Começa amanhã a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) – um evento que, em termos de literatura, funciona muito como o bom e velho churrasco: o que vale é a gritaria, a saber: badalação, glamour, o sarau do imperador, o cenário charmoso, etc, uma lista na qual por vezes os livros ficam por último.. Para dar uma esquentada no clima antes da festividade e contrariar um pouco essa lógica, este blog vai ao centro, em tese, de tudo, o livro, e compartilha com vocês hoje trechos das obras que alguns autores presentes em Paraty vêm autografar no Brasil:
De Fogo Amigo, de A.B. Yehoshua (Companhia das Letras, tradução de Davy Bogomoletz):
"Desta vez ela encosta a cabeça na janela, como se fosse o ombro de um cônjuge, e observa com atenção o mundo que viaja abaixo dela. O avião tem motores a hélice novos, mas não é muito grande; num sussurro agradável e confiante desliza pelas somberas da noite numa altitude não muito elevada, a ponto de ser possível distinguir não somente as curvas de um rio e o desenho de um pequeno lago, mas até mesmo as luzes das casas, e aqui e ali inclusive o fogo de uma fogueira. O orgulho pelo voo que não foi perdido a deixa alerta e focada de um mudo ao qual não está acostumada. Ela pega então seu passaporte, examina os documentos dobrados dentro da capa e depois o folheia, página após página, como se fosse um pequeno livro de rezas.
No assento a seu lado está um inglês idoso, um pouco azulado, de cabelos brandos e corpo pesado, na frente do qual a aeromoça põe o que já é o terceiro uísque. Mas Daniela não o teme. O voo é curto, e o homem lhe parece sólido e lúcido, aparentemente a examina com uma amabilidade disfarçada. Sim, apesar de sua idade, ela tem plena consciência da radiação feminina que seu corpo ainda exala. Se ela dirigisse ao homem algumas perguntas em seu inglês impecável e o estimulasse a falar de si mesmo, é possível que ele se apaixonasse por ela antes de aterrissarem, Mas ela se volta para a janela, porque a estensão africana iluminada pela luz da lua é o que agora atrai sua alma."
De Deixe o Grande Mundo Girar, de Colum McCann (Record, Tradução de Maria José Silveira):
"Aqueles que o viram silenciaram. Na Church Street. Liberty. Cortlandt. West Street. Fulton. Vesey. Era um silêncio que escutava a si mesmo, solene e bonito. Alguns pensaram a princípio que devia ser um truque de luz, algo a ver com o clima, algum jogo de sombras. Outros imaginaram que talvez fosse a pegadinha urbana perfeita — fique parado e aponte para cima, até as pessoas se juntarem, inclinarem a cabeça, assentirem, afirmarem, até todos estarem olhando para cima para absolutamente nada, como se esperando pelo final de um esquete de Lenny Bruce. Porém, quanto mais olhavam, mais certeza tinham. Ele estava de pé exatamente na beirada do edifício, sua forma escura contra a manhã cinzenta. Talvez um lavador de janelas. Ou um operário da construção. Ou alguém que iria se jogar.
Lá em cima, a 110 andares de altura, absolutamente parado, um boneco escuro contra o céu nublado.
Ele podia ser visto apenas de certos ângulos, de modo que os observadores tinham que parar nas esquinas das ruas, encontrar uma brecha entre os prédios ou serpear pelas sombras para conseguir uam visão desobstruída pelas cornijas, gárgulas, balaustradas, pontas dos telhados. Nenhum deles tinha ainda conseguido compreender a linha esticada a seus pés de uma torre a outra. Sem dúvida, era a forma humana que os segurava ali, pescoços esticados, dilacerados entre a promessa do destino e o desapontamento do ordinário.
Era o dilema dos observadores: ele não queriam ficar esperando por nada, algum idiota de pé no precipício das torres, mas tampouco queriam perder o momento, caso ele escorregasse, ou fosse preso, ou mergulhasse, braços estendidos."
De Luka e o Fogo da Vida, de Salman Rushdie (Companhia das Letras, Tradução de José Rubens Siqueira)
"Luka assombrou as pessoas pela primeira vez ao nascer, porque seu irmão, Haroun, já estava com dezoito anos quando sua mãe, Soraya, aos quarenta e um de idade, deu à luz um segundo belo menino. Seu marido, Rashid, ficou até sem fala, e assim, como sempre, encontrou palavras demais. Na ala do hospital em que estava Soraya, ele carregou o filho recém-nascido, aninhou-o delicadamente nos braços e o bombardeou com perguntas sem sentido. "Quem diria, hein? De onde você veio, malandro? Como chegou aqui? O que tem a dizer: Qual é o seu nome? O que vai ser quando crescer? O que você quer?" Tinha uma pergunta pra Soraya também. "Na sua idade", ele se deslumbrou, sacudindo a cabeça, que estava ficando careca. "O que significa uma maravilha destas?" Rashid tinha cinquenta anos quando Luka apareceu, mas naquele momento falava como qualquer pai jovem, inexperiente, perplexo com a chegada da responsabilidade e até um pouco assustado.
Soraya pegou o bebê de volta e acalmou o pai. "O nome dele é Luka", ela disse, "e esta maravilha significa que parece que nós trouxemos ao mundo um sujeito capaz de fazer o próprio Tempo voltar atrás, de fazer o Tempo correr para o lado errado e nos deixar moços de novo."
Soraya sabia do que estava falando. À medida que Luka crescia, seu pais pareciam ficar mais moços. Quando o bebê Luka sentou sozinho pela primeira vez, por exemplo, seus pais não conseguiam ficar sentados quietos. Quando ele começou a engatinhar, eles saltavam para cima e para baixo como coelhos assanhados. Quando ele andou, os dois deram pulos de alegria. E quando falou pela primeira vez, bom, a impressão que se tinha era de que toda a legendária Torrente de Palavras tinha começado a jorrar da boca de Rashid e que ele não ia parar nunca mais de elogiar o grande feito do filho."
De Nunca Fui Primeira-Dama, de Wendy Guerra (Benvirá, Tradução de Josely Vianna)
"No ar, com vocês, a filha de todos, transmitindo do país de ninguém.
Sou Nádia Guerra, e pela primeira vez vou lhes dizer, com o microfone aberto, tudo o que penso, tudo o que senti em cada uma das manhãs de minha vida durante todos esse anos enquanto saudava a bandeira e cantava o Hino Nacional, tudo aquilo que não me atrevi a dizer até este minuto. Escutem o que vou lhes contar agora neste meu programa de rádio, ao viovo, abrigada na penumbra desta cabine hermética.
Pertenço a uma zona de intimidade que me faz humana, não divina. Sou uma artista, não uma heroína contemporânea, odeio essa desproporção, não quero que esperem que eu seja o que não sou. Não devo mais aos mártiers do que aos meus pais, à minha resistência, à minha própria história pessoal ancorada aqui em minha simples vida cubana.
Não posso continuar tentando ser como Che, nem herdar a pureza de Camilo, nem ter a valentia de Maceo, o arrojo de Agramonte, a coragem de Mariana Grajales, o espírito errante e criativo de Martí, o silêncio estoico de Celia Sánchez; minha proeza é singela: sobreviver nesta ilha, evitar o suicídio, suportar a culpa de minhas dívidas, o acaso de estar viva, e desligar-me definitivamente desses persistentes nomes de guerra e de paz.
Não quero ser a mártir dos mártires, de suas epopeias e de sua grande épica. Diante das estátuas dos heróis, pensei que minha morte deveria ser simples, minuciosa, cuidada, discreta."
De Tempestades Comuns, de William Boyd (Rocco, tradução de Paulo Reis e Sergio Moraes Rego)
"Vamos começar pelo rio — tudo começa com o rio, e provavelmente terminaremos nele, sem dúvida — mas vamos esperar e ver com as coisas se desenrolam. Dentro em pouco, um minuto ou dois, um jovem vai chegar e para à margem do rio, aqui na ponte Chelsea, em Londres.
Ali está ele — vejam — descendo hesitante de um táxi, pagando ao motorista, olhando ao redor, despreocupadamente, relanceando a água brilhante (é maré cheia e o nível da água está inusitadamente alto). É um jovem alto, de rosto pálido, trinta e poucos anos, feições serenas e olhos cansados, o cabelo escuro e curto elegantemente aparado, com se houvesse saído há pouco do barbeiro. Ele é novo na cidade, um estranho, e seu nome é Adam Kindred. Acabou de ser entrevistado para um emprego e sente vontade de ver o rio (a entrevista foi tensa, como semper), muita coisa em jogo), reagindo a um vago desejo de "pegar um pouco de ar". A entrevista recente explica por que, debaixo do caro impermeável, ele usa um terno cinza-chumbo, uma gravata marrom-avermelhada com uma camisa branca nova; também explica por que carrega consigo uma lizidia maleta preta, com pesados fechos dourados e remates nos cantos. Ele atravessa a rua, sem saber como sua vida está prestes a mudar nas próximas horas — de forma extraordinária e irrevogável — não tem a mínima ideia disso.
E, em homenagem ao grande furão da Flip, Lou Reed, deixo abaixo um trechinho do livro Atravessar o fogo, que a Companhia lançou para aproveitar a vinda ao Brasil do artista que não veio. O volume, com o mesmo padrão da elogiada coleção de contos que inclui Rubem Fonseca, Guy de Maupassant e Truman Capote, traz 3410 letras de Lou Reed traduzidas por Christian Schwartz e Caetano Galindo (com as respectivas letras originais no fim do volume). Diz aí, Lou, o senhor não veio por quê?
"Tem quem goste de vinho e tem quem goste de cerva
Mas o que eu realmente amo é o meu uísque
É o poder, o poder do embebedamento positivo
Algumas pessoas estragam seus drinques com gelo
E depois vêm pedir conselho
Dizem pra você: nunca contei isso pra ninguém
Elas dizem: coca é fino, mas é a bebida que faz o frasista
E não gosto de coqueteizinhos, beber de golinhos ou bêbados lamurientos.
Sabe, você precisa ter muito cuidado
Com os bares que frequenta hoje em dia
E aí tem gente que bebe pra soltar a libido
E outros que bebem pra inflar seu ego."
De The Power of Positive Drinking, traduzida como O Poder do Embebedamento Positivo.
O que andam dizendo