Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

A Outra Nação da Sereia

07 de dezembro de 2010 0

Livro ganhador do Prêmio Passo Fundo Zaffari Bourbon em 2007, o romance O Outro Pé da Sereia, do moçambicano Mia Couto, é uma narrativa complexa que se faz de travessias, de deslocamentos entre mundos (reais e metafísicos), separados pelo tempo ou pelo espaço. Duas jornadas se intercalam para compôr, como um estrado, o eixo estrutural do livro. A primeira é a da jovem Mwadia Malunga, que, no ano de 2002, ou seja, mais próximo do “presente” do leitor, viaja de Antigamente, o terreno ermo em vive com o marido, o pastor Zero Madzero, até Vila Longe, seu povoado de origem, de onde saiu primeiro para estudar em um colégio cristão no Zimbabwe e depois para viver com o marido nas solidões de Antigamente. A segunda travessia que forma o esqueleto da narrativa é a de um provincial dos jesuítas, Dom Gonçalo da Silveira, que, em 1560, a bordo do navio Nossa Senhora da Ajuda, viaja de Goa a Moçambique para, em companhia de seu subordinado Manuel Antunes, responsável pelos registros de viagem, escoltar uma imagem em tamanho natural de Nossa Senhora, esculpida em madeira. A imagem está sendo levada para o império africano do Monomotapa com o intuito de auxiliar na conversão do soberano do lugar ao cristianismo.

Entre essas duas viagens, enroscam-se outras, tributárias das primeiras, todas desembocando na África, tanto o mundo físico do passado (no caso de Dom Gonçalo) quanto o continente alegórico do presente, representado na figura de Mwadia, mulher sedutora, sábia, ousada, intrigante. Mwadia, cujo nome significa “canoa”, o transporte por excelência da África e de seus rios caudalosos, é o barco que um pouco à deriva conduz o olhar do leitor no interior da narrativa. Ela é uma peregrina em busca da verdade que não se importa de falsear um pouco transes místicos com dados buscados em antigos livros que ela e o marido encontraram à beira de um rio em uma mata sagrada. A mata que nos é apresentada logo no começo da narrativa, aonde ela e o marido vão para enterrar os restos de uma “estrela” encontrada pelo pastor Zero logo no início da história (na verdade um satélite espião caído no solo).

A representação que Mia Couto faz da África em seu livro é a de um ponto de confluências entre os dois níveis da narrativa, o cenário para o qual se dirigem personagens que representam, a seu modo, um microcosmo das relações do mundo que fala português, tanto no passado quanto no presente. Como Mwadia vai definir a determinada altura: “diversas viagens se cruzavam, a um só tempo, na velha casa”. Inclusive a narrativa do passado, representada na figura da Santa e nos escritos encontrados no baú – outrora  pertencente ao falecido Gonçalo da Silveira e no presente abandonado às margens do rio Zambeze.

Na trama que se passa no século 16, viajam a bordo do Nossa Senhora da Ajuda (o navio e sua viagem, simbolicamente, dominam a maior parte dessa linha narrativa) personagens de nacionalidades diversas, retratando a embarcação, bem como os portos do período, como a babel decorrente do comércio e do transporte marítimo. Estão no navio portugueses que assumem maior ou menor importância à medida que narrativa avança: os já citados Gonçalo da Silveira, Manuel Antunes e uma dama de nome Dona Filipa, que deixa Goa, onde passava por um tratamento de saúde, para ir ao encontro do marido, o comerciante Antônio Caiado, também português, residente no Monomotapa (registre-se para quem ficou curioso que o Monomotapa se estendia, nos séculos 15 e 16, ao longo dos territórios que hoje chamamos de Moçambique e Zimbábue). Há também o capitão da nau, homem violento e sem aptidão para o comando, nomeado por favores de um pistolão.

O navio é um ele próprio uma babel de nacionalidades. O “físico de bordo” (nosso popular médico) é um goês de nome Fernandes, que afoga no álcool o horror do que presencia durante as viagens – nas quais um terço da carga humana, leia-se os escravos no porão, não chegará viva ao destino. Mas é em um infeliz triângulo amoroso que reside o coração desse núcleo da trama, cujos vértices são o padre Manuel Antunes, o negro Nimi Nsundi e a indiana Dia Kumari, aia da nobre Dona Filipa. Nsundi, que os portugueses chamam de “cafre”, ou seja, um negro africano banto, não muçulmano, parece, à primeira vista, ser o tripulante do navio mais devotado à imagem da santa, mas ele não a vê como os sacerdotes europeus, e sim enxerga uma sereia presa naquele corpo de madeira. Será Nsundi o autor do mote que dá origem ao livro: ele serra um dos pés da imagem, e  é surpreendido antes de serrar o outro, gesto que, para ele, libertaria a sereia. Nsundi é originário do Reino do Congo (que na época englobava partes do que hoje corresponde a Angola, República do Congo e Gabão), e fora negociado como moeda de troca por mercadorias encomendadas por portugueses.

Nsundi primeiro desperta a antipatia, mais tarde a simpatia e por fim a paixão de Dia Kumari, a aia. Dia também é de Goa, mas da etnia indiana, e não dos descendentes de portugueses. Tanto Dia quanto o médico de bordo Fernandes refletem o status intermediário dos indianos na dicotomia colonial “português-africana”. A determinada altura do romance, Dia deplora a devoção de Nsundi à santa, para ele um tributo aos signos religiosos dos brancos. “Para a gente do porão, você também é branca“, responde ele. Branca para os escravos e escrava para os portugueses, Dia acaba por despertar a paixão de um homem para quem aquela viagem de navio não é apenas um deslocamento espacial, mas de identidade: o padre Manuel Antunes. Em crise de fé e horrorizado com o que testemunha no navio e na relação entre os portugueses e seus colonizados, Antunes tem certreza, à medida que se aproxima da África, que está se tornando negro.

A viagem provocará consequências que alcançarão a trama que se desenrola em 2002, apesar dos mais de 400 anos que separam as duas instâncias. Mwadia, a canoa, é responsável também por uma travessia, entre dois lugares de ressonância simbólica por demais óbvia: “Antigamente” e “Vila Longe”. O “Antigamente” que é o ponto de partida da jornada de Mwadia representa a ponte que a mulher ergue entre os vários elementos do romance: a África em que vive, o Exterior, o passado representado pelos papéis do baú de Dom Gonçalo. Também na trama contemporânea questões de identidade assumem papel central, refletindo o cenário do navio no passado, em sujeitos de variadas procedências geográficas se cruzavam no mar mas tentavam aferrar-se inutilmente à ideia que faziam de sua própria identidade. Dia era revoltada contra o domínio português que assassinou seu marido na terra natal. Gonçalo da Silveira é praticamente um fanático em sua missão europeia, civilizadora e catequizante. Nsundi carrega a terra das margens do Rio Congo como forma de viajar levando o país consigo. Também na história de 2002 veem-se tentativas infrutíferas de recuperar uma noção de identidade.

Um exemplo está nos dois recém-chegados a Vila Longe, dois personagens que aparecem no vilarejo quase ao mesmo tempo que Mwadia e que acrescentam duas novas nacionalidades ao caldo do romance: Benjamin e Rosie. Benjamin é um negro norte-americano que vai à África em busca de uma ancestralidade que ele só quer ter por lhe ter sido ensinada em sua formação nos Estados Unidos. Rosie é brasileira, casada com Benjamin. Ambos são integrantes de uma obscura organização de assistência internacional e se tornam a galinha dos ovos de ouro para a atrasada vila. Ao saber que os dois “estrangeiros” estão a caminho, um comerciante local de nome Casuarino propõe aos moradores da localidade que forjem um passado de escravidão que a vila nunca teve ou que já esqueceu, colocando a mão, assim, nos dólares dos visitantes. A África assumindo a visão que o chamado “mundo desenvolvido” tem do continente.

A diversidade do antigo mundo colonial português também é vista na família de Mwadia. Sua mãe é moçambicana, seu padrasto e a irmã deste são goeses. Os goeses repetem no presente seu status de ora deslocados, ora privilegiados que víamos no navio no passado (onde Dia era escrava mas não dormia no porão nem era tratada como cativa pelos portugueses). A única biblioteca de Vila Longe pertence ao indiano Jesuíno – embora quem mais a desfrute seja o barbeiro e ex-combatente pela independência de Moçambique Arcanjo Mistura. O já mencionado Casuarino, articulador das maquinações urdidas para depenar os crédulos afro-americanos (na verdade não tão crédulos quanto os outros supõem), também vem a ter ligações familiares com Mwadia: é seu tio.

Outros dois personagens centrais também refletem a ilusão do pertencimento. O verdadeiro pai de Mwadia era um oficial africano no exército português. Enquanto se considera aceito pelos colonizadores, é um ferrenho antinacionalista, até ser humilhado por ex-colegas e perceber que nunca será um dos portugueses. Já o marido de Mwadia, Zero, orgulha-se de pertencer a uma etnia de coragem e valentia mitológicas, os Achikundas, tribo de índole feroz e guerreira, mas essa afiliação, ironicamente, não parece serde muita valia, já que Zero é um homem supersticioso, sempre com medo quando defrontado com as ousadias de sua mulher.

Contudo, apesar de retratar a África como uma imensa passagem onde tribos e nacionalidades se encontram, Mia Couto desenha em seu romance o contrário do cosmopolitismo, que é a noção de alguém à contade em qualquer espaço. Os personagens de O Outro Pé da Sereia são antes “cosmoexilados”, viajantes perdidos na própria e impossível jornada.

Envie seu Comentário