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A navalha de Plínio Marcos

20 de setembro de 2010 1

Tônia estava decidida em sua escolha, disposta a assumir a causa da liberação da peça desde que o autor lhe garantisse o direito de intepretar Neusa Sueli. Criou-se um impasse, pois Ruthneia de Moraes já fazia a personagem no espetáculo do Grupo União. Tônia concordou em não apresentar a peça em São Paulo, ficando com os direitos de de levá-la no Rio e no resto do país. Acordo fechado, ela saiu a campo, enfrentando a resistência na própria casa, “uma família de professores e militares”, que já torcera o nariz quando dissera que queria fazer cinema. Agora, fazer uma prostituta numa peça cheia de palavrões, era demais. Tônia relembra:
“Quando eu fiz Neusa Sueli engordei oito quilos, botei enchimento no peito, um traseiro enorme, deixei o cabelo sem pintar. As minhas rugas, que o Ivo Pitangui já tinha tirado, eu pus todas de volta. Minha figura era uma tristeza, lamentável. Meu irmão falou assim: “Eu não vou ver, é uma vergonha”. Eu era casada desde 1964 com o César Thedim, que ajudou a Sarah Ferez a fazer o cenário. César me aconselhava: ‘Não diga palavrão, não vai ficar bem; diga vaca, galinha, piranha em lugar de puta; eu duvido que Barbara Heliodora vá gostar de ouvir você falando essas coisas’. Realmente, a Barbara disse: ‘Olha, fica muito pesado na sua boca, troca’. Mas eu fui com a cara e a coragem e isso é que foi um espanto.”
Tônia tinha consciência da necessidade de estabelecer uma nova imagem como atriz, diferente daquela que tantos outros tinham: “Uma pessoa muito bela sobe no palco, tudo o que se espera dela é a perfeição. Uma feinha faz bem uma cena e todos dizem: ‘Como é talentosa, me deu um momento de beleza’. Essa, como já é bela, dizem que não tem técnica. E não há técnica que supere a beleza. Até hoje tenho insegurança por isso. Jamais a técnica corresponde ao grau de beleza que a gente já transmitiu. Tanto que, quando eu me despi de todo charme, fiz mais sucesso”.
E fez mesmo, em Navalha na Carne. Inventou que logo na abertura da peça ela apareceria como Neusa Sueli lavando sua calcinha na pia. De imediato, dava um recado à plateia sobre a personagem que estava interpretando. Que não se esperasse dela, dali pra frente, nada menos que aquela imagem patética, triste, sofrida. Impressionada com o deles em Dois perdidos numa noite suja, Tônia convidou a dupla Fauzi Arap e Nelson Xavier, entregando a este a direção. Não, quem deve dirigir é o Fauzi, “esse é que é bom diretor”, disse Nelson, na lembrança de Tônia. Na de Fauzi — que aos 29 anos se despediu como ator em Dois Perdios (um brilhante ator, sabem todos que o viram em cena) e estreou como diretor profissional em Navalha na Carne —, o seu nome foi imposto pelo próprio Plínio, versão que Walderez de Barros confirma. Tônia e Fauzi tiveram então uma conversa reservada.
— Plínio sugeriu meu nome, mas não faço nenhuma questão de dirigir a peça.
— Ótimo, porque eu também não quero você.
Césa Thedim chegou, pegou essa conversa que não saía do chove e não molha, perdeu a paciência.
— Chega de frescura e marquem logo o início dos ensaios.
E os ensaios começara, com a escolha de Emiliano Queiroz para o papel de Veludo. “Daí para a frente, no começo até meio empurrado pelo Plínio, acabei virando diretor sem nunca ter tido essa ambição”, diz Fauzi. “Eu tinha minhas veleidades artísticas, mas não sabia bem se queria continuar no teatro ou voltar para a engenharia, estudar psicanálise, psicologia ou sei lá o quê. Como eu e Tônia brigamos no primeiro dia, depois não precisamos mais brigar. Tudo deu certo no trabalho. Na estreia ela me disse que nunca mais eu dirigiria uma peça com tantos detalhes”.
(…) Entretanto, não foi tão fácil assim impedir que a beleza de Tônia tornasse nada crível a decadência física da sua personagem. Quando Vado pegava Neusa pelos cabelos e lhe esfregava um espelho na cara, apunhalando-a com um “você é uma galinha velha, todo mundo te acha um bagaço”, era impossível acreditar. A uma mulher como a atriz jamais faltariam fregueses. Por mais que Fauzi pedisse para ela se enfear, não adiantava. Até que Tônia convidou algumas amigas para assistir a um ensaio. Entre elas, a atriz Djenane Machado e a crítica Barbara Heliodora, que no fim, depois dos elogios merecidos e de praxe, foi ao ponto:
— Tônia, só tem um problema. O texto diz que a personagem é uma mulher acabada, decadente, mas voc~e em cena está deslumbrante!
— Mas eu estou sem maquiagem nenhuma!
Bárbara se controlou para não rir  da desculpa esfarrapada. Preferiu explicar que não usar maquiagem, no caso dela, era insuficiente. Precisava, sim, colocar umas olheiras, fazer uma maquiagem vagabunda que envelhecesse e derrubasse a figura de Neusa Sueli, como Plínio Marcos a escreveu. Foi então que Tônia se convenceu e Fauzi Arap ficou agradecido a Barbara Heliodora, já famosa por não ter papas na língua.

O trecho acima foi retirado de Bendito Maldito, obra do jornalista Oswaldo Mendes (Leya, 542 páginas, R4 44,90) que apresenta um apanhado biográfico do dramaturgo Plínio Marcos, e que fala sobre a difícil produção de Navalha na Carne, peça do autor censurada pela ditadura militar.  O livro conta como 1967 foi um dos anos mais produtivos na vida de seu autor, que já havia ganho notoriedade com a produção de Dois Perdidos numa Noite Suja. Foi em 67 que Plínio escreveu alguns de seus trabalhos mais impactantes: Quando as Máquinas Param, Homens de Papel e Jesus Homem. Além da própria Navalha...,  escrita, Mendes relata, em três dias.

Antes mesmo de estrear, apenas com a apresentação obrigatória do texto à censura, a peça foi proibida. Mesmo censurado o espetáculo — que narra uma noite de discussão, violência e catarse em um quarto de pensão entre a prostituta Neusa Sueli, o gigolô Vado e o homossexual Veludo —, a peça foi preparada por dois grupos diferentes: o Grupo União, de São Paulo e a montagem carioca produzida por Tônia Carrero (na foto que ilustra este post, encarnando Neusa Sueli). Enquanto isso, era feita uma ampla campanha para a liberação da peça, com a coleta de depoimentos e pareceres inclusive de nomes ligados ao clero e às forças armadas. Plínio e Tônia solicitavam audiência com o ministro da Justiça Luís Antônio da Gama e Silva quase diariamente, até que finalmente ela fosse liberada — o que só aconteceu graças ao prestígio do nome de Tônia, apesar da ampla campanha popular em favor da peça.

Navalha na Carne é um dos textos mais encenados do teatro brasileiro, e já ganhou duas versões no cinema. A primeira, em 1969, dirigida por Braz Chediak, tem Glauce Rocha como Neusa Sueli. Emiliano Queiroz, que já fazia o papel de Veludo no palco, deu vida ao personagem na tela. A segunda versão, de 1997, é estrelada por Vera Fischer e traz o ator cubano Jorge Perrugorría como o cafetão Vado. Além de incontáveis montagens teatrais, como a que estreia amanhã na Sala Álvaro Moreyra como parte da programação do Porto Alegre em Cena (ingressos já esgotados), com Paula Cohen como Neusa Sueli e Gero Camilo, o Sem Chance de Carandiru, como Veludo.

Comentários (1)

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