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Biblioteca Básica Roqueira

13 de julho de 2010 7

Como alguns de vocês podem ter lido em sites de notícias ou redes sociais por aí, hoje é o Dia Internacional do Rock – efeméride marcada para o dia em que ocorreu, em 1985, o megafestival Live Aid, organizado pelo músico Bob Geldof (o sujeito que interpreta o rockstar no filme The Wall, lembram?) para chamar a atenção do mundo para a causa da África. Vinte anos mais tarde, Geldof e Bono Vox seriam os responsáveis por outro megafestival com shows simultâneos em várias cidades: o Live 8, para protestar contra a escalada da violência mundial na esteira da Guerra ao Terror de George W. Bush.

Pois bem, embora muita gente faça a piadinha infame de que roqueiros e livros não combinam muito (o próprio Frank Zappa vivia falando isso, mas provavelmente falava a sério), aproveitamos a passagem da data para elaborar uma lista com as melhores obras sobre rock lançadas nos últimos anos – e “aproveitamos” aqui não é um uso pedante do plural majestático, mas o reconhecimento à ajuda que recebi nesta tarefa de meus colegas Luís Bissigo (que escreveu sobre os livros dos Beatles e o do Ozzy) Gustavo Brigatti (responsável pelo texto sobre a autobiografia do Clapton) e Luiz Zini Pires (a quem devo o texto sobre o livro do Pink Floyd).

Tá esperando o quê? Vira a página que isso aí é rock’n’roll:

Beatles: A Biografia, de Bob Spitz
Tradução de um bando de gente. Larousse, 982 páginas e
John Lennon: A Vida, de Philip Norman
Tradução de Roberto Muggiati. Companhia das Letras, 840 páginas
Quem é fã – mas fã mesmo – de uma banda de rock não pode se intimidar diante de um volume de páginas mais generoso. Para os beatlemaníacos, por exemplo, dois ótimos lançamentos dos últimos anos representam uma longa estrada de mais de 1,7 mil páginas: The Beatles – A Biografia, de Bob Spitz, e John Lennon – A Vida, de Philip Norman, publicados em português, respectivamente, em 2007 e 2009. O percurso é dos mais recompensadores. Ricos em detalhes e fontes, os textos se complementam contar a história dos quatro beatles, não apenas de John. O grande trunfo de Spitz são os depoimentos dos amigos de Liverpool, cobrindo amplamente a vida dos músicos antes do estrelato. Norman não fica atrás _ embora naturalmente centrado no ponto de vista de John, descreve muito bem a relação dele com Paul, George e Ringo. Na dúvida, encare os dois livros.

Uma temporada no Inferno com os Rolling Stones, de Robert Greenfield
Tradução de Diego Alfaro. Jorge Zahar, 242 páginas
Tem muito fã dos Stones que considera Exile on Main St. o marco, o ápice e o fim da fase da banda que realmente importa – o escritor Alexandre Inagaki André Takeda chegou a escrever um conto que usava esse mote na extinta revista musical Zero. Em vez de fazer uma extensa biografia de uma banda cuja biografia ainda não acabou, o jornalista Robert Greenfield usa esse álbum como pretexto para fazer um féerico retrato de época por meio da história da gravação desse clássico do rock. Os Stones chegam ao processo de gravação de Exile… aos frangalhos: Brian Jones havia morrido em 1969, todos andavam cheirando demais, bebendo demais, fumando demais, envolvidos em confusão demais. E, perseguidos pelo Fisco inglês, os integrantes da banda se mudaram para a França para escapar dos altos impostos britânicos. Dadas as circurnstâncias totalmente adversas de sua produção, Exile on Main St., gravado em um casarão na Riviera que, conta a lenda, teria servido de quartel-general para os nazistas durante a II Guerra, é um prodígio. Os Stones ocuparam o casarão francês com um espírito parecido com o da novela de Sade Saló: longe da polícia inglesa e sob as vistas grossas das autoridades francesas, a banda liberou geral, em excessos clinicamente documentados por Greenfield, intercalando com maestria a narração do inferno pessoal da banda com a composição de uma de suas principais obras.

Led Zeppelin: Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra , de Mick Wall
Tradução de Elvira Serapicos. Larousse, 552 páginas
Comparar livros diferentes sobre um mesmo assunto sempre revela menos o assunto em si e mais as escolhas que levam o biógrafo a destacar um ponto em detrimento de outro. Exemplar nesse sentido é a leitura em paralelo do livro Hammer of the Gods, escrito por Stephen Davis nos anos 1980 (e sem edição no Brasil), e deste Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra, obra do jornalista inglês Mick Wall. Ambos se dedicam a contar a história de uma das maiores bandas do planeta, o Led Zeppelin, mas têm uma diferença monumental de abordagem. Enquanto Davis dedicava muito de seu livro à documentação sistemática dos excessos e da aura mítica e sensacionalista envolvendo a banda, Wall faz, neste livro, uma monumental reportagem que esmiuça detalhadamente não apenas a mitologia construída em torno da banda mas o quanto a própria banda – Jimmy Page à frente – calculadamente planejou seu caminho até o Olimpo roqueiro em que a formação dessas lendas é inevitável. Page estava cansado de ser um músico de estúdio reconhecido apenas por seus pares, e queria o estrelato – mas com o naufrágio dos Yardbirds, precisava correr atrás e montar seu próprio grupo, no qual ele daria as cartas. O encontro com o empresário Peter Grant, que também tinha delírios de grandeza para ser reconhecido como o gênio empresarial que era e sair da sombra de seu sócio, foi o estopim para uma banda que mudou as regras do showbiz (até em termos de ganhar dinheiro, por exemplo). Wall também não foge das ousadias formais: o livro alterna a história da banda desde sua formação – narrada em um sólido e fluente texto em terceira pessoa – com a inserção de capítulos sobre a vida de cada um dos integrantes e do empresário Peter Grant – estruturados em segunda pessoa. O narrador conta a história dirigindo-se ao personagem, como no trecho a seguir, uma das primeiras frases do livro: “Você é Jimmy Page. Estamos no verão de 1968 e você é um dos mais conhecidos guitarristas de Londres – e um dos menos famosos. Mesmo os dois últimos anos com os Yardbirds não lhe trouxeram o reconhecimento que você sabe que merece.” Um formato semelhante ao que o americano Jay McInerney usou para Brilho da Noite, Cidade Grande (L&PM), um dos romances símbolo da geração yuppie.

The Dark Side of the Moon: os bastidores da obra-prima do Pink Floyd, de John Harris
Tradução de Roberto Muggiati. Jorge Zahar, 224 paginas
Seis anos depois que os Beatles jogaram pimenta nos olhos dos jovens do planeta com Sgt. Peppers, o Pink Floyd desembarcava em Londres uma obra de outro planeta, The Dark Side of The Moon, um disco que três décadas depois já superaria as 30 milhões de cópias vendidas – sem contar aí a larga pirataria da virada do milênio. Depois de extensa pesquisa, o jornalista, John Harris, recupera neste livro a trajetória da banda, o trauma da saída de Syd Barrett com o cérebro derretido pelas drogas, o ambiente das gravações (no mesmo estúdio dos Beatles), e a ideia, levada a cabo pela banda em The Dark Side…, de unir todas as faixas sob um mesmo conceito. Todas as músicas do LP do Floyd estavam encadeadas, dando ao trabalho uma unidade plural que se hoje é quase pré-requisito, era algo novo na música pop da época, ainda sem o rótulo de “álbum conceitual”. The Dark Side of The Moon começou a ser gerado em 1971. As músicas foram sendo tocadas nos shows, retocadas nas apertadas vans que guiavam a banda pelo interior da Inglaterra e aprimoradas em estúdios. Uma saga que Harris recupera em um texto fluente e em uma edição bem documentada com fotos.

Like a Rolling Stone, de Greil Marcus
Tradução de Celso Mauro Paciornik. Companhia das Letras, 256 páginas
Outro livro que, a exemplo de Exile on Main St., toma como fio fio condutor uma das gravações fundamentais da história do rock, mas aqui o jornalista americano Greil Marcus, testemunha  ocular da rebeldia roqueira, analisa o impacto de Bob Dylan no mundo da música popular por meio de uma única faixa, provavelmente uma das duas canções de Bob Dylan mais conhecidas por quem não é fã de Bob Dylan (a outra, lógico, seria Blowing in the Wind). Com o subtítulo de Bob Dylan na Encruzilhada, o livro de Marcus reconstitui em detalhes o dia 15 de junho de 1965, data em que o compositor entrou em estúdio para gravar a canção que dá título ao livro, tornada posteriormente um dos marcos de sua época e regravada à exaustão. Centrando-se nesse eixo aparentemente tênue, Marcus avança e recua no tempo, esboçando um retrato daqueles tempos em que a canção foi composta e se tornou sucesso e acompanhando os anos seguintes até o período  contemporâneo, no qual a música é vista como um hino da contracultura. Mais um caso em que uma leitura cruzada, com a biografia de Dylan escrita por Sounes que citamos mais abaixo, seria interessante,

Eric Clapton: A Autobiografia
Tradução de Lúcia Brito. Planeta, 400 páginas
Imagine que você é um garoto do interior, fã de blues e que há pouco começou a mostrar seus dotes na guitarra elétrica. Aí monta uma banda, dessas pra tocar no bar em troca de cerveja e um ou outro flerte. Então, um dia, você visita a Capital e vê, atônito, o seu nome pichado em um muro dizendo que você é deus. Eric Patrick Clapton tinha 18 anos quando viu escrito exatamente isso numa estação de trem em Londres e conta que, a partir desse momento, percebeu que sua vida não lhe pertencia mais. A história está na autobiografia que Clapton lançou em 2007. É um relato no mínimo corajoso, que ele parece ter feito com a intenção de purgar seu passado de excessos. E bota excesso nisso. Por quase três décadas, Clapton foi usuário pesado de quase tudo (até uma colher de ouro com seu nome, confeccionada para usar heroína, ele possuía), embora tivesse especial predileção pelo álcool. Esse último vício o fez até abrir uma clínica de reabilitação no Caribe, pra se ter uma ideia do estrago. Mas motivos não faltaram, como também abundaram as razões para ele seguir em frente e  fixar se nome fácil em qualquer lista de melhores/maiores/incríveis/geniais/absurdos guitarristas de qualquer tempo/estilo/plano astral. E tudo num texto direto, quase um bate-papo, que, não raro, faz crescer aquele bolo na garganta diante da descrição de uma alma tão incrivelmente generosa quanto atormentada, a mercê de todo tipo de capricho do destino _ do abandono pelos pais à disputa pela namorada do amigo George Harrison até a morte precoce do filho.
Tudo lá, rasgado de fora a fora. Como um bom blues antigo.

Dylan: A biografia, de Howard Sounes
Tradução de Leila de Souza Mendes; Conrad; 472 páginas
Bob Dylan é um dos personagens mais esquivos do universo do rock. Ele não fala de sua vida privada, e quando o faz, mente sobre seu passado, espalha versões díspares sobre fatos e passagens de sua vida – um pouco como faz com as próprias músicas, cujos arranjos e melodias ele reinventa, às vezes radicalmente, de um show para outro. Ah, sim, e também é um sujeito inteligente que gosta do confronto contra a imprensa e dá nó em muito jornalista e entrevistador, falando o que quer e preservando os detalhes de sua assim chamada “vida pessoal”. Só pela característica difícil do biografado, já se vê que uma biografia definitiva da carreira do artista é uma ideia ilusória – nem o próprio Dylan escreveu uma, preferindo contar histórias sem uma ordem cronológica em suas Crônicas: Volume Um. É claro que esta biografia de Sounes não seria, portanto, esse tipo de biografia, mas faz um belo trabalho em estabelecer uma narrativa da vida de Dylan e até estabelecer algumas versões contadas pelo compositor ao longo do tempo como os trotes sofisticados que eram em sua origem. Sounes, também fez um belo trabalho de pesquisa – principalmente se considerarmos que é uma biografia escrita sem ouvir o biografado, avesso a colaborar em projetos do tipo. Mas por meio de depoimentos de colegas, ex-namoradas e colaboradores, Sounes – também biógrafo de Charles Bukówski – forma um panorama abrangente da personalidade complexa de Dylan, um compositor que só avisava aos colaboradores que estava gravando para valer ao fim da sessão. Ou um músico que não elabora listas de canções para o palco e muda o arranjo e andamento das canções sem avisar a banda – por isso, prefere trabalhar com músicos capazes de acompanhar seus voos no palco sem que ele precise dar indicações.

Mate-Me Por Favor, a história sem censura do punk, de Legs McNeil e Gillian McCain
Tradução de Lúcia Brito. L&PM, 307 páginas (volume 1) e 248 páginas (volume 2)
Este é um livro com um projeto político e histórico. Foi escrito, declaradamente, para lembrar ao mundo que antes do picareta Malcolm McLaren dar uma rasteira na cultura pop com os Sex Pistols e tomar de assalto os louros pela criação do punk, as raízes do movimento estavam fundadas em outros terrenos, na cena artística e alternativa que fervia em Nova York nos anos 1960. Baseado em entrevistas com os participantes daquele período de excessos, drogas, marginalidade e música, Mate-Me Por Favor é uma colagem de depoimentos em que as vozes dos entrevistados se contrapõe sem um discurso narrativo que tente “organizar as coisas” para o leitor _ essa organização se dá apenas na edição, e, pensando bem, na cena individualista e anárquica do punk rock, não haveria mesmo espaço para um único discurso. Do embrião da cena, com os New York Dolls, os Stooges e o Velvet Underground, até os heróis do estilo, Iggy Pop e os Ramones, chegando finalmente na aparição dos Sex Pistols - que, como o livro é escrito por uma dupla interessada em provar que o punk surgiu na América, é identificada com a diluição e a decadência das propostas originais de arte e independência, degenerando em violência e rebeldia adolescentes. É provavelmente o melhor livro sobre o punk, talvez ombreado apenas com a biografia de Johnny Rotten, No Irish, No Blacks, No Dogs - a biografia de Dee Dee Ramone, Coração Envenenado, e as memórias de Patti Smith, em Just Kids, não chegam nem perto.

Eu Sou Ozzy
Tradução de Marcelo Barbão. Benvirá, 384 páginas
Esta autobiografia agora editada em português, é quase tudo o que se poderia esperar de um personagem como Ozzy Osbourne. Não faltam causos curiosos em sua trajetória de 61 anos de drogas, demências, bebidas, mulheres e rock’n’roll _ e ele conta tudo na base do bom humor, rindo dos outros e de si mesmo. Infância, juventude, Black Sabbath, casamentos e carreira solo estão na história, narrada com o auxílio decisivo do jornalista britânico Chris Ayres _ que até Guerra no Iraque já cobriu e, portanto, não se intimidou com as barbaridades da vida de Ozzy.

Slash, em co-autoria com Anthony Bozza
Tradução de Tina Jeronymo. Ediouro, 304 páginas
A frase foi dita por Humberto Gessinger em uma entrevista a Zero Hora por ocasião do lançamento de seu livro Pra Ser Sincero: “...a biografia do Slash (ex-guitarrista do Guns N’ Roses) foi um susto: nas duas primeiras páginas, ele já tinha tomado de tudo, a mãe dele era amante do David Bowie, o pai dele fazia capas pra todo mundo. Em duas páginas, o Slash viveu mais do que eu viveria em cinco vidas! (risos)”. Narrado em uma primeira pessoa que se lê com interesse e que mantém o ritmo com galhardia, a biografia de um roqueiro tão ligado a uma história de excessos do rock não foge do tema – Slash e sua turma de colegas do Guns ‘n’ Roses foram destaques de uma das últimas gerações a encarnar a sério o aspecto messiânico, autodestrutivo, heroico e épico do rock, e portanto uma boa parte do livro é focada na relação conturbada de Slash com a heroína e o álcool – a primeira cena do livro, já no prólogo, descreve um infarto em pleno palco sofrido pelo guitarrista, o que o levou a implantar, aos 35 anos, um cardio-desfibrilador em seu peito. Mas é um livro interessante não só por causa disso, mas porque com um biografado desses, mesmo uma biografia oficial, como é o caso aqui, não tem como fugir das passagens mais comprometedoras – Slash está tentando dar sua versão dos fatos, e a maioria dos fatos mais desabonadores já haviam saído na imprensa, o que o obriga a se posicionar.

Mais Pesado que o Céu (Heavier than Heaven), de Charles Cross
Globo, 450 páginas
Eu escrevi ali que os rapazes dos Stones talvez fossem da última geração a levar a sério a postura salvacionista do rock. Uma frase que pode render lá suas polêmicas, mas que eu justifico lembrando que hoje em dia quando alguém fala e age com aquela postura roqueira messiânica, não dá pra não pensar no Jack Black em Escola do Rock, ou seja, algo caricato, exagerado, terno, mas também cômico, lembrando o quanto essa coisa toda tem lá também o seu lado risível. Creio que uma das coisas que levaram a essa “perda de ingenuidade” foi a rápida sucessão entre o rock poser dos anos 1980 e 1990 e a onda posterior do grunge, a turma que, seguindo a linha de arugmentação aberta por Legs McNeill e GIllian McCain lá no Mate-Me Por Favor, devolveu o punk aos Estados Unidos onde ele havia nascido, mas desta vez com o reconhecimento popular planetário que os pioneiros da cena nova-iorquina não chegaram a conhecer. Rock cru, rápido, barulhento, pesado, com letras bem cuidadas, niilistas, pessimistas, agressivas. O punk foi tudo isso – e o grunge também foi tudo isso vinte anos depois. A figura perturbada de Kurt Cobain, líder do Nirvana, pintou com tintas de tragédia essa transição, e da profusão inacreditável de biografias e reportagens que se sucederam ao suicídio do compositor em 1994 esta talvez seja a mais completa – tem outras que saíram depois e muitas que eu não li, então estou chutando mesmo, e daí? O jornalista Charles Cross, também biógrafo de Hendrix, sabe que está mexendo em terreno perigoso ao tentar compreender uma figura controversa, paradoxal, cheia de talento e de mimimi e que ainda por cima levou seu flerte sempre ensaiado com a morte até o fim. Por isso, documenta seu trabalho com entrevistas minuciosas, jornais, relatórios médicos, cartas ro próprio músico. E abarca o quanto pode da vida de seu biografado e do tempo em que viveu: da infância “white trash” em um trailer no interior até o estrelado, passando pelo período em que conheceu Dave Grohl, numa época em que ambos dividiam um apartamento, chapavam-se de xarope para tosse e cheiravam até o freon de desodorantes aerosol. A relação conturbada do músico com a fama, sua vulnerabilidade, sua depressão, o conturbado casamento com Courtney Love. Um belo painel.

Dias de Luta, de Ricardo Alexandre
DBA Editora, 400 páginas
Exemplar nacional que eu não hesito em qualificar como o melhor até agora a dar conta do que foi a onda roqueira que varreu o Brasil nos anos 1980 – e que já chegava ao país com algum atraso, diga-se. Antes de ser censurada na justiça pelo biografado, a biografia de Roberto Carlos tinha informações em número suficiente para ser tão completa quanto ao focar outra turma, a do Iê-Iê-Iê, precursora do rock brazuca. Mas Roberto Carlos Em Detalhes não era tão bem escrita quanto esta bem pesquisada e vigorosa reportagem sobre a emergência dos grupos que seriam a cara do rock nacional dos anos 1980 até aqui. Alexandre (esse cara não tem sobrenome, será?) faz um trabalho admirável em narrar uma história que se desenrola com tantos personagens e em tantos focos simultâneos, e passeia sem perder o foco pelos vários núcleos do nascente rock nacional: a Brasília da “Turma da Colina”, que originaria Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude; o Rio de Janeiro dos shows no Circo Voador, com sua efervescente cena artística jovem de onde sairia o Barão Vermelho e onde finalmente explodiria o Rock’n’Rio – o “anno mirabilis” do rock nacional, segundo Alexandre –; a São Paulo do rock intelectualizado, niilista e experimental de Felini, dos Titãs, do Ira e das pirações de Júlio Barroso, do movimento punk operário de Os Inocentes – bem diverso da gurizada de Brasília, que posava de punk vindo de famílias classe alta. Alexandre também advoga quase uma tese social: a de que a linguagem daquele rock oitentista era um transplante muitas vezes mal feito de uma estética que vigorava na música internacional, principalmente o rock inglês. O rock anos 80, portanto, é um caldo que demora a adquirir uma personalidade própria, pela história que o autor conta. Em seu amplo mosaico, não falta nem o Rio Grande do Sul, mas isso pode ser melhor abordado no próximo livro:

Gauleses Irredutíveis: Causos e Atitudes do Rock Gaúcho, de Allison Avila, Cristiano Bastos e Eduardo Müller
Sagra/Luzzatto. 270 páginas
Este é o Mate-Me Por Favor do rock gaúcho – e embora para este cabeludo aqui em particular doa até os ossos comparar Lou Reed e Ramones com o rock gaúcho, o paralelo procede não pelas bandas em si, e sim pelo recurso formal utilizado pelos autores. O livro é resultado de 167 entrevistas que o trio de autores jornalistas realizou com personagens da cena musical do Estado: Thedy Correa, Nei Lisboa, Plato Dvorak, Vander Wildner, Carlos Gerbase, o Gordo Miranda e literalmente mais de uma centena de outros. São trechos em primeira pessoa dessas entrevistas que sustentam a narrativa do livro, dos tempos heroicos e psicodélicos dos primeiros exemplares do rock setentista gaúcho, como Byzarro e Bixo da Seda, à cena pulverizada do início do século 21. Com direito a centrar foco no movimento ao mesmo tempo criativo e paroquial que emergiu nos anos 1980, com De Falla, Replicantes, Cascavelettes e sua oposição às vezes tácita, às vezes aberta, ao Engenheiros do Hawaíi e seu sucesso nacional que a turma daqui sempre viu com nariz torcido. Uma história de 40 anos contada pelos seus próprios protagonistas.

Comentários (7)

  • Segundo Caderno » Arquivo » Biblioteca Básica Roqueira diz: 13 de julho de 2010

    [...] o post original no Mundo Livro: Biblioteca Básica Roqueira Compartilhar/Salvar Tags: allison avila, biografias, bob dylan, Destaque, Dia Mundial do Rock, dias [...]

  • Eledilson diz: 13 de julho de 2010

    O q seria de nós veteranos e jovens sem o rock? Está no sangue e na alma. Parabéns aqueles que aí estão e se foram dessa para outra … é dia de rock!!!

  • Manoel diz: 14 de julho de 2010

    O conto, que saiu na extinta ZERO, tendo o Exile Main St. como mote é do Takeda, cara.
    http://veiapop.blogspot.com/2010/06/roubando-texto-rocks-off-de-andre.html

    Ótimo conto, por sinal.
    Abraço.

    Ah, isso. Takeda, Inagaki, foi por isso que fiz a confusão. Valeu, Manoel, vou arumar ali.
    Carlos André

  • Yuri Alhanati diz: 14 de julho de 2010

    Oi André! Olha, desses aí, só li mesmo o Dias de Luta, que gostei muito. Acho que o ponto positivo desse livro é fazer um paralelo muito bem feito entre o cenário musical e o momento político. Por outro lado, não sou nada fã dessas bandas dos anos 80 (até nem sei porque resolvi ler esse livro, afinal) e achei forçadão o jeito como o autor pinta algumas bandas, em especial o Titãs e o RPM. Ah, e adorei o modo como ele apresenta o Conexão Japeri: um bando de gente feia e gorda e com talento, pra variar, que desbancou os roqueiros. Acho que um dia vou escrever sobre esse livro no meu blog.
    De resto, nunca me interessei sobre livros de roque, principalmente pelo fato da música ser tão onipresente. Penso “deixa eu pegar alguma coisa aqui que não tenha música no meio”. Mas, para citar um livro bom sobre música (não-roque), gosto do Kind of Blue do Ashley Kahn.
    Grande abraço!

    Oi, Yuri. Gosto muito também do Kind of Blue. Só não o incluí porque, apesar de ele retratar algo que forçosamente está na base do rock, não cabia exatamente no gênero, mas realmente, é um dos livros sobre música que mais gosto. Quanto ao Dias de Luta: também gosto muito do livro, e confesso que talvez por ser quase um ancião e ter vivido minha infância e pré-adolescência nos anos 1980, eu gosto de algumas coisas feitas por essas bandas naquele período, como o Titãs, o Camisa de Vênus, o Ultraje a Rigor – RPM não, RPM nunca. E eu não escuto tanta música assim, então acho que pra mim a música não é tão onipresente, por isso curto livros desse tipo.
    Abraço.

    Carlos André

  • KLAUSS FINGER diz: 14 de julho de 2010

    Para complementar a relação do blog, mais algumas pérolas literárias sobre Rock publicadas em Portugues:

    1-Rockers – Bob Gruen – editora Cosac & Naify (o rock em imagens míticas);
    2-A Divina Comédia dos Mutantes – Carlos Calado – Editora 34 (Biografia da banda mais criativa Brasileira);
    3-Renato Russo o Filho da Revolução – Carlos Marcelo – Editora Agir (Biografia do Líder da Legião Urbana);
    4-Coração Envenenado – Minha Vida com os Ramones – Dee Dee Ramone – Editora Barracuda (Biografia do lendário Baterista dos Ramones);
    5-Daqui Ninguém Sai Vivo – Jerry Hopkins – Editora Assírio & Alvin (Ótima Biografia do Jim Morrison);
    6-A Vida Sexual do Selvagem – Julio Barroso – Editora Siciliano (Retrata a vida e pensamento do saudoso Júlio Barroso, vocalista da Gang 90);
    7-Scar Tissue – Larry Sloman – Editora Ediouro (Biografia do Líder da Banda Red Hot Chili Peppers);
    8-Sexo, Drogas e Rolling Stones – Nelio Rodrigues – Editora Agir (Uma das melhores biografias da maior banda de rock em atividade);
    9-O Diário da Turma 1976-1986 – Paulo Marchetti – Editora Conrad (História do Rock de Brasília);
    10-Jimi Hendrix A Dramática História de uma Lenda do Rock – Sharon Lawrence – Editora Zahar (Biografia do maior guitarrista de todos os tempos);
    11-Punk: Anarquia Planetária e a Cena Brasileira – Silvio Essinger – Editora 34 (excelente livro sobre o movimento Punk lá fora e aqui);
    12-Let There Be Rock – Susan Masino – Editora Ibep Nacional (biografia escrita por uma fã da banda);
    13-Superstar Andy Warhol e os Velvet Underground – Editora Assírio & Alvin (Biografia da seminal Banda americana);
    14- Reações Psicóticas – Lester Bangs – Editora Conrad (Ensaios com o maior crítico musical de Rock);
    15-A Última Transmissão – Greil Marcus – Editora Conrad (Ensaios com o mesmo autor de Like a Rolling Stone…)
    16-Criaturas Flamejantes – Nick Toshes – Editora Conrad (Ensaios sobre os primórdios do Rock);
    17-Beijar o Céu – Simon Reynolds – Editora Conrad (Ensaios com um dos últimos críticos ingleses);
    18-Só as Mães são Felizes – Lucinha Araujo – Editora Globo (Biografia sobre o maior rockeiro brasileiro);

    e por ai vai……esses foram só os que eu lembrei agora……

    that’s all folks….

    Oi, Klauss, tudo bem? Realmente, a seleção que fizemos foi bastante subjetiva e restrita, haveria muito mais. Poderíamos citar, por exemplo, Bill Graham Apresenta: Minha vida dentro e fora do Rock, da editora Barracura (a mesma do livro do Dee Dee Ramone que, a propósito, citamos ali no texto sobre o Mate-Me Por Favor). Tem também outros dois livros sobre o John Lennon (um deles escrito pela irmã), tem o Anthology, tem um outro sobre os Stones escrito por uma dupla de jornalistas brasileiros, o mercado para este tipo de livro se desenvolveu bastante nos últimos anos, levando à possibilidade de montar uma estante muito bem servida sobre o gênero.
    No campo do rock nacional, poderíamos falar também de outra biografia do Renato Russo,
    O Trovador Solitário, assinada pelo jornalista Arthur Dapieve. Ou do Noites Tropicais, do Nelson Motta, que aborda a geração dos anos 1980 em seus últimos capítulos, ou de Areias Escaldantes, de Scarlet Moon de Chevalier, relato sobre a fervelândia do Posto Nove, em Ipanema, frequentado por gente como Lulu Santos, Cazuza e Evandro Mesquita.
    Como não daria para escrever um texto sober cada um desses antes do fim do dia do rock (e portanto, antes de expirar o motivo do post), optamos por uma seleção que dá um bom conjunto geral.
    Grande abraço

    Carlos André

  • Claudia diz: 15 de julho de 2010

    Parabéns pela lista da Biblioteca Básica Roqueira! Gostaria de acrescentar um livro: “Daqui ninguém sai vivo”, de Jerry Hopkins e Daniel Sugerman. Ed: Assírio & Alvim. Trata-se da biografia do Jim Morrison. Me aprece que até hoje, esta editora portuguesa detém os direitos autorais da língua portuguesa da biografia do Jim. Esta biografia mostra as várias facetas do Jim. No livro “Mate-me, por favor”, Vol 2, o Jim é retratado apenas como um alcoólatra agressivo. Não há menção a genialidade dele e outros fatos.

    É verdade, Cláudia. Na obra Mate-Me Por Favor, Morrison é descrito por Nico e por outros como um sujeito algo descontrolado. Fica registrada aqui tua sugestão. Abraço.

    Carlos André

  • Izze Odelli diz: 17 de julho de 2010

    To doida para ler a biografia do Led Zeppelin. Dei de presente para o meu namorado no Natal e ele enrolou loucamente para ler (preguiçoso ¬¬). Ele falou muito bem do livro, e comentava algumas partes, todo empolgado. Só aumentou a minha vontade de ler. É só a minha lista de livros diminuir.

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