, sem deixar de sofrer preconceito.

Lucia - filha de Joyce, nascida quando o escritor morava em Trieste. Viveu um breve romance com o autor Samuel Beckett, mas, depois de começar a apresentar sinais de instabilidade no início dos anos 1930, sofreria um colapso mental em 1932. Sua instabilidade, com surtos de demência temporários, perdurou por toda vida – o que foi causa de muito sofrimento para o escritor. Ela chegou a ser tratada pelo famoso psiquiatra Carl Gustav Jung.

Molly Bloom – mulher de Leopold Bloom, é a voz do capítulo final, um longo monólogo interior, escrito em um caudaloso fluxo sem pontuação, no qual ela recapitula a relação com o marido depois de ele haver voltado para casa após sua “odisséia”.

Nora Barnacle – mulher e musa de Joyce, com quem teve dois filhos. O dia em que transcorre o Ulisses, 16 de junho de 1904, é tido como o dia em que ambos “saíram juntos” pela primeira vez, quando ela ainda era uma jovem camareira de hotel. Para consumo público, essa teria sido a data em que Joyce e Nora teriam passeado pelas ruas da cidade – versão popularizada principalmente pela imprensa irlandesa. Mas o fato mais aceito é que esse foi o dia em que ele e Nora fizeram sexo pela primeira vez – conforme Joyce conta em uma das muitas cartas apaixonadas e lascivas enviadas à esposa. Casaram-se no mesmo ano.

Odisséia - Joyce escreveu Ulisses tendo por modelo paródico o poema épico de Homero. A cada um dos 18 capítulos do Ulisses pode ser atribuída uma correspondência, ainda que muito sutil, ao do original grego.

Paris – Joyce mudou-se para a capital francesa com sua família em 1920, logo após o fim da I Guerra  Mundial. Viveu lá por duas décadas.

Quebra-cabeças - Joyce é considerado o ponto culminante do modernismo literário pela forma como semeou em suas obras, nas suas próprias palavras, enigmas que levariam cem anos para ser desvendados. Ulisses Já foi apontado como um imenso catálogo de modos de narrar: os fluxos de consciência que tentam representar o ritmo e a estrutura do pensamento, principalmente na caminhada de Dedalus pela praia no capítulo três ou o torrencial monólogo de Molly Bloom no capítulo 18; as vinhetas que conduzem o capítulo 10 ou o formato teatral, com rubricas e tudo, do capítulo 16.

Riverrun – primeira palavra do caudaloso Finnegans Wake e espécie de símbolo de seu enigma, uma vez que o próprio livro é um caudal, um fluxo. Foi traduzida por Donaldo Schüler como Rioquecorre.

Sylvia Beach – proprietária da livraria Shakespeare & Company, conheceu Joyce quando ele se mudou para Paris. Foi por meio dela que Joyce publicou a primeira edição do Ulisses, em 1922 (imagem ao lado). A autobiografia de Beach, com narrativa centrada em seus anos fundamentais à frente da livraria, foi publicada há alguns anos no Brasil com o nome de Shakespeare And Company: Uma Livraria Na Paris Do Entre-Guerras. (Casa da Palavra, 2004, 272 páginas, tradução de Cristiana Serra)

Trieste - Cidade da Itália para onde Joyce se mudou com sua mulher pela primeira vez em 1905, logo após o nascimento do primeiro filho, Giorgio. Joyce obteve um cargo de professor na cidade com a ajuda de seu irmão mais novo, Stanislaus. Em Trieste nasceu a segunda filha do casal Joyce, Lucia. Lá, o escritor também conheceu Italo Svevo, de quem se tornou amigo, e publicou sua novela Giacomo Joyce, única em toda sua obra que não tem a Dublin natal como cenário.

Ulisses – O romance mais revolucionário do século 20. Em uma linguagem que vai do cômico ao poético, com neologismos e monólogos que intercalam atos e pensamentos dos personagens, Joyce escreveu o épico moderno: 24 horas de um dia comum na vida de um sujeito banal.

Vocabulário - Ulisses tem 18 capítulos e seu original em inglês lida com um vocabulário de 30 mil palavras, muitas delas inventadas pelo próprio Joyce (a estimativa do vocabulário médio de um adulto instruído é de 12 a 15 mil). De acordo com a edição, o livro pode ter de 700 até mil páginas. edição traduzida por Antônio Houaiss para a Civilização Brasileira tem 960 páginas. A de Bernardina da Silveira Pinheiro para a Alfaguara/Objetiva tem 908.

Xenofobia – joyce também foi um peregrino do entreguerras. Por diversas vezes ao longo da vida, o escritor precisou se mudar com a família de país em país à medida em que o ambiente tornava-se prejudicial a estrangeiros em geral e a ele como um autor considerado “porongráfico” em particular.

Zurique – O último lar de Joyce. Ele morreu na cidade em 13 de janeiro de 1941, aos 58 anos, depois de ter
se mudado para a Suíça após a eclosão da II Guerra. Antes disso, já havia morado lá entre 1914 e 1919.

O fundo do poço é no Egito

16 de junho de 2010 5

Tivesse sido contratado para escrever um livro-reportagem a respeito do Egito, o escritor Joca Reiners Terron teria feito um belíssimo trabalho. O grosso do seu recém-lançado Do Fundo do Poço Se Vê a Lua tem tudo para ser classificado como jornalismo literário, esse gênero que gosta de transformar o simples e objetivo em grande evento. Tudo certo, se Terron não tivesse que entregar um romance ou coisa que o valha. E aí sua caudalosa prosa desanda.

Do Fundo do Poço é mais um dos livros escritos a partir do projeto Amores Expressos, bancado em parte pela Companhia das Letras e que levou 17 autores para passar um mês em cidades do mundo com a promessa de voltarem com um história de amor ambientada nesses lugares. Daí já saíram obras que se passam em Lisboa (Estive em Lisboa e Lembrei de Você, de Luiz Ruffato), Buenos Aires (Cordilheira, de Daniel Galera) e São Petersburgo (O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho).

Terron foi para o Cairo, capital egípcia. E pela descrição pormenorizada que faz de cenários, pessoas, hábitos, histórias e lendas, a impressão não foi das melhores. É possível se imaginar castigado pelo vento incessante que enche todas as mucosas de areia enquanto taxistas, comerciantes e toda sorte de malandros de rua tentam, o tempo todo, te ludibriar de alguma forma.

Uma filial do inferno, não há dúvida, mas é para onde segue William, um dos protagonistas da trama. Ele está atrás do irmão gêmeo, Wilson, travesti desaparecido há vinte anos e com o qual nutre uma relação que se revelará mortal. Se revelará entre aspas, porque o leitor experimentado em tramas de mistério não terá dificuldade em entender o que está acontecendo logo nos primeiros capítulos e será capaz de desenhar um final que cumprirá sem muita margem de erro suas expectativas.

Com exceção das soluções criadas aparentemente no desespero, como personagens secundários que tornam-se pivôs de grandes reviravoltas, deixando o leitor se perguntando onde foi que ele deixou escapar alguma evidência. Mas não deixou, porque não existem evidências nesse caso. Ou a solução é óbvia ou ela surge como que por magia para resolver a questão.

O próprio Egito entra na história de maneira um tanto canhestra: Wilson é obcecado pela Cleópatra de Elizabeth Taylor desde a puberdade. Por isso, vai para o Cairo. Simples assim. Se ao invés do filme de Joseph Mankiewicz o rapaz tivesse saído do armário com a Liza Minnelli de Cabaret, a história se passaria em Berlim sem maiores problemas.

O que por outro lado não é um demérito, já que a intenção de Terron parece ter sido a de trabalhar a questão da identidade independente de lugar ou tempo. Só que não consegue competir com o belo livro-reportagem sobre o deserto.