O autor angolano Ondjaki em visita a Florianópolis em 2009. Foto de Glaicon Covre, DC
Uma das vozes mais aclamadas da literatura escrita em português no continente africano, o jovem autor Ondjaki renova em seu mais recente livro de contos, E se Amanhã o Medo (Língua Geral), uma relação amorosa e fraterna com o Brasil. O livro, dedicado ao brasileiro Raduan Nassar, incorpora boas doses de emoção sem açúcar ao lirismo no trato com a memória que o autor já havia apresentado nos anteriores Bom Dia, Camaradas e Os Da Minha Rua.
Publicado originalmente em 2005, E se Amanhã o Medo é o segundo livro de Ondjaki a chegar ao Brasil em menos de um ano – o anterior havia sido o romance Quantas Madrugadas tem a Noite, lançado no mercado nacional há alguns meses pela editora Leya. A diferença de cinco anos entre um livro e outro permite acompanhar também a maneira como o autor foi desenvolvendo sua voz literária, radicalizando procedimentos que já estavam lá desde a estreia: a frase que vai se alicerçar nas normas próprias da linguagem oral; a prosa que trata como equivalentes tanto o português do colonizador quanto o quimbundo das raízes, fazendo-os conviver na mesma sentença como se do mesmo idioma se tratassem. Também é um traço característico do autor — influência de Luandino Vieira e, ainda mais além, do brasileiro Guimarães Rosa — o uso de palavras inventadas, inusitadas inversões sintáticas e imagens desconcertantes, que deslocam o olhar do leitor fazendo-o rever poeticamente detalhes do cotidiano, em trechos como "O velho aproximou-se lentamente, chinelos inaugurando o chão da manhã" ou "a cara estava tão magra que os maxilares pareciam varandas" — ambos exemplos retirados dos contos de E se Amanhã o Medo.
Se o livro de contos ainda mostra uma dicção e um tratamento dos temas que oscila entre o poético e o narrativo, Quantas Madrugadas tem a Noite, narrativa mais recente e mais longa, dá-se o tempo de experimentar com uma prosa no limite do verso e da fala. Em um bar de Luanda, um contador de histórias, em meio a cervejas que vão e vem, vai narrando a seu silencioso interlocutor relações por vezes fantásticas entre uma série de personagens nos primeiros dias do Estado angolano independente - o professor albino Jaí, o anão BurkinaFaçam, o morto impaciente AdolfoDido e suas mulheres, disputando uma com a outra o direito de receber sua pensão, o menino de rua com uma perna defeituosa Pisa sem Gêto, que também já aparecia em um dos contos de E se Amanhã o Medo.
São situações aparentadas com o fantástico, como as que também se encontram nos contos de E Se Amanhã o Medo, ao lado de narrativas que se assemelham a observações líricas de uma determinada cena. Uma velha chega a uma determinada idade em que a velhice já não tem ação sobre ela, em A Velha. Um homem constrói um misto de jangada e bicicleta (uma janguicleta) para lançar-se ao mar em Jangada para Longe. Uma mulher deprimida, com o peito corroído pela melancolia, tem seu coração substituído por outro, de porco.
O afeto pelo Brasil, para onde Ondjaki viaja frequentemente e onde mantém grandes relações de amizade, está expresso não apenas na dedicatória do livro - Raduan Nassar é um dos autores a quem o volume é oferecido. A primeira narrativa, A Libélula, uma das melhores do livro, é a contida história de um encontro fortuito entre um médico e uma mulher que é atraída ao portão da casa do homem pela voz dolente de Adriana Calcanhoto, que o doutor estava a escutar:
— Sabe porquê que pedi água aqui na sua casa?
— Não.
— Por causa da música... Esta voz tão doce.
— Adriana.
— Como?
— Adriana Calcanhoto, cantora brasileira.
É um dos contos nos quais o mágico cede lugar a uma observação detalhista, miniatural. É a atmosfera formada pelos objetos de cena que constrói o cenário vivo no qual a trama, mais banal do que sublime, se desenrola rica de subtextos. E essa tensão entre o realismo lírico e o inusitado que perpassa todos os 20 contos do volume que faz da obra um retrato vivo da sociedade africana que Ondjaki aborda.

















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