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Posts de novembro 2010

Confissões de Mandela

22 de novembro de 2010 1

… a cela é um lugar ideal para aprendermos a nos conhecer, para se vasculhar realística e regularmente os processos da mente e dos sentimentos. Ao avaliarmos nosso progresso como indivíduos, tendemos a nos concentrar em fatores externos, como posição social, influência e popularidade, riqueza e nível de instrução. Certamente são dados importantes para se medir o sucesso nas questões materiais, e é perfeitamente compreensível que tantas pessoas se esforcem tanto para obter todos eles. Mas os fatores internos são ainda mais decisivos no julgamento do nosso desenvolvimento como seres humanos.  Honestidade, sinceridade, simplicidade, humildade, generosidade pura, ausência de vaidade, disposição para ajudar os outros — qualidades facilmente alcançáveis por todo indivíduo — são os fundamentos da vida espiritual. O desenvolvimento de questões dessa natureza é inconcebível sem uma séria introspecção, sem o conhecimento de nós mesmos, de nossas fraquezas e nossos erros. Pelo menos – ainda que seja a única vantagem – a cela de uma prisão nos dá a oportunidade de examinarmos diariamente toda a nossa conduta, de superarmos o mal e desenvolvermos o que há de bom em nós. A meditação diária, de uns 15 minutos antes de nos levantarmos, é muito produtiva nesse aspecto. A princípio, pode ser difícil identificar os aspectos negativos em sua vida, mas a décima tentativa pode trazer valiosas recompensas. Não se esqueça de que os santos são pecadores que continuam tentando.
Trecho de uma carta de Nelson Mandela escrita na prisão para sua então esposa Winnie, datada de 1º de fevereiro de 1975

Colocar- se no lugar de um homem como Nelson Mandela, que teve 27 dos seus atuais 92 anos consumidos no cárcere, distante da família por questões políticas e de preconceito racial, é tarefa talvez impossível para quem não viveu experiência semelhante.  Uma chance de pelo menos tentar é recorrer à poesia:

Uma árvore derrubada
E os frutos se espalharam
chorei
porque havia perdido uma família
o tronco, meu pai
os galhos, seu apoio
e também
os frutos, a mulher e os filhos (…)

Detalhe: o verso acima foi escrito em fevereiro de 1980 por Zindzi Mandela, filha do ex- presidente sulafricano, quando ele estava na prisão e ela era adolescente.  E bateu fundo nele.


O poema consta do livro Nelson Mandela: conversas que tive comigo, lançado no Brasil pela editora Rocco (tradução de Ângela Lobo de Andrade, Nivaldo Montingelli Jr. e Ana Deiró 415 páginas, R$ 39,50).  Já antes de começar, o livro emociona: há uma dedicatória a Zenani Mandela, a bisneta de Mandela morta no capotamento de um carro, em 10 de junho de 2010 — um dia antes de se iniciar a Copa do Mundo da África. Em seguida, no prefácio, consta um emotivo texto do presidente americano, Barack Obama, também ele negro. Obama define Mandela como “um ser humano que escolheu sobrepor a esperança ao medo“.

Mas o próprio Mandela surpreende ao tentar a autodesmitificação: “Uma coisa que me preocupava na prisão era a imagem falsa que eu inadvertidamente projetei para o mundo; era ser considerado um santo“, revela. Depois, arremata: “Nunca fui um santo, mesmo se baseado na definição terrena de um santo como um pecador que continua tentando“. E dá uma aula de humildade: “Os erros são inerentes à ação política.  Quem está no centro da luta política, tendo que lidar com problemas práticos e prementes, dispõe de pouco tempo para a reflexão (…) e está sujeito a errar.”

O livro compila documentos pessoais de Mandela, nos quais revela a dor que sentia por estar longe da família nas quase três décadas de prisão imposta pelo regime racista do apartheid. Há cartas e gravações pessoais, reunidas por sua fundação para mostrar o homem por trás do ícone, o Nobel da Paz de 1993 premiado por combater o segregacionismo oficial sul-africano. Libertado em fevereiro de 1990 — havia sido preso em agosto de 1962 —, ele se tornou, quatro anos depois, o primeiro presidente negro no seu país, de esmagadora maioria negra. Deixou o poder em 1999 e se tornou um mito, hoje fisicamente alquebrado. Quem o conhece diz que a humildade não se resume ao livro.  Mandela é um homem que insiste em ser comum. Em sua autoiconoclastia, reflete sobre sua juventude: ” Eu reunia as fraquezas, erros e indiscrições de um garoto do Interior (…).”

Depreende- se das cartas escritas na prisão que Mandela sentia remorso pela impotência de não conseguir ajudar a mulher, Winnie, e os filhos. Quando Winnie também foi presa, em 1969, ele escreveu para as filhas Zeni e Zindi, na época com nove e 10 anos: ” Agora, mamãe e papai estão na prisão.  Pode ser que passem meses ou mesmo anos até que vocês a vejam novamente. Talvez vocês vivam como órfãs, sem a casa e os pais, sem o amor natural, o carinho e a proteção que mamãe dava a vocês”, diz a carta.

Mas a relação dele com Winnie — os dois se separaram logo após a libertação, episódio que não é relatado na obra — era conturbada. E isso não fica alheio às cartas. A um amigo, em 1987, ele se disse ” chocado” quando Winnie o acusou de amar mais as filhas do que a ela. Para outro amigo, chora a morte de Thembi, o filho mais velho, do primeiro casamento, em um acidente de carro. Era 1969. Thembi tinha 24 anos. E o agravante: preso, Mandela não pôde ir aos funerais. Veio o remorso por, distante, não ter acompanhado o crescimento dos filhos, sem ” banhá- los alimentá- los e contar- lhes histórias“. Ele escreveu: “Minha mente e meus sentimentos estiveram demasiado agitados para eu me dar conta das tensões psicológicas que minha ausência provocou nos meus filhos“.

Texto de Léo Gerchmann

>>> Leia mais sobre outras biografias de Nelson Mandela aqui

Frutos de Schlee

18 de novembro de 2010 1

Escritor, tradutor e professor, Aldyr Garcia Schlee foi agraciado, na última segunda-feira, no último dia da Feira do Livro, com o prêmio Fato Literário na categoria personalidade (a ONG Cirandar foi a vencedora na categoria projeto e a Festipoa Literária foi eleita pelo voto popular). No próximo sábado, no caderno Cultura, teremos um texto deste que vos escreve sobre como o último ano se tornou para Schlee o momento de colher esforços de praticamente uma década: foi aclamado com o livro Os Limites do Impossível e recebeu o Fato Literário bem no momento em que lançava, na Feira, o épico histórico Don Frutos. Um livro que Schlee se preparou para escrever praticamente ao longo de uma vida inteira.

Dom Frutos narra, em mais de 500 páginas, a história do caudilho uruguaio José Fructuoso Rivera (1784 – 1854), sim aquele mesmo que dá nome à cidade ali do lado de Livramento, para quem estiver perguntando. Mais do que uma reinvenção dos últimos meses de vida do caudilho, o romance é o ponto final de um interesse de 45 anos.

— Quando tive a ideia de fazer esse livro pela primeira vez, meu filho que hoje já fez 50 anos tinha apenas cinco — rememora o escritor.

A gênese do romance remonta à época em que Schlee, então um jovem professor de Relações Internacionais na Universidade Federal de Pelotas, começou a fazer uma pesquisa sobre as intervenções do imperialismo ibérico nas guerras de fronteira sul- americanas. No decorrer desse levantamento, topou com documentos comprovando uma história que já ouvira contada de boca a boca em sua cidade natal, Jaguarão: fora lá que o político e general, primeiro presidente constitucional do Uruguai, havia morrido.

Foi apenas no início dos anos 2000, com a ajuda de um pesquisador uruguaio, Amilcar Brum, que Schlee conseguiu se dedicar à pesquisa necessária para criar o romance. Don Frutos parte da estada de 10 meses do caudilho em Jaguarão para monatr seu enredo, acompanhando a longa enfermidade do caudilho – que seguia para o Uruguai, após ficar um tempo preso no Rio de Janeiro. Em seu país, Rivera deveria tomar parte do triunvirato governamental composto por ele, Lavalleja e Venâncio Flores, mas, completamente debilitado, não conseguiu atravessar a fronteira. É desse destino interrompido tão próximo de seu maior objetivo que Schlee tira a maior força do romance, que conta o passado de Rivera e das personagens com quem teve contato (entre elas os brasileiros Bento Gonçalves, a quem derrotou em batalha, e Bento Manoel, que o derrotou, os dois fatos durante a Guerra da Cisplatina) por meio de documentos, ordens de expediente e muitas cartas. A redação do romance durou quatro anos – a obra foi concluída ainda antes de Os Limites do Impossível, mas demorou a encontrar acolhida em uma editora.

— Duas editoras me pediram o livro para análise. Eu sou um sujeito que não tem muito a cara de chegar a uma editora e oferecer um livro, mandei por solicitação das própria. Depois de mais de um ano foi que recebi a resposta da recusa. Uma achou o livro muito volumoso, não pagaria o “custo-benefício”. A outra me fez um apelo que eu considerei um atentado, considerando que se tratava de um livro de ficção: pediram que eu retirasse as transcrições dos documentos da obra, que narram parte da história, alguns documentos reais, pesquisados, outros inventados por mim – conta.

Um Balanço da Feira

15 de novembro de 2010 3

Esta Feira que termina hoje me fez chegar a duas impressões absolutamente distintas.

A primeira é que para sujeitos como eu e outras pessoas com quem conversei – colegas jornalistas ou escritores, gente que frequenta livrarias o ano todo e costuma comprar livros a intervalos mais ou menos frequentes ao longo dos 12 meses do ano —, a Feira não anda tão atraente assim há tempos: os amplos e suculentos descontos que sempre fizeram a graça e a chama do evento ou andam sumidos ou, quando praticados, não chegam a constituir um atrativo de fato, principalmente quando oferecidos, em plena Feira, pelas lojas de grandes redes do setor. E o livro muitas vezes já é caro na origem, e o desconto amortiza o impacto, mas não o dilui (o que vale para a literatura de ficção que eu consumo ou os livros técnicos que gente que eu conheço compra). Venho notando um gradativo declínio no número de livros que eu costumava comprar de uma Feira para outra – o que é engraçado, porque chego à conclusão de que adquiria mais livros nos balaios da Feira quando ganhava uma merreca em estágios intermediados pelo CIEE em meados dos anos 1990 do que hoje, quando sou um profissional muito melhor remunerado em comparação com aquela época. Claro, isso é uma questão minha e não pode ser generalizada para a Feira, mas acho que é uma sensação que se conecta com coisas que as demais pessoas citadas ali na primeira frase deste parágrafo também comentam (não esqueçamos que, se fosse uma impressão só minha, talvez não tivesse passado pela feira uma caravana como a dos “saldosistas“).

Outro ponto que reforça esta impressão é que um certo caráter paroquial que a Feira tinha até ali os primeiros anos da década de 2000 se foi, e eu particularmente não estou lamentando por isso, apenas constatando. Não sei se isso é melhor ou pior – provavelmente para quem via a praça como um ponto de encontro de uma certa comunidade cultural seja uma decepção, mas a expansão de qualquer evento que cresceu ininterruptamente ao longo de meio século levaria inevitavelmente a este ponto — e além do mais, as possibilidades de contato frequente não são necessariamente escassas nesta era digital (dois dos meus melhores amigos, quase irmãos, hoje vivem um em Florianópolis e outro em Curitiba, e nem por isso deixei de manter contato quase diário, no mínimo semanal, via e-mails, gtalques e emessenes). Logo, a praça como pretexto de encontro ainda está lá para quem quiser usá-la, embora este não venha sendo mais o centro da questão – e provavelmente será cada vez menos. Acho que a Feira vai se tornar mais um evento centrado em palestras e mesas sobre temas relevantes do mercado literário e da literatura (o que não é ruim, também, é só outro jeito de fazer a Feira). Ainda que o episódio da poeta Telma Scherer, que começou uma performance de poesia na praça e a terminou em um posto da Brigada Militar, mostre que ainda se tem de avançar muito se se quer criar um espaço de arte e diálogo aberto, e não apenas sujeito à programação oficial.

Por outro lado, o que me leva à segunda impressão, não se pode ignorar os números (talvez apenas gênios do porte de um Nelson Rodrigues possam declarar impunemente que a objetividade é idiota e que a estatística é burra). E o fato é que esta feira, mesmo convivendo com um General Osório ensacado, canteiros esburacados e um espelho d’água quase transformado em criadouro de mosquitos registrou números muito melhores do que o ano passado e provavelmente o ano anterior também (talvez até mesmo o antepenúltimo ano, mas isso é melhor esperar os números oficiais da Feira toda para dizer). E muitas das pessoas com quem conversei na Feira, o passante eventual, o sujeito que espera justamente a Feira para ver livros (e às vezes comprar só um), o frequentador que gosta da Praça como um programa social no Centro já tão abandonado, para esses a Feira é um sucesso, e a Feira deles é tão válida quanto a minha. O ponto deixou de ser da tal comunidade intelectual/artística, mas é uma oportunidade de encontro das pessoas com os livros no meio da praça, não no ambiente por vezes demais protegido de uma livraria. A Feira no cais é um passeio no qual crianças associam livros e histórias à beleza natural daquela paisagem oculta durante o resto do ano, e quem sabe o que isso poderá fazer no futuro na cabeça desses potenciais leitores? Talvez transformar livros em uma memória associada às melhores experiências de infância, criando um afeto pela literatura que a escola na maioria das vezes não consegue. E assim, não se pode dizer que a Feira não esteja mais executando o projeto que motivou sua própria criação, 55 anos atrás: levar os livros ao povo e ao espaço público, porque isso é sim feito. A Feira é notícia, e tema para discussão mesmo quando as avaliações são mais pessimistas do que otimistas, como foi o tom de muitos dos comentários sobre a Feira feitos no ano passado. São duas semanas em que o livro volta à arena pública. Quem pode dizer que isso é ruim? Márcio Renato dos Santos, escritor e jornalista da Gazeta do Povo do Paraná e do jornal Rascunho, no debate sobre Literatura e Novas Mídias ocorrido na tarde de sábado no Centro Cultural Erico Verissimo, chegou a dizer que sempre se fascinava ao vir a Porto Alegre e encontrar aquela Feira tão tradicional e funcionando ano após ano, algo que, ele lamentava, Curitiba ainda não conseguiu fazer:

– Vocês que vivem aqui, talvez não percebam a real dimensão do que é ter uma feira como esta. Eu gostaria que a organização daqui fosse ao Paraná para ministrar cursos lá sobre como manter uma iniciativa desta por mais do que três anos. – foi o comentário

São essas duas feiras que convivem na Praça. E por isso, não se pode dizer agora que uma prevaleça sobre a outra. Até porque, pensando bem, não são duas feiras, esqueçam a imagem inapropriada. O que temos são dois modos de enxergar a mesma feira. Que cada um escolha o seu ou faça como eu: tente buscar o equilíbrio entre essas duas visões. E entre muitas outras.

Confissões de um misantropo

11 de novembro de 2010 0

Se tivesse escrito Lena no lugar de Marcelo Nova, o norte-americano Jim Knipfel não cantaria sobre a impressão de a cidade estar contra ele numa noite de sexta-feira. Ele botaria que o mundo todo está contra ele. E não apenas aos finais de semana.

Pelo menos é o que dá para entender ao final de A Arte de Ser Desagradável, (tradução bem mais ou menos para Ruining it for Everybody, editora Bertrand Brasil, 252 páginas, R$ 36). Por mais que Jim tente (e ele tenta bastante) mostrar que sempre foi um sujeito vil, chato e até cruel, o título parece caber melhor àqueles que o cercam. Quiçá à própria vida. E não dá para discordar muito dele, vocês sabem…

A Arte… é vendida com uma “autobiografia espiritual” de Jim. Consta no release de lançamento que ele já escreveu sobre a decadência de seu corpo e mente em outros dois livros. Faltava o espírito. A alma. O intocável. E o que saiu?

Saiu uma espécie de confissão de um misantropo. Que, como tal, só queria ficar no seu canto. E jamais conseguiu. Por mais que tente ficar longe do mundo e das pessoas que o povoam, Jim segue esbarrando — literalmente — nos outros. É irônico alguém que nunca quis companhia precisar da ajuda (de estranhos ou não) depois de ser acometido de uma doença degenerativa que o deixa com um mínimo de visão.

Sem contar uma epilepsia que lhe causa “apagões”, um tanto de paranoia, outro certo grau de alcoolismo e uma depressão que o leva a algumas tentativas de suicídio. É, a vida não é nada boa para Jim. Até Jesus Cristo, brandindo uma espada no canto do quarto, ele viu quando criança. Se alguém aí está arruinando todo mundo — como diz o título em inglês — esse alguém não é Jim.

Mas o resultado é que Jim decidiu que o mundo não é um lugar legal para se viver. E se esforça para ser um pentelho. Chato, mal-humorado, mas não mais do que isso. Jim é inofensivo e acaba fazendo mal só a si mesmo (uma tendência ao alcoolismo é indicada), por mais que tente passar a imagem de casca grossa — não é de estranhar que sua estrada o leve para Coney Island e seu parque de diversões que apodrece ao sabor do tempo sem reclamar.

Jim é como uma maioria silenciosa que só quer ser deixada quieta, mas que acaba obrigada a interagir, a viver em sociedade, a conviver, a coexistir. Seja em sub-empregos, seja como jornalista, ele não deixa de almejar um paraíso onde só existiriam ele, sua namorada e os gatos de ambos.

Parte de sua aversão à sociedade é potencializada na juventude pela amizade com um tal de Grinch, esse sim um verdadeiro sociopata que leva Jim a cometer seu maior ato de rebeldia: tocar fogo na porta da reitoria da universidade onde estudava.

Coisa pouca para alguém que se considera digno de todo desprezo. Quase nada ante a malta de criatura ignóbeis que ele tromba pelos bares e festas e que o obrigam a enterrar o chapéu na cabeça e seguir em frente mesmo que a vontade seja a de enterrar o punho no nariz da criatura.

Os Saldosistas na Feira

10 de novembro de 2010 3

Como vocês puderam ler aqui, no site especial de Zero Hora sobre a Feira do Livro de Porto Alegre, um bem-humorado movimento de leitores “saldosistas”, reivindicando mais e melhores balaios a preços baixos, prometia passar hoje pelos corredores da Praça da Alfândega. Pois eles cumpriram. Por volta de 19h30min desta quarta-feira, os Saldosistas voltaram à Feira para entregar pirulitos aos passantes. Entregaram também ao presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), João Carneiro, o seu manifesto em favor de mais saldos e de uma caixa de promoções em cada banca instalada na Praça (como vocês podem ver na foto acima. Crédito: Rômulo Valente/CRL).

– Estamos entregando este manifesto em favor de mais promoções atraentes na Praça – explicou Rejane Guariglia, uma das coordenadoras do movimento.

– Achei o movimento de vocês muito “saldável”, muito divertido – respondeu, sorrindo, Carneiro, devolvendo o trocadilho que dá nome ao grupo – mas discordo em parte da necessidade de se ter um balaio em cada banca. Temos bancas em que se fazem promoções diárias com os livros de catálogo. O objetivo é tornar o livro acessível, e há mais de uma maneira de fazer isso, não apenas o saldo – respondeu Carneiro.

O grupo aproveitou e entregou mais dois pirulitos ao presidente. Carneiro agradeceu, mas, por ser vegetariano, pediu para trocar os seus pirulitos, de iogurte sabor laranja e morango, por outros, de sabor morango e uva, simplesmente. Os saldosistas deixaram a praça acreditando que seu movimento foi bem sucedido em um primeiro momento.

– Nosso objetivo era pôr o assunto em discussão, e isso conseguimos, de modo bem-humorado e sem nenhuma estrutura. – disse Rejane.

– Nossas passagens pela Feira mostraram que muitos leitores e até alguns livreiros se identificam com nosso manifesto – comentou João Brites, outro dos organizadores

Os Saldosistas adotaram até um hino informal, uma versão bem própria da canção Balaio, de autoria de Barbosa Lessa e do patrono desta Feira, Paixão Côrtes:

Balaio meu bem, balaio Sinhá
Balaio do Coração
Banca que não tem balaio, Sinhá
Bota seus livros no chão.

Notas sobre Romances Coletivos

10 de novembro de 2010 2

Daqui a pouco, às 18h, na Feira do Livro, no térreo do Memorial do Rio Grande do Sul, uma turma de alunos da oficina de criação literária ministrada pelo patrono da Feira do Livro 2006, Alcy Cheuiche, autografa dois romances históricos escritos a várias mãos: Porto Alegre dos Casais:  Chegadas e Partidas e Nos Caminhos do Banrisul. O primeiro é uma saga histórica que acompanha Porto Alegre da época da povoação guarani até a Revolução de 1930. O segundo, uma reconstituição ficcional da implantação do banco que dá título ao livro. E não, não li nenhum dos dois, estou tirando estas informações da sinopse que está na orelha. Não é a primeira vez que os alunos de Alcy Cheuiche escrevem ao fim de sua oficina um romance a várias mãos – li dois deles, Ituzaingô, a Saga das Lutas na Fronteira Sul e Banco Não Dá Bom Dia (seria o “romance bancário coletivo” um gênero em ascensão?) quando fui jurado do Prêmio Açorianos na categoria Narrativa Longa, no ano passado (a propósito, o Açorianos divulgou esta tarde sua lista de finalistas. Leia mais aqui, no site do Segundo Caderno). É que a circunstância desses dois autógrafos em particular me despertou o mote para alinhavar algumas notas a esmo sobre a própria existência dessa criatura a princípio tão impróvavel quanto o basilisco: o romance coletivo.

***

Está lá no já clássico A Ascensão do Romance, estudo publicado em 1957 por Ian Watt sobre a trinca de fundadores do gênero em língua inglesa, Defoe, Richardson e Fielding (e que acabou de ser relançado em formato bolso pela Companhia das Letras – capa ao lado, tradução de  Hildegard Feist, R$ 25,50, 352 páginas, para quem estiver interessado). Watt vincula a afirmação do romance na Inglaterra da primeira metade do século 18 a circunstâncias históricas como o surgimento da classe média e o individualismo burguês.

O romance, na visão de Watt, devia muito à concepção de verdade instaurada a partir do pensamento de Descartes: “Uma questão inteiramente individual, logicamente independente da tradição do pensamento e que tem maior probabilidade de êxito rompendo com essa tradição“. A contraparte literária dessa visão, portanto, seria o romance, “cujo critério fundamental era a fidelidade à experiência individual – a qual é sempre única e, portanto, nova”, diz Watt. Expressão literária da modernidade, o romance é, assim, a visão de mundo de um indivíduo sobre sua época – algo levado ao máximo pelos gênios Dostoiévski, Balzac e Zola, entre outros.

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Logo, pensar em “romance coletivo” seria uma contradição em termos. Como imprimir uma visão única numa obra fruto de negociações, concessões e até choques de duas ou mais vontades diferentes? Talvez já prevendo que seria difícil jogar esse tipo de jogo colaborativo na chamada literatura “séria” do grande realismo, várias tentativas foram efetivadas – algumas com sucesso — nos nichos da literatura de gênero tributários do folhetim. Na seara dos romances policiais, para dar só um exemplo, não são raras as experiências de um “pseudônimo coletivo” debaixo do qual se esconderiam vários escritores que escreviam cada qual um livro, como Ellery Queen, mas há os casos dos romances escritos efetivamente em parceria — um deles é o dos franceses Pierre Boileau e Thomas Narcejac, que sob o nome de Boileau-Narcejac assinaram vários títulos policiais, alguns bastante famosos, como As Diabólicas. Nos anos 1940, eras antes de esse tipo de procedimento ser facilitado com as modernas tecnologias de comunicação escrita em tempo real, os dois trocavam ideias ou capítulos inteiros pelo correio (um morava em Paris e o outro em Nice, e ambos se visitaram pessoalmente pouquíssimas vezes).

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Mas a produção coletiva também atendeu por algum tempo o desafio imposto a si mesmo por mestres que se dedicaram a isso como uma brincadeira intelectual refinada. Jorge Luis Borges e Bioy Casares conceberam juntos, sob a assinatura de H. Bustos Domecq, o detetive Don Isidro Parodi, mestre da dedução que resolve os crimes sem sair de sua cela de prisão — algo que remete ao Dupin de Allan Poe, outro que não deixa seu gabinete para resolver crimes que lê pelos jornais, ou ao imenso gourmet Nero Wolfe, da série de romances de Rex Stout, que prefere ficar degustando pratos elaborados em casa enquanto o seu assistente Archie Goodwin faz o serviço sujo na rua.

Mesmo dois ferrenhos cultores do realismo literário à portuguesa, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, dedicaram-se no início de suas carreiras a um romance que mistura o romantismo gótico de Victor Hugo com intrigas à inglesa em O Mistério da Estrada de Sintra, que em seu prefácio da reedição (ao menos da reedição que eu li, faz muitos anos, ainda morava em São Gabriel) Eça desdenhava como uma “travessura de pura imaginação” cujo maior valor era, para ele, uma recordação da amizade que tivera com Ortigão, já falecido. Nos dois casos, contudo, a parceria permanece, como antes mencionado, vinculada à literatura de gênero, um intervalo na obra regular de seus autores – e que não alcança as realizações individuais dos parceiros na empreitada.

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Com a explosão das restrições de gênero na chamada pós-modernidade e o questionamento da própria noção de autoria, esse tipo de experiência se intensificou. A ideologia vigente no pós-modernismo é, de algum modo, herdeira da visão de Duchamp nas artes: no momento em que a obra se faz sobre uma colcha de retalhos ou sobre elementos produzidos em série pela sociedade industrial, é a junção dos elementos que garante a visão única – como no caso das histórias de diversas fontes rearranjadas por Georges Perec em A Vida: Modo de Usar (outro que ganhou recente reedição pela Companhia de Bolso). Mas as experiências mais intensas de literatura em parceria, curiosamente, parecem ainda restritas à literatura de gênero sobreviveram – são exemplos  o duo entre Stephen King e Peter Straub no romance de terror O Talismã e o de Neil Gaiman e Terry Pratchett na narrativa fantástica Belas Maldições.

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Há também famosos exemplos no Rio Grande do Sul, alguns remontando à época dos folhetins de imprensa do século 19, como a novela Estrychnina, fantasia romanceada sobre um crime real publicada em 1897 e assinada coletivamente por Mário Totta, Paulino Azurenha e Sousa Lobo. Mas o mais famoso exemplar de obra coletiva gaúcha completou 25 anos em 2007 e ganhou nova edição pela L&PM: Pega pra Kapputt, paródia de folhetim escrita por Luis Fernando Verissimo, Moacyr Scliar e Josué Guimarães e com trechos em quadrinhos de Edgar Vasques. Em que pese a expectativa gerada por um encontro de quatro grandes artistas, o livro permanece mais como uma curiosidade do que algo que pode ser arrolado entre o melhor da obra de seus autores — o que parece ser uma tendência do livro composto em parceria. Uma tendência com alguns desvios, como no caso do recente O Verão do Chibo, romance escrito por Vanessa Bárbara e Emílio Fraia e que foi bem recebido pela crítica.

 

Conversa de Primos

09 de novembro de 2010 0

A escritora carioca Tatiana Salem Levy, (com o microfone na foto, de autoria de Bruno Alencastro/CRL) autora do impactante A Chave de Casa (sobre o qual você pode ler mais aqui) comentou na mesa realizada ontem na 56ª Feira do Livro o quanto o livro Primos (Record, 2010), organizado por ela e Adriana Armony, tinha a pretensão de ser contra a corrente que enxerga na relação entre árabes e judeus uma história ancestral de conflito. Ao menos ontem no Salão Barbosa Lessa do Centro Cultural Erico Verissimo, na mesa sobre as representações de árabes e judeus na literatura brasileira que reuniu Tatiana, Moacyr Scliar, Cíntia Moscovich e Fabrício Carpinejar, esse objetivo foi cumprido. Na conversa, mediada pelo jornalista Reinaldo Azeredo, todos preferiram ressaltar, na maior parte do tempo, as semelhanças e a convivência de séculos entre uns e outros do que as relações tempestuosas dos últimos 50 anos.

A mesa começou sem Scliar – um problema de comunicação fez com que o integrante da Academia Brasileira de Letras ficasse mais de meia hora esperando pela mesa em outro local, Scliar só chegou às 19h20 no encontro marcado para 19h. Primeiro a falar – precisava sair mais cedo para ministrar uma aula – Carpinejar, descendente de libaneses por parte do pai, Carlos Nejar, narrou o quanto sua convivência com o ramo árabe da família se fez descobrindo que as relações numa família árabe parecem feitas de puro presente, sem menções ao passado.

– Os homens não falavam sobre o passado. Não se podia perguntar nada, a curiosidade sobre o passado soava como uma invasão. Havia um piano de cauda trancado na casa, e ninguém tocava, e nós sabíamos que não podíamos perguntar nada.

Essa relação de silêncios, contudo, não era árida, e sim carinhosa.

– Os homens árabes se cumprimentam com beijo no rosto, é comum. Só descobri que isso era estranho para os outros quando entrei no colégio e ia cumprimentar os coleguinhas. Fiuquei com fama de veado. – disse o performático poeta.

Tatiana Salem Levy foi então chamada para explicar o projeto do livro Primos, que reúne contos de autores de ascendência familiar judaica (como a própria Tatiana, Moacyr, Cíntia, Bernardo Ajzenberg e Leandro Sarmatz, entre vários outros) e árabe (Salim Miguel, Carpinejar, Georges Bourdoukan, Alberto Mussa, Samir Yazbek, para citar alguns).

– Queríamos mostrar que no Brasil as duas comunidades sempre conviveram, que mantêm laços, e contrariar as rivalidades do noticíario. Para quem não conhece as duas culturas, a ideia é que árabes e judeus nasceram para se odiar e que sempre foi assim, quando a história registra séculos de convivência.

Intervindo, Cíntia Moscovich comentou que o silêncio sobre o passado não era necessariamente uma característica árabe. Lembrou da mãe, que não falava íidiche, porque seus avós, judeus chegados da Bessarábia na década de 1910, só falavam com os filhos em português.

– Acho que havia uma vontade de integração que passava pelo idioma. – arriscou Cíntia.

Quando Tatiana Salem Levy comentou que sua família era de judeus sefarditas, e não azquenazi, e que falavam o hoje correndo risco de extinção idioma ladino, ela e Cíntia se dedicaram a elucidar o público sobre as diferenças entre ambos: os sefarditas judeus, da península ibérica, os azquenazi mais presentes no leste europeu.

Já com o papo bastante adiantado, chegou Moacyr Scliar – que pegou o mote da convivência ancestral que Tatiana vinha desenvolvendo e lembrou o quanto judeus e árabes conviveram durante os tempos de dominação islâmica na Espanha. Ao falar dos sombrios tempos atuais com o conhecimento de quem já esteve muitas vezes em Israel desde a décad de 1970, Scliar criticou tanto os radicais islâmicos palestinos quanto o radicalismo de parte dos israelenses ortodoxos.

– Vi um documentário na TV recentemente que entrevistava uma americana emigrada para Israel de uma comunidade no Brooklyn que dizia, fervorosamente: “Esta terra é nossa, Deus nos deu esta terra, os árabes é que têm de sair daqui”. E depois foi entrevistada uma mulher palestina: “Minha família mora aqui há 800 anos. Não temos para onde ir”. – contou Scliar, antes de defender que a conciliação é a única saída possível para o drama do Oriente Médio e sugerir a leitura de três grandes escritores israelenses também eles defensores da convivência entre os dois povos: Amos Oz, David Grossman e A.B. Yeoshoua.

Pizza, vinho e um diálogo de surdos

03 de novembro de 2010 2

Vocês, frequentadores do Mundo Livro, já devem saber que ainda não li tantas coisas quanto gostaria. Na semana passada, indo embora do jornal, passei pela mesa do ilustre editor desse blog para uma conversa rápida, no melhor “e aí, vai embora que já tá tarde”. Na pilha de livros que sempre se forma na mesa dele estava Um Erro Emocional, do Cristovão Tezza. Roubei. A fascinação foi tanta que da primeira ida a Feira já trouxe O Filho Eterno. De qualquer forma, vocês sabem que roubar livros do Carlos é sinônimo de resenha pro blog. Sorte (ou azar) dele e de vocêsi:

Todas as garrafas de vinho e uma meia conversa

Eu não sei quando descobrimos que somos íntimos uns dos outros. Racionalmente seria preciso um longo tempo de convivência, cercado de uma série de informações coletadas em outras fontes e, claro, algum tipo de sintonia.

Mas intimidade — adivinhem — não funciona racionalmente. Na verdade, descobrir a intimidade é o próprio processo de tornar-se íntimo. Para alguns, no entanto, parece que isso nunca funcionará. Ao menos é o que descobrem Beatriz e Donetti, os personagens de Um Erro Emocional (Record, 2010, 192 p.), na noite em que ele invade o apartamento dela com uma garrafa de vinho na mão e uns supostos (e ordinários) pedaços daquilo que deve ser um novo livro do escritor em crise. É talvez a cena típica de um golpe ainda mais ordinário que carregar os pseudo-originais de um novo livro: uma tentativa de levar uma mulher para cama.

Ela, a fã. Ele, o escritor que depois dos primeiros livros bem-sucedidos, vive um momento de crise criativa. Juntos, descobrem que a ânsia de dividir a vida um com o outro é inversamente proporcional a capacidade de contar tudo aquilo que mais os atormenta. Uma mistura de culpa, com “o que ele/ela vai pensar”, com dor, com um “eu não quero que ele saiba disso”.

Não sei quantas vezes esse tipo de coisa acontece na vida de alguém: uma longa noite de conversa regada a todo estoque de vinho que estiver disponível e um meticuloso cálculo daquilo que deve ou não ser dito. Uma conversa que acontece lenta, que quase não é verbalizada, tamanha a necessidade do não dizer, de manter em segredo as incalculáveis lembranças doloridas acalentadas. Os tropeços da vida carregados como escudo e troféu ao mesmo tempo.

É nessa conversa que se percebe o quão impossível é apagar o passado da própria lembrança — e que isso não tem nada a ver com que o outro vai pensar. É o passado que faz de Beatriz uma mulher travada, uma mulher que se defende o tempo todo da vida, de Donetti a cada vez que oferece um chá, um café ou retorna às regras de trabalho que estabelecerão. São os traumas já vividos que sustentam as sessões de análise de Donetti, como uma forma de retroalimentar as próprias dores, sem jamais curá-las.

Eles não dizem um ao outro qual é a dor que sustentam. É a ausência da medida da intimidade que possuem. A cumplicidade não está em contar tudo: é também o silêncio de não colocar sobre o outro o peso da própria dor. O cultivo da paixão – eles estão aprendendo – está nas sombras que sustentam, e não em mergulhar o outro por inteiro em seus fantasmas.

Não sei quantas noites de conversa e vinho se tem para aprender a não deixar o outro se desnudar antes de efetivamente ficar pelado. Mas o que há de dor também há de vontade de não errar nessa semi-conversa truncada — mais fluxo de consciência do que diálogo — entre Beatriz e Donetti.

Parece que Cristóvão Tezza, quando nos apresenta Beatriz e Donetti, faz um esforço, um trabalhoso exercício de mostrar que somos produtos de nossas dores. E a despeito de qualquer grande especulação ou grande teoria sobre o que o autor esteja tentando dizer com seus personagens, eu apenas resumo: ainda bem que aprendemos, ainda que lenta e dolorosamente, a usar as feridas para nos protegermos de nós mesmos, e também conseguimos dar os outros as ferramentas para que eles se defendam de nós. E tomara que você tenha a sorte de não se tornar íntimo antes de ter tirado a roupa.

Texto de Tássia Kastner

Três perguntas para Ivo Bender

03 de novembro de 2010 3

Um dos dramaturgos mais conceituados do teatro contemporâneo, Ivo Bender narrou ontem, em uma conversa com a professora Regina Zilberman no Centro Cultural Erico Verissimo, durante a tarde, o impulso que o fez lançar-se como escritor em prosa depois de décadas dedicadas à dramaturgia. Em uma sala O Retrato lotada, contou histórias e mapeou as amplas relações que existem entre os nove relatos reunidos em Contos (L&PM) e casos de seu próprio passado como jovem que cresceu em região de colonização alemã. Ao fim da conversa, Bender gentilmente respondeu a três perguntas:

Mundo Livro – O que é mais difícil de compor, a prosa de ficção ou o texto dramatúrgico?
Ivo Bender - A prosa de ficção é muito mais fácil. Enquanto no teatro o autor tem de lidar o tempo todo com diálogos, tem de sustentar a ação dramatúrgica com as falas, no texto de ficção há um narrador, uma liberdade enorme para avançar a narração, com descrições. No teatro não se tem isso, a não ser que em uma peça brechtiana, o que é exceção.

Mundo Livro – Seus contos têm o nome das localidades do interior nos quais são ambientados. É uma espécie de mapa afetivo das mitologias do interior?
Ivo Bender -
Sim, o nome original até seria O Mapa do Coração, mas depois mudou. Eu trato sim das mitologias de província, mitologias familiares, mitologias gaúchas.

Mundo Livro – As pequenas cidades e os núcleos familiares são um tema de sua predileção, estão tanto em suas peças quanto em seus recém-lançados contos. O interesse de sua ficção é o detalhe?
Ivo Bender -
Quando escrevo, me lembro muito do que já disse Aristóteles: o círculo familiar é o espaço ideal para a irrupção das tragédias.

O argentino e o uruguaio

02 de novembro de 2010 0

Amanhã, o escritor de Jaguarão Aldyr Garcia Schlee estará em Porto Alegre para o lançamento do monumental Dom Frutos, uma biografia do caudilho uruguaio Dom José Fructuoso Rivera, um dos 33 orientales que  foram fundamentais para a independência do Uruguai – e que mais tarde se tornaria o primeiro presidente constitucional do país vizinho.

Rivera morreu em Jaguarão, terra natal de Schlee, e o romance centra foco no período de 10 meses em que o caudilho passou aquartelado na cidade, tentando recuperar-se de uma doença para prosseguir viagem em direção a Montevidéu, onde comporia o governo com Lavalleja e Venâncio Flores. Desse período, o presente da narrativa romanesca (ou “diegético”, como preferm os mais técnicos), a história faz saltos ao passado para narrar a trajetória do político e militar, utilizando, para isso, muitas vezes documentos transcritos ou mesmo inventados. Para mergulhar na psique de uma figura tão instigante, Schlee precisou imaginar até mesmo a linguagem do caudilho. E para isso, foi fundamental um argentino: Domingo Faustino Sarmiento, autor de Facundo, clássico ensaio sobre a mentalidade caudilhesca que Schlee traduziu para a Editora da UFRGS nos anos 1990.

– Muito da linguagem pessoal do Rivera, a linguagem de tratamento cotidiano, saiu dali – conta Schlee.