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Dame Agatha e os crimes rocambolescos

15 de setembro de 2010 2

Em um ensaio famoso intitulado Tipologia do Romance Policial (publicado na coletânea As Estruturas Narrativas, da editora Perspectiva), Tzvetan Todorov dividia em duas vertentes a narrativa policial. A primeira era “o romance de enigma”, ou “romance-jogo”, no qual a história que se contava não era a do crime, mas a da investigação para desvendar esse crime, um romance que muitas vezes propunha ao leitor um jogo, um desafio nos moldes estabelecidos pelo escritor S.S. Van Dine em 1928, ao esboçar o que considerava As Vinte Regras do Romance Policial. Numa delas, Van Dine se conformava com a ideia de que em algum momento um leitor perspicaz acabará por desvendar o culpado antes do fim do livro, uma vez que era parte do jogo quando o romance era construído de forma “limpa e honesta” – o que significava tornar o culpado alguém que estivesse lá desde o início, e não um mero personagem ex-machina surgido do nada.

Dominante durante as primeiras décadas do romance policial, esse tipo de narrativa teve de enfrentar, nos anos 1930, a concorrência da segunda e mais cínica vertente apontada por Todorov, a do “Romance Negro” praticado por nomes como Dashiell Hammett, Raymond Chandler e Mickey Spillane. São obras nas quais não há inocentes, as pistas aparecem e desaparecem e o culpado pode ser uma surpresa. O detetiva arrisca a vida, é ferido, tem de sujar as mãos e bater sola de sapato nas ruas em vez de usar métodos meramente dedutivos. E ele não colabora com a polícia, que é tão corrupta e amoral quanto o criminoso (outro teórico a se debruçar sobre o romance policial, o marxista Ernest Mandel, dizia, em Delícias do Crime, que a diferença entre um estilo e outro era que em um deles o detetive agia “integrado” à sociedade, como uma ferramenta do status quo em busca do elemento desviante, da “fruta podre”, o criminoso, a figura aberrande no corpo social. Já o detetive noir agia fora da máquina repressiva, em uma sociedade em desintegração).

Quando se fala no primeiro estilo, é comum citar Sherlock Holmes como um exemplo de protagonista do “romance de enigma” – e ele o é, mas de modo algum seus livros oferecem ao leitor a satisfação do “jogo” de que falava Van Dine. Holmes tem um estilo similar ao do Super-Homem Nietzscheano, seus padrões estão tão acima e a narrativa fornece tão poucas pistas que Conan Doyle usou a figura de Watson como o “representante do leitor”, aquele a quem o detetive explica em tom superior, por vezes até antipático, como chegou à dedução que levou ao esclarecimento do caso. Para o leitor, a coisa toda soa muito esotérica, com Holmes interpretando os sinais que vê e atribuindo a eles um significado que apenas ele poderia atribuir, uma vez que apenas ele tem informações que não foram compartilhadas com o leitor.

Caso bastante diverso é o de Agatha Christie (na foto lá cima), cujo nascimento completa 120 anos hoje e que é a razão deste post. A propósito: a L&PM está promovendo uma caça ao tesouro com as obras da autora em cinco cidades brasileiras. Aqui em Porto Alegre, livros de Agatha na coleção Pocket  da L&PM foram deixados no interior do Shopping Iguatemi, se alguém se interessa. Os locais em que os livros foram “libertados” – para usar o termo que estava na moda quando as brincadeiras desse tipo começaram a ser feitas pela internet, faz já uns bons seis anos – está aqui. E a Editora Globo, que também publica livros da autora, anunciou hoje que, para marcar os 120 anos, está pondo nas livrarias uma caixa especial com três dos melhores livros da autora (Os Cinco Porquinhos, O Assassinato de Roger Ackroyd e o renomeado E Não Sobrou Nenhum – tradução mais literal para o tíulo do romance que a maioria de nós, os mais velhos, conhecia por O Caso do 10 Negrinhos) e um projeto gráfico especial para a ocasião. Detalhes aqui.

Mas voltando aos livros de Agatha Christie. Os romances da autora – tanto aqueles com seus detetives recorrentes, como Hercule Poirot, Miss Marple ou o Coronel Race, quanto os que apresentam uma história fechada sem ligação com os demais – constroem um romance que poderia muito bem ser desvendado pelo leitor mais atento antes de sua revelação.  Agatha, para usar a expressão de Van Dine, “joga limpo” com seus leitores, ainda que reserve uma ou outra surpresa em sua manga. Pedindo desculpas pelo cabotinismo mas aproveitando o fato de que um blog permite uma abordagem mais pessoal da matéria, partilho com o amigo leitor a informação de que traduzi, para a editora L&PM, quatro romances de Agatha Christie: O Mistério do Trem Azul, O Mistério de Sittaford, Um Brinde de Cianureto e E no final a Morte – digamos que fiz parte da “força-tarefa” que, nos últimos dois anos, pôs de volta nas livrarias novas traduções de praticamente todos os romances da autora nas edições pocket da editora.

É com base nisso que lanço as seguintes considerações vadias sobre a obra da autora: Agatha Christie não era um primor de estilo, mesmo no original inglês. Sua prosa é estritamente funcional, muitas vezes repetitiva, sem abundância de recursos. Mesmos os gestos de seus personagens são descritos de modo repetitivos, eles “arregalam os olhos”, “lançam um olhar penetrante” e assentem com acenos de cabeça muito mais do que seria recomendável para não cansar. Mas a tudo isso releva-se, porque seu texto estava a serviço da verdadeira maravilha criada pela autora: seus enredos. Ela não apenas enche a cabeça do leitor de dúvidas sobre quem cometeu o crime mas também a respeito de como tal crime foi cometido – alguns de seus melhores livros complicam a investigação com a ideia de que o crime, embora cometido, tecnicamente não poderia ter sido perpetrado. Talvez o interesse da autora nas doutrinas do espiritismo possa explicar um pouco o quanto a autora gostava de fazer seus enredos flertarem com o sobrenatural, embora a resolução fosse sempre a mais lógica e materialista possível. Nos quatro romances acima mencionados, há, em menor ou maior grau, a suspeita de ação sobrenatural em algum ponto crucial da narrativa – no caso de E No Final a Morte isso até se explica, já que a trama se passa no Egito Antigo, tornando mais fácil a circunstância dos personagens crerem em intervenções divinas ou sobrenaturais.

Já no caso de O Mistério de Sittaford e Um Brinde de Cianureto, o mistério passa pela circunstância de que os crimes não poderiam ter sido cometidos e a solução “espirita” chega a ser aventada por uma ou mais personagens. No primeiro, um oficial aposentado é morto com uma pancada na cabeça durante uma nevasca. No mesmo momento, na casa em que o oficial residia, mas que alugou para uma misteriosa inquilina no topo de um promontório isolado próximo, a locatária e um grupo de amigos estavam fazendo uma sessão espírita, por diversão (ah, o que as pessoas tinham de fazer para se divertir antes da internet e da TV a cabo) e o nome da vítima, Capitão Trevelyan, aparece, citado como vítima de homicídio pelo espírito convocado. O oficial era um sujeito de maus bofes, e aparentemente foi morto pelo sobrinho, que esteve com o tio antes de sua morte. Mas o sujeito é panaca demais para ser homicida, e por isso a sua noiva, a adorável Emily, tem certeza absoluta da inocência do amado, e parte para desvendar o crime – e, o mais surprendente, ela o faz. A solução não é surpreendente tanto pelo culpado quanto pelo método, e mais não digo para não estragar a leitura de ninguém.

Em Um Brinde de Cianureto, a morte ocorre em público. Rosemary Barton, uma bela mas fútil mulher, é envenenada em um restaurante de luxo durante um brinde pelo seu aniversário, à frente de todos os convidados presentes. A um ano depois, seu viúvo organiza uma outra festa com os mesmos convidados e uma nova tragédia toma conta da mesa. A investigação remonta não apenas ao caso em si, mas à reconstrução da personalidade de Rosemary, ligada de um modo a outro a todos os suspeitos – confesso que para mim, como leitor, essa foi a parte que achei mais ambiciosa mas ao mesmo tempo a menos bem-sucedida. A personalidade volúvel de Rosemary quase impede o leitor de sentir empatia pela sua morte. O fato é que mesmo encontrando testemunhas confiáveis e reconstruindo todo o caso em minúcias, o Coronel Race e seus colaboradores da polícia não conseguem estabelecer o momento em que o veneno foi colocado na taça da segunda vítima, a da outra tragédia. A solução é ao mesmo tempo simples e desconcertante. Ao ponto de provocar dúvidas sobre sua verossimilhança, mas ainda assim inesperada.

Durante anos defendeu-se o romance negro como uma evolução do romance de enigma, destinado a suplantá-lo uma vez que flertava com a literatura dita mais séria em vez de ser mero escapismo (o policial ainda é daquele gêneros que parecem precisar de uma distância de 50 anos a cada obra para que o seu autor seja reconhecido como escritor de fato, vide o caso Simenon). Mas apesar disso, Dame Agatha ainda é uma das autoras mais lidas do planeta – o tipo de romance que ela faz envelheceu, mas seus livros não.

S.S. Van Dine, o autor da noção de jogo, hoje em dia é muito pouco lido, bem como metade de seus contemporâneos – mas Agatha permanece, sobrevivendo em adaptações para TV, cinema, quadrinhos. Prova de que, atuando dentro das normas de um dos gêneros mais bem delimitados da literatura, soube alcançar um degrau de excelência na construção da fórmula que garante a sua sobrevivência, a de Conan Doyle e a de muito poucos daqueles autores dos tempos heróicos do romance de crime.

Comentários (2)

  • Segundo Caderno » Arquivo » Dame Agatha e os crimes rocambolescos diz: 15 de setembro de 2010

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  • Silvana diz: 15 de setembro de 2010

    Parabéns pelo post! Muito bom! Eu gosto da Agatha. Li somente dois livros dela, há um bom tempo, quando era adolescente, e eles me despertaram para a literatura. Lembro que a narrativa dela me prendia bastante. Gostei de saber dessa tipologia de romance policial. Fiquei pensando onde os contos do Poe se encaixariam…

    Oi, Silvana, tudo bem? Mandel enquadra os contos de Poe no primeiro tipo,o da narrativa “integrativa” pela maneira como Dupin é retratado: um diletante da classe alta que resolve os crimes com o raciocínio lógico, sem sujar as mãos e usando apenas a ferramenta de seu cérebro superior.
    Abraço e volte sempre

    Carlos André

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