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Posts de outubro 2010

Trecho do dia: Leonardo Brasiliense

30 de outubro de 2010 0

– É aqui, disse o motorista.
Estávamos no Centro, no endereço que o patrão me deu. Pensei em pedir ao taxista que me esperasse. Afinal só tinha que deixar o relógio de parede, assim não andava com a indiazinha para cima e para baixo. Mas vá que demorassem a me atender. Olhei nos dedos do taxista (eram normais, peludos e sem anel), paguei a corrida e levei a irmã do Ramón comigo. Ainda não havíamos trocado nenhuma palavra desde o aeroporto.
Conforme entrávamos na galeria, conforme ficava mais escuro pela distância da rua e da luz natural, eu me perguntava por que levar um relógio de parede para consertar em Porto Alegre. Mas o patrão era um cara estranho. Tinha a mania de querer tudo em ordem, tudo no lugar certo, na hora certa. Tudo precisava funcionar “como devia”, era assim que ele falava. Até essa história de trazer a família do Ramón tinha a ver com isso, porque era “como devia ser”, ele disse. Assim não estranhei que também o relojoeiro tivesse que ser
aquele, “o cara certo”. Só ele podia mexer naquela preciosidade que ficava pendurada na parede e ordenava o tempo e o ritmo no escritório. Para mim, era um relógio igual aos outros, e vagabundo.
Na porta da relojoaria, me virei para a indiazinha e apontei-lhe as vitrines, ela que se distraísse enquanto eu despachava o relógio. A menina olhou para todos os lados, sem mexer o corpo, e se fixou numa parede forrada com jornais. Deixei-a sozinha e entrei na loja.
Um homem careca e vesgo atendia no balcão. Ele e o cliente me olharam como se eu atrapalhasse. O espaço era apertado, eles passaram a cochichar. Eu me virei e fiquei observando as coisas. Tinha de tudo: relógios novos, relógios antigos, algumas joias, prataria, tudo misturado nos balcões com tampa de vidro e nas prateleiras, uma desorganização medonha. E no meio dessa encrenca, sozinho e empoeirado, me chamou a atenção um violino velho. Nunca me interessei em saber quantas cordas tinha um violino, mas percebi que faltava uma, e que deviam ser quatro…
– O que deseja? – era o atendente careca.
Reparei que ele era vesgo de um olho só. Me encarava com o outro, o olho bom. O cliente já tinha ido embora. Estávamos apenas nós dois na loja, no meio daquela tralha, daquelas paredes cheias de miudezas. De repente comecei a ouvir os relógios, cada um com seu tique-taque diferente, todos desencontrados. Me senti na despensa lá de casa, imóvel, indeciso, com a missão de encaixotar o passado e escolher o que se guarda e o que se joga no lixo.
– O que deseja? — ele repetiu no mesmo tom, como se dissesse pela primeira vez.
Eu não sabia mais. Eram tantos tique-taques, tantos relógios, tantas prateleiras e tanta curiosidade pelo violino, que eu não sabia mais o que desejava. Talvez sair dali?

O trecho acima foi retirado da coletânea Três Dúvidas, de autoria de Leonardo Brasilienseque tem sessão hoje às 19h30min na Praça de Autógrafos. Reunião de três novelas, Três Dúvidas flagra, em cada uma das histórias, personagens presos no limiar da indefinição – eles se veem aprisionados entre o passado e o presente e entre a realidade e a loucura. Este é o sexto livro de Brasiliense, cujo trabalho transita entre obras para adultos e para jovens, mas permanece fiel à forma breve.  As novelas de Três Dúvidas são seus exercícios mais longos na narrativa em prosa, mas não abandonam a estrutura formal episódica do conto: as novelas são seccionadas em partes menores, servindo elas próprias como um elemento de indefinição entre o conto longo e a novela curta – um eco na forma do que o escritor trata no conteúdo.

Na primeira novela, Um Dia em Comum, a narrativa acompanha o que se passa na jornada diária de um casal. Ele é um corretor de seguros aposentado que passa seus dias em casa, perseguido por uma ideia obsessiva de que sua vida foi inútil.  Ela, uma recepcionista em um consultório médico que, procurada por um ex-namorado, passa a temer que os 20 anos que passou com o marido tenham sido um erro, o caminho errado – pois como Robert Frost já havia deixado subentendido em um poema bem antes das frases de pára-choque de caminhão (quase antes até dos próprios caminhões), o caminho não percorrido sempre parece o mais atraente.

Na segunda narrativa, A Grande Ventura de Paulo Sérgio contada por ele mesmo três dias antes de morrer, da qual detacamos o trecho que você leu acima, um jovem viaja a Porto Alegre com a missão de apanhar a irmã de um colega moribundo, para que a jovem possa acompanhar os últimos momentos do irmão. Ao fazer um desvio por uma relojoaria, na exata cena ali de cima, ele mergulha em uma espiral de loucura na qual é difícil perceber o que é real e o que é delírio.  Situação semelhante à de Marcos, protagonista de O Visitante, a terceira história. Marcos é um jornalista que, de posse de um furo de reportagem, dirige-se para a redação em seu carro e é engolido por um nevoeiro que turva-lhe não só a visão mas a realidade.

Escritas com uma atenção às lembranças de seus protagonistas, as novelas de Três Dúvidas deixam elas próprias uma indefinição para o leitor: se criamos o mundo ao interpretar a realidade, o que sobra dele quando não temos mais a capacidade de reconhecê-la?

Memórias de Setorista: Alma lacônica

29 de outubro de 2010 1

Felipão e o professor  na Feira em 2002. Fotos de Ricardo Chaves, ZH

Participei da primeira cobertura de uma Feira do Livro em 2002.  Na época eu ainda não fazia parte da equipe fixa do Segundo Caderno. A responsável pela área de livros era a escritora Cíntia Moscovich, e eu trabalhava na editoria de esportes, como setorista de Internacional. Como a Cíntia precisaria se ausentar bem no período da Feira, a equipe montada para a cobertura precisaria de um repórter a mais, emprestado de alguma outra editoria do jornal. Minha amiga Camila Saccomori sugeriu o meu nome para a editora-executiva, Cláudia Laitano, e foi assim que eu acabei passando aquela quinzena no vaivém entre a redação e a Praça da Alfândega.

Dada a minha procedência esportiva, não houve muita dúvida sobre com quem ficaria a capa do Jornal da Feira no dia 12 de novembro, data em que o técnico Luiz Felipe Scolari estaria em Porto Alegre para autografar, ao lado do Professor Ruy Carlos Ostermann, o livro A Alma do Penta. A obra mesclava os trechos de um diário mantido por Felipão durante a campanha do Brasil na Copa da Ásia com a biografia do técnico escrita por Ruy Ostermann – que vinha a ser também o patrono daquela Feira 2002. O livro já havia tido um lançamento um tempo antes, em setembro, mas a presença do técnico Campeão do Mundo em plena Praça da Alfândega dava àquela sessão de autógrafos nova feição.

Prometia ser uma das mais concorridas da Feira – e de fato foi. Felipão começou a autografar às 17h22min. Eram outros tempos, de uma Feira menor e até mais paroquial, com seu pavilhão de autógrafos instalado exatamente no centro geográfico da Praça. No horário marcado para a sessão, 17h – Felipão se atrasou em um compromisso anterior, em Canoas – a fila se estendia como uma gorda jibóia em direção à estátua do Marechal Osório e prosseguia inexorável até acabar na Rua da Praia, quase em frente ao Clube do Comércio. Felipão só sai da mesa às 19h30min, e  ele e Ruy quase não tiveram chance de trocar uma palavra – autografavam direto na capa do livro e já iam para o próximo, como numa linha de montagem. Na imprensa, cotovelaços, pisões de pé, um empurra-empurra selvagem para tentar se aproximar do pavilhão congestionado (como se pode ver na foto abaixo) .

Felipão no Pavilhão de autógrafos (ali perto do garçom) e a fila que se estendia até a Rua da Praia.

Mas isso tudo foi com Felipão já em Porto Alegre. Antes, havia que falar com ele para a matéria de capa do próprio dia 12 de novembro, dia da sessão de autógrafos. Depois de muita negociação com agentes e assessores, nos foi passado na tarde do dia 11 de novembro o número de telefone de um hotel em Buenos Aires, no qual Felipão estava hospedado se preparando para uma conferência que faria a convite da Associação Argentina de Técnicos. O combinado era ligar às 19h em ponto e gravar o que ele falasse para uma entrevista ao estilo “pingue-pongue”, como se chamam no jargão jornalístico as entrevistas publicadas no formato pergunta e resposta. Como setorista de esportes, contudo, eu já sabia de antemão que o sucesso da empreitada dependia do sempre inconstante humor do entrevistado. Foi com esse espírito de esperar um desastre à espreita que me preparei para fazer a ligação.

O telefonema é feito pontualmente. Felipão atende com aquela candura de sempre, bem conhecida até hoje por quem acompanha ainda que de longe o noticiário esportivo:

– Estou saindo do banho. Quem mandou ligar agora?

O repórter, deste lado da linha, avisa que foi a própria pessoa que nos passou o fone que havia determinado o horário. Pergunto se posso ligar então em 10 ou 15 minutos para conversarmos sobre o livro. A resposta vem gotejante da bonomia e da boa vontade próprias ao treinador:

– Mas de jeito nenhum. Tenho de me preparar para uma palestra agora na Associação de Técnicos, não tenho como pensar nisso agora. Feira, só na hora.

Explico outra vez que para nós seria importante tentar falar com ele, nem que seja em outro horário. É importante ter alguma palavra do treinador sobre o livro e seus bastidores.

– Isso aí foi ideia do Ruy, ele que me disse para ir mantendo o diário. O livro é do Ruy, eu sou só convidado. Eu sou técnico de futebol, não escritor, escritor é ele. Tenho de ir.

Tentando agarrar-se àquele fiapo de conversa – ainda que enviesada – o repórter pergunta rapidamente algo que possa amenizar o clima e fazer o entrevistado abrir-se um pouco mais para as próprias recordações: “Mas e a Feira? O senhor quando morava aqui frequentava a feira?”

– Sim, eu ia. Costumava passear lá. Agora tchau que eu tenho de ir.

Dado o número e a extensão das frases ditas por Luiz Felipe ao longo da conversa, a suposta ideia de um “pingue-pongue” havia desabado mais rápido que a zaga da China ao enfrentar Rivaldo, Roberto Carlos, Ronaldo e Companhia na Copa daquele ano. Não havia como “derrubar a pauta”, para usar outro jargão do ofício. O técnico do penta em Porto Alegre era o assunto mais palpitante do dia, independentemente das agruras do repórter.  Havia, contudo, como contornar contando exatamente o motivo da pressa, o laconismo do entrevistado, sua reticência em ser um autor na praça dos autógrafos. E um papo com o sempre cortês professor Ruy forneceu outros subsídios para um texto de perfil mais trabalhado e menos cru, e com mais algumas fotos retiradas do próprio livro estava lá mais um texto na página impressa.

É amanhã

28 de outubro de 2010 0

Foto de Jefferson Bottega, ZH

As bancas já foram montadas, os livros já foram arrumados e amanhã começa a Feira do Livro de Porto Alegre, em sua 56ª edição. Teremos uma intensa atividade de cobertura online da festa na praça, a começar aqui pelo seu humilde bloguinho Mundo Livro. Teremos notas, observações, crônicas, bastidores e, se possível todo dia, trechos de uma obra destaque dentre os autógrafos do dia na programação.

E já está no ar o site especial de ZeroHora.com sobre a Feira. No endereço www.zerohora.com/feiradolivro você confere programação, o mapa da feira, notícias, vídeos e outros blogs, além de material exclusivo para os internautas. Quem passar por lá agora já pode ver:

* Um comentário em audioslide da coordenadora de programação geral, Jussara Rodrigues, sober as 56 edições da Feira.

* Sugestões de livros na seção Dicas e Pitacos. Já estão no ar as dos jornalistas David Coimbra e Luiz Zini Pires

* No Histórico da Feira, além de fotos das cinco décadas de livros na praça, Luís Augusto Fischer fala sobre as mudanças pelas quais o evento passou desde 1955

Acompanhe também a cobertura minimalista no twitter do blog: www.twitter.com/mundolivro.

E boa Feira para todos nós.

Secretário professor

26 de outubro de 2010 0


Luiz Antônio do Assis Brasil em 2008, na sessão de autógrafos do livro
“Vão Pensar que Estamos Fugindo”, de autoria de sua esposa, Valesca de Assis.
Foto: Dulce Helfer/ZH

Uma das críticas mais frequentes à gestão de quase quatro anos de Mônica Leal à frente da Secretaria de Estado da Cultura durante o governo Yeda era que a secretária, nas palavras de Luís Augusto Fischer em uma crônica publicada este ano no Caderno de Cultura, “não era do ramo”. Não era do ramo, nesse caso, significava que não tinha um trabalho relevante à frente do meio cultural em qualquer uma de suas múltiplas facetas: como criadora, produtora, crítica, docente, Mônica Leal nunca fora nada disso, nunca estivera intensamente ligada ao setor.

O que será uma gestão da Cultura a cargo do romancista  e professor Luiz Antonio de Assis Brasil ainda é uma incógnita, mas ao menos uma garantia já pode ser feita em comparação com a administração anterior: ninguém poderá dizer que o escritor não é do ramo.  Assis Brasil é um dos mais prolíferos romancistas do Estado, com um conjunto de 16 romances que, com a exceção da novela O Homem Amoroso, investigam o passado histórico do Rio Grande do Sul buscando na reencenação ficcional do passado ecos de questões prementes ainda hoje. Seu olhar busca, por meio da miniaturização, um contraponto a muito da construção ideológica que dota a narrativa história do Estado de tons épicos e grandiosos.

Assis Brasil é uma presença fundamental no cenário das letras rio-grandenses também por sua atuação como um transmissor de conhecimento no ofício da escrita. Ele ministra a Oficina de Criação Literária da PUCRS desde 1985, e, ao longo desses 25 anos, já passaram por lá – e lembram com respeito do antigo mestre – nomes de estilos tão díspares quanto Amílcar Bettega, Cíntia Moscovich, Daniel Galera, Daniel Pellizzari, Michel Laub. Ah, sim, eu também fui aluno da Oficina em 2001, e ao dizer isso não quero me colocar no nível dos já citados, só deixar clara uma afiliação que me liga ao personagem principal deste texto.

Se para Nelson Rodrigues o amigo Antônio Callado era “o único inglês da vida real”, pode-se parafrasear a tirada e comentar que Assis Brasil é o único gentleman da vida contemporânea. Atencioso com seus interlocutores, gentil às raias do cavalheirismo, cortês e de uma educação ímpar (uma colega de jornal certa vez foi entrevistá-lo e voltou contando que em mais de um momento pensou que o Assis a estava de algum modo sacaneando ao insistir em abrir a porta ou puxar a cadeira para ela – esse mundo realmente embrutece as jornalistas, rere). É também um homem de vida e de trabalho regrados. Não é um segredo a maneira como escreve seus romances: fazendo um longo diagrama em que planeja capítulo por capítulo, do que será contado ao ponto de vista dominante em cada etapa. Apenas depois de ter essa história toda planejada é que ele se dedica ao trabalho eminentemente braçal de  escrever e dar forma ao que já planejou. Alguns dos principais livros de Assis Brasil, a propósito, como Cães da Província, Manhã Transfigurada e Videiras de Cristal, ganharam reedição recente pela L&PM þ que também publicou seu livro Música Perdida (2007), vencedor da primeira edição da Copa de Literatura Brasileira.

Tentamos hoje falar com o secretário sobre seus planos para o futuro da pasta, mas ele comentou que prefere se manifestar apenas após se reunir com o governador Tarso Genro. Ainda não há também uma definição sobre a equipe de apoio do novo secretário. Mas ao menos uma coisa já podemos saber sobre Assis Brasil: sua ligação com os livros. Reproduzo abaixo uma entrevista feita com Assis Brasil em 2004 pelo jornalista Márcio Pinheiro e publicada na série Estante, no Caderno Cultura, que durante alguns meses ocupou a contracapa do suplemento com grandes escritores respondendo sempre às mesmas perguntas sobre livros. Com vocês, o secretário e os livros:

Assis Brasil e a Estante

Qual o seu livro inesquecível?
Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe; li-o, pela primeira vez, na juventude, época mais propícia a aceitar os suicídios por amor. Hoje restou a (boa) literatura que é.

Qual seu trecho inesquecível?
O momento em que Werther é possuído de ciúmes atrozes quando vê Charlotte cortando algumas fatias de pão a umas crianças. Uma cena que só poderia ser escrita por um homem: são ciúmes completamente ridículos.

Qual o livro que mais o perturbou?
As Confissões de Santo Agostinho, e isso porque, em sua leitura, constatei que o santo era um homem como eu mesmo, sujeito a dúvidas e ansiedades humanas. Isso o faz um precursor do existencialismo, que viria a florescer bem mais tarde.

Qual o livro que você gostaria de ter escrito?
Tous les Matins du Monde, de Pascal Quignard. Se há algo impecável, do ponto de vista da linguagem e do drama, é essa novela. Sei de cor as passagens mais importantes. E há uma bela tradução brasileira, quase com a mesma qualidade do original, do Pedro Tamen.

Qual o personagem que você gostaria de ter criado?
Não é personagem exclusivamente literário; é Dom Giovanni, da ópera de Mozart, com libreto de Lorenzo da Ponte. É uma celebração da vida e, paradoxalmente, uma apologia da morte como a suprema redentora.

Qual o maior livro da literatura brasileira?
Prefiro dizer o que mais gosto. É o Memorial de Ayres, do Machado de Assis. Serena investigação psicológica de um homem maduro, no limiar da velhice.

Qual o maior escritor da literatura brasileira?
Inúmeros: o maior é aquele escolhido pelo leitor, em dado momento de sua vida de leituras. Cada qual, a cada década, tem o seu “maior”. Não há uma consagração objetiva e unânime. Felizmente.

Qual o livro que você mais relê?
Madame Bovary, pela irretocável construção romanesca e pelo sentido da tragédia em sua versão moderna e burguesa. Já o li 14 vezes. Sou muito metódico em registrar minhas leituras.

Qual o livro mais superestimado que você conhece?
Grande Sertão: Veredas. Talvez o seja por seus aspectos lingüísticos, mas isso não é o suficiente.

Qual o livro mais subestimado que você conhece?
A Capital de Eça de Queirós. Ninguém gosta, inclusive ecianos históricos e apaixonados.

Qual livro merece ser adaptado para o cinema?
Senilidade, de Italo Svevo. É um roteiro pronto. Basta fazer os cortes e ter um bom diretor.

Qual livro foi adaptado para o cinema e o resultado foi frustrante?
Não comparo o romance com o filme. Contudo, a aproximação pode ser feita quanto ao O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Ótimo romance, ótimo filme.

Qual o livro que você daria de presente?
Terrasse à Rome, de Pascal Quignard, publicado em 2000 e ainda não traduzido. Espero que logo alguma editora brasileira se interesse.

Qual o livro que você gostaria de ganhar?
Não é pouco: a coleção completa da Summa Theologica, de Tomás de Aquino. Tudo está lá. O mestre da Escolástica é um destes autores que nos fazem rever os tolos preconceitos contra a Idade Média.

Qual o livro que você procura e nunca encontrou?
Hoje em dia, com a Internet, encontro tudo o que procuro. Para o bem e para o mal.

Qual deve ser o maior mérito de um escritor?
Se é romancista, escrever o máximo de ação no mínimo de palavras. Na narrativa atual, escreve-se demais. Para resolver isso, basta que os escritores escrevam a literatura que gostam de ler.

Cite um grande livro de um grande autor?
Dom Quixote, de Cervantes. Não é insuperável, mas é uma das marcas de nossa paradoxal humanidade.

Cite um grande livro de um autor pouco conhecido?
Aurora, de Arthur Schnitzler, cujo título original é Spiel im Morgengrauen (algo como “Um jogo de manhã cedo”). Não sei por que traduziram esse belo título. Narra-se uma desesperada noite do tenente Wilhelm Kasda, um jogador compulsivo. Qualquer parágrafo é uma consagração da literatura.

Cite um livro que você esperava gostar e que o decepcionou?
Viagem ao Redor do meu Quarto, de Xavier de Maistre. Muito promete e pouco cumpre.

Cite um livro que você não esperava nada e que o surpreendeu?
Não costumo perder tempo com livros que não prometem nada; mas por circunstâncias profissionais, outrora li, de Alejo Carpentier, El Acoso. Foi uma revelação, e o começo do meu fascínio por esse autor cubano.



Pelé 70

23 de outubro de 2010 0

Pelé em 1966, aos 26 anos – quando já era o Rei. – Reprodução

Na recente overdose de lançamentos sobre futebol desencadeados pela passagem da Copa do Mundo, pelo menos um livro se perfila como obra de craque, um lance que realmente vale o ingresso: Pelé – Minha Vida em Imagens. Trata-se da autobiografia do maior de todos os tempos. Está fartamente ilustrada com fotos inéditas ou raras e itens de colecionador — reproduções de documentos como a primeira carteirinha de jogador (a da Liga Bauruense de Esportes) e um memorando de Henry Kissinger ao então presidente americano Richard Nixon, por conta de uma visita do Rei à Casa Branca, em 1973, flâmulas, selos e o bilhete de entrada do derradeiro jogo (um amistoso entre Cosmos e Santos).

O livro é a versão brasileira de uma obra britânica de 2008, editada aqui com o esmero gráfico habitual da Cosac Naify (100 páginas, R$ 140). Talvez por ser uma tradução — a cargo de Bernardo Ajzenberg —, a prosa de Pelé carece de autenticidade em algumas passagens. Não se imagina o Atleta do Século usando palavras como “subjacente” ou empregando o pretérito mais-que-perfeito. Outros podem reclamar que falta distanciamento crítico, mas quem quer distanciamento crítico quando se pode se sentir tão próximo do ídolo ?

Dividido em seis capítulos, o volume abrange a infância de Edson Arantes do Nascimento (que completa 70 anos hoje), sua ascensão e glória, a polêmica do Gol Mil e os inúmeros adiamentos da hora de pendurar as chuteiras. Cada capítulo tem uma epígrafe digna de nota. Por exemplo, a do zagueiro italiano Burgnich na final da Copa de 1970: “Eu disse a mim mesmo: ele é de carne e osso, como eu. E estava errado“. Ou a de Andy Warhol: “Pelé é um dos poucos que contradizem minha teoria: em vez de 15 minutos, ele terá 15 séculos de fama”.

O capítulo sobre a meninice já vale o investimento. Com um lirismo insuspeito, Pelé recorda seus primeiros chutes em uma bola de meia com papel amassado ou panos rasgados, amarrada com barbante, e define-se como um legítimo nativo de Três Corações — referência aos lugares onde nasceu (a homônima cidade mineira), cresceu (Bauru, SP) e jogou futebol (Santos). Conta a origem de seu apelido e como custou a cultivá-lo – chegou a dar um soco em um colega de aula que o chamara de Pelé. A propósito da alcunha imortal, ele lembra que, antes, também era conhecido como Gasolina (“Pergunto-me o que teria acontecido se esse apelido tivesse pegado...”).

Bastante sincero, Pelé rememora problemas com dinheiro e com mulheres (cita o namoro com Xuxa, quando ela contava 16 anos, como um dos “menos felizes”, mas não entra em detalhes). Relata seu júbilo por conhecer Michael Jackson e Nelson Mandela. Revela o principal ensinamento do técnico Waldemar de Brito (“Tão importante quanto controlar e conduzir a bola é saber recebê-la“). E, como um rei, reconhece: “Tive tudo que um homem pode desejar“.

Montando a Feira: uma galeria

20 de outubro de 2010 4

Quem passa pela Praça da Alfândega já pode ver a Feira do Livro se erguendo do solo num lento e operoso ritual que se repete a cada ano: os trabalhadores contratados pela Câmara Rio-Grandense do Livro se esfalfam na montagem da cobertura que encobre a praça, esticando cordas, cravando espeques por entre o calçamento e amparando com escoras os pilares de aço que sustentam a estrutura que permite, a cada feira um passeio literário sem chuva. Todo ano a Feira representa, para nós aqui da Redação, um desafio em termos de cobertura jornalística, porque é um evento que se realiza todo ano e já tem mais de cinco décadas de história – ou seja, a busca por um ângulo inesperado ou mesmo interessante em algo que se cobre anualmente é uma tarefa complicada. Que ideia ainda não se teve? Como fazer diferente.

Um dos aspectos dessa dificuldade é justamente a montagem das barracas e da cobertura da Feira. Elas estão lá todo ano. E quando começam a ocupar a praça, é o momento de se fazer o registro. Os fotógrafos de Zero Hora se dirigem à praça e muitas vezes voltam de lá com ensaios belíssimos, imagens que encantam pela composição, pela beleza plástica, pela luminosidade – diferenciais em imagens de um fato que, em essência, não difere muito da construção de um andaime. Nem sempre todo esse material é aproveitado no jornal impresso – o que é uma pena, porque se não publicarmos uma foto das montagens das barracas num determinado ano, ela perde o valor jornalístico, não faria sentido republicar em 2010 a montagem das bancas em 2009, a não ser em uma matéria de memória.

Ou em uma galeria, como a que apresentamos abaixo, uma breve seleção de imagens feitas por fotógrafos de Zero Hora ao longo da última década. Cada imagem vem acompanhada, embaixo, do nome do fotógrafo e do ano em que foi tirada. Para quem já quiser entrar no clima da Feira.  E aos apreciadores de fotografia em geral, fica aqui a sugestão: visitem o blog da fotografia de Zero Hora, o Focoblog, editado pelo fera Jefferson Bottega:

Pondo ordem na banca – Jefferson Bottega: 56ª Feira (2010)

Então martela, martela o martelão“. Tadeu Vilani: 56ª Feira (2010)

A 56ª Feira também toma forma no Cais, como mostra Tadeu Vilani (2010)

Sparks will fly“. Marcelo Oliveira, do Diário Gaúcho –  55ª Feira, em 2009

Livros são o coração das bancas. André Feltes, do Diário Gaúcho – 55ª Feira, em 2009

Arte abstrata? Não, montagem da cobertura por Daniel Marenco – 54ª Feira, em 2008

Trabalhadores do Brasil...” Júlio Cordeiro, na 52ª Feira, em 2006

Mario, será que vai chover?” Genaro Joner: 51ª Feira, em 2005

“Daqui do Céu dá pra ver tudo…” Emílio Pedroso: 51ª Feira, em 2005

Humana geometria… Mauro Vieira: Feira de nº 50. 2004

Mergulhado nos preparativos. Ricardo Chaves – 50ª Feira, em 2004

Para cima com a viga, moçada…” Júlio Cordeiro. 50ª Feira – 2004

O Sol é para Todos“. Ricardo Duarte. 49ª Feira, em 2003

Por dentro da banca. – Mário Brasil. 47ª Feira, em 2001

Ainda as livrarias

20 de outubro de 2010 3

NOTA DO EDITOR: Conforme vocês vêm lendo aqui no Mundo Livro, um ameno post escrito pelo colega Gustavo “Paradinha” Brigatti sobre uma decepção em uma livraria de shopping gerou uma acalorada série de manifestações e comentários, o que levou o Brigatti a escrever outro texto e permitiu o gancho para que eu recuperasse um texto de George Orwell com o qual prometia encerrar a polêmica – que não sei nem se polêmica é, foi um debate, ainda que acalorado e com dedões no olho e puxões de cabelo em um ou outro momento.

Não sou político, mas essa promessa vou descumprir agora, depois que bateu na caixa de comentários um texto escrito pelo colega daqui da redação Caue Fonseca (que no primeiro turno das eleições cobriu, no blog e na coluna Palanque Eletrônico, o lado pitoresco da disputa). O Caue faz em seu texto algumas considerações interessantes e extremamente high-tech – e com as quais, a exemplo dos pontos defendidos pelo Brigatti, não concordo cem por cento. Mas achei o  texto pertinente, bem escrito e bem argumentado, o suficiente para voltar ao tema com mais uma colaboração.  Leiam abaixo:

Livros e Margarinas

Lamento ter entrado atrasado na discussão (há um mês só penso em candidatos e seus jingles), já que me interesso bastante sobre o tema. O que achei peculiar aqui no Mundo Livro, foi como a discussão ficou acalorada ao discutir o futuro das livrarias enquanto já se discute o futuro dos livros, mas enfim…

O Paradinha tem razão em tudo o que escreveu. Minha única ressalva é que não acredito que as livrarias possam vir a ganhar essa briga, a serem melhores em te entregar o que tu quiseres na hora em que tu quiseres, pois a internet está ficando cada vez mais eficiente nisso.

Mas não é só livro. Já está bem próximo o dia em que minha geladeira acusará a falta de margarina, eu encomendarei mais margarina na própria geladeira e, no fim do dia, o supermercado entregará minha gordurinha vegetal na portaria do prédio em horas. Com livros, não será diferente.

Às livrarias, restará competir naquilo que o livro difere da margarina ou de um produto qualquer. Apostar no cliente que consome literatura por impulso – e aqui escreve um comprador compulsivo de livros −, na conversa com os livreiros (um amigo cronista, o Vitor Diel, reparou que atendentes de megalivrarias sabem bem menos de livros do que o de qualquer outra loja: carros, roupas, locadoras. Está aí algo a ser melhorado), nos cafés, no ambiente propício à leitura, nos eventos literários. Tanto devem ser competitivas nesses quesitos que muitas delas já são.

E tudo isso muda ali na frente, quando o download do gibi do meu colega estiver acessível no seu ipad a dois toques na tela. Aí as livrarias terão novamente que repensar uma série de coisas. E por aí vamos…

Tecnologia gera evolução. A gente pode repensar certas coisas e evoluir junto. Ou a gente pode xingar quem repara nisso antes que a gente.

Texto de Caue Fonseca

Casas literárias

18 de outubro de 2010 4

NOTA DO EDITOR: Nossa jovem talento Tássia Kastner (lembram dela?), ora frilando para o setor de Economia do jornal, me ofereceu um texto que havia sido inspirado por uma recente passagem da moça por São Paulo e pela sua Bienal. Como gosto dos textos da Tássia, é claro que topei. E gostei do texto. Espero que vocês também gostem:

Com que Livro você Construiria sua Casa?

Bienal é o tipo de coisa que tu vai sabendo que pode encontrar várias coisas bem bizarras, e que vai invariavelmente pensar se o problema de não entender o lance ou achá-lo idiota é teu ou de todo o resto (que tá fazendo aquela cara de óóóóó para tentar parecer inteligente).
Pois eu encarei a Bienal de SP e, lá no Parque do Ibirapuera, entre trabalhos bem legais e outros polêmicos (como o do Nuno Ramos e seus urubus, Gil Vicente e seus assassinatos), o visitante encontra Longe daqui, aqui mesmo, de Marilá Dardot e Fábio Morais. A obra é também um espaço conceito dessa edição da bienal, que tem a proposta de fazer a transição entre os andares e dar um descanso para o cérebro, abarrotado de tudo o que viu.
Acontece que Longe daqui… carrega, provavelmente, o questionamento mais direto de todas as obras lá expostas: com que livro você construiria sua casa?
Para explicar, basta dizer que o espaço emula uma casa/biblioteca, com as paredes e portas revestidas por capas e lombadas de livros. No centro, um espaço para manusear alguns exemplares e até espreguiçadeiras para quem quiser curtir o momento e a leitura. Eu, que sou apenas admiradora (e não uma entendedora) das artes, me abstenho de tentar interpretar o trabalho dos artistas.
E por que eu tô dizendo isso tudo?
Quando eu tuitei a pergunta-mote do trabalho, o ilustre editor deste blog respondeu: teria de ser um bem grande.
Então me propus a pensar de verdade em alguns livros/autores que dariam boas casas.

— Uma casa de quadrinhos como Peanuts, Mafalda e Macanudo seriam um misto de desencanto, inocência e sagacidade infantil. Uma boa casa para se viver, eu diria.

— Um lar com muitas personagens femininas, tipo Capitu (de Dom Casmurro), Emma Bovary (de Madame Bovary) ou outras mulheres dessas cheias de crises típicas do século XIX seria inóspito. Mulheres demais sob o mesmo teto não costuma dar muito certo.

— Uma casa de contos seria legal. Apenas cômodos pequenos, nos quais os móveis seriam todos planejados de forma ainda mais cuidadosa do que em um romance de fôlego, e na qual tudo se encaixaria perfeitamente.

– Tenho certeza que muitos morariam numa casa construída com paredes de nosso velho safado Buko — suja, ordinária, mas sem nunca faltar uma garrafa de álcool e uma companhia mais ou menos —, ou então em uma habitação cheia das loucas pirações de Kerouac… naturalmente, os motivos para viver lá seriam as loucas pirações do indivíduo…

— Os clássicos como Goethe, Dostoiévski, Victor Hugo, Balzac … (preencha aqui com o autor que você considera clássico) … formariam imponentes e consistentes moradas.

— Sem perder a piada fácil, a casa mais sólida seria formada de poesia concreta.

Texto de Tássia Kastner

Direito de Resposta

18 de outubro de 2010 1

Como nosso amigo e colaborador Gustavo “Paradinha” Brigatti parece ter despertado a ira dos frequentadores de livraria com seus últimos dois textos, iniciando uma inesperada ainda que bem-vinda polêmica — não tínhamos tantos comentários fazia meses –, este editor, em nome do equilíbrio e da equanimidade, resolveu oferecer um direito de resposta ao lado das livrarias (algo que um dos comentários mais ou menos ácidos já havia sugerido com a ideia de que eu deveria “me colocar no lugar dos atendentes” ou algo assim). E não creio haver melhor porta-voz para isso do que o ferino e elegante mestre da prosa inglesa George Orwell. No texto Memórias de Livraria, publicado, como bem lembrou o leitor Gabriel em um dos comentários do primeiro post, na coletânea de artigos Dentro da Baleia e Outros ensaios (Cia. das Letras, 2005), Orwell oferece um retrato sarcástico e cheio de corrossiva ironia dos frequentadores de sebo. Entre dezenas de ofícios – por exemplo, oficial burocrático do Império Colonial britânico ou lavador de pratos em um hotel de Paris, experiências que retratou, respectivamente, em Dias na Birmânia e Na Pior em Paris e Londres – Orwell foi balconista de uma loja de livros usados, o que lhe permite oferecer um bem-humorado contraponto à visão do Brigatti. Chamam atenção, de pronto, no trecho que publicamos abaixo, o quanto alguns problemas do mercado livreiro daquela época continuam válidos hoje, como a dificuldade de o gênero conto atrair o interesse do leitor ou a predominância no gosto do público da literatura mais rasa em detrimento da produção de qualidade um pouco mais clássica. Com vocês, George Orwell, o livreiro, encerrando a polêmica das livrarias mostrando o lado de lá do balcão (literalmente).

Memórias de Livraria

Quando eu trabalhava num sebo – que, para quem nunca trabalhou num, é muito fácil imaginar como uma espécie de paraíso onde encantadores senhores idosos folheiam livros sem cessar em meio a fólios encadernados em couro de bezerro —, o que mais me impressionava era a raridade de pessoas de fato dadas à leitura. Nossa livraria dispunha de um estoque excepcionalmente interessante, no entanto duvido que dez por cento dos fregueses soubessem distinguir um livro bom de um ruim. Pretensos entendidos em primeiras edições eram bem mais comuns do que amantes da literatura, mas estudantes orientais que pechinchavam livros didáticos baratos eram ainda mais comuns, e mulheres indecisas em busca de presentes de aniversário para sobrinhos eram, de todos, as mais comuns.
Muitas das pessoas que nos procuravam eram do tipo que seria inconveniente em qualquer lugar, mas que encontrava oportunidades especiais numa livraria. Por exemplo, a estimada senhora que “quer um livro para um inválido” (uma procura bastante freqüente) e a outra estimada senhora que leu um livro muito bom em 1897 e gostaria de saber se poderíamos localizar um exemplar para ela. Infelizmente não se lembra do título nem do nome do autor, ou do que o livro tratava, mas se lembra de que a capa era vermelha. Afora essas, existem dois tipos de praga notórios pelos quais todo sebo é perseguido. Um é o indivíduo decadente que cheira a farelo de pão amanhecido e que aparece todos os dias, de quando em quando várias vezes por dia, tentando vender livros sem valor. O outro é o que pede quantidades enormes de livros pelos quais não tem a menor intenção de pagar. Nossa livraria não vendia a crédito, mas reservávamos livros ou os encomendávamos, se necessário, para quem combinava de pegá-los mais tarde. Raras vezes as pessoas que nos encomendavam livros voltavam. No início isso me intrigava. O que as levava a agir assim? Apareciam e pediam um livro raro e caro, faziam-nos prometer repetidas vezes guardá-lo para elas e depois sumiam para sempre. Mas muitas delas, claro eram paranóicas inconfundíveis. Tinham o hábito de falar de si mesmas com afetação e contar as histórias mais mirabolantes para explicar que por acaso saíram de casa sem dinheiro — histórias em que, em muitos casos, estou certo de que elas mesmas acreditavam. Numa cidade como Londres, há sempre uma porção de loucos não exatamente interditáveis soltos nas ruas, e que tendem a se dirigir às livrarias, porque uma livraria é um dos poucos lugares em que podemos nos demorar por bastante tempo sem gastar um tostão. No fim acabamos conhecendo essas pessoas só de bater os olhos. Apesar de todo o palavrório, há nelas algo de antiquado e desnorteado. Com frequência, ao lidarmos com um paranóico manifesto, púnhamos de lado o livro pedido e depois o devolvíamos à estante assim que ele ia embora. Notei que nenhum deles jamais tentou levar livros sem pagar; bastava-lhs pedi-los — o que lhes dava, crio, a ilusão de que gastavam dinheiro de verdade.
Como a maioria dos sebos, tínhamos várias atividades suplementares. Vendíamos máquinas de escrever usadas, por exemplo, e selos também — quer dizer, selos usados. Colecionadores de selos são uma raça estranha, silenciosa e semelhante aos peixes; de todas as idades, mas só do sexo masculino; mulheres, ao que parece, não conseguem perceber o encanto peculiar que há em colar pedaços de papel coloridos em álbuns. Vendíamos ainda horóscopos baratos colecionados por alguém que garantia ter previsto o terremoto no Japão. Eram guardados em envelopes selados, e eu mesmo nunca abri um deles, mas quem  os comprava muitas vezes voltava e nos dizia que os horóscpos eram “verdadeiros”. (Sem dúvida qualquer horóscopo parece “verdadeiro” se nos diz que somos extremamente atraentes para o sexo oposto e que nosso pior defeito é a generosidade.) Vendíamos muitos livros infanto-juvenis, principalmente “saldos”. Os infanto-juvenis modernos são horrendos, sobretudo quando os vemos em conjunto. Para dar a uma criança, eu preferiria um exemplar de Petrônio a Peter Pan, mas até James Matthew Barrie parece valoroso e saudável comparado a alguns de seus imitadores que vieram depois. Na época do Natal, passávamos uns dez dias febris lidando com cartões e calendários natalícios, que são coisas tediosas de vender mas um bom negócio nessa época. Eu costumava acompanhar com interesse o cinismo brutal com que o sentimento cristão é explorado. Os vendedores das firmas de cartões de Natal faziam visitas trazendo catálogos já no mês de junho. Não me esqueço de uma frase numa das faturas. Era: “Duas dúzias. Menino Jesus com coelhos”.
Mas nossa principal atividade suplementar  era uma biblioteca circulante — a habitual biblioteca “dois pence, nenhum depósito”, com quinhentos ou seiscentos volumes, todos de ficção. Como os ladrões de livros devem adorar essas bibliotecas! É o crime mais fácil do mundo pegar um livro emprestado numa livraria por dois pence, tirar a etiqueta e vendê-lo a outra livraria por um xelim. No entanto, os livreiros acham que vale mais a pena ter determinado número de livros roubados (costumávamos perder cerca de uma dúzia por mês) do que afugentar fregueses exigindo-lhes um depósito.
Nossa livraria ficava exatamente no limite entre Hampstead e Camden Town [noroeste de Londres], e éramos freqüentados por todo tipo de gente, de baronetes  a motoristas de ônibus. Talvez os assinantes da nossa biblioteca constituíssem um amplo espectro do público leitor londrino. Vale, portanto, observar que, de todos os autores da nossa biblioteca, o que tinha mais saída era… Priestley? Hemingway? Walpole? Wodehouse? Não. Ethel Mary Dell, com Warwick Deeping em segundo lugar e John Jeffrey Farnol, devo dizer, em terceiro. Os romances de Dell, claro, são lidos apenas por mulheres, mas mulheres de todos os tipos e idades, e não, como seria de esperar, apenas por solteiroas ansiosas e esposas obesas de vendedores de tabaco. Não é verdade que homens não lêem romances, mas é verdade que evitam toda uma ramificação de livros de ficção. Grosso modo, o que se poderia chamar de romance mediano — o conteúdo comum, bom e ruim, aguado, à moda de John Galsworthy, que é o padrão do romance inglês — parece existir apenas para as mulheres. Homens lêem romances impossíveis de respeitar ou romances policiais. É formidável o que consomem de romances policiais. Um de nossos assinantes leu quatro ou cinco romances policiais por semana ao longo de um ano, ao que parece, afora os retirados em outras bibliotecas. O que mais me surpreendeu foi que ele nunca lia o mesmo livro duas vezes. Aparentemente, o total dessa espantosa torrente literária sem valor (as páginas lidas todos os anos cobririam, se calculadas, uns trezentos metros quadrados) ficava guardado para sempre na memória. Ele não prestava atenção nos títulos nem no nome dos autores, mas era capaz de dizer, só de bater os olhos num livro, se “já o tinha”.
Numa biblioteca circulante, as pessoas revelam seus gostos verdadeiros, não os pretensos, e uma coisa que impressiona é que os romancistas ingleses “clássicos” saíram por completo de moda. É simplesmente inútil incluir Dickens, Thackeray, Jane Austen, Trollope etc. numa biblioteca circulante normal; ninguém os retira. Assim que vêem um romance do século XIX, dizem: “Ah, mas isto é velharia!”, e logo saem correndo. No entanto, é sempre razoavelmente fácil vender Dickens, assim como é sempre fácil vender Shakespeare. Dickens é desses autores que as pessoas “sempre querem” ler e, como a Bíblia, bastante conhecidos em segunda mão. As pessoas sabem, por ouvir dizer, que Bill Sikes [de Oliver Twist] era um ladrão e que o sr. Wilkins Micawber [de David Copperfield] era calvo, assim como sabem, por ouvir dizer, que Moisés foi encontrado num cesto de vime e viu o “outro lado” de Deus. Outra coisa bastante perceptível é a crescente impopularidade dos livros americanos. E outra — os editores ficam muito aflitos com isto a cada dois ou três anos — é a impopularidade dos contos. As pessoas que pedem ao bibliotecário que escolha um livro para elas quase sempre começam dizendo: “Mas contos não”, ou: “Não desejo histórias curtas”, como um freguês alemão nosso costumava dizer. Quando perguntamos por quê, às vezes explicam que exige muito esforço ter de se acostumar com um novo grupo de personagens a cada história; gostam de “entrar” num romance que não exija pensar muito depois do primero capítulo. Acredito, porém, que a culpa cabe mais aos escritores do que aos leitores. A maioria dos contos modernos, americanos ou ingleses, é extremamente sem vida e sem valor, bem mais do que a maioria dos romances. Os contos que contam histórias são bastante populares, vide D.H. Lawrence, cujos contos têm a mesma popularidade dos romances.
Será que eu gostaria de ser um livreiro de métier? De modo geral — apesar da gentileza de meu patrão comigo e de alguns dias felizes que passei na livraria —, não.

Um pequeno esclarecimento

16 de outubro de 2010 0

Nesta madrugada de sexta para sábado, os blogs de Zero Hora passaram por uma atualização em sua ferramenta de edição de posts. Correu tudo bem e, aparentemente, nada foi perdido, mas se você fez algum comentário durante esse período e ele não ainda apareceu na tela, pedimos a gentileza, aos que tiverem vontade e tempo para tal, que repitam o comentário, porque algum bug inesperado pode ter apagado sua manifestação

Não, não foi censura do editor – quando o editor censura comentário deixa bem claros os motivos.

Abraço