Ou: cinco livros que não têm, que eu saiba, edição recente e presença certa em qualquer livraria, mas que, se vocês acharem dando sopa em alguma daquelas caminhadas descompromissadas por sebos, briques, saldões, feiras de troca, valem a conferência:
Mulheres, de Charles Bukowski
Muito da reputação de Bukowski como "velho safado" – reputação que ele mesmo gostava de espalhar com um tanto de vaidade e outro tanto de ironia – vem de livros como este. Baseado em grande medida em experiências autobiográficas, Mulheres flagra o alter ego de Bukowski, Henry Chinaski, já entrado na idade madura e escritor de ofício, pulando de um relacionamento a outro com mulheres loucas, fantásticas e até certo ponto incompreensíveis para a mentalidade de um beberrão da velha escola como ele, um cinquentão tendo que lidar com as novas mulheres que emergem da consolidada revolução sexual e comportamental. É também um dos livros mais engraçados que Bukowski escreveu, com sua ironia feroz dirigida a tudo e a todos, inclusive a si mesmo, Em uma das cenas, ao visitar a família de sua namorada vinte anos mais nova, Lydia, no estado do Utah, Chinasky/Bukowski insiste em passear pelo bosque que circunda a propriedade em que está hospedado e se perde – e é hilário o modo como ele imagina as notícias de jornal sobre sua morte ou, como depois de abrir a pedradas o cadeado de uma cabine metálica achando que lá havia um telefone, encontra apenas interruptores que, acionados, abrem as comportas de uma represa. Chinaski brinca com a ideia de deixar a água correr e ser salvo quando a polícia montada for chamada para cuidar do problema. E também imagina as manchetes, garrafais:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR, INUNDA METADE DE UTAH PARA SALVAR SEU DELICADO RABO DE LOS ANGELES. Um clássico
Domingo à Tarde - Fernando Namora
Fernando Namora foi durante anos um dos autores portugueses mais editados no Brasil, mas atualmente sua obra se encontra fora de catálogo neste lado do Oceano. Talvez seu olhar compassivo e algo perplexo sobre a dor de seus personagens, tanto a física quanto a espiritual, ou sua dicção clássica, buscando a frase elegante e precisa, tenham se tornado datadas em nossos cínicos tempos, vai saber. Médico de formação, Namora abordou, em quase todos os seus livros, o dilema paradoxal da luta inglória travada por médicos contra a morte – uma luta que ninguém vence, no fim das contas, nem o médico nem o paciente. A arte médica é a arte de protelar, é a impressão que fica da leitura de seus livros. Neste romance em particular – que, quando li, lá nos meus tenros vinte anos, me remeteu de algum modo a Somerset Maugham, impressão que hoje considero equivocada – Namora faz do protagonista um médico desencantado e de uma franqueza quase impiedosa, como ele mesmo admite em certa passagem, quando fala das aspirações dos pacientes que lhe chegam no hospital, quase sempre em estado terminal, pobres, desvalidos e em busca de um consolo que ele não lhes pode dar: "Esperavam de mim, cúmplice da doença, da morte ou de suas ilusões, não as drogas, em que já nem acreditavam, mas uma espécie ambígua de solidariedade que os fizesse sentir apoiados até por quem estivesse ao lado do executor no minuto final; ou mesmo a solidariedade do carrasco e da vítima quando o mundo se fecha sobre os dois. Mentiras era o que me pediam, sempre mentiras, logros mendigados de mão estendida". Esse Dr. House prototípico (sem o humor ou o cinismo da série de TV) é, contudo, desafiado pela figura da jovem Clarisse, que de algum modo vai perfurar as defesas erguidas pelo dr. Jorge no calejado exercício da profissão.
A Faca de Dois Gumes, de Fernando Sabino
Antes de virar um filme nacional de sucesso nos anos 1980, dirigido por Murilo Sales (e que partia da mesma premissa mas, em sua metade final, alterava consideravelmente o enredo), este livro representou uma incursão bem-sucedida do Fernando Sabino lírico, bem-humorado, cronista magistral do cotidiano, em no universo da literatura de gênero e de tons mais sombrios. Reunião de três novelas que usam a estrutura do conto policial para contar histórias de obsessão com um toque de tragédia nos moldes clássicos, as três narrativas apresentam personagens que, a seu modo, elaboram crimes perfeitos do qual saem impunes, uma impunidade que não demora a ser revelar, ironicamente, mais pesada que qualquer castigo. No primeiro conto, o que virou filme (e que é mesmo o melhor dos três), por exemplo, Aldo Tolentino, um advogado cinquentão arma o homicídio perfeito: enquanto oficialmente está em uma viagem de negócios a São Paulo, volta até sua casa no Rio e mata sua mulher e o amante dela – que vem a ser seu sócio no escritório. Ao retornar para o hotel em São Paulo que lhe garantirá o álibi, Tolentino tem consciência de que engendrou um crime quase impossível de ser atribuído a ele, mas não contava com o fato de que seu próprio filho termina por ser responsabilizado pelo crime, em um final agridoce e magistral.
O Ganhador (ou A Noite Inclinada), de Ignácio de Loyola Brandão
O personagem do viajante é um arquétipo sempre interessante para desvelar por meio do olhar da estranheza da viagem um universo desconhecido ao protagonista, ao leitor e por vezes ao próprio autor. Neste romance, Loyola Brandão não cria só um viajante, ele cria um "cantautor" de festivais de música, fitura bastante popular nos anos 1980 no qual o romance foi publicado. Por meio da jornada do "Ganhador" de etapa e etapa de um festival de música popular nos grotões do Brasil, Loyola vai descerrando a onírica hiperrealidade do que o jargão esquerdista costuma denominar "o Brasil profundo". A começar pelo protagonista, que acompanha seus versos ao violão embora não tenha um braço. Enquanto viaja com uma canção que, acredita, finalmente vai transformá-lo num compositor de sucesso, o músico encontra figuras e cenários que o humor do autor esboça com as tintas do exagero. Em suas andanças, o protagonista topa com a inauguração, em um praça do interior, de um "monumento ao filho-da-puta", em homenagem à classe política nacional – e que quase é embargada por um abaixo-assinado impetrado por prostitutas que não querem ser associadas á categoria. Ou encontra um "justiceiro sanitário", um maluco que impõe violentos castigos físicos aos que costumam depredar banheiros públicos. Ao mesmo tempo, Loyola também brinca com a estrutura do thriller, ao fazer do "ganhador" alvo de dois diferentes algozes: um fanático religioso cuja ligação com o personagem vai aos poucos sendo conhecida e um outro compositor, mais jovem, disposto a dar o troco por uma sacanagem do passado. Na época em que li, com uns 15 anos, confesso que ele me impressionou também por se tratar provavelmente de uma das poucas obras de um escritor de âmbito nacional a mencionar, ainda que muito de passagem, a minha cidade natal. Quando foi publicado, em 1987, tinha o nome de O Ganhador, mas depois o título mudou, em edições do início da década pela editora Global, para A Noite Inclinada.
Algúem que anda por aí, de Julio Cortázar
Esta coletânea de 11 histórias de Cortázar não pode de modo algum ser incluída entre as, digamos, três melhores coletâneas de contos que o autor escreveu – Histórias de Cronópios e Famas, Bestiário e Todos os Fogos o Fogo ocupariam as posições dessa lista, na minha opinião. Também não é o livro com os contos mais inventivos do ponto de vista formal ou temático, antes é uma reiteração de coisas que Cortázar já vinha fazendo no melhor da sua ficção há duas décadas (o livro é de 1977). Ainda assim, tenho especial apreço, um carinho solidário com esta seleção de histórias do mestre do conto – e talvez esse afeto nasça justamente dessa aura de "obra menor" que o livro tem para parte da crítica. Não há uma unidade temática como os contos de ...Famas e Bestiário, as histórias são heterogêneas. Há incursões no horror, como Reunião com um Círculo Vermelho, no qual o narrador, ao entrar em um sombrio e sinistro restaurante alemão, convence-se de que o lugar é um covil de vampiros, mas demora-se a pagar a conta e a sair do lugar porque, depois de lá entrar, viu uma mulher aparentemente indefesa também ingressar no restaurante. Há histórias que flertam com gêneros popularescos como a história de espionagem, como A Noite de Mantequilla, na qual um revolucionário encontra um contato nas arquibancadas de um ginásio em Paris no qual está se realizando uma luta de boxe entre o lutador argentino Monzón e o mexicano Mantequilla. Há os relatos que fundem dois planos de realidade, tão característicos de Cortázar – que já fizera maravilhas semelhantes em Todos os Fogos o Fogo –, como O Nome de Boby, no qual a narradora descobre que a irmã trata o filho com crueldade em seus sonhos, com reflexos na vida real. Há uma experiência formal inusitada em A Barca: ou Nova Visita a Veneza, no qual Cortázar aproveita um conto que havia escrito vinte anos antes e deixado de lado por considerá-lo insatisfatório e acrescenta uma segunda voz narrativa, dando um novo significado à relação de amizade entre as duas protagonistas, duas moças em férias na Itália. E há o conto muito bonito e muito triste que abre o volume, Câmbio de Luzes - na real meu exemplar é em espanhol, então não me lembro se na tradução ficou assim, a edição em português que eu tinha, da Nova Fronteira, emprestei para uma amiga do jornal em 2002 e um dia ela se mudou para Brasília sem me devolver, e hoje já não somos mais amigos, e por isso nunca pedi de volta. Na história um melancólico ator de radionovelas, especializado em papéis de vilão, inicia um romance com uma admiradora que, apaixonada por sua voz no rádio, lhe escreve uma carta. À medida que a relação se desenrola, o ator vai se empenhando em impor à jovem a ideia que ele faz dela, querendo transformá-la na mulher de seus sonhos. Até que descobre que ele talvez não seja o homem que ela sonhava que fosse enquanto ouvi sua voz no rádio.
Claro que, como há muito de pessoal e intransferível na experiência da leitura, é provável que o gentil leitor aí já tenha lido algum desses livros, ou todos, e não tenha achado nada disso. Bom, acho que é do jogo.
O que andam dizendo