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Posts de julho 2010

Os Inimigos Públicos

30 de julho de 2010 1

Bonnie & Clyde entraram para o imaginário primeiro dos Estados Unidos e mais tarde do mundo, principalmente na esteira do longa-metragem de 1967 dirigido por Arthur Penn com Faye Dunaway e Warren Beaty nos papéis principais. Já foram tema de uma série de biografias e estudos, o mais recente deles Bonnie & Clyde, a VIda por Trás da Lenda, de Paul Schneider (Larousse, tradução de Lizandra Magon de Almeida, 432 págs). Um livro que tenta fugir da mitologia que se criou depois que o filme, com seus belos protagonistas (na vida real Bonnie & Clyde pareciam o que de fato eram: um casal de caipiras de um grotão profundo), glamurizou a dupla como paradigmas do “amor bandido” e se se tornou referência para várias outras produções posteriores.

Ao ponto de o leitor menos avisado se abismar de quão pouco durou a aventura criminosa da quadrilha. E mais ainda ao ver que seus breves anos de atuação não foram uma loucura isolada de um casal de desajustados, e sim uma das faces mais visíveis de uma onda criminosa que varreu a América na esteira da miséria e da falta de perspectivas provocada pelo crash da bolsa de Nova York, em 1929. Entre 1933 e 1936, os Estados Unidos foram apresentados à era dos crimes sensacionais, cometidos por quadrilhas de bandidos vaidosos e arrojados, que driblaram durante meses cercos de polícias estaduais e armadilhas montadas por um FBI ainda em formação. Além do casal Bonnie & Clyde, que na verdade eram os dois nomes mais conhecidos de uma quadrilha composta de seis pessoas, agiam na mesma época bandidos que se tornariam mitos no imaginário norte-americano: John Dillinger, Charles “Pretty Boy” Floyd, “Baby Face” Nelson, a matriarca do crime “Ma” Baker, nomes com os quais o público americano mantinha uma relação ambivalente de medo e admiração.

Os grandes quadrilheiros dos anos 1930 realizavam assaltos a bancos – e bancos universalmente não contam lá com muita simpatia, ainda mais em um país ainda mergulhado em uma crise brutal de emprego e moradia. Por isso, muitos dos criminosos da época foram vistos como heróis populares, duplos de Robin Hood empunhando submetralhadoras “tommy guns” em vez de arco e flecha – ainda que nenhum deles fosse adepto de “roubar dos ricos para dar aos pobres”. Os criminosos da época também encarnavam, a seu modo, o próprio espírito empreendedor que construíra o capitalismo. Em uma época em que bancos tomavam casas e fazendas de produtores e cidadãos endividados, parecia a muitos justiça poética que sujeitos armados se organizassem para dar prejuízo aos bancos.

Os gângsters míticos dos anos 1930 foram também, no final do ano passado, tema de outro bom livro lançado recentemente no Brasil: Inimigos Públicos, de Bryan Burrough (Globo, 570 páginas, R$ 49,90). A obra, uma ampla e abrangente narrativa sobre a caçada aos criminosos – e que se baseia em arquivos do FBI só abertos a pesquisa depois dos anos 1980 – deu origem ao filme de mesmo nome dirigido por Michael Mann (e, suspeito eu, a razão para o lançamento do livro em português. Talvez ele não fosse prioridade editorial sem o filme). A diferença é que o livro Inimigos Públicos lança um olhar geral sobre os grandes bandidos do período, enquanto Mann optou por tornar protagonista o John Dillinger vivido pelo astro Johnny Depp, e toma, em nome da bela construção fílmica, algumas liberdades factuais. Na película, “Baby Face” Nelson morre antes de Dillinger, no famoso ataque do FBI em abril de 1934 ao quartel general do bando no Little Bohemia Lodge, uma pousada em Wisconsin. Na vida real, ambos escaparam – Baby Face matou um policial no tiroteio, e só morreria depois de Dillinger, em novembro daquele ano (Dillinger foi morto em julho).

Os papéis de Cortázar

28 de julho de 2010 3

Este post deveria ter ido ao ar mais cedo, mas me enrolei, desculpem. Como vocês podem ler aqui, publicamos hoje um texto sobre a chegada ao Brasil do livro Papéis Inesperados, obra que colige (palavra bonita, não?) material inédito de autoria do autor Julio Cortázar e encontrado pela viúva em uma cômoda no apartamento do casal, em Paris. O volume, de quase 500 páginas, reúne 11 contos novos, 13 poemas, fragmentos não aproveitados ou suprimidos de livros anteriores como O Livro de Manuel e Um Tal Lucas, um texto explicando o motivo de um dos capítulos de O Jogo da Amarelinha ter sido cortado e uma vasta quantidade de textos dispersos que incluem discursos, artigos publicados na imprensa, impressões e descrições de lugares e personagens, reflexões, exercícios de forma e quatro “autoentrevistas”.

Compartilho com vocês alguns trechos dessa rica miscelânea: um dos contos novos, um dos textos de Um tal Lucas e uma história de Cronópios não publicada na época do lançamento de Histórias de Cronópios e Famas:

Em Matilde

Às vezes as pessoas não entendem a forma como Matilde fala, mas para mim é muito clara.
– O escritório vem às nove – diz – e por isso às oito e meia meu apartamento sai e a escada me escorrega rápido porque com os problemas de transporte não é fácil que o escritório chegue a tempo. O ônibus, por exemplo, quase sempre o ar está vazio na esquina, a rua passa logo porque eu a ajudo puxando-a para trás com os sapatos; por isso o tempo não precisa me esperar, eu sempre chego primeiro. Afinal o café da manhã fica na fila para que o ônibus abra a boca, nota-se que gosta de nos saborear até o fim. É como no escritório, com essa língua quadrada que vai subindo os quitutes até o segundo e o terceiro andar.
– Ah – digo eu, sempre tão eloquente.
– Claro – Matilde –, os livros de contabilidade são o pior, quando percebo já saíram da gaveta, a caneta pula da minha mão e os números correm para ficar embaixo dela, por mais que eu escreva devagar estão sempre ali e a caneta nunca lhes escapa. Quero dizer que tudo isso me cansa bastante, de maneira que sempre acabo deixando que o elevador me pegue (e juro que não sou a única, muito pelo contrário), e vou correndo até a noite que às vezes está longe e não quer vir. Ainda bem que no bar da esquina sempre há algum sanduíche que quer pular na minha mão, isso me dá forças para não pensar que depois vou ser o sanduíche do ônibus. Quando a sala da minha casa termina de me embrulhar e a roupa vai para os cabides e gavetas abrindo espaço para o roupão de veludo que tanto deve ter me esperado, o coitado, descubro que o jantar está dizendo qualquer coisa ao meu marido que se deixou capturar pelo sofá e pelas notícias que saem do jornal como bandos de abutres. Em todo caso o arroz ou a carne já se adiantaram e é só deixar que entrem nas caçarolas, até que os pratos decidem apoderar-se de tudo mas isso dura pouco porque a comida sempre acaba subindo até as as nossas bocas que nesse meio-tempo se esvaziaram das palavras atraídas pelos ouvidos.
– É uma jornada e tanto – digo.
Matilde assente; é tão boa que o assentimento não tem a menor dificuldade em habitá-la, de ser feliz enquanto está em Matilde.

Lucas, suas experiências cabalísticas

Tudo lhe veio de um amigo que a cada dez palavras para em seco e estuda o que Lucas disse e começa a virar as palavras e as frases pelo avesso como se fossem luvas, ocupação repugnante para Lucas mas que jeito se o outro de repente tira coisas como coelhos da cartola. Quando não é anagrama, é palíndromo ou rima interna ou duplo sentido, afinal basta Lucas dizer bom-dia para o outro vir explicar e quando se dá conta é um vento levou em três tomos, melhor calar a boca e aceitar outro cafezinho e essas coisas.
O sujeito não perde uma, e conta a Lucas que as palavras para ele são apenas um começo, uma faceta de um poliedro vertiginoso, e quando Lucas tenta pará-lo com um dos seus sorrisos sarcásticos que sempre lhe valeram o horror dos convivas do café Rubi, seu amigo se vira e diz olha, o que eu posso fazer contra esses biombos que parecem tão pequenos aí na sala, você está olhando o biombo com seu desenho de arrozais e um camponês montado num búfalo, pensa que os biombos são as pálpebras das casas, essas imagens vistosas, e então a senhora Cinamomo vai até lá e o abre uma vez e duas vezes e depois três vezes, o biombo cresce e os arrozais diminuem porque agora há um rio, quem podia imaginar que nesse biombo havia um rio e de repente uma cidade com pessoas que vão e vêm, casinhas com gente tomando chá e gueixas que parecem borboletas a menos que sejam borboletas de quimono. Isto sempre me acontece com as palavras desde que eu era pirralho moleque guri petiz, niño (pode parar, interfere Lucas, já entendi que está se referindo à infância), mas isso não é nada, velho, as letras já me tiravam do sério, as siglas ou as iniciais, eu olhava para elas e boing, do outro lado, supersonicamente, coisas e coisa e coisas enquanto minha tia me beliscava e puta merda como lembro que ela dizia: Este menino deve ser idiota, no meio de uma palavra fica que nem um leso olhando pro mundo da lua. Minhas iniciais, sabe, um dia as escrevi no caderno de aritmética porque a professora queria ordem e progresso nos deveres, e quando vejo J.C., paf, o satori, vejo Jesus Cristo e acima (ou atrás, por respeito) Jean Cocteau. Parece que não é nada, mas são coisas que marcam, e para piorar quarenta anos depois estou em São Francisco, conversando com uma amiga entre duas viagens dessas que a moral repudia, e lhe conto isso e ela se cobre com o lençol porque sentiu uma espécie de calafrio e me pergunta se além das duas iniciais não tenho algum outro nome e lhe digo que sim, que me dá vergonha porque é horrível mas que além de Julio me chamo Florencio, e então ela solta uma dessas gargalhadas que acabam com todos os objetos da mesinha de cabeceira e me diz:
– Jesus Fucking Cristo!
É compreensível que, depois disso, Lucas aluda à Cabala com um pavoroso respeito.

Almoços

No restaurante dos cronópios acontecem essas coisas, a saber que um fama pede com grande concentração um bife com batata frita e fica danadodavida quando o cronópio garçom lhe pergunta quantas batatas fritas quer.
— Como, quantas? — vocifera o fama. — O senhor me traz batata frita e pronto, que droga!
É que aqui servimos em porções de sete, trinta e dois ou noventa e oito — explica o cronópio.
O fama reflete um pouco e o resultado da sua reflexão consiste em um dizer ao cronópio:
— Olhe, meu amigo, vá à merda.
Para imensa surpresa do fama, o cronópio obedece instantaneamente, isto é, desaparece como se o vento o tivesse bebido. É claro que o fama jamais chegará a saber onde fica a tal merda, e o cronópio provavelmente tampouco, mas em todo caso o almoço está longe de ser um sucesso.

Por dentro dos aforismos

27 de julho de 2010 3

Compartilho com vocês trechos de duas recentes coletâneas de aforismos, aquelas reflexões breves, pensamentos judiciosos, afirmativos, normalmente encerrando um preceito moral, intelectual ou ideológico. O aforismo foi um gênero que teve entre seus adeptos grandes mentes do pensamento europeu, como Voltaire, La Rochefoucauld, Schopenhauer e Nietzsche – que, inclusive, se refugiou neles à medida que o agravamento de problemas de visão começou a representar problemas para seus textos mais longos. Durante a era dos grandes salões, a composição de aforismos era uma das distrações a que se entregavam os convidados – a realização de “torneios de aforismos” nas reuniões vesperais nas casas da corte ilustrada era bastante comum, com cada convidado compondo um número lá qualquer de aforismos e o grupo escolhendo o melhor.

(Parêntese número um: e tem gente que ainda sente saudade de um tempo sem internet.)

(Parêntese número dois: não deixa de ser a prova de que o twitter, se não existia, ao menos já pairava no ar como ideia há muito tempo).

Coincidentemente, duas editoras do Rio Grande do Sul estão colocando ao mesmo tempo nas livrarias dois livros de aforismos. O primeiro é Manual do Líder, de Napoleão Bonaparte (1769 – 1821), aquele mesmo, o nanico mezzo francês mezzo italiano que mudou a história com suas conquistas e suas derrotas. Bonaparte foi um leitor entusiasmado de Maquiavel, a quem estudou em profundidade (a primeira vez que li O Príncipe, aos 17 anos, foi em um volume emprestado de um amigo do meu pai, e a edição trazia justamente comentários retirados do exemplar pessoal anotado de Napoleão. Alguém lembra que edição era essa? Ah, sim, e a propósito disso: O Príncipe também está sendo reeditado no selo Penguin da Companhia, mas isso é tema para outro post). E essa presença do Príncipe de Maquiavel – bem como do Breviário dos Políticos, do Cardeal Mazzarino, por sua vez modelo para o primeiro – é visível nos escritos coletados em livro pelo historiador Jules Bertaut (1877 – 1959) e reunidos no volume agora lançado pela L&PM com tradução de Júlia da Rosa Simões.

A segunda coletânea é mais singelamente chamada de Aforismos, de autoria do satirista e poeta austríaco Karl Kraus (1874 – 1936). A edição da Arquipélago Editorial é na verdade a reunião em livro de aforismos selecionados nas três coletâneas publicadas por Kraus em vida: Ditos e Contraditos (1909), Pro Domo et Mundo (1912) e De Noite (1919). A seleção e a tradução foram feitas por Renato Zwick, também tradutor de Rilke, Thomas Mann e das novas traduções de Freud lançadas pela L&PM. Bonaparte oferece reflexões sobre a política como prática e, em certa medida, um roteiro de formação de um líder como ele próprio (algo que, já adivinho, nas mãos erradas vai acabar virando apostila recomendada em MBA, oh horror…). Já Kraus tem espaço em seus aforismos para reflexões que mergulham com um olhar crítico sobre a política, as visões de mundo de seu tempo e a arte e o papel do artista. Ambos, entretanto, boa leitura, como vocês podem ver na breve seleção abaixo:

Napoleão (Manual do Líder):

Amo o poder, mas é como artista que o amo. Amo-o com um músico ama seu violino para dele tirar sons, acordes e harmonias.”

Só existem duas forças no mundo: a espada e o espírito. Entendo por espírito as instituições civis e religiosas… A longo prazo, a espada sempre é vencida pelo espírito.”

Há casos em que perder homens representa uma economia de sangue.”

Não deve haver aliança entre o Banco e o Tesouro. Muitas vezes uma simples movimentação de fundos pode levar consigo um segredo do Estado.

Uma revolução é uma opinião que encontra baionetas.

Os homens são como os números: só adquirem valor por sua posição

Um general deve ser charlatão“.

Que homem não gostaria de ser apunhalado desde que tivesse sido César? Um pálido clarão de sua glória compensaria amplamente uma morte prematura“.

A coragem não pode ser simulada: é uma virtude que escapa à hipocrisia“.

E esta, que bem poderia ter sido usada por Dunga depois do jogo contra a Holanda:
Em Waterloo, tudo deu errado apenas depois de tudo ter dado certo.”

Karl Kraus (Aforismos):

A solidão seria um estado ideal se pudéssemos escolher que pessoas evitar.

O mundo é uma prisão em que é preferível a solitária

Mesmo um homem decente, desde que isso nunca seja descoberto, pode conseguir um nome respeitado hoje em dia“.

Como? A humanidade se imbeciliza em favor do progresso maquinal e nem sequer deveríamos fazer uso dele? Deveríamos manter diálogos com a estupidez quando podemos escapar dela num automóvel?”

A democracia divide os homens em trabalhadores e preguiçosos. Ela não está preparada para aqueles que não têm tempo para trabalhar“.

O segredo do agitador consiste em parecer tão idiota quanto seus ouvintes, de modo que eles acreditem ser tão inteligentes como ele.”

Quando o pecado se atreve a avançar, ele é proibido pela polícia. Quando se esconde, recebe um alvará.

Só é artista aquele que da solução pode fazer um enigma.

Ainda não tentei, mas acho que para ler um romance eu precisaria primeiro me encorajar e então fechar bem os olhos.”

O progresso celebra vitórias de Pirro contra a natureza.”

Lygia F. por Caio F.

22 de julho de 2010 5

No ano passado, a Companhia das Letras começou a republicar a obra integral de Lygia Fagundes Telles, com o relançamento do romance As Meninas e dos volumes de contos Invenção e Memória e o clássico Antes do Baile Verde. Pouco tempo depois, já estava também nas livrarias A Noite Escura e Mais Eu, livro originalmente de 1995 que empresta seu título de um par de versos de Cecília Meireles (“Ninguém abra a sua porta/ pra ver o que aconteceu:/ saímos de braço dado/ a noite escura e mais eu”). Na época saudamos a chegada das novas edições, com algumas correções feitas pela própria autora (ela mesma admitiu, contudo, só ter feito alterações realmente significativas em Invenção e Memória).

Mas, como A Noite Escura e Mais Eu em particular está fazendo 15 anos (e eu comprei quando saiu da primeira vez… Ó velhice atroz), achei interessante puxar dos arquivos de ZH uma resenha de A Noite Escura e Mais Eu escrita por um admirador confesso e apaixonado de Lygia, o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu. O texto foi publicado em Zero Hora, no Segundo Caderno, página 6, no dia de reis (6/1) do ano de 1996 – e curiosamente o livro marcava a volta de Lygia, dizia Caio, no texto, depois de seis anos. Essa sequência toda de seis talvez entusiasmasse o próprio Caio F., que era chegado em horóscopos e esoterismos, a uma interpretação numerológica, mas pra mim parece só uma coincidência curiosa, embora irrelevante. Considerei relevante mesmo a oportunidade de recuperar o texto do Caio sobre Lygia, sua madrinha, que emprestou seu nome e aval para garantir a publicação do primeiro livro de Caio, Inventário do (Ir)remediável, em 1970, obra que não encontrava editor. Com vocês, então, Lygia F. por Caio F:

A Primeira Dama da Literatura
Depois de seis anos sem publicar, Lygia Fagundes Telles lança a coletânea de contos “A Noite Escura e Mais Eu”
CAIO FERNANDO ABREU

Ela ficou mas a gota de sangue que pingou na minha luva, a gota de sangue veio comigo” – assim começa a coletânea de nove contos inéditos A Noite Escura e Mais Eu, de Lygia Fagundes Telles, na primeira frase de Dolly. E termina, na última frase de Anão de Jardim, história que encerra o livro: “Seja feita a Vossa vontade e (…) então aceito também ser a estrela menor da grande cauda levantada no infinito no infinito deste céu de outubro”. Como dentro de um parêntese, todo o universo de Lygia concentra-se entre essas duas frases, o sangue inevitável das dores da condição humana e a talvez redentora aceitação não só do Divino, mas também da insignificância e humildade que essa condição impõe. A repetição da palavra “infinito” acentua a idéia de eterno retorno, e a referência ao “céu de outu/bro” remete à primavera e ao renascimento de tudo. Ou seja: o sangue pode ser transmutado, alquimicamente, em luz. Ou pelo menos em ótima literatura.

Sem publicar há seis anos, desde o excelente romance As Horas Nuas - uma espécie de turning point na obra da autora, como A Hora da Estrela na obra de Clarice Lispector - A Noite Escura e Mais Eu, (belo título, de um poema de Cecília Meireles usado na epígrafe) entre todos os livros de contos de Lygia talvez seja a sua obra-prima. Pela unidade, pela densidade, pela extraordinária dignidade que confere à língua portuguesa, mesmo quando trata de temas ou situações sórdidas, perversas, violentas. Ler Lygia Fagundes Telles, para quem é dado a esses requintes, traz o prazer da descoberta da beleza, sonoridade e expressividade da nossa língua. Não que seja uma estilista afetada, retórica e vazia, como às vezes costuma ser a “literatura feminina” (vide as Patrícia Bins da vida…), e isso por uma razão muito simples: Lygia é basicamente uma contadora de histórias, no melhor e mais vasto significado da expressão. Histórias encantatórias, como as de As Mil e Uma Noites, ou as das babás e tias de antigamente.

Acontece que estas histórias, como observou José Paulo Paes recentemente em O Estado de São Paulo, não se esgotam no enredo. Terminadas de ler pela primeira vez, deixam a vontade de reler uma segunda ou terceira, por suas inúmeras camadas de significados e pela carga de mistério sempre deixada no ar. Às vezes, todo um conflito revela-se numa frase aparentemente perdida no meio do texto, num detalhe. Assim é, por exemplo, em Dolly (que espécie de relação houve entre a narradora e a ousada Dolly do título?); na perfeição de Você não Acha que Esfriou? (por que tanta crueldade no comportamento de Kori com o amante?) ou na ousadia do tema lésbisco de Uma Branca Sombra Pálida (foi a mãe narradora da história ou a suposta amante Gina a propulsora do suicídio de Oriana?). Reler nem sempre é esclarecer, e esclarecer nem sempre é necessário. Afinal, um equívoco pode durar uma vida inteira – como no extraordinário Papoulas sobre Feltro Negro, em que admiração e respeito à sensibilidade do outro são confundidos com ódio e desprezo. Mas seria isso mesmo? No final, a velha professora Elzira evita de todas as maneiras o olhar da ex-aluna. A verdade é ambígua e escapa o tempo todo, parece dizer Lygia nas entrelinhas de tudo que escreve, centrado nesse conflito para sempre irresolvido entre mucos, ódios, nojos da matéria orgânica desprezível e a possibilidade do espírito. Maior riqueza seria impossível num escritor, suspenso sobre o abismo do fio esticado das palavras, também elas ambíguas.

Com A Noite Escura e Mais Eu, Lygia Fagundes Telles encerra um ano farto para a literatura brasileira, ao lado do belíssimo Quase Memória, de Carlos Heitor Cony; de O Buraco na Parede, de Rubem Fonseca; de revelações surpreendentes, como Alberto Guzik no corajoso Risco de Vida ou a confirmação de talentos como Patrícia Mello (O Matador) e Bernardo Carvalho (Onze). E continua a ser, como a elegeu há anos Hélio Pólvora, a imbatível Primeira Dama da Literatura Brasileira, embora ela mesma não se importe com tais epítetos. Importa-se, sim, com o texto e a capacidade deste ajudar a desvendar mais camadas do enigma atávico da condição humana.

O amor como um acidente

21 de julho de 2010 2

Sabe-se que em literatura o mote não passa justamente disso, um ponto de partida em redor do qual os grandes e os não tão grandes ficcionistas tecerão suas teias narrativas. Portanto dizer que O Acidente, romance Ismail Kadaré que está saindo agora no Brasil, começa com um desastre de automóvel é pouco. É na condução do livro que Kadaré torna seu o mote – e, o que mais surpreendente para quem é familiarizado com suas obras desesperançadas, como O General do Exército Morto ou Abril Despedaçado: tece uma história de amor, ainda que amarga.

À primeira vista o título não poderia ser mais explícito: o “acidente” está descrito já na primeira cena: um táxi sai da pista em uma autoestrada de Viena, a caminho do aeroporto. O casal de passageiros que viajava no banco de trás não sobrevive. Ele, um sérvio chamado Bessford Y. Ela, uma albanesa de nome Rovena St. E o que provoca o acidente é uma cena perturbadora que o taxista, único sobrevivente, relata em seu depoimento: ao olhar pelo retrovisor, o homem perde a concentração, chocado porque os dois “tentaram se beijar”.

Há um quê de absurdo nesse mote, um absurdo reconhecido pelo desenrolar do romance, composto de cartas, fragmentos de diários, relatórios e de uma narrativa descarnada, clínica, que passeia pelos eventos como se mirasse perplexa. O acidente, depois de investigado de modo quase protocolar pelas autoridades policiais, passa a ser alvo de interesse minucioso dos serviços secretos de Albânia e Sérvia. Depoimentos são retomados, testemunhas são outra vez ouvidas, correspondências são analisadas, tudo para esmiuçar a natureza da relação que unia Rovena, bela jovem suspeita de prostituição, ao misterioso e violento Bessford, cujas associações políticas na Sérvia o colocam sob suspeita e atiçam o interesse pelos seus passos durante a já longínqua Guerra dos Bálcãs, nos anos 1990.

Embora o resumo algo empobrecedor da trama a aparente com um romance de mistério, não é um enigma policial o que Kadaré constrói em O Acidente. O caso passa pela mão de sucessivos investigadores e serviços, mas sempre termina em uma desconcertante encruzilhada — algo representado até mesmo na inicial do sobrenome de Bressford: Y. É um mistério o que unia os dois personagens, ela, “bela e branca”, tratada como acompanhante pelo sombrio homem com quem mantém encontros clandestinos por “cerca de quinhentas semanas”, de acordo com o que apuram as inúteis investigações.

É no alinhavar dos diferentes elementos tão característicos de sua prosa que Kadaré transforma o mote inusitado em um romance plenamente seu: estão lá a paranoia da autoridade, os movimentos clandestinos de toda uma rede repressiva destinada a manter o controle das individualidades e até mesmo o brutal pessimismo (a ninguém passará despercebida a circunstância de que o romance inteiro é a arqueologia de uma história de amor, e não a própria história, e só começa no momento em que a relação dos dois protagonistas termina em tragédia). Mas mesmo nesse pessimismo reside uma triste redenção: a da impermeabilidade do sentido mais íntimo da história de amor dos dois personagens, ilesa às maquinações da estrutura de vigilância — ao ponto de o leitor se perguntar, continuamente, se o título enganosamente simples O Acidente se refere ao desastre da primeira cena ou ao encontro dos amantes.

Noll e o Inconsciente

20 de julho de 2010 4

Já não era tempo de varrer as penas para longe? Peguei minha mala e pensei que seria acolhido por meu pai. E fui em frente.
Enxerguei um homem moreno de bigode farto feito mexicano e me perguntei se não era ele o meu pai. O homem me sorriu e sorri para ele. Precisaria urgentemente dissolver aquele impasse. Era ou não?
Não era. Abaixei o olhar e falei baixinho: o próximo a me olhar será ele, meu pai, e a história vai recomeçar daqui. Olhei em volta e vi. Não foi todo o pai que avistei primeiro.
Foi o sinal na face que eu herdara dele. Depois averiguei outros detalhes do homem que inseminara minha mãe para que eu estivesse aqui no Aeroporto do Galeão, agora.
Sorri. ELe também, de um jeito a revelar a falta de hábito em abrir os lábios. O que mais haveríamos de fazer fora do sorriso meio forçado?
Eu tinha abandonado minha mãe para vir ao encontro daquele homem que a inseminara com a intenção de me fazer brotar nove meses depois…
Nesse ponto da comédia, eu chegava da Europa, ciente de que teria de fazer a minha história se confluir com a dele, a de um homem quarentão, sem nenhum caso com alguma mulher depois de minha mãe.
Nos abraçamos. Ele me beijou no lado esquerdo. Nos afastamos um pouco, para um avaliar o outro depois de tanto tempo. Ele repetiu o abraço, ao se lembrar do meu aniversário.
Eu era um filho aos olhos do pai. Adivinhava que se mostrava assim solto por ser um dia em que eu era a novidade.

O trecho acima é de Anjo das Ondas (Scipione, 124 páginas, R$ 31,90), novo romance que João Gilberto Noll está lançando e que autografou na segunda-feira, em Porto Alegre. Um romance no qual Noll retorna ao homem desenraizado e solitário que é personagem de quase toda sua literatura romanesca, com a diferença de que o livro o flagra em um momento em que ele ainda não é um homem, e sim um adolescente, o herói perdido ainda em formação, mas com a fome característica em gestação, uma criatura sem rosto presa em uma busca que é também a do autor no domínio da forma. Anjo das Ondas começou, em sua origem, como uma narrativa voltada para adolescentes, a exemplo do recente díptico Sou Eu! e O Nervo da Noite, lançados em janeiro deste ano pela mesma Scipione que agora publica o novo romance. Mas o livro tomou outro rumo, mais afeito ao trabalho regular de Noll, a prosa se alongou (os dois livros anteriores eram praticamente contos um pouco mais extensos) e Gustavo, o protagonista, tornou-se o herói com as mesmas inquietações de solidão e dissolução que os protagonistas melancólicos de romances como Rastros do Verão, Harmada ou Lorde – para pegar exemplos de três momentos da carreira do escritor.

A idade é mesmo a principal diferença do protagonista de Anjo das Ondas, um jovem que oscila entre dois mundos, não apenas o dos adultos e o da infância, mas aos mundos físicos em que habitam seus pais separados: o pai, escritor no Rio, a mãe, professora em Londres. Gustavo não chega a ter traumas dessa cisão. Pelo contrário, às vezes é ele quem, se pudesse, gostaria de se apartar tanto de um quanto de outro. Vai abaixo a íntegra da entrevista que fiz com João GIlberto Noll e que foi publicada na segunda-feira com a matéria que anunciava a sessão de autógrafos. Como a entrevista foi curtinha, não foi necessário editar demais, mas acho válida ainda assim a publicação integral:

Zero Hora – Anjo das Ondas tem, a exemplo de seus dois livros anteriores, um protagonista adolescente. É outra incursão na literatura infanto-juvenil?
João Gilberto Noll –
Meus dois livros anteiores eram. Este não. No começo até seria, mas comecei a escrever e senti que estava fazendo um livro sem considerações de qualquer faixa etária. Eu sou um escritor de linguagem, o que me move é a linguagem como estruturante do conteúdo e da narrativa: o som, o andamento, o ritmo, é muito como na poesia. E quanto a isso não há tanta diferença neste livro, no qual a tensão libidinal também está presente. E o personagem é o mesmo protagonista de meus outros livros, só que na adolescência. Ele tem o mesmo tipo de demanda, o mesmo apelo difuso da realidade.

ZH – É um livro no qual o senhor também centra a narrativa na imaginação do personagem, descrita em muitas passagens até como uma tendência a tomar o mundo real pelos seus devaneios. É seu romance sobe a imaginação?
Noll –
Mas essa também é uma característica dos meus livros, essa tendência ao mundo de dentro ser mais dilatado do que o de fora. Isso é típico de meus personagens. Agora, é verdade que neste livro esse aspecto é bastante radicalizado.´Acho que é outro mote juvenil, e que fez desse o meu livro mais apolíneo, menos dionisíaco. Mesmo essa necessidade descabelada de amor, de fusão com o outro do protagonista, é colocada de uma forma delicada, pouco desesperada. É um personagem ainda preso à vida em família, ele  não pode espernear o seu Id o tempo todo diante de pai, mãe, avó, tio. A avó para ele é um ponto de segurança, ele gosta muito dessa avó que representa para ele um despertar para uma série de coisas. Mas ele ainda tem fome de afeto, de contato, a ponto de a determinado momento ele se imaginar irmão daquele outro adolescente que ele encontra. Ao mesmo tempo ele sente necessidade de fugir da domesticidade, esse é outro ponto em comum com tudo o que já escrevi. O personagem sente a necessidade de aventura, mas não sabe muito bem que aventura é essa, não sabe o que fazer com essa ânsia. E a minha literatura é também uma literatura de aventura, porque eu nunca sei onde vai dar quando começo um livro, eu preciso de um certo caos. Não sou como escritores que conseguem ter um plano detalhado, o Erico Verissimo, por exemplo, eu não conseguiria fazer assim.

ZH – Em visita ao Brasil semana passada, o poeta Cristian de Nápoli comentou que seus livros têm sido muito bem recebidos pela crítica em Buenos Aires. O que, em sua opinião, os argentinos estão descobrindo em sua prosa?
Noll —
A receptividade a meus livros no mundo hispânico tem sido realmente muito acentuada. Os livros argentinos circulam muito, então têm sido lido em outros países de língua espanhola. Acho que o que eles estão percebendo nos meus livros é a questão da linguagem, a questão de ter uma literatura do inconsciente, pois como dizia o Lacan, o inconsciente é uma linguagem, e eu sou um autor do inconsciente.

Nosso Hermano em Buenos Aires

17 de julho de 2010 1

Cristian de Nápoli (com o microfone), entre Angélica Freitas (na extrema esquerda), Antônio Xerxenesky. Telma Scherer e este seu blogueiro (na extrema direita) – Foto de Adriana Franciosi

Esta entrevista está sendo reproduzida aqui no Mundo Livro, emborta tenha sido publicada também hoje na página 3 do caderno de Cultura do jornal impresso e em sua versão eletrônica, por dois motivos. O primeiro é o de sempre: a entrevista precisou ser editada para o jornal, então aproveitei para colocar a íntegra por aqui – nem foi uma edição tão drástica, cortou-se duas perguntas inteiras e fez-se uns ajustes de edição para tornar uma resposta falada mais adequada à linguagem escrita (ao falar, e isso vale para qualquer um de nós, repetimos uma ideia para reforçá-la, deixamos um subentendido completar uma frase em vez das palavras, etc).

O segundo motivo é que infelizmente a versão impressa do caderno Cultura circulou com uma foto do escritor Antônio Xerxenesky como sendo Cristian de Nápoli. O jornal vai apurar a origem do erro e, claro, publicar uma correção. Vai a entrevista:

Os primeiros contatos do bonairense Cristian de Nápoli, 38 anos, com a poesia em português foram por meio da música brasileira. Dali, derivou para Guimarães Rosa e Clarice Lispector, até se tornar, hoje, um dos principais divulgadores da literatura brasileira na Argentina. Poeta, autor de coletâneas de poemas como Limite Bailable e Los Animales, De Nápoli traduziu e editou em seu país a antologia de poesia contemporânea Cuatro Cuartetos, com obras de quatro poetas brasileiros: Joca Reiners Terron, Angélica Freitas, Ricardo Domeneck e Elisa Andrade Buzzo. Também foi o responsável pela antologia de prosa Terriblemente Felices – Nueva Narrativa Brasileña, reunindo autores brasileiros. De Nápoli esteve em Porto Alegre na quarta-feira para participar de um encontro na Livraria Palavraria sobre seu trabalho de divulgador e a nova ficção brasileira (Vocês podem ver mais sobre esse evento em particular no blog da própria Palavraria, neste link). Lá, concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora:

Zero Hora – Como está o mercado editorial na Argentina no período pós-crise?
Cristian de Nápoli
– Com a crise, algumas das editoras tradicionais da Argentina foram vendidas para empresas maiores da Espanha. Outras sumiram. Por volta de 2004 começaram a aparecer novas editoras, pequenas mesmo. Algumas artesanais, outras industrais, mas que só conseguem fazer uns 10 livros por ano. Há pelo menos umas cem editoras pequenas, o que torna também bastante difícil avaliar a qualidade do material. O caso mais emblemático da década é o da Eloisa Cartonera, uma editora que começou em 2003 a lançar livros muito baratos, com papel barato, capa de papelão reutilizado, que eram vendidos a cinco pesos, muito barato.

ZH – Essa experiência gerou outra similar aqui no Brasil, não? A editora Dulcinéia Papeleira, que também publica livros com papelão
De Nápoli –
Sim, eu participei da criação da Dulcineia Papeleira, quando fomos convidados para passar três meses em São Paulo e participar da Bienal de Artes Plásticas, oferecendo os livros da Eloisa Cartonera como objetos artísticos – o que eles de fato são. Ajudei à capitã do projeto da Dulcinéia com algumas traduções, hoje é um lindo projeto, e há várias editoras no mundo publicando livros de papelão. Até na França.

ZH – Em visita ao Brasil em 2007, o argentino Martín Kohan comentou que o fato de as editoras tradicionais argentinas terem ido para o controle de empresas espanholas gerava uma situação esquizofrênica: livros argentinos editados na Espanha e só depois importados para a Argentina. Com a criação de tantas pequenas editoras, essa situação mudou de alguma forma?
De Nápoli
– No caso específico do Martín Kohan, por exemplo, ele continua a publicar na Espanha, na Anagrama, uma editora que tem muitos autores argentinos e boa distribuição. O livro de ficção mais comentado na Argentina no ano passado foi Los Topos, de um cara chamado Félix Bruzzone, filho de desaparecidos políticos. Ele publicou por uma editora que ninguém conhece, chamada Tamarisco, que só consegue fazer uns três livros por ano. E foi sucesso. Então, tem esses casos. Principalmente os autores jovens, digamos abaixo dos 40 anos, em geral estão editando por editoras pequenas e tendo um sucesso relativo, às vezes considerável.

ZH – Aqui no Brasil, vê-se também uma proliferação de pequenas editoras, pelas quais os autores iniciantes também estão publicando, mas elas enfrentam problemas de distribuição. Como é esse quadro na Argentina?
De Nápoli –
Temos uma desvantagem: a produção editorial se concentra quase toda em Buenos Aires. Não há o que vocês têm aqui no Brasil, diferentes eixos no mesmo país. O que se lê em Buenos Aires é quase o mesmo que se lê no resto do país, é uma coisa histórica. Por outro lado, temos essa vantagem de um grande número de editoras pequenas com espaço nas livrarias.

ZH – Quais autores brasileiros você traduziu em Buenos Aires, e como chegou até eles?
De Nápoli
– Comecei a fazer minhas primeiras traduções do português para a Eloisa Cartonera, com escritores como Glauco Mattoso e Jorge Mautner, sempre me concentrando em autores não traduzidos por lá. Em 2008 consegui editar um livro chamado Terriblemente Felices, com 15 autores brasileiros contemporâneos, nascidos depois de 1940. Tem dois contos de cada autor, essa era uma ideia minha e consegui convencer os editores, porque sabia que eram autores que talvez demorassem muito tempo a ter outra tradução. Estão lá Sérgio Sant’Anna, João Gilberto Noll, Cíntia Moscovich, Márcia Denser. Até alguns mais novos, como o baiano João Filho, Marcelino Freire, Marçal Aquino – que dá nome ao projeto, tirado do livro dele Famílias Terrivelmente Felizes.

ZH – Nos últimos anos temos visto uma nova onda de lançamentos de autores argentinos aqui no Brasil e de brasileiros por lá, um contato que havia sido interrompido. A que você atribui esse fosso?
De Nápoli –
Realmente, para toda uma geração que publicou ali por 1970, 1980, o contato se perdeu. Uma exceção foi Rubem Fonseca, que é muito lido e traduzido. Dalton Trevisan também, mas ao todo eram apenas uns três ou quatro nomes. Quem escreveu ali pelos anos 1980 perdeu esse contato, o que não deixa de ser engraçado, porque é nos 1980 que começa o Mercosul, com o encontro entre Sarney e Alfonsín. Mas apesar das tratativas do Mercosul, as relações culturais ainda não geravam frutos. Agora a situação é diferente, até pelo ânimo político do Lula e da Cristina [Kisrchner]. Não se pode, claro, dizer que eles têm uma política conjunta de cultura, ninguém se ilude a tal ponto, mas há uma disposição para o diálogo e as iniciativas estão se proliferando, no cinema, na literatura. No cinema, por exemplo, será feito lá na Argentina um filme adaptando o romance Cordilheira, do gaúcho Daniel Galera. Acho que será bem interessante.

Zamyátin e Nós

16 de julho de 2010 3

Este post vai aqui publicado depois de comentário feito pelo leitor Yuri Alhnati no post sobre O Mestre e Margarina, podem conferir ali embaixo. Vamos ver, primeiro, se vocês matam de que livro estamos falando:

1) Sociedade rigidamente controlada por um estado totalitário que impõe a seus cidadãos uma vida despersonalizada e mantém a todos em vigilância constante.
2) O cenário é um mundo no qual noções básicas da civilização ocidental, como liberdade e individualidade, são banidas e consideradas não apenas inconvenientes mas infamantes.
3) O protagonista é um funcionário técnico inicialmente alienado que, no meio dessa hierarquia desumana, encontra e se apaixona por uma mulher cujo amor será redenção e ruína ao mesmo tempo
4) A narrativa é dominada pela sombra de uma figura sinistra que oprime o povo enquanto exige ser chamado por um epíteto queridinho.

É 1984, de George Orwell?

Não, o palpite é bom, mas não é.

As frases acima foram escolhidas conscientemente para alimentar a confusão. Elas servem para definir elementos de 1984, mas foram colocadas ali com o intuito de sublinhar a dívida que o clássico de Orwell (e, por tabela, praticamente tudo o que se derivou dele, como sua adaptação cinematográfica, ou Brazil, de Terry Gilliam,  ou uma dezena de séries de TV que vão de Logan’s Run a Aeon Flux, por exemplo) tem com um precursor menos conhecido da literatura de ficção científica, o romance Nós, do russo Yevgeny Zamyátin, o cidadão da pintura ali de cima (um retrato feito por Bóris Kustodiev). O livro foi concluído em 1921 – mais de duas décadas antes de 1984, que é de 1948.

Narrado em primeira pessoa em uma prosa que vai gradualmente do patético iludido para o desencanto, Nós é contado por D-503, um engenheiro que vive em um mundo futurista no qual a liberdade foi abolida, a mecânica e a matemática regem a ideologia e as pessoas, chamadas “cifras” ou “números”, têm nomes que mais parecem identificações de série. Controlando tudo, está uma figura sinistra que auto-intitula O Benfeitor, que forjou o UnEstado que domina aquele mundo remanescente de uma guerra de séculos. Funcionário do departamento responsável pela criação de um foguete destinado às estrelas, D-503 vai conhecer I-330, uma enigmática mulher parte de uma célula de resistência. E só aí perceberá o quanto o véu da alienação em que vivia, parte imposição do Estado e parte seu próprio conformismo, escondia as imperfeições daquele mundo que deveria ser de pura ordem. Como vocês vêem, quem leu 1984 ou mesmo viu o filme achou a trama de Nós bem mais do que vagamente familiar.

Zamyátin viveu de 1884 a 1937 e era um satirista. Seus livros eram visões humorísticas de seu tempo, que lhe granjearam uma reputação razoável no final dos anos 1910. Sim, esse é o primeiro choque de quem lê o livro: o modelo para o sombrio 1984 é um livro irônico, eivado de humor e poesia. Lançado menos de uma década depois do triunfo dos bolcheviques, Nós só poderia ter o destino que teve: foi banido. Aliado de primeira hora dos bolcheviques mas radicalmente contra a censura exercida por eles, Zamyátin logo caiu em desgraça e foi proibido de publicar não só esse como qualquer livro futuro. Devido a essa contingência, Nós, contrabandeado pela mulher do escritor para o exterior, foi levado para um amigo em Londres e veio a ser publicado primeiro em inglês, depois em francês e, finalmente, anos depois, em russo – numa tradução que, sem os originais, precisou se valer de uma segunda tradução da edição original inglesa (complicado, não?). Nós circulou bastante na Inglaterra, e era conhecido por Orwell quando este começou a escrever sua própria distopia. Zamyátin conseguiu escapar do horror soviético por interferência de Górki, que conseguiu a permissão de Stálin para que ele fosse viver no exílio, em Paris, onde morreu na pobreza.

Nós teria também inspirado o Admirável Mundo Novo, de Huxley, mas nesse caso Huxley não só nunca confirmou como sempre negou a influência. E no jogo eterno das inspirações literárias, é provável que o próprio Nós tenha resultado da leitura de Zamyátin do conto The New Utopia, de Jerome K. Jerome, publicado no fim do século 19 e que apresenta uma visão de mundo parecida satirizando o comunismo: o plano de uma Londres em que todo mundo se veste igual, com uniformes cinzas e com o cabelo curto e pintado de preto, cercada por um muro e no qual o amor individual é perigoso para o avanço da utopia estatal totalitária.

Fiquei sabendo da existência desse livro em um artigo publicado por Sérgio Augusto nos longínquos anos 1990 na revista Caros Amigos. Passei anos procurando alguma edição em português, sem sucesso – se houve alguma tradução, era tão antiga que havia sumido do mapa há muito tempo. Precisei então, pedir a uma conhecida que na época morava em Londres que comprasse a edição da Penguin Books para mim (e a capa é exatamente esta que ilustra este post). desde então já li e reli esse livro um bom par de vezes. Dada a trajetória tumultuada do romance, e o fato de que sua primeira edição na verdade foi a tradução em inglês, não chego a considerar uma heresia traduzir o livro da versão em inglês, e por isso, como uma palhinha aos fiéis leitores do Mundo Livro, deixo uma tradução exclusiva do primeiro capítulo (se alguma editora aí fora se interessou em editar o livro, pense em mim com carinho para traduzí-lo, por favor):.

Registro 1

Proclamação

As Mais Sábias Linhas

Um Poema Épico

Eu estou tão-somente copiando aqui, palavra por palavra, o que foi impresso hoje na Gazeta Estatal:

Daqui a 120 dias, a construção do INTEGRAL será finalizada. Aproxima-se a grande, a histórica hora em que o primeiro INTEGRAL será lançado ao espaço. Mil anos atrás, nossos heróicos ancestrais subjugaram o planeta inteiro ao poder do UnEstado. Cabe a vocês executar uma tarefa ainda mais gloriosa: finalizar, por meio do vidro, da eletricidade, do hálito de fogo do INTEGRAL, a indefinida equação do universo. Cabe a vocês colocar o benéfico jugo da razão ao redor dos pescoços dos seres desconhecidos que habitam outros planetas – e que ainda vivem, provavelmente, no estado primitivo conhecido como liberdade. Se não entenderem que estamos levando a eles uma felicidade matematicamente infalível, seremos obrigados a forçá-los a ser felizes. Mas antes de pegar em armas, devemos verificar o que as palavras podem fazer.
Em nome do Benfeitor, todos os Números do UnEstado, por meio deste, estejam informados do que segue:
Todos os que se sentirem capazes de fazê-lo são solicitados a compor tratados, poemas épicos, manifestos, odes, ou outras composições a respeito da beleza e da grandeza do UnEstado.
Esta será a primeira carga transportada pelo INTEGRAL
Vida longa ao UnEstado! Vida longa aos Números! Vida Longa ao Benfeitor!

Enquanto escrevo sinto as faces arderem. Sim: determinar completamente a integral da colossal equação do universo. Sim: desdobrar a parábola selvagem, planificá-la tangencialmente, aplainá-la em uma linha sem desvios. Porque a linha do UnEstado é uma linha reta. A grande, divina, precisa, sábia linha reta – a mais sábia de todas as linhas.
Eu, D-503, construtor do INTEGRAL, sou apenas um dos matemáticos do UnEstado. Minha caneta, acostumada a gráficos, é débil para criar a música da assonância e da rima. Devo tentar anotar – nada mais – o que eu vejo, o que eu penso – ou, para ser mais exato, o que nós pensamos (o que é o correto: nós, e que este NÓS seja o título destes registros). Mas isto, seguramente, derivará de nossas vidas, da vida matematicamente perfeita do UnEstado, e, se é assim, não será, de acordo com nossos parâmetros, não importa o que eu pense, um épico? Será; eu acredito e eu sei que será.
Sinto minhas faces arderem enquanto escrevo. Esta é provavelmente a sensação que tem uma mulher quando sente pela primeira vez em si o pulso de uma nova pessoinha, ainda minúscula e cega. Sou eu, e ao mesmo tempo não sou eu. E pelos longos meses seguintes ela terá de nutri-la com sua própria essência, seu próprio sangue, e então… tirá-la dolorosamente de si e deposita-lá ao pé do UnEstado.

Mas eu estou pronto. Como todos nós, ou quase. Eu estou pronto.

Na Companhia de Fantasmas

15 de julho de 2010 2

Lápides, mausoléus e fantasmas não são o cenário ideal do playground para um garotinho crescer. A menos que essa criança sinta-se mais segura entre os mortos do que em companhia dos vivos e seja personagem de uma trama de Neil Gaiman, um dos mais celebrados autores de fantasia contemporâneos. Em O Livro do Cemitério, o autor de Coraline volta a investir no público infanto- juvenil, apresentando uma trama sombria, mas repleta de emoção.

Com ilustrações de Dave McKean (acima), companheiro de trabalho de Gaiman desde os anos 1980, quando ambos se projetaram com a cultuada série de quadrinhos Sandman, o livro narra a história de um bebê de pouco menos de dois anos que teve os pais e o irmão mais velho cruelmente assassinados. Ao fugir do criminoso, o menino encontra abrigo em um velho cemitério nas cercanias de sua casa, em uma cidadezinha no interior da Inglaterra.

Em seu refúgio, o garotinho descobre que não só tem o dom de enxergar, mas também de conversar com os espíritos das centenas de almas enterradas no local. Como seu nome é desconhecido por todos, até por ele mesmo, o guri recebe o sugestivo nome de Ninguém, e passa a ser adotado pelos fantasmas. Seu único companheiro vivo é Silas, o enigmático guardião que sabe as razões que levaram ao assassinato da família de Ninguém. Por isso, não permite que o menino deixe o cemitério. Ao mesmo tempo em que cresce e aprende com os fantasmas de professores e poetas que vagam por entre as sepulturas, o menino desenvolve habilidades que lhe permitem transitar entre o mundo dos vivos e dos mortos. Mas, à medida que começa se tornar um adolescente, Ninguém não se conforma mais com os limites do cemitério – quer conviver com “a gente viva” e com os riscos que essa decisão acarreta.

Com sensibilidade, sem apelar para clichês ou soluções óbvias, Gaiman usa sua habitual inteligência em lidar com o fantástico para tratar também de temas como amizade, lealdade e os dramas inerentes à adolescência, com suas paixões e frustrações. A resistência de Ninguém em seguir as ordens de seus pais adotivos fantasmas e o desejo de transpor os muros do cemitério nada mais são do que uma alegoria dos conflitos inerentes ao amadurecimento. Por isso, mesmo voltado para crianças e adolescentes, o livro também pode ser apreciado por adultos. Não por acaso, a obra já recebeu prêmios literários como o Hugo (concedido a obras de fantasia) e a Newberry Medal (para obras de literatura infanto-juvenil).

Mas, apesar de seus méritos, O Livro do Cemitério também tem pontos baixos, especialmente
o ritmo narrativo. A trama começa muito bem, com alto nível de tensão, mas deixa a desejar em seus capítulos intermediários, com situações repetitivas, demasiadamente longas e que pouco acrescentam ao desenrolar da história. O fôlego é retomado na porção final do livro, que reserva boas doses de emoção. E assim como outras obras de Gaiman, a exemplo de Stardust: O Mistério da Estrela, O Livro do Cemitério terá sobrevida para além do papel: o cineasta irlandês Neil Jordan (de Traídos pelo Desejo e Entrevista com o Vampiro) já trabalha em uma adaptação da história para as telas.

Texto de Jaime Silva, publicado na Zero Hora de quarta-feira, 14 de julho

Biblioteca Básica Roqueira

13 de julho de 2010 7

Como alguns de vocês podem ter lido em sites de notícias ou redes sociais por aí, hoje é o Dia Internacional do Rock – efeméride marcada para o dia em que ocorreu, em 1985, o megafestival Live Aid, organizado pelo músico Bob Geldof (o sujeito que interpreta o rockstar no filme The Wall, lembram?) para chamar a atenção do mundo para a causa da África. Vinte anos mais tarde, Geldof e Bono Vox seriam os responsáveis por outro megafestival com shows simultâneos em várias cidades: o Live 8, para protestar contra a escalada da violência mundial na esteira da Guerra ao Terror de George W. Bush.

Pois bem, embora muita gente faça a piadinha infame de que roqueiros e livros não combinam muito (o próprio Frank Zappa vivia falando isso, mas provavelmente falava a sério), aproveitamos a passagem da data para elaborar uma lista com as melhores obras sobre rock lançadas nos últimos anos – e “aproveitamos” aqui não é um uso pedante do plural majestático, mas o reconhecimento à ajuda que recebi nesta tarefa de meus colegas Luís Bissigo (que escreveu sobre os livros dos Beatles e o do Ozzy) Gustavo Brigatti (responsável pelo texto sobre a autobiografia do Clapton) e Luiz Zini Pires (a quem devo o texto sobre o livro do Pink Floyd).

Tá esperando o quê? Vira a página que isso aí é rock’n’roll:

Beatles: A Biografia, de Bob Spitz
Tradução de um bando de gente. Larousse, 982 páginas e
John Lennon: A Vida, de Philip Norman
Tradução de Roberto Muggiati. Companhia das Letras, 840 páginas
Quem é fã – mas fã mesmo – de uma banda de rock não pode se intimidar diante de um volume de páginas mais generoso. Para os beatlemaníacos, por exemplo, dois ótimos lançamentos dos últimos anos representam uma longa estrada de mais de 1,7 mil páginas: The Beatles – A Biografia, de Bob Spitz, e John Lennon – A Vida, de Philip Norman, publicados em português, respectivamente, em 2007 e 2009. O percurso é dos mais recompensadores. Ricos em detalhes e fontes, os textos se complementam contar a história dos quatro beatles, não apenas de John. O grande trunfo de Spitz são os depoimentos dos amigos de Liverpool, cobrindo amplamente a vida dos músicos antes do estrelato. Norman não fica atrás _ embora naturalmente centrado no ponto de vista de John, descreve muito bem a relação dele com Paul, George e Ringo. Na dúvida, encare os dois livros.

Uma temporada no Inferno com os Rolling Stones, de Robert Greenfield
Tradução de Diego Alfaro. Jorge Zahar, 242 páginas
Tem muito fã dos Stones que considera Exile on Main St. o marco, o ápice e o fim da fase da banda que realmente importa – o escritor Alexandre Inagaki André Takeda chegou a escrever um conto que usava esse mote na extinta revista musical Zero. Em vez de fazer uma extensa biografia de uma banda cuja biografia ainda não acabou, o jornalista Robert Greenfield usa esse álbum como pretexto para fazer um féerico retrato de época por meio da história da gravação desse clássico do rock. Os Stones chegam ao processo de gravação de Exile… aos frangalhos: Brian Jones havia morrido em 1969, todos andavam cheirando demais, bebendo demais, fumando demais, envolvidos em confusão demais. E, perseguidos pelo Fisco inglês, os integrantes da banda se mudaram para a França para escapar dos altos impostos britânicos. Dadas as circurnstâncias totalmente adversas de sua produção, Exile on Main St., gravado em um casarão na Riviera que, conta a lenda, teria servido de quartel-general para os nazistas durante a II Guerra, é um prodígio. Os Stones ocuparam o casarão francês com um espírito parecido com o da novela de Sade Saló: longe da polícia inglesa e sob as vistas grossas das autoridades francesas, a banda liberou geral, em excessos clinicamente documentados por Greenfield, intercalando com maestria a narração do inferno pessoal da banda com a composição de uma de suas principais obras.

Led Zeppelin: Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra , de Mick Wall
Tradução de Elvira Serapicos. Larousse, 552 páginas
Comparar livros diferentes sobre um mesmo assunto sempre revela menos o assunto em si e mais as escolhas que levam o biógrafo a destacar um ponto em detrimento de outro. Exemplar nesse sentido é a leitura em paralelo do livro Hammer of the Gods, escrito por Stephen Davis nos anos 1980 (e sem edição no Brasil), e deste Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra, obra do jornalista inglês Mick Wall. Ambos se dedicam a contar a história de uma das maiores bandas do planeta, o Led Zeppelin, mas têm uma diferença monumental de abordagem. Enquanto Davis dedicava muito de seu livro à documentação sistemática dos excessos e da aura mítica e sensacionalista envolvendo a banda, Wall faz, neste livro, uma monumental reportagem que esmiuça detalhadamente não apenas a mitologia construída em torno da banda mas o quanto a própria banda – Jimmy Page à frente – calculadamente planejou seu caminho até o Olimpo roqueiro em que a formação dessas lendas é inevitável. Page estava cansado de ser um músico de estúdio reconhecido apenas por seus pares, e queria o estrelato – mas com o naufrágio dos Yardbirds, precisava correr atrás e montar seu próprio grupo, no qual ele daria as cartas. O encontro com o empresário Peter Grant, que também tinha delírios de grandeza para ser reconhecido como o gênio empresarial que era e sair da sombra de seu sócio, foi o estopim para uma banda que mudou as regras do showbiz (até em termos de ganhar dinheiro, por exemplo). Wall também não foge das ousadias formais: o livro alterna a história da banda desde sua formação – narrada em um sólido e fluente texto em terceira pessoa – com a inserção de capítulos sobre a vida de cada um dos integrantes e do empresário Peter Grant – estruturados em segunda pessoa. O narrador conta a história dirigindo-se ao personagem, como no trecho a seguir, uma das primeiras frases do livro: “Você é Jimmy Page. Estamos no verão de 1968 e você é um dos mais conhecidos guitarristas de Londres – e um dos menos famosos. Mesmo os dois últimos anos com os Yardbirds não lhe trouxeram o reconhecimento que você sabe que merece.” Um formato semelhante ao que o americano Jay McInerney usou para Brilho da Noite, Cidade Grande (L&PM), um dos romances símbolo da geração yuppie.

The Dark Side of the Moon: os bastidores da obra-prima do Pink Floyd, de John Harris
Tradução de Roberto Muggiati. Jorge Zahar, 224 paginas
Seis anos depois que os Beatles jogaram pimenta nos olhos dos jovens do planeta com Sgt. Peppers, o Pink Floyd desembarcava em Londres uma obra de outro planeta, The Dark Side of The Moon, um disco que três décadas depois já superaria as 30 milhões de cópias vendidas – sem contar aí a larga pirataria da virada do milênio. Depois de extensa pesquisa, o jornalista, John Harris, recupera neste livro a trajetória da banda, o trauma da saída de Syd Barrett com o cérebro derretido pelas drogas, o ambiente das gravações (no mesmo estúdio dos Beatles), e a ideia, levada a cabo pela banda em The Dark Side…, de unir todas as faixas sob um mesmo conceito. Todas as músicas do LP do Floyd estavam encadeadas, dando ao trabalho uma unidade plural que se hoje é quase pré-requisito, era algo novo na música pop da época, ainda sem o rótulo de “álbum conceitual”. The Dark Side of The Moon começou a ser gerado em 1971. As músicas foram sendo tocadas nos shows, retocadas nas apertadas vans que guiavam a banda pelo interior da Inglaterra e aprimoradas em estúdios. Uma saga que Harris recupera em um texto fluente e em uma edição bem documentada com fotos.

Like a Rolling Stone, de Greil Marcus
Tradução de Celso Mauro Paciornik. Companhia das Letras, 256 páginas
Outro livro que, a exemplo de Exile on Main St., toma como fio fio condutor uma das gravações fundamentais da história do rock, mas aqui o jornalista americano Greil Marcus, testemunha  ocular da rebeldia roqueira, analisa o impacto de Bob Dylan no mundo da música popular por meio de uma única faixa, provavelmente uma das duas canções de Bob Dylan mais conhecidas por quem não é fã de Bob Dylan (a outra, lógico, seria Blowing in the Wind). Com o subtítulo de Bob Dylan na Encruzilhada, o livro de Marcus reconstitui em detalhes o dia 15 de junho de 1965, data em que o compositor entrou em estúdio para gravar a canção que dá título ao livro, tornada posteriormente um dos marcos de sua época e regravada à exaustão. Centrando-se nesse eixo aparentemente tênue, Marcus avança e recua no tempo, esboçando um retrato daqueles tempos em que a canção foi composta e se tornou sucesso e acompanhando os anos seguintes até o período  contemporâneo, no qual a música é vista como um hino da contracultura. Mais um caso em que uma leitura cruzada, com a biografia de Dylan escrita por Sounes que citamos mais abaixo, seria interessante,

Eric Clapton: A Autobiografia
Tradução de Lúcia Brito. Planeta, 400 páginas
Imagine que você é um garoto do interior, fã de blues e que há pouco começou a mostrar seus dotes na guitarra elétrica. Aí monta uma banda, dessas pra tocar no bar em troca de cerveja e um ou outro flerte. Então, um dia, você visita a Capital e vê, atônito, o seu nome pichado em um muro dizendo que você é deus. Eric Patrick Clapton tinha 18 anos quando viu escrito exatamente isso numa estação de trem em Londres e conta que, a partir desse momento, percebeu que sua vida não lhe pertencia mais. A história está na autobiografia que Clapton lançou em 2007. É um relato no mínimo corajoso, que ele parece ter feito com a intenção de purgar seu passado de excessos. E bota excesso nisso. Por quase três décadas, Clapton foi usuário pesado de quase tudo (até uma colher de ouro com seu nome, confeccionada para usar heroína, ele possuía), embora tivesse especial predileção pelo álcool. Esse último vício o fez até abrir uma clínica de reabilitação no Caribe, pra se ter uma ideia do estrago. Mas motivos não faltaram, como também abundaram as razões para ele seguir em frente e  fixar se nome fácil em qualquer lista de melhores/maiores/incríveis/geniais/absurdos guitarristas de qualquer tempo/estilo/plano astral. E tudo num texto direto, quase um bate-papo, que, não raro, faz crescer aquele bolo na garganta diante da descrição de uma alma tão incrivelmente generosa quanto atormentada, a mercê de todo tipo de capricho do destino _ do abandono pelos pais à disputa pela namorada do amigo George Harrison até a morte precoce do filho.
Tudo lá, rasgado de fora a fora. Como um bom blues antigo.

Dylan: A biografia, de Howard Sounes
Tradução de Leila de Souza Mendes; Conrad; 472 páginas
Bob Dylan é um dos personagens mais esquivos do universo do rock. Ele não fala de sua vida privada, e quando o faz, mente sobre seu passado, espalha versões díspares sobre fatos e passagens de sua vida – um pouco como faz com as próprias músicas, cujos arranjos e melodias ele reinventa, às vezes radicalmente, de um show para outro. Ah, sim, e também é um sujeito inteligente que gosta do confronto contra a imprensa e dá nó em muito jornalista e entrevistador, falando o que quer e preservando os detalhes de sua assim chamada “vida pessoal”. Só pela característica difícil do biografado, já se vê que uma biografia definitiva da carreira do artista é uma ideia ilusória – nem o próprio Dylan escreveu uma, preferindo contar histórias sem uma ordem cronológica em suas Crônicas: Volume Um. É claro que esta biografia de Sounes não seria, portanto, esse tipo de biografia, mas faz um belo trabalho em estabelecer uma narrativa da vida de Dylan e até estabelecer algumas versões contadas pelo compositor ao longo do tempo como os trotes sofisticados que eram em sua origem. Sounes, também fez um belo trabalho de pesquisa – principalmente se considerarmos que é uma biografia escrita sem ouvir o biografado, avesso a colaborar em projetos do tipo. Mas por meio de depoimentos de colegas, ex-namoradas e colaboradores, Sounes – também biógrafo de Charles Bukówski – forma um panorama abrangente da personalidade complexa de Dylan, um compositor que só avisava aos colaboradores que estava gravando para valer ao fim da sessão. Ou um músico que não elabora listas de canções para o palco e muda o arranjo e andamento das canções sem avisar a banda – por isso, prefere trabalhar com músicos capazes de acompanhar seus voos no palco sem que ele precise dar indicações.

Mate-Me Por Favor, a história sem censura do punk, de Legs McNeil e Gillian McCain
Tradução de Lúcia Brito. L&PM, 307 páginas (volume 1) e 248 páginas (volume 2)
Este é um livro com um projeto político e histórico. Foi escrito, declaradamente, para lembrar ao mundo que antes do picareta Malcolm McLaren dar uma rasteira na cultura pop com os Sex Pistols e tomar de assalto os louros pela criação do punk, as raízes do movimento estavam fundadas em outros terrenos, na cena artística e alternativa que fervia em Nova York nos anos 1960. Baseado em entrevistas com os participantes daquele período de excessos, drogas, marginalidade e música, Mate-Me Por Favor é uma colagem de depoimentos em que as vozes dos entrevistados se contrapõe sem um discurso narrativo que tente “organizar as coisas” para o leitor _ essa organização se dá apenas na edição, e, pensando bem, na cena individualista e anárquica do punk rock, não haveria mesmo espaço para um único discurso. Do embrião da cena, com os New York Dolls, os Stooges e o Velvet Underground, até os heróis do estilo, Iggy Pop e os Ramones, chegando finalmente na aparição dos Sex Pistols - que, como o livro é escrito por uma dupla interessada em provar que o punk surgiu na América, é identificada com a diluição e a decadência das propostas originais de arte e independência, degenerando em violência e rebeldia adolescentes. É provavelmente o melhor livro sobre o punk, talvez ombreado apenas com a biografia de Johnny Rotten, No Irish, No Blacks, No Dogs - a biografia de Dee Dee Ramone, Coração Envenenado, e as memórias de Patti Smith, em Just Kids, não chegam nem perto.

Eu Sou Ozzy
Tradução de Marcelo Barbão. Benvirá, 384 páginas
Esta autobiografia agora editada em português, é quase tudo o que se poderia esperar de um personagem como Ozzy Osbourne. Não faltam causos curiosos em sua trajetória de 61 anos de drogas, demências, bebidas, mulheres e rock’n’roll _ e ele conta tudo na base do bom humor, rindo dos outros e de si mesmo. Infância, juventude, Black Sabbath, casamentos e carreira solo estão na história, narrada com o auxílio decisivo do jornalista britânico Chris Ayres _ que até Guerra no Iraque já cobriu e, portanto, não se intimidou com as barbaridades da vida de Ozzy.

Slash, em co-autoria com Anthony Bozza
Tradução de Tina Jeronymo. Ediouro, 304 páginas
A frase foi dita por Humberto Gessinger em uma entrevista a Zero Hora por ocasião do lançamento de seu livro Pra Ser Sincero: “...a biografia do Slash (ex-guitarrista do Guns N’ Roses) foi um susto: nas duas primeiras páginas, ele já tinha tomado de tudo, a mãe dele era amante do David Bowie, o pai dele fazia capas pra todo mundo. Em duas páginas, o Slash viveu mais do que eu viveria em cinco vidas! (risos)”. Narrado em uma primeira pessoa que se lê com interesse e que mantém o ritmo com galhardia, a biografia de um roqueiro tão ligado a uma história de excessos do rock não foge do tema – Slash e sua turma de colegas do Guns ‘n’ Roses foram destaques de uma das últimas gerações a encarnar a sério o aspecto messiânico, autodestrutivo, heroico e épico do rock, e portanto uma boa parte do livro é focada na relação conturbada de Slash com a heroína e o álcool – a primeira cena do livro, já no prólogo, descreve um infarto em pleno palco sofrido pelo guitarrista, o que o levou a implantar, aos 35 anos, um cardio-desfibrilador em seu peito. Mas é um livro interessante não só por causa disso, mas porque com um biografado desses, mesmo uma biografia oficial, como é o caso aqui, não tem como fugir das passagens mais comprometedoras – Slash está tentando dar sua versão dos fatos, e a maioria dos fatos mais desabonadores já haviam saído na imprensa, o que o obriga a se posicionar.

Mais Pesado que o Céu (Heavier than Heaven), de Charles Cross
Globo, 450 páginas
Eu escrevi ali que os rapazes dos Stones talvez fossem da última geração a levar a sério a postura salvacionista do rock. Uma frase que pode render lá suas polêmicas, mas que eu justifico lembrando que hoje em dia quando alguém fala e age com aquela postura roqueira messiânica, não dá pra não pensar no Jack Black em Escola do Rock, ou seja, algo caricato, exagerado, terno, mas também cômico, lembrando o quanto essa coisa toda tem lá também o seu lado risível. Creio que uma das coisas que levaram a essa “perda de ingenuidade” foi a rápida sucessão entre o rock poser dos anos 1980 e 1990 e a onda posterior do grunge, a turma que, seguindo a linha de arugmentação aberta por Legs McNeill e GIllian McCain lá no Mate-Me Por Favor, devolveu o punk aos Estados Unidos onde ele havia nascido, mas desta vez com o reconhecimento popular planetário que os pioneiros da cena nova-iorquina não chegaram a conhecer. Rock cru, rápido, barulhento, pesado, com letras bem cuidadas, niilistas, pessimistas, agressivas. O punk foi tudo isso – e o grunge também foi tudo isso vinte anos depois. A figura perturbada de Kurt Cobain, líder do Nirvana, pintou com tintas de tragédia essa transição, e da profusão inacreditável de biografias e reportagens que se sucederam ao suicídio do compositor em 1994 esta talvez seja a mais completa – tem outras que saíram depois e muitas que eu não li, então estou chutando mesmo, e daí? O jornalista Charles Cross, também biógrafo de Hendrix, sabe que está mexendo em terreno perigoso ao tentar compreender uma figura controversa, paradoxal, cheia de talento e de mimimi e que ainda por cima levou seu flerte sempre ensaiado com a morte até o fim. Por isso, documenta seu trabalho com entrevistas minuciosas, jornais, relatórios médicos, cartas ro próprio músico. E abarca o quanto pode da vida de seu biografado e do tempo em que viveu: da infância “white trash” em um trailer no interior até o estrelado, passando pelo período em que conheceu Dave Grohl, numa época em que ambos dividiam um apartamento, chapavam-se de xarope para tosse e cheiravam até o freon de desodorantes aerosol. A relação conturbada do músico com a fama, sua vulnerabilidade, sua depressão, o conturbado casamento com Courtney Love. Um belo painel.

Dias de Luta, de Ricardo Alexandre
DBA Editora, 400 páginas
Exemplar nacional que eu não hesito em qualificar como o melhor até agora a dar conta do que foi a onda roqueira que varreu o Brasil nos anos 1980 – e que já chegava ao país com algum atraso, diga-se. Antes de ser censurada na justiça pelo biografado, a biografia de Roberto Carlos tinha informações em número suficiente para ser tão completa quanto ao focar outra turma, a do Iê-Iê-Iê, precursora do rock brazuca. Mas Roberto Carlos Em Detalhes não era tão bem escrita quanto esta bem pesquisada e vigorosa reportagem sobre a emergência dos grupos que seriam a cara do rock nacional dos anos 1980 até aqui. Alexandre (esse cara não tem sobrenome, será?) faz um trabalho admirável em narrar uma história que se desenrola com tantos personagens e em tantos focos simultâneos, e passeia sem perder o foco pelos vários núcleos do nascente rock nacional: a Brasília da “Turma da Colina”, que originaria Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude; o Rio de Janeiro dos shows no Circo Voador, com sua efervescente cena artística jovem de onde sairia o Barão Vermelho e onde finalmente explodiria o Rock’n’Rio – o “anno mirabilis” do rock nacional, segundo Alexandre –; a São Paulo do rock intelectualizado, niilista e experimental de Felini, dos Titãs, do Ira e das pirações de Júlio Barroso, do movimento punk operário de Os Inocentes – bem diverso da gurizada de Brasília, que posava de punk vindo de famílias classe alta. Alexandre também advoga quase uma tese social: a de que a linguagem daquele rock oitentista era um transplante muitas vezes mal feito de uma estética que vigorava na música internacional, principalmente o rock inglês. O rock anos 80, portanto, é um caldo que demora a adquirir uma personalidade própria, pela história que o autor conta. Em seu amplo mosaico, não falta nem o Rio Grande do Sul, mas isso pode ser melhor abordado no próximo livro:

Gauleses Irredutíveis: Causos e Atitudes do Rock Gaúcho, de Allison Avila, Cristiano Bastos e Eduardo Müller
Sagra/Luzzatto. 270 páginas
Este é o Mate-Me Por Favor do rock gaúcho – e embora para este cabeludo aqui em particular doa até os ossos comparar Lou Reed e Ramones com o rock gaúcho, o paralelo procede não pelas bandas em si, e sim pelo recurso formal utilizado pelos autores. O livro é resultado de 167 entrevistas que o trio de autores jornalistas realizou com personagens da cena musical do Estado: Thedy Correa, Nei Lisboa, Plato Dvorak, Vander Wildner, Carlos Gerbase, o Gordo Miranda e literalmente mais de uma centena de outros. São trechos em primeira pessoa dessas entrevistas que sustentam a narrativa do livro, dos tempos heroicos e psicodélicos dos primeiros exemplares do rock setentista gaúcho, como Byzarro e Bixo da Seda, à cena pulverizada do início do século 21. Com direito a centrar foco no movimento ao mesmo tempo criativo e paroquial que emergiu nos anos 1980, com De Falla, Replicantes, Cascavelettes e sua oposição às vezes tácita, às vezes aberta, ao Engenheiros do Hawaíi e seu sucesso nacional que a turma daqui sempre viu com nariz torcido. Uma história de 40 anos contada pelos seus próprios protagonistas.