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O amor como um acidente

21 de julho de 2010 2

Sabe-se que em literatura o mote não passa justamente disso, um ponto de partida em redor do qual os grandes e os não tão grandes ficcionistas tecerão suas teias narrativas. Portanto dizer que O Acidente, romance Ismail Kadaré que está saindo agora no Brasil, começa com um desastre de automóvel é pouco. É na condução do livro que Kadaré torna seu o mote – e, o que mais surpreendente para quem é familiarizado com suas obras desesperançadas, como O General do Exército Morto ou Abril Despedaçado: tece uma história de amor, ainda que amarga.

À primeira vista o título não poderia ser mais explícito: o “acidente” está descrito já na primeira cena: um táxi sai da pista em uma autoestrada de Viena, a caminho do aeroporto. O casal de passageiros que viajava no banco de trás não sobrevive. Ele, um sérvio chamado Bessford Y. Ela, uma albanesa de nome Rovena St. E o que provoca o acidente é uma cena perturbadora que o taxista, único sobrevivente, relata em seu depoimento: ao olhar pelo retrovisor, o homem perde a concentração, chocado porque os dois “tentaram se beijar”.

Há um quê de absurdo nesse mote, um absurdo reconhecido pelo desenrolar do romance, composto de cartas, fragmentos de diários, relatórios e de uma narrativa descarnada, clínica, que passeia pelos eventos como se mirasse perplexa. O acidente, depois de investigado de modo quase protocolar pelas autoridades policiais, passa a ser alvo de interesse minucioso dos serviços secretos de Albânia e Sérvia. Depoimentos são retomados, testemunhas são outra vez ouvidas, correspondências são analisadas, tudo para esmiuçar a natureza da relação que unia Rovena, bela jovem suspeita de prostituição, ao misterioso e violento Bessford, cujas associações políticas na Sérvia o colocam sob suspeita e atiçam o interesse pelos seus passos durante a já longínqua Guerra dos Bálcãs, nos anos 1990.

Embora o resumo algo empobrecedor da trama a aparente com um romance de mistério, não é um enigma policial o que Kadaré constrói em O Acidente. O caso passa pela mão de sucessivos investigadores e serviços, mas sempre termina em uma desconcertante encruzilhada — algo representado até mesmo na inicial do sobrenome de Bressford: Y. É um mistério o que unia os dois personagens, ela, “bela e branca”, tratada como acompanhante pelo sombrio homem com quem mantém encontros clandestinos por “cerca de quinhentas semanas”, de acordo com o que apuram as inúteis investigações.

É no alinhavar dos diferentes elementos tão característicos de sua prosa que Kadaré transforma o mote inusitado em um romance plenamente seu: estão lá a paranoia da autoridade, os movimentos clandestinos de toda uma rede repressiva destinada a manter o controle das individualidades e até mesmo o brutal pessimismo (a ninguém passará despercebida a circunstância de que o romance inteiro é a arqueologia de uma história de amor, e não a própria história, e só começa no momento em que a relação dos dois protagonistas termina em tragédia). Mas mesmo nesse pessimismo reside uma triste redenção: a da impermeabilidade do sentido mais íntimo da história de amor dos dois personagens, ilesa às maquinações da estrutura de vigilância — ao ponto de o leitor se perguntar, continuamente, se o título enganosamente simples O Acidente se refere ao desastre da primeira cena ou ao encontro dos amantes.

Comentários (2)

  • Segundo Caderno » Arquivo » O amor como um acidente diz: 21 de julho de 2010

    [...] o post original no Mundo Livro: O amor como um acidente Compartilhar/Salvar Tags: abril-despeda, acidente, enigma-policial, interesse-pelos, kadar, [...]

  • Yuri Alhanati diz: 21 de julho de 2010

    Oi André!
    Nossa cara, eu estou seco pra ler esse livro, mas estou com tanta coisa na estante dos não-lidos que acho que vou ter que postergar um pouco. Ele parece ser muito bom mesmo. Comecei a ler Kadaré esse ano. Li o Dossiê H e o Abril Despedaçado, ambos comentados no meu blog tosco. A impressão que me dá sobre o autor é que a criança cresceu sem amor nenhum hahaha ô sujeito sério, dá vontade de falar pra ele “ô cara, relaxa um pouco aí!”.
    Obrigado por comentar esse livro! Saciou um pouco da vontade de lê-lo por enquanto.
    Abraço!

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