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Leandro Sarmatz e o jogo literário

08 de setembro de 2010 1

Talvez seja inútil, por óbvio, buscar ressonâncias do gigantesco Philip Roth na obra de um jovem autor judeu, mas em Uma Fome, estreia em prosa do jornalista, poeta e dramaturgo Leandro Sarmatz, a presença do mestre americano é o cartão de visitas. Os 12 contos do livro estão separados em duas seções: Atores e Abandonos. E a primeira, com três histórias contadas pelo ponto de vista de atores, fingidores profissionais condenados a uma constante dissimulação, traz muitos dos elementos semeados por Roth em suas obras da idade madura: a melancolia e o acerto de contas ao fim da vida com plena vantagem para a coluna dos deveres.

Em Harry Abbott, a primeira história, um ator filmando em plena Amazônia uma produção fantasiosa em que interpreta o próprio Hitler, refugiado no Brasil nos anos 1970, não consegue encontrar a chave de sua arte, imerso na relação tumultuada com a equipe, no set, e perturbado por um linfoma que mantém em segredo. O Pequeno Junger narra a história de um velho ator alemão que adota o filho de um casal judeu durante os terríveis anos do nazismo. E em O Conde um ator judeu radicado na América, decide, nos dias imediatamente posteriores ao fim da II Guerra, voltar à pequena cidade europeia onde nascera – uma viagem que se revelarár ironicamente equivocada.

Nos três textos, Sarmatz usa o ofício da interpretação como alegoria da própria busca humana pela construção de uma identidade. Subjacente a essa linha mestra, está também o significado da condição judaica. São textos ricos, mas não constituem os melhores trabalhos da coletânea — Sarmatz tem uma prosa fluente e límpida, o que torna aina mais dissonantes os poucos momentos de lugares comuns (“…como se avaliasse a necessidade [ou não] de pôr o passado a limpo“) e construções ambíguas (Em “Havia quem achasse que Fleischer estava se vangloriando, como Berman, o açougueiro, homem que nunca tinha visto um artista na vida“, de O Conde, apenas o contexto elucida se Berman se vangloria ou se acha que o outro se vangloria).

É na segunda parte, Abandonos, mais extensa, que Sarmatz se mostra um ficcionista de fato, com um olhar ao mesmo tempo ácido e original não apenas sobre seus personagens, mas sobre a realidade que os cerca (é exemplar nesse sentido a teoria elaborada pelo narrador de Schadenfreude sobre por que tanta gente bebe água mineral na rua). Melancolia e obsessão amorosa tomam conta do cenário e Roth vai se diluindo em uma prosa que tem laivos de Kafka mas mantém voz própria. O conto que dá nome à coletânea (e que já havia sido publicado na coletânea Primos, reunindo autores de ascendência árabe e judaica) é uma sardônica mas instigante teoria literária que relaciona as obras dos escritores por seu aspecto físico, magreza e gordura.

É quando Sarmatz enriquece, com humor, a literatura como o jogo de adultos que ela é.

Comentários (1)

  • Mundo Livro » Arquivo » Encarando a Granta – parte 4 diz: 6 de agosto de 2012

    [...] Sarmatz, como já ficou claro na primeira parte de seu livro de estreia, a coletânea de contos Uma Fome. Esta peça em primeira pessoa não é diferente, tanto no olhar que lança para a vida como um [...]

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