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Memórias de Setorista: Alma lacônica

29 de outubro de 2010 1

Felipão e o professor  na Feira em 2002. Fotos de Ricardo Chaves, ZH

Participei da primeira cobertura de uma Feira do Livro em 2002.  Na época eu ainda não fazia parte da equipe fixa do Segundo Caderno. A responsável pela área de livros era a escritora Cíntia Moscovich, e eu trabalhava na editoria de esportes, como setorista de Internacional. Como a Cíntia precisaria se ausentar bem no período da Feira, a equipe montada para a cobertura precisaria de um repórter a mais, emprestado de alguma outra editoria do jornal. Minha amiga Camila Saccomori sugeriu o meu nome para a editora-executiva, Cláudia Laitano, e foi assim que eu acabei passando aquela quinzena no vaivém entre a redação e a Praça da Alfândega.

Dada a minha procedência esportiva, não houve muita dúvida sobre com quem ficaria a capa do Jornal da Feira no dia 12 de novembro, data em que o técnico Luiz Felipe Scolari estaria em Porto Alegre para autografar, ao lado do Professor Ruy Carlos Ostermann, o livro A Alma do Penta. A obra mesclava os trechos de um diário mantido por Felipão durante a campanha do Brasil na Copa da Ásia com a biografia do técnico escrita por Ruy Ostermann – que vinha a ser também o patrono daquela Feira 2002. O livro já havia tido um lançamento um tempo antes, em setembro, mas a presença do técnico Campeão do Mundo em plena Praça da Alfândega dava àquela sessão de autógrafos nova feição.

Prometia ser uma das mais concorridas da Feira – e de fato foi. Felipão começou a autografar às 17h22min. Eram outros tempos, de uma Feira menor e até mais paroquial, com seu pavilhão de autógrafos instalado exatamente no centro geográfico da Praça. No horário marcado para a sessão, 17h – Felipão se atrasou em um compromisso anterior, em Canoas – a fila se estendia como uma gorda jibóia em direção à estátua do Marechal Osório e prosseguia inexorável até acabar na Rua da Praia, quase em frente ao Clube do Comércio. Felipão só sai da mesa às 19h30min, e  ele e Ruy quase não tiveram chance de trocar uma palavra – autografavam direto na capa do livro e já iam para o próximo, como numa linha de montagem. Na imprensa, cotovelaços, pisões de pé, um empurra-empurra selvagem para tentar se aproximar do pavilhão congestionado (como se pode ver na foto abaixo) .

Felipão no Pavilhão de autógrafos (ali perto do garçom) e a fila que se estendia até a Rua da Praia.

Mas isso tudo foi com Felipão já em Porto Alegre. Antes, havia que falar com ele para a matéria de capa do próprio dia 12 de novembro, dia da sessão de autógrafos. Depois de muita negociação com agentes e assessores, nos foi passado na tarde do dia 11 de novembro o número de telefone de um hotel em Buenos Aires, no qual Felipão estava hospedado se preparando para uma conferência que faria a convite da Associação Argentina de Técnicos. O combinado era ligar às 19h em ponto e gravar o que ele falasse para uma entrevista ao estilo “pingue-pongue”, como se chamam no jargão jornalístico as entrevistas publicadas no formato pergunta e resposta. Como setorista de esportes, contudo, eu já sabia de antemão que o sucesso da empreitada dependia do sempre inconstante humor do entrevistado. Foi com esse espírito de esperar um desastre à espreita que me preparei para fazer a ligação.

O telefonema é feito pontualmente. Felipão atende com aquela candura de sempre, bem conhecida até hoje por quem acompanha ainda que de longe o noticiário esportivo:

– Estou saindo do banho. Quem mandou ligar agora?

O repórter, deste lado da linha, avisa que foi a própria pessoa que nos passou o fone que havia determinado o horário. Pergunto se posso ligar então em 10 ou 15 minutos para conversarmos sobre o livro. A resposta vem gotejante da bonomia e da boa vontade próprias ao treinador:

– Mas de jeito nenhum. Tenho de me preparar para uma palestra agora na Associação de Técnicos, não tenho como pensar nisso agora. Feira, só na hora.

Explico outra vez que para nós seria importante tentar falar com ele, nem que seja em outro horário. É importante ter alguma palavra do treinador sobre o livro e seus bastidores.

– Isso aí foi ideia do Ruy, ele que me disse para ir mantendo o diário. O livro é do Ruy, eu sou só convidado. Eu sou técnico de futebol, não escritor, escritor é ele. Tenho de ir.

Tentando agarrar-se àquele fiapo de conversa – ainda que enviesada – o repórter pergunta rapidamente algo que possa amenizar o clima e fazer o entrevistado abrir-se um pouco mais para as próprias recordações: “Mas e a Feira? O senhor quando morava aqui frequentava a feira?”

– Sim, eu ia. Costumava passear lá. Agora tchau que eu tenho de ir.

Dado o número e a extensão das frases ditas por Luiz Felipe ao longo da conversa, a suposta ideia de um “pingue-pongue” havia desabado mais rápido que a zaga da China ao enfrentar Rivaldo, Roberto Carlos, Ronaldo e Companhia na Copa daquele ano. Não havia como “derrubar a pauta”, para usar outro jargão do ofício. O técnico do penta em Porto Alegre era o assunto mais palpitante do dia, independentemente das agruras do repórter.  Havia, contudo, como contornar contando exatamente o motivo da pressa, o laconismo do entrevistado, sua reticência em ser um autor na praça dos autógrafos. E um papo com o sempre cortês professor Ruy forneceu outros subsídios para um texto de perfil mais trabalhado e menos cru, e com mais algumas fotos retiradas do próprio livro estava lá mais um texto na página impressa.

Comentários (1)

  • Camila diz: 29 de outubro de 2010

    Bá, não sabia dessa história. Tô rindo até agora de imaginar a cena do Felipão atendendo ao telefone “com aquela candura de sempre”, hehehe. Levar bolo de entrevistado é sempre um pé no saco!

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