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Notas sobre Romances Coletivos

10 de novembro de 2010 2

Daqui a pouco, às 18h, na Feira do Livro, no térreo do Memorial do Rio Grande do Sul, uma turma de alunos da oficina de criação literária ministrada pelo patrono da Feira do Livro 2006, Alcy Cheuiche, autografa dois romances históricos escritos a várias mãos: Porto Alegre dos Casais:  Chegadas e Partidas e Nos Caminhos do Banrisul. O primeiro é uma saga histórica que acompanha Porto Alegre da época da povoação guarani até a Revolução de 1930. O segundo, uma reconstituição ficcional da implantação do banco que dá título ao livro. E não, não li nenhum dos dois, estou tirando estas informações da sinopse que está na orelha. Não é a primeira vez que os alunos de Alcy Cheuiche escrevem ao fim de sua oficina um romance a várias mãos – li dois deles, Ituzaingô, a Saga das Lutas na Fronteira Sul e Banco Não Dá Bom Dia (seria o “romance bancário coletivo” um gênero em ascensão?) quando fui jurado do Prêmio Açorianos na categoria Narrativa Longa, no ano passado (a propósito, o Açorianos divulgou esta tarde sua lista de finalistas. Leia mais aqui, no site do Segundo Caderno). É que a circunstância desses dois autógrafos em particular me despertou o mote para alinhavar algumas notas a esmo sobre a própria existência dessa criatura a princípio tão impróvavel quanto o basilisco: o romance coletivo.

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Está lá no já clássico A Ascensão do Romance, estudo publicado em 1957 por Ian Watt sobre a trinca de fundadores do gênero em língua inglesa, Defoe, Richardson e Fielding (e que acabou de ser relançado em formato bolso pela Companhia das Letras – capa ao lado, tradução de  Hildegard Feist, R$ 25,50, 352 páginas, para quem estiver interessado). Watt vincula a afirmação do romance na Inglaterra da primeira metade do século 18 a circunstâncias históricas como o surgimento da classe média e o individualismo burguês.

O romance, na visão de Watt, devia muito à concepção de verdade instaurada a partir do pensamento de Descartes: “Uma questão inteiramente individual, logicamente independente da tradição do pensamento e que tem maior probabilidade de êxito rompendo com essa tradição“. A contraparte literária dessa visão, portanto, seria o romance, “cujo critério fundamental era a fidelidade à experiência individual – a qual é sempre única e, portanto, nova”, diz Watt. Expressão literária da modernidade, o romance é, assim, a visão de mundo de um indivíduo sobre sua época – algo levado ao máximo pelos gênios Dostoiévski, Balzac e Zola, entre outros.

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Logo, pensar em “romance coletivo” seria uma contradição em termos. Como imprimir uma visão única numa obra fruto de negociações, concessões e até choques de duas ou mais vontades diferentes? Talvez já prevendo que seria difícil jogar esse tipo de jogo colaborativo na chamada literatura “séria” do grande realismo, várias tentativas foram efetivadas – algumas com sucesso — nos nichos da literatura de gênero tributários do folhetim. Na seara dos romances policiais, para dar só um exemplo, não são raras as experiências de um “pseudônimo coletivo” debaixo do qual se esconderiam vários escritores que escreviam cada qual um livro, como Ellery Queen, mas há os casos dos romances escritos efetivamente em parceria — um deles é o dos franceses Pierre Boileau e Thomas Narcejac, que sob o nome de Boileau-Narcejac assinaram vários títulos policiais, alguns bastante famosos, como As Diabólicas. Nos anos 1940, eras antes de esse tipo de procedimento ser facilitado com as modernas tecnologias de comunicação escrita em tempo real, os dois trocavam ideias ou capítulos inteiros pelo correio (um morava em Paris e o outro em Nice, e ambos se visitaram pessoalmente pouquíssimas vezes).

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Mas a produção coletiva também atendeu por algum tempo o desafio imposto a si mesmo por mestres que se dedicaram a isso como uma brincadeira intelectual refinada. Jorge Luis Borges e Bioy Casares conceberam juntos, sob a assinatura de H. Bustos Domecq, o detetive Don Isidro Parodi, mestre da dedução que resolve os crimes sem sair de sua cela de prisão — algo que remete ao Dupin de Allan Poe, outro que não deixa seu gabinete para resolver crimes que lê pelos jornais, ou ao imenso gourmet Nero Wolfe, da série de romances de Rex Stout, que prefere ficar degustando pratos elaborados em casa enquanto o seu assistente Archie Goodwin faz o serviço sujo na rua.

Mesmo dois ferrenhos cultores do realismo literário à portuguesa, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, dedicaram-se no início de suas carreiras a um romance que mistura o romantismo gótico de Victor Hugo com intrigas à inglesa em O Mistério da Estrada de Sintra, que em seu prefácio da reedição (ao menos da reedição que eu li, faz muitos anos, ainda morava em São Gabriel) Eça desdenhava como uma “travessura de pura imaginação” cujo maior valor era, para ele, uma recordação da amizade que tivera com Ortigão, já falecido. Nos dois casos, contudo, a parceria permanece, como antes mencionado, vinculada à literatura de gênero, um intervalo na obra regular de seus autores – e que não alcança as realizações individuais dos parceiros na empreitada.

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Com a explosão das restrições de gênero na chamada pós-modernidade e o questionamento da própria noção de autoria, esse tipo de experiência se intensificou. A ideologia vigente no pós-modernismo é, de algum modo, herdeira da visão de Duchamp nas artes: no momento em que a obra se faz sobre uma colcha de retalhos ou sobre elementos produzidos em série pela sociedade industrial, é a junção dos elementos que garante a visão única – como no caso das histórias de diversas fontes rearranjadas por Georges Perec em A Vida: Modo de Usar (outro que ganhou recente reedição pela Companhia de Bolso). Mas as experiências mais intensas de literatura em parceria, curiosamente, parecem ainda restritas à literatura de gênero sobreviveram – são exemplos  o duo entre Stephen King e Peter Straub no romance de terror O Talismã e o de Neil Gaiman e Terry Pratchett na narrativa fantástica Belas Maldições.

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Há também famosos exemplos no Rio Grande do Sul, alguns remontando à época dos folhetins de imprensa do século 19, como a novela Estrychnina, fantasia romanceada sobre um crime real publicada em 1897 e assinada coletivamente por Mário Totta, Paulino Azurenha e Sousa Lobo. Mas o mais famoso exemplar de obra coletiva gaúcha completou 25 anos em 2007 e ganhou nova edição pela L&PM: Pega pra Kapputt, paródia de folhetim escrita por Luis Fernando Verissimo, Moacyr Scliar e Josué Guimarães e com trechos em quadrinhos de Edgar Vasques. Em que pese a expectativa gerada por um encontro de quatro grandes artistas, o livro permanece mais como uma curiosidade do que algo que pode ser arrolado entre o melhor da obra de seus autores — o que parece ser uma tendência do livro composto em parceria. Uma tendência com alguns desvios, como no caso do recente O Verão do Chibo, romance escrito por Vanessa Bárbara e Emílio Fraia e que foi bem recebido pela crítica.

 

Comentários (2)

  • Rafael diz: 31 de julho de 2014

    Cheguei nesse post pesquisando por Boileau-Narcejac no Google.
    Estou tentando descobrir que livros da dupla já saíram no Brasil. Em especial, D’Entre Les Morts, que deu origem ao filme Vertigo, de Alfred Hitchcock.
    Aparentemente, este não saiu, mas está difícil descobrir … você saberia como achar isso?!

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