Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Secretário professor

26 de outubro de 2010 0


Luiz Antônio do Assis Brasil em 2008, na sessão de autógrafos do livro
“Vão Pensar que Estamos Fugindo”, de autoria de sua esposa, Valesca de Assis.
Foto: Dulce Helfer/ZH

Uma das críticas mais frequentes à gestão de quase quatro anos de Mônica Leal à frente da Secretaria de Estado da Cultura durante o governo Yeda era que a secretária, nas palavras de Luís Augusto Fischer em uma crônica publicada este ano no Caderno de Cultura, “não era do ramo”. Não era do ramo, nesse caso, significava que não tinha um trabalho relevante à frente do meio cultural em qualquer uma de suas múltiplas facetas: como criadora, produtora, crítica, docente, Mônica Leal nunca fora nada disso, nunca estivera intensamente ligada ao setor.

O que será uma gestão da Cultura a cargo do romancista  e professor Luiz Antonio de Assis Brasil ainda é uma incógnita, mas ao menos uma garantia já pode ser feita em comparação com a administração anterior: ninguém poderá dizer que o escritor não é do ramo.  Assis Brasil é um dos mais prolíferos romancistas do Estado, com um conjunto de 16 romances que, com a exceção da novela O Homem Amoroso, investigam o passado histórico do Rio Grande do Sul buscando na reencenação ficcional do passado ecos de questões prementes ainda hoje. Seu olhar busca, por meio da miniaturização, um contraponto a muito da construção ideológica que dota a narrativa história do Estado de tons épicos e grandiosos.

Assis Brasil é uma presença fundamental no cenário das letras rio-grandenses também por sua atuação como um transmissor de conhecimento no ofício da escrita. Ele ministra a Oficina de Criação Literária da PUCRS desde 1985, e, ao longo desses 25 anos, já passaram por lá – e lembram com respeito do antigo mestre – nomes de estilos tão díspares quanto Amílcar Bettega, Cíntia Moscovich, Daniel Galera, Daniel Pellizzari, Michel Laub. Ah, sim, eu também fui aluno da Oficina em 2001, e ao dizer isso não quero me colocar no nível dos já citados, só deixar clara uma afiliação que me liga ao personagem principal deste texto.

Se para Nelson Rodrigues o amigo Antônio Callado era “o único inglês da vida real”, pode-se parafrasear a tirada e comentar que Assis Brasil é o único gentleman da vida contemporânea. Atencioso com seus interlocutores, gentil às raias do cavalheirismo, cortês e de uma educação ímpar (uma colega de jornal certa vez foi entrevistá-lo e voltou contando que em mais de um momento pensou que o Assis a estava de algum modo sacaneando ao insistir em abrir a porta ou puxar a cadeira para ela – esse mundo realmente embrutece as jornalistas, rere). É também um homem de vida e de trabalho regrados. Não é um segredo a maneira como escreve seus romances: fazendo um longo diagrama em que planeja capítulo por capítulo, do que será contado ao ponto de vista dominante em cada etapa. Apenas depois de ter essa história toda planejada é que ele se dedica ao trabalho eminentemente braçal de  escrever e dar forma ao que já planejou. Alguns dos principais livros de Assis Brasil, a propósito, como Cães da Província, Manhã Transfigurada e Videiras de Cristal, ganharam reedição recente pela L&PM þ que também publicou seu livro Música Perdida (2007), vencedor da primeira edição da Copa de Literatura Brasileira.

Tentamos hoje falar com o secretário sobre seus planos para o futuro da pasta, mas ele comentou que prefere se manifestar apenas após se reunir com o governador Tarso Genro. Ainda não há também uma definição sobre a equipe de apoio do novo secretário. Mas ao menos uma coisa já podemos saber sobre Assis Brasil: sua ligação com os livros. Reproduzo abaixo uma entrevista feita com Assis Brasil em 2004 pelo jornalista Márcio Pinheiro e publicada na série Estante, no Caderno Cultura, que durante alguns meses ocupou a contracapa do suplemento com grandes escritores respondendo sempre às mesmas perguntas sobre livros. Com vocês, o secretário e os livros:

Assis Brasil e a Estante

Qual o seu livro inesquecível?
Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe; li-o, pela primeira vez, na juventude, época mais propícia a aceitar os suicídios por amor. Hoje restou a (boa) literatura que é.

Qual seu trecho inesquecível?
O momento em que Werther é possuído de ciúmes atrozes quando vê Charlotte cortando algumas fatias de pão a umas crianças. Uma cena que só poderia ser escrita por um homem: são ciúmes completamente ridículos.

Qual o livro que mais o perturbou?
As Confissões de Santo Agostinho, e isso porque, em sua leitura, constatei que o santo era um homem como eu mesmo, sujeito a dúvidas e ansiedades humanas. Isso o faz um precursor do existencialismo, que viria a florescer bem mais tarde.

Qual o livro que você gostaria de ter escrito?
Tous les Matins du Monde, de Pascal Quignard. Se há algo impecável, do ponto de vista da linguagem e do drama, é essa novela. Sei de cor as passagens mais importantes. E há uma bela tradução brasileira, quase com a mesma qualidade do original, do Pedro Tamen.

Qual o personagem que você gostaria de ter criado?
Não é personagem exclusivamente literário; é Dom Giovanni, da ópera de Mozart, com libreto de Lorenzo da Ponte. É uma celebração da vida e, paradoxalmente, uma apologia da morte como a suprema redentora.

Qual o maior livro da literatura brasileira?
Prefiro dizer o que mais gosto. É o Memorial de Ayres, do Machado de Assis. Serena investigação psicológica de um homem maduro, no limiar da velhice.

Qual o maior escritor da literatura brasileira?
Inúmeros: o maior é aquele escolhido pelo leitor, em dado momento de sua vida de leituras. Cada qual, a cada década, tem o seu “maior”. Não há uma consagração objetiva e unânime. Felizmente.

Qual o livro que você mais relê?
Madame Bovary, pela irretocável construção romanesca e pelo sentido da tragédia em sua versão moderna e burguesa. Já o li 14 vezes. Sou muito metódico em registrar minhas leituras.

Qual o livro mais superestimado que você conhece?
Grande Sertão: Veredas. Talvez o seja por seus aspectos lingüísticos, mas isso não é o suficiente.

Qual o livro mais subestimado que você conhece?
A Capital de Eça de Queirós. Ninguém gosta, inclusive ecianos históricos e apaixonados.

Qual livro merece ser adaptado para o cinema?
Senilidade, de Italo Svevo. É um roteiro pronto. Basta fazer os cortes e ter um bom diretor.

Qual livro foi adaptado para o cinema e o resultado foi frustrante?
Não comparo o romance com o filme. Contudo, a aproximação pode ser feita quanto ao O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Ótimo romance, ótimo filme.

Qual o livro que você daria de presente?
Terrasse à Rome, de Pascal Quignard, publicado em 2000 e ainda não traduzido. Espero que logo alguma editora brasileira se interesse.

Qual o livro que você gostaria de ganhar?
Não é pouco: a coleção completa da Summa Theologica, de Tomás de Aquino. Tudo está lá. O mestre da Escolástica é um destes autores que nos fazem rever os tolos preconceitos contra a Idade Média.

Qual o livro que você procura e nunca encontrou?
Hoje em dia, com a Internet, encontro tudo o que procuro. Para o bem e para o mal.

Qual deve ser o maior mérito de um escritor?
Se é romancista, escrever o máximo de ação no mínimo de palavras. Na narrativa atual, escreve-se demais. Para resolver isso, basta que os escritores escrevam a literatura que gostam de ler.

Cite um grande livro de um grande autor?
Dom Quixote, de Cervantes. Não é insuperável, mas é uma das marcas de nossa paradoxal humanidade.

Cite um grande livro de um autor pouco conhecido?
Aurora, de Arthur Schnitzler, cujo título original é Spiel im Morgengrauen (algo como “Um jogo de manhã cedo”). Não sei por que traduziram esse belo título. Narra-se uma desesperada noite do tenente Wilhelm Kasda, um jogador compulsivo. Qualquer parágrafo é uma consagração da literatura.

Cite um livro que você esperava gostar e que o decepcionou?
Viagem ao Redor do meu Quarto, de Xavier de Maistre. Muito promete e pouco cumpre.

Cite um livro que você não esperava nada e que o surpreendeu?
Não costumo perder tempo com livros que não prometem nada; mas por circunstâncias profissionais, outrora li, de Alejo Carpentier, El Acoso. Foi uma revelação, e o começo do meu fascínio por esse autor cubano.



Envie seu Comentário