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Sete perguntas no Sete de Setembro

07 de setembro de 2010 3

Laurentino Gomes no Monumento à Independência, em São Paulo. Foto Alexandre Battibugli, Divulgação

Como vocês puderam ler hoje na capa e na página 3 do Segundo Caderno de Zero Hora, abordamos o lançamento de 1822, livro no qual o jornalista Laurentino Gomes dá sequência ao best-seller 1808 – lançado em 2007 e vencedor do Jabuti de Não Ficção no ano seguinte –, que narra a vinda da corte portuguesa de Dom João VI para o Brasil. Como quem não matava aula de história no colégio deve ter percebido ao ver o nome da nova obra, 1822 aborda a jornada que culminou na Independência do Brasil, começada, de acordo com o autor, com a chegada de Dom João e a elevação da antiga colônia a metrópole. Tudo o que veio depois foi consequência desse primeiro e irreversível fato – como as famosas “cortes de Lisboa”, uma assembleia parlamentar unindo representantes do reino português e que tentaram reverter o Brasil a Colônia descobriram mais tarde. Laurentino também lembra que a ideia equivocada e muito disseminada de que a Independência brasileira se fez sem trauma e sem guerras não corresponde totalmente à verdade. Houve sim resistências e conflitos armados entre portugueses e brasileiros, em especial no Nordeste e na Cisplatina (hoje o Uruguai independente). A entrevista realizada com Laurentino Gomes por e-mail precisou ser editada para enquadrar-se nos limites do jornal de papel, mas aqui no blog vocês podem ler a íntegra, que vai abaixo:

Zero Hora – Em seu livro anterior, 1808, o senhor defendia que a vinda da corte portuguesa para a Colônia praticamente inventou o Brasil enquanto Estado e instituição. Que tipo de Brasil era o de 1822 em comparação com o de 1808?
Laurentino Gomes –
O Grito do Ipiranga foi conseqüência direta da fuga da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808. Ao transformar o Brasil de forma profunda e acelerada nos treze anos seguintes, D. João tornou a separação inevitável. Mas esse novo Brasil estava longe de ser uma entidade homogênea. Ao contrário. No seu retorno a Lisboa, em abril de 1821, D. João VI deixou para trás pelo menos dois brasis diferentes. De um lado, um país transformado pela permanência da corte nos trópicos, já com os pés no turbulento século 19, bem informado das novidades que redesenhavam o mundo na época. Esse era um Brasil muito pequeno, de alguns milhares de pessoas, que tinha seu epicentro no Rio de Janeiro. De outro, havia um território vasto, isolado e ignorante, não muito diferente do lugar selvagem e escassamente povoado que Pedro Álvares Cabral encontrara trezentos anos antes ao aportar na Bahia. Esses dois brasis conviviam de forma precária e se ignoravam mutuamente. Caberia ao príncipe D. Pedro e ao seu braço direito, José Bonifácio de Andrada e Silva, a tarefa de fazê-los caminhar juntos rumo à Independência.

ZH – A proclamação da Independência do Brasil já foi pintada, de acordo com o interesse ideológico, como o feito heróico que inventou o Brasil ou como a forma de uma corte enfraquecida preservar a estrutura aristocrática de sua sociedade evitando revoluções populares sangrentas. Como o senhor apresenta o gesto de Dom Pedro I?
Gomes –
A Independência é resultado mais de improvisação, sorte e acaso do que de planejamento e método. Ao contrário do que geralmente se imagina, o Grito do Ipiranga resultou menos da vontade dos brasileiros do que das divergências entre os próprios portugueses. Essa é uma tese do historiador Sérgio Buarque de Holanda. Segundo ela, a Independência brasileira foi produto de “uma guerra civil entre portugueses”, desencadeada pela Revolução Liberal do Porto de 1820 e pelos ressentimentos acumulados na antiga metrópole pelas decisões favoráveis ao Brasil adotadas por D. João. Prova disso é que, até as vésperas do Grito, eram raras as vozes entre os brasileiros que apoiavam a separação completa entre os dois países. A maioria defendia ainda a manutenção do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, na forma criada por D. João em 1815. Foram o radicalismo e a falta de sensibilidade política das cortes constituintes portuguesas que precipitaram a ruptura. Portanto, os brasileiros apenas se aproveitaram das fissuras abertas na antiga metrópole para executar um projeto que, a rigor, ainda não estava maduro. Coube ao herdeiro da coroa protagonizar a cena principal, nas margens do Ipiranga.

ZH – Seu livro 1808 apresentava Dom João mais como um estadista dissimulado do que a caricatura indecisa que passou para a história, muito pela propaganda republicada. Dom Pedro I também é associado a uma caricatura, a do monarca dissoluto, lúbrico e sedutor com gostos afins aos do povo. Essa imagem corresponde ao Dom Pedro histórico ou também foi em parte construída?
Gomes -
No livro eu escrevo que D. Pedro foi um meteoro que cruzou os céus da história numa noite turbulenta. Deixou para trás um rastro de luz que ainda hoje os estudiosos se esforçam por decifrar. Viveu pouco, apenas 35 anos, mas seu enigma permanece nos livros e nas obras populares que inspirou. Raros personagens passaram para a posteridade de forma tão controversa. Era uma força viva da natureza. Adorava cavalos e aventuras perigosas. Embora fosse abstêmio, passava as madrugadas na boemia com amigos de reputação duvidosa. Teve mais de vinte amantes e duas dezenas de filhos legítimos e ilegítimos. Era admirador de Napoleão Bonaparte, o homem que havia obrigado seu pai, D Pedro, a fugir de Portugal. Tinha um discurso liberal, mas uma índole autoritária. Fechou a constituinte em 1823 porque os deputados não se curvaram à sua vontade e, no ano seguinte, outorgou ao Brasil uma das constituições mais liberais e avançadas da época. Nasceu e morreu no mesmo quarto no Palácio de Queluz. Um quarto simbolicamente chamado “D. Quixote”. E não haveria local mais adequado para um personagem tão quixotesco quanto D. Pedro.

ZH – 1808 dava bastante destaque a um personagem secundário, o arquivista Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, apresentado como um símbolo do Brasil do período. Há um coadjuvante equivalente em 1822?
Gomes
- No livro existem vários personagens secundários e pouco conhecidos na História do Brasil. É o caso do médico, deputado e jornalista baiano Cipriano Barata, que passou a vida na cadeia por defender idéias políticas consideradas subversivas na época; ou do pernambucano Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, líder da Confederação do Equador, que terminou seus dias diante de um pelotão de fuzilamento no muro do Forte das Cinco Pontas no Recife. Mas o meu personagem secundário favorito é o almirante escocês Lord Alexander Thomas Cochrane, um herói maldito da Independência brasileira. No começo do século XIX, Cochrane era uma celebridade internacional. Como oficial da marinha britânica, tinha infernizado a vida de Napoleão Bonaparte no Mar Mediterrâneo. Eleito para o parlamento inglês, acabou preso depois de se envolver em um escândalo na bolsa de Londres. Fugiu da cadeia e, como era um marinheiro brilhante, foi contratado para expulsar os espanhóis do Chile e do Peru. De lá, veio para o Brasil para comandar a guerra contra os portugueses no Nordeste. Conseguiu expulsã-los, mas como D Pedro não pagou o que julgava merece, saqueou os habitantes de São Luis do Maranhão e roubou um navio brasileiro, a fragata Piranga, levada para a Inglaterra e só devolvida depois que as dívidas estavam pagas. Até hoje não foi perdoado por isso.

ZH – O senhor afirmava em 1808 que muitos dos problemas brasileiros contemporâneos nasceram com a chegada da Corte Portuguesa ao Brasil. É possível dizer o mesmo do tipo de independência que tivemos?
Gomes –
Em 1822, brasileiros  de norte a sul, pobres ou ricos, escravos ou senhores, se mobilizaram em torno do jovem príncipe regente D Pedro, herdeiro da coroa portuguesa, para romper os laços que até então ligavam a colônia à sua antiga metrópole. Foi um momento de grandes sonhos e muitos perigos. O Brasil tinha mais razões para dar errado do que dar certo. Os riscos de uma guerra civil, entre as províncias, ou étnica, entre escravos e brancos, eram enormes. O novo país nascia falido porque, ao voltar a Lisboa, D. João havia raspado os cofres. Faltavam soldados, navios, armas ou munições para enfrentar os portugueses na Guerra da Independência. Por uma notável combinação de sorte, acaso, improvisação – e também de alguma sabedoria – esse país que parecia improvável acabou se viabilizando. Mas logo o sentimento de euforia e patriotismo deu lugar à frustração e à revolta. O Brasil conseguiu fazer a Independência sem mudar as estruturas sociais, sem incorporar os milhões de escravos, mestiços, mulatos e índios, pobres e analfabetos na sociedade produtiva. O Brasil que emergiu da Independência era, portanto, uma pátria siamesa, com dois corpos e duas cabeças, um estranho ao outro: de um lado, uma elite imperial, ilustrada em Coimbra e outros centros de formação europeus, que sonhavam com o “branqueamento da população brasileira” e fazer do Brasil um país semelhante à Inglaterra ou França; de outro, uma gigantesca “geléia” geral de pobres, analfabetos e excluídos. Esses dois “brasis” só muito recentemente – de 25 anos para cá, desde a redemocratização – vem tentando se encontrar e formar um só corpo.

ZH – Em seu Brasil: Uma História, o também jornalista Eduardo Bueno conta que Dom Pedro, quando proclamou a Independência, estava sofrendo de desarranjo intestinal, o que teria motivado a parada à margem do Ipiranga. O senhor também chegou aos relatos dessa versão? Houve uma tentativa posterior de apagar esse detalhe menos nobre das circunstâncias históricas de nossa Independência?.
Gomes –
A história oficial da Independência é repleta de mitos, fantasias e versões que nem sempre estão de acordo com a realidade. O quadro de Pedro Américo é um exemplo. Trata-se de uma idealização da cena real, uma construção tardia, já do final do século XIX, encomendada por D Pedro II ao pintor paraibano como forma celebrar os feitos da monarquia brasileira, a esta altura bastante ameaçada pelos ideais republicanos. Na sua pintura, apresentada ao público em 1888, ou seja 66 anos após o Grito do Ipiranga, Pedro Américo mostra um príncipe impecavelmente vestido, montado sobre um alazão e saudado pelos dragões da Independência. Nada disso é verdade. D. Pedro montava um animal de carga, provavelmente uma mula, estava vestido como um tropeiro e não em uniforme militar, e os dragões da Independência ainda não existiam. A guarda de honra era formada por fazendeiros, cavaleiros e pessoas comuns das cidades do Vale do Paraíba, por onde o príncipe passara alguns dias antes a caminho de São Paulo. Além disso, uma testemunha do Grito (o coronel Marcondes, futuro Barão de Pindamonhangaba) registrou em suas memórias que D. Pedro estava com dor de barriga devido a algum alimento estragado que havia comido no litoral paulista. A cena real é bucólica e prosaica, mais brasileira e menos épica do que a retratada no quadro de Pedro Américo. E, ainda assim, importantíssima. Ela marca o início da história do Brasil como nação independente. Outra questão polêmica é a suspeita de que o quadro de Pedro Américo seja um plágio de uma outra obra famosa, Napoleão em Friedland, de autoria do pintor francês Jean Louis Messonier e exposta atualmente no Metropolitan Museum de Nova York. Os dois quadros são quase idênticos, mas o de Messonier é mais antigo que o de Pedro Américo.

ZH – O senhor planeja fechar uma trilogia do Brasil antigo com a República em um hipotético 1889?
Gomes
– Depois do 1822 pretendo me dedicar ao crepúsculo do Segundo Reinado e o nascimento da República. Já comecei a pesquisar. O título provavelmente será 1889 (o ano na Proclamação da República). Dessa maneira, fecho uma trilogia numérica com três datas fundamentais para entender a construção do Estado brasileiro no século XIX. Depois disso, prometo não fazer mais livros com números na capa.

Comentários (3)

  • Segundo Caderno » Arquivo » Sete perguntas no Sete de Setembro diz: 7 de setembro de 2010

    [...] o post original no Mundo Livro: Sete perguntas no Sete de Setembro Compartilhar/Salvar Tags: 1822, brasil, hist, independ, Jornalismo, laurentino gomes, liberal, [...]

  • Segundo Caderno » Arquivo » Eles vêm pra Feira diz: 21 de setembro de 2010

    [...] Laurentino Gomes é o autor dos best-sellers históricos 1808, sobre a vinda da corte portuguesa para o Brasil, e 1822, sobre o processo que levou à Independência do Brasil. Seus livros são trabalhos de divulgação histórica que, com base na pesquisa e na consulta a uma centena de obras de historiadores, apresentam, em um texto ágil e dinâmico, o fato histórico como uma empolgante narrativa, semelhante a uma grande reportagem ou mesmo a um romance. Laurentino não é um estreante em Feira. Em 2007, quando 1808 ainda não havia sequer se tornado o best-seller editorial que hoje é, Laurentino veio lançar o livro na Feira do Livro. Agora, autografará a nova obra, 1822 (Nova Fronteira), sobre a qual você pode ler mais neste link do blog Mundo Livro. [...]

  • Mundo Livro » Arquivo » Como é bom ser best-seller diz: 1 de novembro de 2010

    [...] foi alvo da atenção de muito mais gente, e agora autografa 1822, a continuação de sua obra (sobre a qual é possível ler mais aqui mesmo no blog), desta vez voltada para a Independência do Brasil. Devido à grande recepção do livro, as [...]

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