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Trecho do Dia: Ivo Bender

02 de novembro de 2010 0

Na manhã seguinte, mal clareava o dia, rosto lavado mas barba por fazer, Felipe estava na cozinha. Guilhermina, ao fogão, fritava ovos para servir aos homens no café. Ele rompeu o silêncio:
– Essa noite, quando no escuro abriste a porta do meu quarto… – aqui sua fala foi cortada pela pergunta de Guilhermina:
– Como assim?
Felipe prosseguiu:
– Essa noite, quando me procuraste…
– Não te entendo.
– Se já esqueceste o que aconteceu ou se não queres lembrar…
O diálogo apenas iniciado foi subitamente suspenso pelo cumprimento dos dois peões que chegavam. Com um “dá licença, Dona Guilhermina, bom dia ‘Seu’ Felipe”, sentaram à mesa e o desjejum foi servido.

Aquele dia foi longo e penoso para Felipe. Não conseguia tirar da mente a conversação interrompida e que, seguramente, já não teria continuidade. Ao correr das ideias que lhe atropelavama mente, a impressão que ficou era a de que a mulher que à noite estivera em seu quarto não era a mesma que encontrara pela manhã.
Nos dias que se seguiram, Felipe enfrentou alguma dificuldade ao se dirigir a Guilhermina. Continuava sem entender a recusa da moça em admitir o encontro de que haviam desfrutado. Guilhermina, porém, inexplicavelmente, estava mais afável do que jamais estivera e o tratava com certo carinho que, no entanto, tinha o cuidado de não acentura. Talvez, pensou Felipe, ela fosse dessas mulheres lunares, sobre as quais o padrinho o alertara. Mulheres que sempre mantêm o homem a uma desamparada distância, de humor instável e que sustêm o companheiro preso numa teia de insegurança. Tais sentimentos e a obsessiva busca de explicação foram abrandados quando, em longa conversação por Guilhermina iniciada, Felipe contou-lhe alguns episódios engraçados de seu tempo de estudante. E quando a conversa derivou para o trabalho, a convenceu da compra de um pequeno trator e de como seria mais lucrativo diversificarem as lavouras. A partir desse momento, ele percebeu um brilho novo, uma cintilação de contentamento no olhar da moça. E, finalmente, ao ficarem acertadas as melhorias a serem implantadas, ela disse:
– Penso que chegou a hora de saberes um pouco mais a respeito da minha família e de mim mesma. Eu fui a primeira menina, em gerações, a nascer entre os Hartmann. O pai nunca desculpou minha mãe por ter gerado uma mulher. Rompera-se a tradição da família e, como consolo, lhe restou me vestir como um garoto até a adolescência. Minha mãe era uma pessoa bondosa e levou o resto da vida assim, ordeira e trabalhadora. Eu recebia seu carinho. apenas quando o olhar controlador do pai se fazia ausente. Assim foi até o dia em que ela morreu. Então, com as primeiras menstruações, me dei conta de que se tenho sangue dentro do corpo para esbanjar a cada mês e nem por isso morro, devo carregar em mim alguma força desconhecida. Fugi para São Sebastião, certo dia, com algum dinheiro que surrupiei do velho. O menino que saíra daqui pela manhã voltou à tarde como menina. Ao me ver, o pai grunhiu feito um bicho, sentiu-se mal e me pediu ajuda. Dei-lhe um copo d’água. Ao se recuperar, não mais falou no assunto. Nem naquele dia, nem nunca mais.

O trecho acima foi extraído de Contos (L&PM), obra que reúne nove relatos curtos escritos por Ivo Bender (na foto acima, de 2008. Crédito: Fernando Gomes, ZH)– um dos maiores dramaturgos contemporâneos, agora arriscando-se na seara da prosa de ficção. Bender participa hoje, às 16h30min, na Sala O Retrato do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, de uma conversa com a professora de literatura Regina Zilberman, que também assina o prefácio da coletânea. Em Contos, o leitor encontra nove histórias que enfocam o imaginário, a vida diária, os mistérios cotidianos de cidades do interior do Estado, com ênfase nos municípios de colonização alemã.

Na história da qual foi retirado o excerto que vocês leram acima, Pedra Marcada, Felipe, um jovem técnico agrícola, chega a uma estância no interior, na cidade de São Sebastião, e é envolvido imediatamente pelo caráter misterioso, por vezes algo sobrenatural, de Guilhermina, filha única de um idoso e adoentado proprietário. São narrativas que vão buscar no tom do causo a forma para trabalhar o desconhecido nas comunidades do interior. No relato que abre o livro, por exemplo, Campos de Santa Maria do Egito, é por meio das hipóteses para o nome de um rio/arroio que cruza determinada cidade, o Rio do Corpo, ou Arroio do Corpo, que Bender constrói o conto, montando assim em poucas páginas uma história da região e mostrando o quanto as crendices religiosas e supersticiosas influem na mentalidade de uma comunidade interiorana. Como diz Regina Zilberman no prefácio:

…a maioria das histórias inicia-se por uma descrição meticulosa do espaço onde transcorre a narrativa, conferindo particular ênfase às características da natureza. Destacam-se sobretudo as estações próprias aos climas temperados, como o inverno e o outono, períodos menos solares e mais inclementes, nem sempre favoráveis à ação humana, como se o contista desejasse demarcar a diferença e a excepcionalidade do espaço vivido pelas figuras ficcionais. A ausência de menções à modernidade ou à tecnologia – os meios de transporte são precários ou inexistentes ( em Aljofres, o caseiro sugere ao tradutor que passeie a cavalo; em Sonora, Romano chega a pé às terras de Bertholdo; em Pedra Marcada, Felipe caminha até a fazenda de Guilhermina); os agrupamentos humanos carecem de aparelhos típicos da vida urbana (em Vale das Tílias, não há hotel e o narrador hospeda-se  em uma residência que ocasionalmente funciona como pensão; situação similar ocorre com Felipe, em Pedra Marcada) – complementa a estruturação do ambiente, que se mostra anacrônico ou primitivo, mesmo quando os eventos se desenrolam nas últimas décadas do século XX ou no começo do século XXI.

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