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Conversa de Primos

09 de novembro de 2010 0

A escritora carioca Tatiana Salem Levy, (com o microfone na foto, de autoria de Bruno Alencastro/CRL) autora do impactante A Chave de Casa (sobre o qual você pode ler mais aqui) comentou na mesa realizada ontem na 56ª Feira do Livro o quanto o livro Primos (Record, 2010), organizado por ela e Adriana Armony, tinha a pretensão de ser contra a corrente que enxerga na relação entre árabes e judeus uma história ancestral de conflito. Ao menos ontem no Salão Barbosa Lessa do Centro Cultural Erico Verissimo, na mesa sobre as representações de árabes e judeus na literatura brasileira que reuniu Tatiana, Moacyr Scliar, Cíntia Moscovich e Fabrício Carpinejar, esse objetivo foi cumprido. Na conversa, mediada pelo jornalista Reinaldo Azeredo, todos preferiram ressaltar, na maior parte do tempo, as semelhanças e a convivência de séculos entre uns e outros do que as relações tempestuosas dos últimos 50 anos.

A mesa começou sem Scliar – um problema de comunicação fez com que o integrante da Academia Brasileira de Letras ficasse mais de meia hora esperando pela mesa em outro local, Scliar só chegou às 19h20 no encontro marcado para 19h. Primeiro a falar – precisava sair mais cedo para ministrar uma aula – Carpinejar, descendente de libaneses por parte do pai, Carlos Nejar, narrou o quanto sua convivência com o ramo árabe da família se fez descobrindo que as relações numa família árabe parecem feitas de puro presente, sem menções ao passado.

– Os homens não falavam sobre o passado. Não se podia perguntar nada, a curiosidade sobre o passado soava como uma invasão. Havia um piano de cauda trancado na casa, e ninguém tocava, e nós sabíamos que não podíamos perguntar nada.

Essa relação de silêncios, contudo, não era árida, e sim carinhosa.

– Os homens árabes se cumprimentam com beijo no rosto, é comum. Só descobri que isso era estranho para os outros quando entrei no colégio e ia cumprimentar os coleguinhas. Fiuquei com fama de veado. – disse o performático poeta.

Tatiana Salem Levy foi então chamada para explicar o projeto do livro Primos, que reúne contos de autores de ascendência familiar judaica (como a própria Tatiana, Moacyr, Cíntia, Bernardo Ajzenberg e Leandro Sarmatz, entre vários outros) e árabe (Salim Miguel, Carpinejar, Georges Bourdoukan, Alberto Mussa, Samir Yazbek, para citar alguns).

– Queríamos mostrar que no Brasil as duas comunidades sempre conviveram, que mantêm laços, e contrariar as rivalidades do noticíario. Para quem não conhece as duas culturas, a ideia é que árabes e judeus nasceram para se odiar e que sempre foi assim, quando a história registra séculos de convivência.

Intervindo, Cíntia Moscovich comentou que o silêncio sobre o passado não era necessariamente uma característica árabe. Lembrou da mãe, que não falava íidiche, porque seus avós, judeus chegados da Bessarábia na década de 1910, só falavam com os filhos em português.

– Acho que havia uma vontade de integração que passava pelo idioma. – arriscou Cíntia.

Quando Tatiana Salem Levy comentou que sua família era de judeus sefarditas, e não azquenazi, e que falavam o hoje correndo risco de extinção idioma ladino, ela e Cíntia se dedicaram a elucidar o público sobre as diferenças entre ambos: os sefarditas judeus, da península ibérica, os azquenazi mais presentes no leste europeu.

Já com o papo bastante adiantado, chegou Moacyr Scliar – que pegou o mote da convivência ancestral que Tatiana vinha desenvolvendo e lembrou o quanto judeus e árabes conviveram durante os tempos de dominação islâmica na Espanha. Ao falar dos sombrios tempos atuais com o conhecimento de quem já esteve muitas vezes em Israel desde a décad de 1970, Scliar criticou tanto os radicais islâmicos palestinos quanto o radicalismo de parte dos israelenses ortodoxos.

– Vi um documentário na TV recentemente que entrevistava uma americana emigrada para Israel de uma comunidade no Brooklyn que dizia, fervorosamente: “Esta terra é nossa, Deus nos deu esta terra, os árabes é que têm de sair daqui”. E depois foi entrevistada uma mulher palestina: “Minha família mora aqui há 800 anos. Não temos para onde ir”. – contou Scliar, antes de defender que a conciliação é a única saída possível para o drama do Oriente Médio e sugerir a leitura de três grandes escritores israelenses também eles defensores da convivência entre os dois povos: Amos Oz, David Grossman e A.B. Yeoshoua.

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