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Um Balanço da Feira

15 de novembro de 2010 3

Esta Feira que termina hoje me fez chegar a duas impressões absolutamente distintas.

A primeira é que para sujeitos como eu e outras pessoas com quem conversei – colegas jornalistas ou escritores, gente que frequenta livrarias o ano todo e costuma comprar livros a intervalos mais ou menos frequentes ao longo dos 12 meses do ano —, a Feira não anda tão atraente assim há tempos: os amplos e suculentos descontos que sempre fizeram a graça e a chama do evento ou andam sumidos ou, quando praticados, não chegam a constituir um atrativo de fato, principalmente quando oferecidos, em plena Feira, pelas lojas de grandes redes do setor. E o livro muitas vezes já é caro na origem, e o desconto amortiza o impacto, mas não o dilui (o que vale para a literatura de ficção que eu consumo ou os livros técnicos que gente que eu conheço compra). Venho notando um gradativo declínio no número de livros que eu costumava comprar de uma Feira para outra – o que é engraçado, porque chego à conclusão de que adquiria mais livros nos balaios da Feira quando ganhava uma merreca em estágios intermediados pelo CIEE em meados dos anos 1990 do que hoje, quando sou um profissional muito melhor remunerado em comparação com aquela época. Claro, isso é uma questão minha e não pode ser generalizada para a Feira, mas acho que é uma sensação que se conecta com coisas que as demais pessoas citadas ali na primeira frase deste parágrafo também comentam (não esqueçamos que, se fosse uma impressão só minha, talvez não tivesse passado pela feira uma caravana como a dos “saldosistas“).

Outro ponto que reforça esta impressão é que um certo caráter paroquial que a Feira tinha até ali os primeiros anos da década de 2000 se foi, e eu particularmente não estou lamentando por isso, apenas constatando. Não sei se isso é melhor ou pior – provavelmente para quem via a praça como um ponto de encontro de uma certa comunidade cultural seja uma decepção, mas a expansão de qualquer evento que cresceu ininterruptamente ao longo de meio século levaria inevitavelmente a este ponto — e além do mais, as possibilidades de contato frequente não são necessariamente escassas nesta era digital (dois dos meus melhores amigos, quase irmãos, hoje vivem um em Florianópolis e outro em Curitiba, e nem por isso deixei de manter contato quase diário, no mínimo semanal, via e-mails, gtalques e emessenes). Logo, a praça como pretexto de encontro ainda está lá para quem quiser usá-la, embora este não venha sendo mais o centro da questão – e provavelmente será cada vez menos. Acho que a Feira vai se tornar mais um evento centrado em palestras e mesas sobre temas relevantes do mercado literário e da literatura (o que não é ruim, também, é só outro jeito de fazer a Feira). Ainda que o episódio da poeta Telma Scherer, que começou uma performance de poesia na praça e a terminou em um posto da Brigada Militar, mostre que ainda se tem de avançar muito se se quer criar um espaço de arte e diálogo aberto, e não apenas sujeito à programação oficial.

Por outro lado, o que me leva à segunda impressão, não se pode ignorar os números (talvez apenas gênios do porte de um Nelson Rodrigues possam declarar impunemente que a objetividade é idiota e que a estatística é burra). E o fato é que esta feira, mesmo convivendo com um General Osório ensacado, canteiros esburacados e um espelho d’água quase transformado em criadouro de mosquitos registrou números muito melhores do que o ano passado e provavelmente o ano anterior também (talvez até mesmo o antepenúltimo ano, mas isso é melhor esperar os números oficiais da Feira toda para dizer). E muitas das pessoas com quem conversei na Feira, o passante eventual, o sujeito que espera justamente a Feira para ver livros (e às vezes comprar só um), o frequentador que gosta da Praça como um programa social no Centro já tão abandonado, para esses a Feira é um sucesso, e a Feira deles é tão válida quanto a minha. O ponto deixou de ser da tal comunidade intelectual/artística, mas é uma oportunidade de encontro das pessoas com os livros no meio da praça, não no ambiente por vezes demais protegido de uma livraria. A Feira no cais é um passeio no qual crianças associam livros e histórias à beleza natural daquela paisagem oculta durante o resto do ano, e quem sabe o que isso poderá fazer no futuro na cabeça desses potenciais leitores? Talvez transformar livros em uma memória associada às melhores experiências de infância, criando um afeto pela literatura que a escola na maioria das vezes não consegue. E assim, não se pode dizer que a Feira não esteja mais executando o projeto que motivou sua própria criação, 55 anos atrás: levar os livros ao povo e ao espaço público, porque isso é sim feito. A Feira é notícia, e tema para discussão mesmo quando as avaliações são mais pessimistas do que otimistas, como foi o tom de muitos dos comentários sobre a Feira feitos no ano passado. São duas semanas em que o livro volta à arena pública. Quem pode dizer que isso é ruim? Márcio Renato dos Santos, escritor e jornalista da Gazeta do Povo do Paraná e do jornal Rascunho, no debate sobre Literatura e Novas Mídias ocorrido na tarde de sábado no Centro Cultural Erico Verissimo, chegou a dizer que sempre se fascinava ao vir a Porto Alegre e encontrar aquela Feira tão tradicional e funcionando ano após ano, algo que, ele lamentava, Curitiba ainda não conseguiu fazer:

– Vocês que vivem aqui, talvez não percebam a real dimensão do que é ter uma feira como esta. Eu gostaria que a organização daqui fosse ao Paraná para ministrar cursos lá sobre como manter uma iniciativa desta por mais do que três anos. – foi o comentário

São essas duas feiras que convivem na Praça. E por isso, não se pode dizer agora que uma prevaleça sobre a outra. Até porque, pensando bem, não são duas feiras, esqueçam a imagem inapropriada. O que temos são dois modos de enxergar a mesma feira. Que cada um escolha o seu ou faça como eu: tente buscar o equilíbrio entre essas duas visões. E entre muitas outras.

Comentários (3)

  • cleomarsantos diz: 15 de novembro de 2010

    Eu também aguardava a Feira para comprar meus livros, principalmente os raros. Hoje levo minhas filhas e é para elas que compro. Os meus, prefiro tranquilamente escolher em livrarias menos agitadas.

  • Rafael diz: 15 de novembro de 2010

    Carlos André, concordo em absoluto contigo. Nos últimos anos tenho conseguido carregar sem sacolas o que compro na Feira. Houve tempos em que saía com uma ou duas sacolas cheias de livros em cada um dos dias que visitava a Feira. O momento é de se repensar (editoras, livrarias…) nos rumos do evento. Embora tenha sido divulgado hoje que o movimento (número de livros comercializados) este ano superou o do ano passado, temos que lembrar que no ano passado o volume comercializado sofreu grande queda, então não é o melhor parâmetro para comparação. Sim, os livros SÃO MUITO CAROS. Sou fanático por eles, costumo emendar um em outro ou ler mais de um ao mesmo tempo, mas confesso que está cada vez mais difícil fazer isso. Tenho pego emprestado com amigos e bibliotecas, não estou conseguindo comprar nem 1/10 do que gostaria e nem perto do que comprava antigamente. Sim, meu salário está maior hoje do que há muitos anos atrás, quando comprava uns trinta e poucos livros (jurando que era até a próxima feira, e devorava-os em 5 ou 6 meses), mas hoje sustento uma casa… Mas deveria ser direito de todos o acesso aos livros, mas repito: LIVRO É MUITO CARO NO BRASIL, é tratado como se fosse supérfluo…

  • Sheila diz: 25 de novembro de 2010

    Aaah eu já tom com saudades da convivência diária. A Feira é um evento de muitos sentimentos sim. Valeu, né?
    Inté mais, bj
    Sheila.

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