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Nosso Hermano em Buenos Aires

17 de julho de 2010 1

Cristian de Nápoli (com o microfone), entre Angélica Freitas (na extrema esquerda), Antônio Xerxenesky. Telma Scherer e este seu blogueiro (na extrema direita) – Foto de Adriana Franciosi

Esta entrevista está sendo reproduzida aqui no Mundo Livro, emborta tenha sido publicada também hoje na página 3 do caderno de Cultura do jornal impresso e em sua versão eletrônica, por dois motivos. O primeiro é o de sempre: a entrevista precisou ser editada para o jornal, então aproveitei para colocar a íntegra por aqui – nem foi uma edição tão drástica, cortou-se duas perguntas inteiras e fez-se uns ajustes de edição para tornar uma resposta falada mais adequada à linguagem escrita (ao falar, e isso vale para qualquer um de nós, repetimos uma ideia para reforçá-la, deixamos um subentendido completar uma frase em vez das palavras, etc).

O segundo motivo é que infelizmente a versão impressa do caderno Cultura circulou com uma foto do escritor Antônio Xerxenesky como sendo Cristian de Nápoli. O jornal vai apurar a origem do erro e, claro, publicar uma correção. Vai a entrevista:

Os primeiros contatos do bonairense Cristian de Nápoli, 38 anos, com a poesia em português foram por meio da música brasileira. Dali, derivou para Guimarães Rosa e Clarice Lispector, até se tornar, hoje, um dos principais divulgadores da literatura brasileira na Argentina. Poeta, autor de coletâneas de poemas como Limite Bailable e Los Animales, De Nápoli traduziu e editou em seu país a antologia de poesia contemporânea Cuatro Cuartetos, com obras de quatro poetas brasileiros: Joca Reiners Terron, Angélica Freitas, Ricardo Domeneck e Elisa Andrade Buzzo. Também foi o responsável pela antologia de prosa Terriblemente Felices – Nueva Narrativa Brasileña, reunindo autores brasileiros. De Nápoli esteve em Porto Alegre na quarta-feira para participar de um encontro na Livraria Palavraria sobre seu trabalho de divulgador e a nova ficção brasileira (Vocês podem ver mais sobre esse evento em particular no blog da própria Palavraria, neste link). Lá, concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora:

Zero Hora – Como está o mercado editorial na Argentina no período pós-crise?
Cristian de Nápoli
– Com a crise, algumas das editoras tradicionais da Argentina foram vendidas para empresas maiores da Espanha. Outras sumiram. Por volta de 2004 começaram a aparecer novas editoras, pequenas mesmo. Algumas artesanais, outras industrais, mas que só conseguem fazer uns 10 livros por ano. Há pelo menos umas cem editoras pequenas, o que torna também bastante difícil avaliar a qualidade do material. O caso mais emblemático da década é o da Eloisa Cartonera, uma editora que começou em 2003 a lançar livros muito baratos, com papel barato, capa de papelão reutilizado, que eram vendidos a cinco pesos, muito barato.

ZH – Essa experiência gerou outra similar aqui no Brasil, não? A editora Dulcinéia Papeleira, que também publica livros com papelão
De Nápoli –
Sim, eu participei da criação da Dulcineia Papeleira, quando fomos convidados para passar três meses em São Paulo e participar da Bienal de Artes Plásticas, oferecendo os livros da Eloisa Cartonera como objetos artísticos – o que eles de fato são. Ajudei à capitã do projeto da Dulcinéia com algumas traduções, hoje é um lindo projeto, e há várias editoras no mundo publicando livros de papelão. Até na França.

ZH – Em visita ao Brasil em 2007, o argentino Martín Kohan comentou que o fato de as editoras tradicionais argentinas terem ido para o controle de empresas espanholas gerava uma situação esquizofrênica: livros argentinos editados na Espanha e só depois importados para a Argentina. Com a criação de tantas pequenas editoras, essa situação mudou de alguma forma?
De Nápoli
– No caso específico do Martín Kohan, por exemplo, ele continua a publicar na Espanha, na Anagrama, uma editora que tem muitos autores argentinos e boa distribuição. O livro de ficção mais comentado na Argentina no ano passado foi Los Topos, de um cara chamado Félix Bruzzone, filho de desaparecidos políticos. Ele publicou por uma editora que ninguém conhece, chamada Tamarisco, que só consegue fazer uns três livros por ano. E foi sucesso. Então, tem esses casos. Principalmente os autores jovens, digamos abaixo dos 40 anos, em geral estão editando por editoras pequenas e tendo um sucesso relativo, às vezes considerável.

ZH – Aqui no Brasil, vê-se também uma proliferação de pequenas editoras, pelas quais os autores iniciantes também estão publicando, mas elas enfrentam problemas de distribuição. Como é esse quadro na Argentina?
De Nápoli –
Temos uma desvantagem: a produção editorial se concentra quase toda em Buenos Aires. Não há o que vocês têm aqui no Brasil, diferentes eixos no mesmo país. O que se lê em Buenos Aires é quase o mesmo que se lê no resto do país, é uma coisa histórica. Por outro lado, temos essa vantagem de um grande número de editoras pequenas com espaço nas livrarias.

ZH – Quais autores brasileiros você traduziu em Buenos Aires, e como chegou até eles?
De Nápoli
– Comecei a fazer minhas primeiras traduções do português para a Eloisa Cartonera, com escritores como Glauco Mattoso e Jorge Mautner, sempre me concentrando em autores não traduzidos por lá. Em 2008 consegui editar um livro chamado Terriblemente Felices, com 15 autores brasileiros contemporâneos, nascidos depois de 1940. Tem dois contos de cada autor, essa era uma ideia minha e consegui convencer os editores, porque sabia que eram autores que talvez demorassem muito tempo a ter outra tradução. Estão lá Sérgio Sant’Anna, João Gilberto Noll, Cíntia Moscovich, Márcia Denser. Até alguns mais novos, como o baiano João Filho, Marcelino Freire, Marçal Aquino – que dá nome ao projeto, tirado do livro dele Famílias Terrivelmente Felizes.

ZH – Nos últimos anos temos visto uma nova onda de lançamentos de autores argentinos aqui no Brasil e de brasileiros por lá, um contato que havia sido interrompido. A que você atribui esse fosso?
De Nápoli –
Realmente, para toda uma geração que publicou ali por 1970, 1980, o contato se perdeu. Uma exceção foi Rubem Fonseca, que é muito lido e traduzido. Dalton Trevisan também, mas ao todo eram apenas uns três ou quatro nomes. Quem escreveu ali pelos anos 1980 perdeu esse contato, o que não deixa de ser engraçado, porque é nos 1980 que começa o Mercosul, com o encontro entre Sarney e Alfonsín. Mas apesar das tratativas do Mercosul, as relações culturais ainda não geravam frutos. Agora a situação é diferente, até pelo ânimo político do Lula e da Cristina [Kisrchner]. Não se pode, claro, dizer que eles têm uma política conjunta de cultura, ninguém se ilude a tal ponto, mas há uma disposição para o diálogo e as iniciativas estão se proliferando, no cinema, na literatura. No cinema, por exemplo, será feito lá na Argentina um filme adaptando o romance Cordilheira, do gaúcho Daniel Galera. Acho que será bem interessante.

Comentários (1)

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