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Posts de julho 2010

Simpatia pelo Diabo

12 de julho de 2010 2

O diabo chega à Moscou dos anos 1920 e espalha, mais do que horror, absurdo - uma vez que, com o regime comunista no auge da repressão aos dissidentes, a capital russa já está servida o suficiente de terror. Essa é, em traços bem grosseiros, a linha que atravessa o esplendoroso mosaico tecido pelo escritor russo  Mikhail Bulgákov (1891 - 1940) em sua obra-prima O Mestre e Margarida, que está ganhando nova edição  pela Objetiva/Alfaguara, depois de décadas fora de catálogo. Bulgákov foi parte de uma geração artística efervescente da Rússia da primeira metade do século 20. Foi também um satirista impiedoso das afetações dessa geração (diga-se de passagem, a sátira foi um gênero que experimentou um florescer fantástico naquelas primeiras décadas do século 20 na Rússia: além de Bulgákov há o grande Evgeny Zamyátin, pioneiro da ficção científica e autor de Nós - romance que influenciou Huxley e Orwell).

Mas voltando a O Mestre e Margarida. À parte a trama fantástica que serve como fio condutor do romance, um dos pontos hilários é a maneira arrasadora com que o autor retrata as revistas e associações de literatos que se espalhavam por Moscou defendendo as posições estéticas oficiais do do regime. Já na primeira cena acompanha-se um debate enfatuado entre o editor Berlioz e o poeta Bezdômny - o primeiro insiste em orientar emendas em um poema do segundo sobre Cristo. Bezdômny pintou um Jesus maléfico, quando o editor queria simplesmente um poema que defendesse a não-existência do Cristo. Nesse ponto da discussão, são abordados por um estranho bem-vestido falando russo com um sotaque exótico. O homem conta que já discutiu aquele ponto com o próprio Kant e garante que Jesus existiu. E que sabe disso porque viu a audiência do Nazareno com Pôncio Pilatos - episódio que passa então a narrar em detalhes. Aos fãs de rock não passará despercebida a semelhança de alguns pontos da cena acima com a letra de Simpathy for the Devil, dos Rolling Stones - Mick Jagger compôs a música após a leitura do livro.

Após a chegada de Satanás, Berlioz morre decapitado, Bezdômny tem um colapso nervoso, e uma série de acontecimentos sombrios se precipita. O visitante realiza uma série de apresentações de mágica nas quais põe a capital russa em polvorosa. O coisa-ruim não está sozinho: vem acompanhado de um séquito improvável composto por um homem muito alto de monóculo rachado, uma feiticeira nua de olhos ardentes e um gato gigante que caminha sobre duas patas. O grande achado de Bulgákov - que anteciparia um pouco do realismo mágico latino-americano - é que tais absurdos não são as únicas coisas fantásticas em uma Moscou no auge do estalinismo: uma cidade atolada na burocracia, em que pessoas desaparecem misteriosamente sem que ninguém se espante ou proteste. E não é à toa que nesse mar de requisições, papéis, reuniões, comitês e pequenas e medíocres autoridades, o daibo se sinta de tal modo em casa que usa ele própria a selva de papel soviética em seu favor para aliciar a população da cidade em uma apresentação em que distribui dinheiro como que feito do nada.

Pelo conteúdo subversivo da obra, Bulgákov sabia que estaria se colocando na mira da censura comunista. Por isso, passou 11 anos burilando o romance sem intenção de publicá-lo. As últimas revisões foram ditadas pelo autor à esposa poucas semanas antes de sua morte, em 1940. O livro só seria publicado em 1966. Mesmo com essa trajetória errática, foi aclamado - com justiça - como uma das grandes obras
romanescas do século 20.

Cinco dicas para a hora do sebo

08 de julho de 2010 2

Ou: cinco livros que não têm, que eu saiba, edição recente e presença certa em qualquer livraria, mas que, se vocês acharem dando sopa em alguma daquelas caminhadas descompromissadas por sebos, briques, saldões, feiras de troca, valem a conferência:

Mulheres, de Charles Bukowski
Muito da reputação de Bukowski como "velho safado" – reputação que ele mesmo gostava de espalhar com um tanto de vaidade e outro tanto de ironia – vem de livros como este. Baseado em grande medida em experiências autobiográficas, Mulheres flagra o alter ego de Bukowski, Henry Chinaski, já entrado na idade madura e escritor de ofício, pulando de um relacionamento a outro com mulheres loucas, fantásticas e até certo ponto incompreensíveis para a mentalidade de um beberrão da velha escola como ele, um cinquentão tendo que lidar com as novas mulheres que emergem da consolidada revolução sexual e comportamental. É também um dos livros mais engraçados que Bukowski escreveu, com sua ironia feroz dirigida a tudo e a todos, inclusive a si mesmo, Em uma das cenas, ao visitar a família de sua namorada vinte anos mais nova, Lydia, no estado do Utah, Chinasky/Bukowski insiste em passear pelo bosque que circunda a propriedade em que está hospedado e se perde – e é hilário o modo como ele imagina as notícias de jornal sobre sua morte ou, como depois de abrir a pedradas o cadeado de uma cabine metálica achando que lá havia um telefone, encontra apenas interruptores que, acionados, abrem as comportas de uma represa. Chinaski brinca com a ideia de deixar a água correr e ser salvo quando a polícia montada for chamada para cuidar do problema. E também imagina as manchetes, garrafais:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR, INUNDA METADE DE UTAH PARA SALVAR SEU DELICADO RABO DE LOS ANGELES. Um clássico

Domingo à Tarde - Fernando Namora
Fernando Namora foi durante anos um dos autores portugueses mais editados no Brasil, mas atualmente sua obra se encontra fora de catálogo neste lado do Oceano. Talvez seu olhar compassivo e algo perplexo sobre a dor de seus personagens, tanto a física quanto a espiritual, ou sua dicção clássica, buscando a frase elegante e precisa, tenham se tornado datadas em nossos cínicos tempos, vai saber. Médico de formação, Namora abordou, em quase todos os seus livros, o dilema paradoxal da luta inglória travada por médicos contra a morte – uma luta que ninguém vence, no fim das contas, nem o médico nem o paciente. A arte médica é a arte de protelar, é a impressão que fica da leitura de seus livros. Neste romance em particular – que, quando li, lá nos meus tenros vinte anos, me remeteu de algum modo a Somerset Maugham, impressão que hoje considero equivocada – Namora faz do protagonista um médico desencantado e de uma franqueza quase impiedosa, como ele mesmo admite em certa passagem, quando fala das aspirações dos pacientes que lhe chegam no hospital, quase sempre em estado terminal, pobres, desvalidos e em busca de um consolo que ele não lhes pode dar: "Esperavam de mim, cúmplice da doença, da morte ou de suas ilusões, não as drogas, em que já nem acreditavam, mas uma espécie ambígua de solidariedade que os fizesse sentir apoiados até por quem estivesse ao lado do executor no minuto final; ou mesmo a solidariedade do carrasco e da vítima quando o mundo se fecha sobre os dois. Mentiras era o que me pediam, sempre mentiras, logros mendigados de mão estendida". Esse Dr. House prototípico (sem o humor ou o cinismo da série de TV) é, contudo, desafiado pela figura da jovem Clarisse, que de algum modo vai perfurar as defesas erguidas pelo dr. Jorge no calejado exercício da profissão.

A Faca de Dois Gumes, de Fernando Sabino
Antes de virar um filme nacional de sucesso nos anos 1980, dirigido por Murilo Sales (e que partia da mesma premissa mas, em sua metade final, alterava consideravelmente o enredo), este livro representou uma incursão bem-sucedida do Fernando Sabino lírico, bem-humorado, cronista magistral do cotidiano, em no universo da literatura de gênero e de tons mais sombrios. Reunião de três novelas que usam a estrutura do conto policial para contar histórias de obsessão com um toque de tragédia nos moldes clássicos, as três narrativas apresentam personagens que, a seu modo, elaboram crimes perfeitos do qual saem impunes, uma impunidade que não demora a ser revelar, ironicamente, mais pesada que qualquer castigo. No primeiro conto, o que virou filme (e que é mesmo o melhor dos três), por exemplo, Aldo Tolentino, um advogado cinquentão arma o homicídio perfeito: enquanto oficialmente está em uma viagem de negócios a São Paulo, volta até sua casa no Rio e mata sua mulher e o amante dela – que vem a ser seu sócio no escritório. Ao retornar para o hotel em São Paulo que lhe garantirá o álibi, Tolentino tem consciência de que engendrou um crime quase impossível de ser atribuído a ele, mas não contava com o fato de que seu próprio filho termina por ser responsabilizado pelo crime, em um final agridoce e magistral.

O Ganhador (ou A Noite Inclinada), de Ignácio de Loyola Brandão
O personagem do viajante é um arquétipo sempre interessante para desvelar por meio do olhar da estranheza da viagem um universo desconhecido ao protagonista, ao leitor e por vezes ao próprio autor. Neste romance, Loyola Brandão não cria só um viajante, ele cria um "cantautor" de festivais de música, fitura bastante popular nos anos 1980 no qual o romance foi publicado. Por meio da jornada do "Ganhador" de etapa e etapa de um festival de música popular nos grotões do Brasil, Loyola vai descerrando a onírica hiperrealidade do que o jargão esquerdista costuma denominar "o Brasil profundo". A começar pelo protagonista, que acompanha seus versos ao violão embora não tenha um braço. Enquanto viaja com uma canção que, acredita, finalmente vai transformá-lo num compositor de sucesso, o músico encontra figuras e cenários que o humor do autor esboça com as tintas do exagero. Em suas andanças, o protagonista topa com a inauguração, em um praça do interior, de um "monumento ao filho-da-puta", em homenagem à classe política nacional – e que quase é embargada por um abaixo-assinado impetrado por prostitutas que não querem ser associadas á categoria. Ou encontra um "justiceiro sanitário", um maluco que impõe violentos castigos físicos aos que costumam depredar banheiros públicos. Ao mesmo tempo, Loyola também brinca com a estrutura do thriller, ao fazer do "ganhador" alvo de dois diferentes algozes: um fanático religioso cuja ligação com o personagem vai aos poucos sendo conhecida e um outro compositor, mais jovem, disposto a dar o troco por uma sacanagem do passado. Na época em que li, com uns 15 anos, confesso que ele me impressionou também por se tratar provavelmente de uma das poucas obras de um escritor de âmbito nacional a mencionar, ainda que muito de passagem, a minha cidade natal. Quando foi publicado, em 1987, tinha o nome de O Ganhador, mas depois o título mudou, em edições do início da década pela editora Global, para A Noite Inclinada.

Algúem que anda por aí, de Julio Cortázar
Esta coletânea de 11 histórias de Cortázar não pode de modo algum ser incluída entre as, digamos, três melhores coletâneas de contos que o autor escreveu – Histórias de Cronópios e Famas, Bestiário e Todos os Fogos o Fogo ocupariam as posições dessa lista, na minha opinião. Também não é o livro com os contos mais inventivos do ponto de vista formal ou temático, antes é uma reiteração de coisas que Cortázar já vinha fazendo no melhor da sua ficção há duas décadas (o livro é de 1977). Ainda assim, tenho especial apreço, um carinho solidário com esta seleção de histórias do mestre do conto – e talvez esse afeto nasça justamente dessa aura de "obra menor" que o livro tem para parte da crítica. Não há uma unidade temática como os contos de ...Famas e Bestiário, as histórias são heterogêneas. Há incursões no horror, como Reunião com um Círculo Vermelho, no qual o narrador, ao entrar em um sombrio e sinistro restaurante alemão, convence-se de que o lugar é um covil de vampiros, mas demora-se a pagar a conta e a sair do lugar porque, depois de lá entrar, viu uma mulher aparentemente indefesa também ingressar no restaurante. Há histórias que flertam com gêneros popularescos como a história de espionagem, como A Noite de Mantequilla, na qual um revolucionário encontra um contato nas arquibancadas de um ginásio em Paris no qual está se realizando uma luta de boxe entre o lutador argentino Monzón e o mexicano Mantequilla. Há os relatos que fundem dois planos de realidade, tão característicos de Cortázar – que já fizera maravilhas semelhantes em Todos os Fogos o Fogo –, como O Nome de Boby, no qual a narradora descobre que a irmã trata o filho com crueldade em seus sonhos, com reflexos na vida real. Há uma experiência formal inusitada em A Barca: ou Nova Visita a Veneza, no qual Cortázar aproveita um conto que havia escrito vinte anos antes e deixado de lado por considerá-lo insatisfatório e acrescenta uma segunda voz narrativa, dando um novo significado à relação de amizade entre as duas protagonistas, duas moças em férias na Itália. E há o conto muito bonito e muito triste que abre o volume, Câmbio de Luzes - na real meu exemplar é em espanhol, então não me lembro se na tradução ficou assim, a edição em português que eu tinha, da Nova Fronteira, emprestei para uma amiga do jornal em 2002 e um dia ela se mudou para Brasília sem me devolver, e hoje já não somos mais amigos, e por isso nunca pedi de volta. Na história um melancólico ator de radionovelas, especializado em papéis de vilão, inicia um romance com uma admiradora que, apaixonada por sua voz no rádio, lhe escreve uma carta. À medida que a relação se desenrola, o ator vai se empenhando em impor à jovem a ideia que ele faz dela, querendo transformá-la na mulher de seus sonhos. Até que descobre que ele talvez não seja o homem que ela sonhava que fosse enquanto ouvi sua voz no rádio.

Claro que, como há muito de pessoal e intransferível na experiência da leitura, é provável que o gentil leitor aí já tenha lido algum desses livros, ou todos, e não tenha achado nada disso. Bom, acho que é do jogo.

Morre Orlovsky, ás da geração beat

05 de julho de 2010 1

Os poetas Peter Orlovsky (E) e Allen Ginsberg em viagem à Índia, 1962
Foto:
Harry Ransom Center, divulgação

E já que se falou de beats por ocasião da morte do poeta paulistano Roberto Piva, publicamos abaixo outro texto sobre outro poeta maldito recentemente falecido, Peter Orlovsky. Matéria de Simon Warner para o jornal inglês The Guardian traduzida aqui pela equipe do blog:

O escritor Peter Orlovsky (1933-2010), que morreu no dia 30 de maio, aos 76 anos, de câncer de pulmão, foi durante mais de quatro décadas o companheiro de Allen Ginsberg, o mais célebre poeta americano do pós-guerra. O legado literário de Orlovsky é comparativamente modesto — suas antologias mais conhecidas são Clean Asshole Poems e Smiling Vegetable Songs — e inevitavelmente obscurecido pela estatura e obra de seu amigo. Mas ele conquistou uma reputação que lhe permitiu ser lembrado como um membro ativo da Geração Beat, a fornada de escritores que reuniu, na segunda metade do século passado, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, Gregory Corso e Lawrence Ferlinghetti. Esse grupo é considerado precursor do movimento hippie e da contracultura.

Orlovsky nasceu no Lower East Side, bairro pobre de Nova York, de pai russo imigrante. A gráfica da família faliu durante a Grande Depressão, seus pais se separaram, e Peter, sua mãe, três irmãos e uma irmã se mudaram para o Queens, onde atravessaram muitos anos de pobreza. Quando tinha 17 anos, por insistência da mãe, deixou a escola para procurar trabalho. Seu primeiro emprego, numa instituição para doentes mentais, acarretava grande desgaste físico e emocional. A experiência foi amadurecedora para esse adolescente, mas iria ajudá-lo a enfrentar desafios da vida adulta: seu irmão Julius sofria de instabilidade psicológica, e Orlovsky ajudou seus filhos da infância à idade adulta.

Mobilizado em 1953, durante a Guerra da Coreia, Orlovsky foi rotulado como potencial subversivo por suas leituras de inclinação comunista. Foi enviado à Califórnia para trabalhar num hospital do exército e fez amizade com um artista da região de San Francisco, Robert LaVigne, que o seduziu. Quando Ginsberg visitou o estúdio de LaVigne e viu a pintura de um jovem que lhe lembrou o deus grego , o artista lhe disse que se tratava de Orlovsky. A relação dos dois se iniciou pouco depois e durou até a morte de Ginsberg, em 1997.

Mas a relação estava longe de ser estável. Ginsberg tinha, na época, abandonado qualquer inclinação heterossexual e, com seu longo poema Uivo (1955), fizera um ataque explícito aos valores americanos ao mesmo tempo que celebrava a própria homossexualidade. Orlovsky continuou a expressar sua atração por mulheres nos anos em que viveram juntos. Essa tensão deixaria uma marca em sua relação e haveria momentos em que os dois se separariam, voltando a se reunir em seguida. No início dos anos 1960, com Ginsberg no auge de seu poder criativo e de sua reputação como artista, Orlovsky juntou-se a ele em viagens à Índia, ao norte da África e à Europa. Enquanto a contracultura americana ganhava forma, Ginsberg lhe servia de guru, voltando suas baterias para mudança racial, política e sexual. Orlovsky estava em geral a seu lado, escrevendo, fazendo leituras públicas e convivendo com as estrelas da hora: Timothy Leary, Andy Warhol, Bob Dylan, John Lennon e Paul McCartney.

Em 1969, Orlovsky colaborou com o fotógrafo Robert Frank num filme intitulado Eu e meu Irmão, documentando a doença mental de Julius. Ele contribuiu também para atividades no projeto rural de Ginsberg em Cherry Valley, no Estado de Nova York (comprado em parte para ajudar Orlovsky a se livrar do vício em metadrina). Mais tarde, Orlovsky ensinou na Escola Jack Kerouac de Poesia Desencarnada na Universidade de Naropa, em Boulder, Colorado, e participou da turnê Rolling Thunder Revue, de Dylan. Com a década de 1970 perto do fim, Orlovsky publicou sua coleção de poemas pela editora City Lights, de Lawrence Ferlinghetti, que havia lançado Uivo e outros Poemas mais de duas décadas antes. Em 1980, ele produziu um livro com Ginsberg, Straight Hearts' Delight: Love Poems and Selected Letters.

Depois da morte de Ginsberg, a saúde de Orlovsky se deteriorou aos poucos. Chuck Lief, que o acompanhou em seus últimos anos, disse: "Peter foi devotado a Allen por décadas, mas continuou a lutar com seus próprios demônios. Quando Allen morreu, a remoção dessa âncora e ponto de referência levou Peter a se sentir de alguma forma sem chão".

Morre o poeta Roberto Piva

03 de julho de 2010 3

Não mais trarei justificações

Aos olhos do mundo.

Serei incluído

"Pormenor esboçado”

Na grande bruma.

Não serei batizado,

Não serei crismado,

Não estarei doutorado,

Não serei domesticado,

Pelos rebanhos

Da terra.

Morrerei inocente

Sem nunca ter

Descoberto

O que há de bem e mal

De falso ou certo

No que vi.

A poesia beatnik original, a americana, com seu delírio de imagens e paixão e sua ração diária de pó de estrada, muito retratou a dicotomia da geração encalacrada no "pesadelo de ar condicionado" de uma América em expansão urbana acelerada, repleta de alternativas de consumo mas com um artificialismo vazio e sufocante que não parecia oferecer saída a não ser a porta da rua. Os beats pioneiros foram viajantes, desbravando o interior de um país que para eles parecia pronto a morrer por imobilismo. Os beats vinham das grandes cidades, mas se punham em movimento porque parar seria envelhecer.

Quando as sementes beats germinaram no Brasil, influenciando a geração luminosa da poesia marginal dos anos 60 e 70, a rebelião ainda era a mesma, mas havia uma pequena diferença na maneira como os udigrudis nacionais, eles também viajantes a seu modo, proferiam sua insatisfação por meio de sua obra. Em um Brasil de maravilhas naturais decantadas em prosa, verso e música, a poesia marginal pareceu eleger a cidade e seus (des)caminhos como o eixo temático ao qual valia a pena se dedicar, e é por isso que Chacal, Alice Ruiz, Ana Cristina Cesar e Paulo Leminski, para citar apenas alguns, se sentiam tão em casa ao compôr poemas que situavam o mundo individual na cidade, a tensão e o amálgama entre o macro-organismo e o olhar individual, uma nova forma de abordar o espelhamento entre o corpo pessoal e a cidade que já dera a tônica na poesia europeia modernista do final do século 19, início do século 20. "Esta cidade me significa", diria Leminski no verso final de seu poema Curitibas.

O poeta paulistano Roberto Piva, que morreu hoje aos 72 anos, foi um dos que melhor sintetizaram esse espelhamento ao fazer da turbulência interna, psicológica, um eco do caos rumoroso da vida urbana na qual esteve mergulhado desde sempre.  A morte de Piva encerra uma longa luta do poeta por sua saúde. Piva sofria há uma década de mal de Parkinson, havia sido já internado em estado grave em janeiro e, desde maio, estava no Instituto do Coração (inCor) em São Paulo, onde, de acordo com a assessoria do hospital, faleceu às 15h desta tarde por falência múltipla dos órgãos em decorrência de insuficiência renal.

Com a comparação que abre este texto, contudo, não se pense que Piva, um beat por excelência mais por sua escolha pessoal de vida rebelde e menos pelos caminhos de sua poesia. era apenas um espontâneo, dos que afetam uma inspiração apartada do esforço. Seus versos sintetizavam, em seu registro, uma busca pela força concentrada da palavra forte, raivosa, sensual, mística, mas também deixavam entrever uma sólida erudição sobre a qual o autor assentava seu trabalho. Piva era um erudito, mas um erudito daquilo que Michel Onfray qualifica como o "lado B" do pensamento racional empurrado para a sombra pela vitória dos socráticos nas histórias da filosofia, a "contratradicão" do pensamento ocidental. Seu trabalho buscava escavar a superfície do inconsciente por meio de associações de palavras inesperadas, queria emular as intenções dos pensadores que haviam buscado alternativas ao cartesianismo racional, que haviam procurado a verdade filosófica na expressão estética, nas trevas no terreno pantanoso abaixo do corroído edifício da razão – e vocês podem ter um gosto disso no poema que abre este post, Libelo. Acho, e agora entramos no delicado terreno da opinião pessoal, que no território da metáfora delirante, da associação desconcertante, Piva só tem rival no Brasil em Murilo Mendes e seu assumido surrealismo – e não por acaso Murilo seria citado como mestre em um dos 20 Poemas com Brócoli, publicado nos anos 1980:

"mestre Murilo Mendes tua poesia são
os sapatos de abóboras que eu calço
nestes dias de verão
."

Roberto Piva, nascido e fermentado paulistano, rebelde por convicção íntima, morreu em um momento em que sua poesia, durante anos trafegando à margem da chamada "crítica canônica", vinha passando por uma redescoberta. Suas obras foram recentemente reunidas em três volumes organizados por Alcir Pécora para a editora Globo: Um Estrangeiro na Legião (2005), Mala na Mão & Asas Pretas (2006) e Estranhos Sinais de Saturno (2008). No ano passado, o Instituto Moreira Salles republicou a estreia de Piva em livro, o elogiado Paranoia, originalmente lançado em 1963.

Deixo vocês com um vídeo que pesquei no twitter por indicação da minha amiga Mari Messias, com Roberto Piva lendo seus poemas. Tem uma introdução meio desnecessária antes, então quem quiser, pule direto para 1,20min: