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Posts de agosto 2010

Os 10 do Portugal Telecom

31 de agosto de 2010 1

A organização do Prêmio Portugal Telecom divulgou agora há pouco, no Consulado Geral de Portugal em São Paulo, os 10 finalistas do certame, escolhidos pelo júri intermediário para concorrer na última etapa aos R$ 100 milhões da premiação. O grande vencedor será conhecido no dia 8 de novembro. Os finalistas são (já com link para textos anteriores aqui no blog sobre o livro, quando é o caso):

* A Passagem Tensa dos Corpos, de Carlos de Brito Mello (Companhia),
* Avó Dezanove e o Segredo do Soviético, de Ondjaki (Companhia)
* Caim, de José Saramago (Companhia)
* Lar, de Armando Freitas Filho (Companhia)
* Leite Derramado, de Chico Buarque (Companhia)
* Monodrama, de Carlito Azevedo (7Letras)
* O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho (Companhia)
* Olhos Secos, de Bernardo Ajzenberg (Rocco)
* Outra Vida, de Rodrigo Lacerda (Alfaguara/Objetiva)
* Pornopopeia, de Reinaldo Moraes (Objetiva)

De cara, nota-se na lista:

– A coincidência parcial entre os finalistas do Portugal Telecom e do Prêmio São Paulo de Literatura: os livros de Chico Buarque, Bernardo Carvalho, Rodrigo Lacerda, Reinaldo Moraes e Ondjaki também figuravam na lista de veteranos do Prêmio SP de 2010, e Carlos de Brito Mello foi indicado entre os estreantes. São seis finalistas coincidentes em 10 – e lembrando que no São Paulo só concorrem romances, enquanto no Portugal Telecom temos na lista de finalistas os livros de poesia de Armando Freitas Filho e de Carlito Azevedo. Mas isso também não quer dizer nada. O livro que venceu o Prêmio SP na relação dos veteranos, A Minha Alma é Irmã de Deus, de Raimundo Carrero, não figura entre os finalistas do Portugal Telecom.

– A predominância da Companhia das Letras (são seis livros em 10)

– O fato de que só há homens na lista – algo que já havia se repetido na lista de autores já estabelecidos do Prêmio SP.

– A completa ausência do conto na relação dos 10 melhores – embora houvesse exemplares do gênero na lista anterior, a dos 50 semifinalistas.

Falando sobre maternidade

31 de agosto de 2010 2

Lionel Shriver e Patrícia Melo compuseram uma das melhores e menos badaladas mesas da última Flip (acima, em foto de Walter Craveiro/Divulgação), em Parati. Questionada sobre a razão de não ter tido filhos, Lionel respondeu apenas:

“I wrote myself out of it.”

A expressão – algo como “me convenci a sair dessa escrevendo” – sintetiza bem o tom de Precisamos Falar Sobre o Kevin. Patrícia, que contou ter escrito seu primeiro romance com um bebê engatinhando entre as pernas, fez eco a Lionel e descreveu a desconfortável “imposição do altruísmo” que toda mãe sofre. Ou seja: futuras mamães, pensem bem antes de ler …Kevin. Você pode ser convencida a sair dessa, como indica a resenha do livro, publicada na época da sua edição no Brasil, e que reproduzimos logo abaixo:

Precisamos falar sobre a maternidade
Livro narra, sob o olhar da mãe, a saga de um garoto assassino

O ditado de que não se julga um livro pela capa nunca esteve tão errado. A figura macabra de um adolescente com cabeça de felino é retrato fiel e hipnotizante do personagem central de Precisamos Falar sobre o Kevin (Intrínseca, 464 páginas, R$ 49,90). A ficção de Lionel Shriver gira em torno de uma chacina cada vez mais comum em escolas americanas, mas com a lucidez que falta aos noticiários ao analisar o tema.

A abordagem sensata de um assunto tão espinhoso – a ponto de o livro ter sido recusado por 25 editoras – vem por cartas da narradora, Eva Khatchadourian, a seu ex-marido, Franklin, em meio ao dia-a-dia de quem tenta reconstruir a vida das cinzas. Esporadicamente, Eva quebra a rotina com visitas à penitenciária juvenil onde seu filho de 16 anos, Kevin, cumpre pena após assassinar sete colegas, uma professora e um funcionário de sua escola.

Como toda a sociedade americana, Eva é tomada pela ânsia de encontrar porquês e culpados após a barbárie, e é com a honestidade de quem não tem nada a perder que ela faz uma minuciosa revisão de 15 anos convivendo com aquele “país estrangeiro em casa”, que viria a se tornar um assassino.

Enquanto o pai via o garoto como a resposta para “a grande questão”, como o sentido da vida, Eva, desde o momento em que o bebê rejeita seu seio cheio de leite, percebe que ele nunca quis responder a questão alguma. Começa aí um duelo de rejeição entre mãe e filho, permeado pela preocupação de Eva com a personalidade cruel de Kevin.

Somente entre 1997 e 1998, houve 42 assassinatos em escolas americanas. Seria, portanto, impossível dar verossimilhança a um livro sobre o tema sem citar casos reais. Eva relembra desde o primeiro deles, cometido na Califórnia, em 1979, por Brenda Spencer, até o célebre massacre de Columbine, em 20 de abril de 1999.

Na cronologia do livro, Columbine acontece apenas 12 dias após os crimes cometidos por Kevin, que classifica os assassinos reais Eric Harris e Dylan Klebold como “trouxas que acabam com a reputação dos massacres”. A mãe identifica certo ressentimento pelo filho ter tido o número de baixas superado pela dupla, que matou 15 pessoas.

O livro decepciona quem busca um relato sobre o perigo da ausência dos pais na criação dos filhos, dos videogames violentos, do acesso a armas de fogo e do bullying – palavra da moda que define a secular intimidação entre colegas de escola. Kevin – com seus traços belos, roupas curtas e trejeitos dissimulados frente aos mimos do pai – é um assassino mais complexo do que um mero adolescente excluído, de forma que todos os clichês sobre o tema caem ao longo da narrativa.

Olhando sobretudo para si mesma, Eva tenta responder a questões muito mais complexas: é possível uma pessoa nascer genuinamente má? Uma mãe pode odiar um filho desde o seu nascimento? Mas não se trata de um bom livro de respostas. Até mesmo as explicações que Eva consegue tatear ao longo da narrativa se esvaem no capítulo derradeiro. O final de Precisamos Falar sobre o Kevin é o melhor exemplo de sua tônica: uma obra brilhantemente escrita que, quanto menos responde às suas angústias, mais fascinante fica.

Texto de Cauê Fonseca

Voltamos

31 de agosto de 2010 0

Saudações, bugrada. Estamos de volta. Não chorem mais, não se martirizem nem ameacem um levante por nossa ausência. As postagens do Mundo Livro retomam seu ritmo regular.

Ah, você não tinha nem reparado? Bá, assim a gente magoa.

Bauman e o Capitalismo

12 de agosto de 2010 3

“O capitalismo, exatamente como os sistemas de números naturais do famoso teorema de Kurt Gödel (embora por razões diversas) não pode ser simultaneamente coerente e completo. Se é coerente com seus princípios, surgem problemas, não pode fazê-lo sem cair na incoerência em relação a seus próprios pressupostos fundamentais.
Muito antes que Gödel redigisse seu teorema, Rosa Luxemburgo já havia escrito seu estudo sobre a ‘acumulação capitalista’, no qual sustentava que esse sistema não pode sobreviver sem as economias ‘não capitalistas’: ele só é capaz de avançar seguindo os próprios princípios se existirem ‘terras virgens’ abertas à expansão e à exploração — embora, ao conquistá-las e explorá-las, ele as prive de sua virgindade pré-capitalista, exaurindo assim as fontes de sua própria alimentação.
Sem meias palavras, o capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento. Mas não pode fazer isso sem prejudicar o hospedeiro, destruindo assim, cedo ou tarde, as condições de sua prosperidade ou mesmo de sua sobrevivência.
Escrevendo na época do capitalismo ascendente e da conquista territorial, Rosa Luxemburgo não previa nem podia prever que os territórios pré-modernos de continentes exóticos não eram os únicos “hospedeiros” potenciais, dos quais o capitalismo poderia se nutrir para prolongar a própria existência e gerar uma série de períodos de prosperidade.
Hoje, quase um século depois de Rosa Luxemburgo ter divulgado sua intuição, sabemos que a força do capitalismo está na extraordinária engenhosidade com que as espécies anteriormente exploradas se tornam escassas ou se extinguem. E também no oportunismo e na rapidez, dignos de um vírus, com que se adapta a idiossincrassias de seus novos pastos.”

De Vida a Crédito, mais recente obra de Zygmunt Bauman a aportar nas livrarias brasileiras, pela Jorge Zahar (tradução de Alexandre Werneck, 252 páginas) . Bauman é um intelectual pop – a ponto de ter 21 outros livros já publicados no Brasil pela mesma editora, uma aposta que uma casa publicadora brasileira só costuma fazer em autores de não ficção que tenham especiais prestígio ou popularidade (ou ambos). O livro não é um dos ensaios ou estudos de Bauman, como a série “Líquida” iniciada com Modernidade Líquida e desdobrada depois em Amor Líquido, Vida Líquida, Tempos Líquidos, Medo Líquido (imagino que em breve Bauman deva concluir a série com a publicação de Água Líquida). Vida a Crédito é a reunião de diversas entrevistas concedidas à jornalista mexicana Citlali Rovirosa-Madrazo — embora essa informação só conste da folha da rosto. Pela capa e pela lombada, o livro poderia muito bem ser outra das obras solo de Bauman. Nas conversas, Bauman analisa a economia (em especial a recente crise do crédito de 2008), o papel do Estado nas atuais democracias, a transformação de uma grande massa da população mundial em “refugo humano” indesejado, os dogmas ideológicos e religiosos do século 21, questões de utopia. Nada que o próprio pensador não tenha escrito por si próprio em livros como Modernidade Líquida, Vida para Consumo, Capitalismo Parasitário ou O Mal-Estar da Pós-Modernidade. O livro funciona mais como uma grande entrevista, um balanço direcionado que Bauman faz da própria obra – embora, como costuma ser comum em livros envolvendo diálogos desse tipo (vide as entrevistas de David Barsamian com Edward Said), a contribuição do “entrevistador/provocador” seja oscilante, uma vez que Citlali elabora questões e comentários prolixos e pouco objetivos.

Uma ideia teimosa

11 de agosto de 2010 1

É difícil se desfazer de uma ideia, por mais exótica que ela seja. Que o diga o escritor americano William C. Gordon, que demorou três livros para finalmente concretizar um desejo que tinha desde a primeira vez que se lançou à escrita de um romance: criar uma trama na qual um anão lascivo fosse figura de destaque.

O próprio Gordon contou a história durante passagem por Porto Alegre em 2008 para participar da Feira do Livro, em uma mesa sobre literatura de crime que contava também com o inglês Peter Robinson (e que era mediada, informo, se os leitores perdoam o cabotinismo, por este que vos escreve). Gordon, um sujeito simpático e de bom papo. contou que sempre achara que a história da própria vida, a de um self-made man aventureiro aos moldes clássicos americanos, era rica o bastante para render um romance. Mas a esposa de Gordon, a escritora chilena Isabel Allende, sacou primeiro e usou a história do marido em um de seus romances. Aí Gordon teve a ideia de criar um romance policial protagonizado por um anão viciado em sexo. Escreveu algo que, segundo ele, era tão ruim que foi destroçado pela crítica impiedosa de Isabel – e não é tão gratuito ou apelativo que esta resenha bata tanto na tecla de que Gordon é o marido de Isabel Allende, já que a própria editora do autor no Brasil faz questão de apresentar esse dado como parte de sua biografia oficial na orelha do livro (e eu duvido, embora não possa bater o martelo sobre isso, que na minibio na orelha dos livros de Isabel Allende ela seja identificada com “é casada com o escritor William C. Gordon“).

Mas retornemos. Privado da própria biografia como matéria ficcional, Gordon então voltou-se para suas próprias memórias do período como advogado e dono de bar na São Francisco dos anos 1960 e escreveu o romance policial O Rei da Sarjeta, que seria seguido mais tarde por O Mistério dos Jarros Chineses (ambos com edição no Brasil pela Record). E o tempo todo sentia-se perseguido pela ideia de usar o anão lascivo na história – falava tanto disso em entrevistas que a própria Isabel Allende, de baixa estatura, começou, por brincadeira, a explicar que seu marido estava escrevendo um romance sobre um “oversexed dwarf”, e que ela seria o próprio “oversexed dwarf” (uma piada que só funciona em inglês, língua na qual a maioria dos substantivos não tem marcações de gênero). Até que Gordon conseguiu criar uma trama na qual se encaixasse um anão lascivo, e o resultado é este O Anão, terceiro romance do autor, cuja edição está sendo lançada agora no Brasil.

Gordon retorna ao ambiente e aos personagens que havia criado nos romances anteriores (em especial a São Francisco do início dos anos 1960 e o repórter investigativo Samuel Hamilton). A dona de bar cinquentona Melba Sundling, enquanto passeia com seu cachorro, encontra, em uma lata de lixo, um pedaço de carne humana serrado e descartado. É um fragmento de uma perna, e a única pista a ser seguida é o saco de aniagem no qual o despojo humano estava enrolado. Uma pista que a polícia e o repórter seguirão até uma das muitas igrejas alternativas que florescem na Califórnia do período, A Igreja do Desdobramento Mental, uma seita cujo pastor é o anão mexicano Dusty Schwartz – o anão libertino daquela primeira ideia tão difícil para Gordon descartar. Como se a ideia de um pastor anão mexicano não fosse bizarra o bastante, o homúnculo ainda é assessorado em suas trampas por uma dominatrix de quase dois metros de altura que divide seu tempo entre chicotear e flagelar sujeitos profissionalmente e oferecer curas espirituais.

Assim como o anterior O Mistério dos Jarros Chineses (sobre o qual você pode ler uma resenha aqui no Mundo Livro) dava a Gordon a possibilidade de fazer seus personagens mergulharem no labirinto étnico de São Francisco explorando a fechada comunidade chinesa, em O Anão é a numerosa colônia hispânica o cenário da investigação conduzida por Hamilton em parceria com o policial Bruno Bernardi e a própria Melba que encontrou o embrulho fatal.

Gordon não é um romancista de primeira linha, mas se diverte fazendo o que faz, e essa diversão é transmitida na leitura a quem acompanha seus livros. Suas tramas têm humor e um olhar compassivo sobre a fervilhante São Francisco daqueles tempos. Ele não é o melhor romancista policial a escrever sobre a Califórnia – é quase impossível competir com James Ellroy nesse quesito, mas Gordon não faz muito melhor sequer que o Joseph Wambaugh de Divisão Hollywood. Gordon sequer é o melhor romancista a pôr um anão em um romance policial – não quando comparado à Grande Arte de Rubem Fonseca –, mas é um autor que vem evoluindo de livro para livro, e sabe retirar do humor e do absurdo as chaves para salvar um romance de investigação no qual muitas vezes a investigação em si é o ponto mais fraco de sua construção – como neste O Anão.

O bom é que Gordon finalmente se livrou de sua ideia.

Um aviso necessário

10 de agosto de 2010 1

Para quem estranhou o ritmo menos constante das atualizações nesta última semana, aviso que estava correndo para deixar prontas uma série de coisas que eu precisava pôr em ordem para sair de férias. Este seu blogueiro curte um merecido descanso até o dia 29 deste mês, e portanto o ritmo aqui do blog vai diminuir um pouquinho – embora não vá ser zerado de todo, portanto, não desistam da gente.

Abraço.

Convicções à prova

04 de agosto de 2010 1

Que convicções você seria capaz de manter diante de uma situação extrema? Essa é uma das muitas perguntas que o compositor Jerônimo Jardim (acima, em foto de Cynthia Vanzella) propõe em seu primeiro livro voltado ao público adulto: a novela In Extremis: Na Alça de Mira (Editora Alcance, 113 páginas, R$ 30), com sessão de autógrafos hoje, às 19h, na Livraria Cultura do Bourbon Country (Avenida Túlio de Rose, 80).

Jardim, 65 anos, é nome consagrado na seara da canção: venceu festivais como o MPB Shell — em 1981, com Purpurina, defendida por Lucinha Lins — e a Califórnia da Canção Nativa — em 1985, cantando Astro Haragano. A carreira literária foi exercitada em cinco livros infantis, entre eles Cri-Cri, o Grilo Gaudério e A Revolta dos Pincéis.

Recentemente, em meio a problemas de saúde, Jardim concluiu In Extremis, narrativa toda pontuada por conflitos de diferentes naturezas. Na história, um  jovem negro — desempregado e supostamente traído pela mulher — protagoniza um dia de fúria, no qual acaba reencontrando, na circunstância mais dramática possível, um velho amigo da infância vivida em um bairro de classe média de Porto Alegre. Racismo, desigualdade, criminalidade, pena de morte, futebol e até comportamento sexual são algumas das questões levantadas no texto, no qual o autor propõe muito mais reflexão do que entretenimento.

_ As pessoas evitam as situações polêmicas. Se não têm posição definida, acham que é perda de tempo. Mas, se fosse tempo perdido, não teríamos filosofia — analisa Jardim.

O autor conta que o ponto de partida do livro foi a impactante cena final, em que um ato de violência extrema coloca em xeque as ideias dos personagens principais. Reescrito em pelo menos oito versões, o texto trouxe para Jardim desafios semelhantes ao da criação de canções.

— Na letra de música, tu pegas um tema e particulariza aquela emoção. Na literatura, tu passas a ser o contador de histórias, exige mais lapidação. Mas a prosa tem uma música. Tem ritmo, acentuação. Tem que ter essa graça, essa leveza. É, também, uma canção — compara o autor.

Texto de Luís Bissigo

Trechos para a Flip

03 de agosto de 2010 1

Começa amanhã a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) – um evento que, em termos de literatura, funciona muito como o bom e velho churrasco: o que vale é a gritaria, a saber: badalação, glamour, o sarau do imperador, o cenário charmoso, etc, uma lista na qual por vezes os livros ficam por último.. Para dar uma esquentada no clima antes da festividade e contrariar um pouco essa lógica, este blog vai ao centro, em tese, de tudo, o livro, e compartilha com vocês hoje trechos das obras que alguns autores presentes em Paraty vêm autografar no Brasil:

De Fogo Amigo, de A.B. Yehoshua (Companhia das Letras, tradução de Davy Bogomoletz):
“Desta vez ela encosta a cabeça na janela, como se fosse o ombro de um cônjuge, e observa com atenção o mundo que viaja abaixo dela. O avião tem motores a hélice novos, mas não é muito grande; num sussurro agradável e confiante desliza pelas somberas da noite numa altitude não muito elevada, a ponto de ser possível distinguir não somente as curvas de um rio e o desenho de um pequeno lago, mas até mesmo as luzes das casas, e aqui e ali inclusive o fogo de uma fogueira. O orgulho pelo voo que não foi perdido a deixa alerta e focada de um mudo ao qual não está acostumada. Ela pega então seu passaporte, examina os documentos dobrados dentro da capa e depois o folheia, página após página, como se fosse um pequeno livro de rezas.
No assento a seu lado está um inglês idoso, um pouco azulado, de cabelos brandos e corpo pesado, na frente do qual a aeromoça põe o que já é o terceiro uísque. Mas Daniela não o teme. O voo é curto, e o homem lhe parece sólido e lúcido, aparentemente a examina com uma amabilidade disfarçada. Sim, apesar de sua idade, ela tem plena consciência da radiação feminina que seu corpo ainda exala. Se ela dirigisse ao homem algumas perguntas em seu inglês impecável e o estimulasse a falar de si mesmo, é possível que ele se apaixonasse por ela antes de aterrissarem, Mas ela se volta para a janela, porque a estensão africana iluminada pela luz da lua é o que agora atrai sua alma.”

De Deixe o Grande Mundo Girar, de Colum McCann (Record, Tradução de Maria José Silveira):
“Aqueles que o viram silenciaram. Na Church Street. Liberty. Cortlandt. West Street. Fulton. Vesey. Era um silêncio que escutava a si mesmo, solene e bonito. Alguns pensaram a princípio que devia ser um truque de luz, algo a ver com o clima, algum jogo de sombras. Outros imaginaram que talvez fosse a pegadinha urbana perfeita — fique parado e aponte para cima, até as pessoas se juntarem, inclinarem a cabeça, assentirem, afirmarem, até todos estarem olhando para cima para absolutamente nada, como se esperando pelo final de um esquete de Lenny Bruce. Porém, quanto mais olhavam, mais certeza tinham. Ele estava de pé exatamente na beirada do edifício, sua forma escura contra a manhã cinzenta. Talvez um lavador de janelas. Ou um operário da construção. Ou alguém que iria se jogar.
Lá em cima, a 110 andares de altura, absolutamente parado, um boneco escuro contra o céu nublado.
Ele podia ser visto apenas de certos ângulos, de modo que os observadores tinham que parar nas esquinas das ruas, encontrar uma brecha entre os prédios ou serpear pelas sombras para conseguir uam visão desobstruída pelas cornijas, gárgulas, balaustradas, pontas dos telhados. Nenhum deles tinha ainda conseguido compreender a linha esticada a seus pés de uma torre a outra. Sem dúvida, era a forma humana que os segurava ali, pescoços esticados, dilacerados entre a promessa do destino e o desapontamento do ordinário.
Era o dilema dos observadores: ele não queriam ficar esperando por nada, algum idiota de pé no precipício das torres, mas tampouco queriam perder o momento, caso ele escorregasse, ou fosse preso, ou mergulhasse, braços estendidos.”

De Luka e o Fogo da Vida, de Salman Rushdie (Companhia das Letras, Tradução de José Rubens Siqueira)
“Luka assombrou as pessoas pela primeira vez ao nascer, porque seu irmão, Haroun, já estava com dezoito anos quando sua mãe, Soraya, aos quarenta e um de idade, deu à luz um segundo belo menino. Seu marido, Rashid, ficou até sem fala, e assim, como sempre, encontrou palavras demais. Na ala do hospital em que estava Soraya, ele carregou o filho recém-nascido, aninhou-o delicadamente nos braços e o bombardeou com perguntas sem sentido. “Quem diria, hein? De onde você veio, malandro? Como chegou aqui? O que tem a dizer: Qual é o seu nome? O que vai ser quando crescer? O que você quer?” Tinha uma pergunta pra Soraya também.  “Na sua idade”, ele se deslumbrou, sacudindo a cabeça, que estava ficando careca. “O que significa uma maravilha destas?” Rashid tinha cinquenta anos quando Luka apareceu, mas naquele momento falava como qualquer pai jovem, inexperiente, perplexo com a chegada da responsabilidade e até um pouco assustado.
Soraya pegou o bebê de volta e acalmou o pai. “O nome dele é Luka”, ela disse, “e esta maravilha significa que parece que nós trouxemos ao mundo um sujeito capaz de fazer o próprio Tempo voltar atrás, de fazer o Tempo correr para o lado errado e nos deixar moços de novo.”
Soraya sabia do que estava falando. À medida que Luka crescia, seu pais pareciam ficar mais moços. Quando o bebê Luka sentou sozinho pela primeira vez, por exemplo, seus pais não conseguiam ficar sentados quietos. Quando ele começou a engatinhar, eles saltavam para cima e para baixo como coelhos assanhados. Quando ele andou, os dois deram pulos de alegria. E quando falou pela primeira vez, bom, a impressão que se tinha era de que toda a legendária Torrente de Palavras tinha começado a jorrar da boca de Rashid e que ele não ia parar nunca mais de elogiar o grande feito do filho.”

De Nunca Fui Primeira-Dama, de Wendy Guerra (Benvirá, Tradução de Josely Vianna)
“No ar, com vocês, a filha de todos, transmitindo do país de ninguém.
Sou Nádia Guerra, e pela primeira vez vou lhes dizer, com o microfone aberto, tudo o que penso, tudo o que senti em cada uma das manhãs de minha vida durante todos esse anos enquanto saudava a bandeira e cantava o Hino Nacional, tudo aquilo que não me atrevi a dizer até este minuto. Escutem o que vou lhes contar agora neste meu programa de rádio, ao viovo, abrigada na penumbra desta cabine hermética.
Pertenço a uma zona de intimidade que me faz humana, não divina. Sou uma artista, não uma heroína contemporânea, odeio essa desproporção, não quero que esperem que eu seja o que não sou. Não devo mais aos mártiers do que aos meus pais, à minha resistência, à minha própria história pessoal ancorada aqui em minha simples vida cubana.
Não posso continuar tentando ser como Che, nem herdar a pureza de Camilo, nem ter a valentia de Maceo, o arrojo de Agramonte, a coragem de Mariana Grajales, o espírito errante e criativo de Martí, o silêncio estoico de Celia Sánchez; minha proeza é singela: sobreviver nesta ilha, evitar o suicídio, suportar a culpa de minhas dívidas, o acaso de estar viva, e desligar-me definitivamente desses persistentes nomes de guerra e de paz.
Não quero ser a mártir dos mártires, de suas epopeias e de sua grande épica. Diante das estátuas dos heróis, pensei que minha morte deveria ser simples, minuciosa, cuidada, discreta.”

De Tempestades Comuns, de William Boyd (Rocco, tradução de Paulo Reis e Sergio Moraes Rego)
“Vamos começar pelo rio — tudo começa com o rio, e provavelmente terminaremos nele, sem dúvida — mas vamos esperar e ver com as coisas se desenrolam. Dentro em pouco, um minuto ou dois, um jovem vai chegar e para à margem do rio, aqui na ponte Chelsea, em Londres.
Ali está ele — vejam — descendo hesitante de um táxi, pagando ao motorista, olhando ao redor, despreocupadamente, relanceando a água brilhante (é maré cheia e o nível da água está inusitadamente alto). É um jovem alto, de rosto pálido, trinta e poucos anos, feições serenas e olhos cansados, o cabelo escuro e curto elegantemente aparado, com se houvesse saído há pouco do barbeiro. Ele é novo na cidade, um estranho, e seu nome é Adam Kindred. Acabou de ser entrevistado para um emprego e sente vontade de ver o rio (a entrevista foi tensa, como semper), muita coisa em jogo), reagindo a um vago desejo de “pegar um pouco de ar”. A entrevista recente explica por que, debaixo do caro impermeável, ele usa um terno cinza-chumbo, uma gravata marrom-avermelhada com uma camisa branca nova; também explica por que carrega consigo uma lizidia maleta preta, com pesados fechos dourados e remates nos cantos. Ele atravessa a rua, sem saber como sua vida está prestes a mudar nas próximas horas — de forma extraordinária e irrevogável — não tem a mínima ideia disso.

E, em homenagem ao grande furão da Flip, Lou Reed, deixo abaixo um trechinho do livro Atravessar o fogo, que a Companhia lançou para aproveitar a vinda ao Brasil do artista que não veio. O volume, com o mesmo padrão da elogiada coleção de contos que inclui Rubem Fonseca, Guy de Maupassant e Truman Capote, traz 3410 letras de Lou Reed traduzidas por Christian Schwartz e Caetano Galindo (com as respectivas letras originais no fim do volume). Diz aí, Lou, o senhor não veio por quê?

“Tem quem goste de vinho e tem quem goste de cerva
Mas o que eu realmente amo é o meu uísque
É o poder, o poder do embebedamento positivo
Algumas pessoas estragam seus drinques com gelo
E depois vêm pedir conselho
Dizem pra você: nunca contei isso pra ninguém
Elas dizem: coca é fino, mas é a bebida que faz o frasista
E não gosto de coqueteizinhos, beber de golinhos ou bêbados lamurientos.
Sabe, você precisa ter muito cuidado
Com os bares que frequenta hoje em dia
E aí tem gente que bebe pra soltar a libido
E outros que bebem pra inflar seu ego.”
De The Power of Positive Drinking, traduzida como O Poder do Embebedamento Positivo.

O estreante do Prêmio São Paulo

02 de agosto de 2010 2

A organização do Prêmio São Paulo de Literatura anunciou agora há pouco os vencedores da edição 2010 do prêmio nas categorias estreante e autor veterano da premiação, que paga R$ 200 mil a cada um dos vencedores. Raimundo Carrero, pioneiro das oficinas literárias no Brasil, venceu como melhor romancista com A minha alma é irmã de Deus (Record, 154 páginas), enquanto o prêmio de melhor estreante foi para o jornalista Edney Silvestre, repórter da Rede Globo e apresentador do Espaço Aberto Literatura na GloboNews. O livro pelo qual Silvestre venceu a premiação, Se eu Fechar os Olhos Agora (Editora Record, 304 páginas), foi lançado no ano passado bem na época da Feira do Livro de Porto Alegre, e o jornalista veio à Capital para autografá-lo. Na época, este seu blogueiro aqui publicou a seguinte breve resenha do livro, que eu republico agora aproveitando o “gancho”, como se diz no jargão da categoria. O artigo saiu na coluna Rato de Livraria do Caderno da Feira no dia quatro de novembro de 2009:

O Aprendizado da Violência:

Os espectadores que já assistiram às entrevistas realizadas pelo jornalista Edney Silvestre com grandes nomes da arte literária – brasileira ou internacional – têm ciência do envolvimento do jornalista com a literatura e de sua qualidade de atento leitor. É essa última característica que se encontra em Se eu Fechar os Olhos Agora, primeiro romance de Silvestre. A própria cena de abertura não deve passar inadvertida. Em uma cidade pequena, em uma manhã de abril de 1961, dois adolescentes, Eduardo e Paulo, que haviam fugido do colégio depois de serem expulsos de sala de aula por um professor e encontram em um matagal próximo ao rio em que nadavam o corpo mutilado de uma mulher.

A violência da cena vai ressoar na mente do leitor com ecos claros da obra-prima de James Ellroy, Dália Negra. A mulher está de pernas abertas, o vestido levantado, o corpo perfurado a facadas, o seio direito arrancado. A partir daí, contudo, a toada de Silvestre, é diversa da do mestre do romance policial. Ele intercala tempos e vozes na condução da narrativa. Ora quem conta a história é uma voz em primeira pessoa que evoca a cena e o crime de algum ponto no futuro (talvez o nosso presente), ora uma voz narrativa interveniente em terceira pessoa dá conta de descrever as interações dos dois jovens com o mundo ao redor e com as consequências de seu achado brutal: uma breve experiência de coerção policial tentando fazê-los confessar, os problemas da relação deteriorada de ambos com suas respectivas famílias, as sequelas do primeiro contato com a violência. A prosa é refinada, por vezes cede ao floreio de um autor que se sabe dono de seus recursos, mas a construção trabalhada da trama e dos diálogos transforma o livro em um bom exemplar de estreia e de uma leitura surpreendente.

O milagre dos Andes

02 de agosto de 2010 6

Quem viu o filme Vivos, de 1993, conhece o episódio que ficou famoso como “o milagre dos Andes”. A produção reconstitui a dramática história de um grupo de rapazes que, perdidos após um acidente aéreo na cordilheira, em 1972, tiveram de comer a carne de amigos mortos para sobreviverem. O relato correu o mundo. Haveria, portanto, algo novo a ser contado 38 depois do desastre? É por isso que, quando surge um livro como A Sociedade da Neve, de Pablo Vierci (Cia das Letras, 391 páginas), é natural que a reação seja de desconfiança.

Pela primeira vez, todos os 16 sobreviventes contam o que se passou naqueles 72 dias de abandono. Alguns, incrivelmente, ainda mantinham silêncio absoluto desde então. Tentar descobrir seus motivos estimula a se ler os primeiros capítulos. É preciso lembrar que, por décadas, a história do drama nos Andes tem sido uma fonte de inspiração para pessoas perdidas em sofrimento. Muitos dos sobreviventes cruzam o mundo promovendo palestras sobre sua experiência, arrancando efusivos aplausos por onde passam, lotando ginásios e centros de convenções. Por quê? É isso o que se descobre em A Sociedade da Neve.
Pablo Vierci é mais um organizador do que autor do livro e começou a escrever sobre o acidente ainda em 1973. Foi colega de escola de alguns dos sobreviventes, o que lhe garantiu a proximidade para se aventurar no tema. Todos eram uruguaios do Old Christians Rugby Club, um time amador, formado por ex-alunos de um colégio irlandês dos Irmãos Cristãos de Montevidéu, que pretendia chegar ao Chile para uma disputa.

Mas o jogo que esse time teve de enfrentar estava fora dos planos de qualquer preleção do técnico. A quatro mil metros de altitude, pode-se dizer que “o grupo se fechou” diante da equipe adversária, a cordilheira dos Andes, a grande favorita (na foto ao lado, alguns dos sobreviventes fora do avião caído. Esta foto, outras imagens e notícias podem ser encontradas no site Viven). Surgiu diante da adversidade uma cumplicidade ímpar, que talvez desponte como a grande revelação do livro. Sem que precisassem pedir ou combinar nada, perceberam que deveriam se ajudar e deixar de lado orgulhos ou preconceitos para se abraçarem nas noites de – 30°C, esfregarem os pés uns dos outros para evitar o congelamento e até compartilhar o pouco calor do próprio hálito. Dividiram tarefas, estabeleceram revezamentos no uso das “melhores” partes da fuselagem para dormir, fundaram uma nova sociedade, da neve, da montanha.

A primeira diretriz, sobreviver a qualquer custo, foi uma decisão coletiva. A idéia de usar os corpos como alimento nasceu aos poucos diante da evidência de que não iriam sair daquela armadilha de gelo em pouco tempo. Um pedaço de vidro serviu para abrir a carne do primeiro cadáver. Poucos dias depois, descobriram que somente a carne não daria todos os nutrientes de que precisavam. Órgãos internos também integraram aquele cardápio sem alternativas. Cada um reagiu de forma diferente à quebra do tabu de comer carne humana. Para uns, foi como um gesto de amor e de partilha entre amigos. Fernando Parrado, por exemplo, usou o objetivo como motivação: reencontrar o pai. Houve ainda quem se sentiu melhor fazendo um juramento de entrega do próprio corpo em caso de morte. Hoje, ninguém se arrepende. Ao abraçarem os filhos e netos, reforçam a certeza de que fizeram o que era preciso.

Aliás, a família ocupa uma porção significativa dos corações na cordilheira. As passagens em que relatam a forma como se relacionavam com a lembrança de seus pais e namoradas, mesmo separados por milhares de quilômetros, conseguem fazer o leitor imaginar o que faria no mesmo lugar. Quando fechavam os olhos para um descanso frágil (quase não conseguiam dormir), imaginavam quem esperava por eles em algum lugar, talvez sentado em uma mesa diante de um lugar vazio.

Todos os 16 dão conta de uma conexão com a família além da razão e que mantinha a esperança de reencontro aquecida. Do outro lado, essa comunicação nutria quem insistia em buscar por jovens dados como mortos. Um exemplo de persistência foi o pintor Carlos Paez Vilaró, pai obstinado. No Chile, ficou conhecido como “o louco em busca de seu menino perdido”. Como conta Carlitos, seu pai consultava cartógrafos, videntes, cientistas e parapsicólogos em busca de mais rastros para perseguir.

Intercalando as lembranças dos sobreviventes com o relato cronológico do acidente, cria-se um revezamento de formas narrativas que torna A Sociedade da Neve uma leitura dinâmica. A cada capítulo narrando o episódio, muito bem escrito por Vierci, um autor respeitado no Uruguai, sucede-se um com depoimento em primeira pessoa. O livro começa, não por acaso, com Roberto Canessa (que mantém sua casa aberta para dar cama e comida a moradores de rua) e termina com Nando Parrado, que perdeu a mãe e a irmã na tragédia. Enquanto seus 14 amigos permaneceram nos restos do avião, Canessa e Parrado jogaram-se na impossível travessia da cordilheira, sem conhecimento de montanhismo ou equipamento. Insistiram em cortar as montanhas e superaram dez dias de caminhada.

Nando foi o motor dessa iniciativa, pois sua situação era singular. Foi o último a se dar conta que estava nos Andes, já que ficou três dias em coma logo após a queda e por pouco não foi deixado para morrer do lado de fora da fuselagem. Era o único que havia perdido familiares tão próximos, convivendo com o risco de ver seus corpos virarem alimento dentro de mais alguns dias. Ele não podia esperar. E quando finalmente encontrou socorro, acabou aceitando a missão de voltar em um dos helicópteros para mostrar onde estavam os sobreviventes, sob uma forte tempestade que quase derrubou a aeronave. Até hoje, não sabe explicar por que aceitou essa missão que quase o matou.

Todos tinham em torno de 20 anos de idade, sem praticamente conhecer o que era sofrimento, quando despencaram em um inferno de gelo. Quando tudo parecia perdido, emergiu daqueles estudantes uma força do mesmo tamanho da montanha em que colidiram. De onde surgiu ânimo para não enlouquecer ou se deixar morrer? Há 16 respostas no livro. Juntas, compõem uma mensagem bem mais duradoura do que a leitura, a de que cada um tem sua própria cordilheira para atravessar.

Texto de Leandro Rodrigues