Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de dezembro 2010

Os livros que merecem segunda chance

30 de dezembro de 2010 0

Não é novidade para ninguém o grande volume de lançamentos que ganham as prateleiras a cada ano, é só entrar rapidamente em qualquer livraria para perceber que o número de livros à disposição excede em muito a capacidade de qualquer um de nós de lê-los. E a cada ano chegam mais. Ao mesmo tempo, os espaços para tornar essa produção conhecida cada vez se tornam mais restritos, daí porque muitos livros ganham divulgação na onda de algum tipo de hype, seja o do nome do autor (um jovem e surpreendente talento, um veterano mestre com seu novo livro), seja o tema que de algum modo desperta o interesse (um ataque polêmico a alguma instituição, um best-seller que desagradou algum grupo que ainda não aprendeu que fazer barulho por isso só garante mídia grátis). E muitas vezes livros que não tem esse potencial de escândalo ou de badalação se perdem na enxurrada dos lançamentos de cada ano. Pensando nisso, disparei alguns e-mails para escritores perguntando se eles poderiam nos dar uma dica de quais os livros editados em 2010 e afogados pelas vagas do hype mereciam, na opinião de cada um, uma nova chance nas primeiras leituras de 2011. A justificativa era opcional. Alguns  enviaram simplesmente o título, outros fundamentaram sua escola. Confiram abaixo as respostas:

Antônio Xerxenesky (autor de Areia nos Dentes)
“Uma Fome, de Leandro Sarmatz (Record, 128 páginas). Tenho duas teorias para explicar porque esse livro não emplacou tanto quanto deveria. Em primeiro lugar, Uma Fome é um livro de contos de um novato no terreno da prosa, e nada está mais fora de moda no Brasil do que isso. A segunda teoria diz respeito à primeira parte do livro, intitulada Atores, composta dos três contos mais breves do livro. Sarmatz é um escritor que precisa de espaço para respirar. Apesar dos três contos iniciais trazerem situações interessantes, terminam rápido demais, em geral com uma frase de impacto que destoa do resto do conto. Essa primeira parte fraca pode afugentar leitores do resto do livro, que, por sua vez,  impressiona – e muito. Uma Fome chega carregado de referências literárias, sem nunca parecer pedante. A prosa de Sarmatz traz um profissionalismo que não aniquila ou neutraliza a humanidade de seus personagens. Um livro com o coração no lugar certo e com um cérebro bem grande para completar. Não tenho dúvidas de que Sarmatz será um nome obrigatório nas listas futuras de ‘melhores novos escritores’”.

Cíntia Moscovich (autora de Por que Sou Gorda, Mamãe?)
“Acho que Unhas, de Paulo Wainberg (Leya, 256 páginas). É um romance policial, mas sem se levar excessivamente a sério. É escatologia levada a sério. E é uma diversão.”

Cláudia Tajes (autora de Só As Mulheres e as Baratas Sobreviverão)
“Tem o romance da Adriana Lisboa, Azul-Corvo (Rocco, 224 páginas), que não lembro de ter sido muito falado. Mas pode que eu tenha perdido as resenhas sobre ele. Uma história de amor com discussão política, ou o contrário disso. É muito bem escrito, flui e prende o leitor, como se espera dos bons livros. Não sei como foi de vendas ou nas listas, mas mereceria um relançamento  com mais barulho.”

Daniel Galera (autor de Cordilheira e Cachalote)
“Olha, eu citaria o Do Fundo do Poço se Vê a Lua, do Joca Reiners Terron (Companhia das Letras, 280 páginas), que, apesar de ter vencido o Prêmio Machado de Assis de Romance, repercutiu menos do que deveria, na minha opinião. É um dos melhores romances brasileiros do ano e merece ser lido. Alternativa: a história em quadrinhos Memória de Elefante, do Caeto, uma história autobiográfica dura e comovente que foge com habilidade de qualquer negativismo ou autopiedade. Foi uma HQ de destaque num ano de excelentes HQ e merecia mais atenção do que recebeu.”

Joca Reiners Terron (autor de Do Fundo do Poço se Vê a Lua)
“Acho que a Trilogia de Alhures, de Manoel Carlos Karam (composta por Cebola, O Impostor no Baile de Máscaras e Fontes Murmurantes, publicada pela Kafka Edições de Curitiba”.

Leandro Sarmatz (autor de Uma Fome)
“Penso direto em A Guimba, do Will Self (Alfaguara, 336 páginas)”

Luíz Horácio (autor de Pássaros Grandes não Cantam)
“Migração dos Cisnes, de Ricardo Daunt (Global, 560 páginas)”

Marcelino Freire (autor de Rassif: Mar que Arrebenta)
“Tem um que acaba de sair. São manifestos poéticos. Cacetadas curtas e ave nossa! Como o livro saiu em novembro, teremos o ano de 2011 para descobrir essa obra vigorosa e bora embora. Trata-se de Contrabandos, livro de estreia do carioca Raphael Gancz. O autor fala e filosofa sobre o câncer, a mãe, o beco, o estupro. Com ironia e linguagem de guerrilha. E muita poesia. Vale conferir. O livro saiu pelo selo Edith, São Paulo. Para saber mais, e até encomendar um exemplar, acesse: visiteedith.com.”

Michel Laub (autor de O Gato diz Adeus)
“Voto no livro de contos O Museu do Peixe Morto, do Charles D’Ambrosio (Grua Livros, 256 páginas)”

Cinco leituras

30 de dezembro de 2010 0

Como época de fim de ano ninguém escapa de fazer balanços e retrospectivas, também aqui no Mundo Livro resolvemos antecipar nossa retrospectiva monstro de 50 livros que começará a ser publicada na primeira semana de 2011 pedindo a ajuda de alguns amigos e colegas do jornal. Perguntei a alguns dos bravos repórteres do Segundo Caderno quais haviam sido as cinco leituras marcantes do ano (não necessariamente publicadas em 2o10, mas preferencialmente, não necessariamente em português, mas preferencialmente), e recebi de volta as seguintes colaborações assinadas por nossos setoristas de música, Luís Bissigo e Gustavo Brigatti (titular do blog Remix) e de Teatro e Artes, Fábio Prikladnicki (do blog de teatro Quarta Parede). Vocês não deixarão de notar que os três nos apresentam listas mais afins com suas próprias áreas, o que é ótimo, uma vez que a maioria dos livros aí embaixo não foram lidos por este seu setorista de literatura por falta de tempo e fatalmente não estariam na retrospectiva literária:

Luís Bissigo
Vida, de Keith Richards, com James Fox (Globo) – Abundantes histórias de sexo, drogas e rock’n’roll narradas por um dos mestres no assunto, o guitarrista dos Rolling Stones, com direito a alguma filosofia, muitos devaneios e algumas farpas para o companheiro Mick Jagger.

Eu Sou Ozzy, de Ozzy Osbourne, com Chris Ayres (Benvirá) – Abundantes histórias de sexo, drogas e rock’n’roll narradas por outro dos mestres no assunto, o cantor do Black Sabbath, sem rodeios e com direito a muito humor e ironia, especialmente quando o assunto é a juventude do artista.

Led Zeppelin: Shadows Taller Than Our Souls, de Charles R. Cross (It Books) – Do mesmo autor de Mais Pesado que o Céu (biografia de Kurt Cobain), enfatiza mais a história musical do Led – ou seja, o rock’n’roll (com leves pitadas de sexo e drogas)  – do que outros mestres no assunto. A edição importada inclui curiosidades como ingressos e programas de festivais.

Pra Ser Sincero: 123 Variações Sobre um Mesmo Tema, de Humberto Gessinger (Belas Letras) – Memórias do líder dos Engenheiros do Hawaii, completas com 123 letras selecionadas. Abarca a trajetória pessoal de Gessinger e alguns dos principais episódios da história da banda _ muito rock’n’roll e nenhuma menção a drogas ou sexo.

O Terceiro Homem, de Graham Greene (L&PM) – Nem sexo, nem drogas, nem rock’n’roll: uma narrativa policial curta, que não deixa de ser uma bela amostra do estilo de Greene, ambientada na Viena do pós-guerra. O texto foi concebido inicialmente como roteiro do filme homônimo, lançado em 1949.

Gustavo Brigatti
BOX: The Face of Boxing, de Holger Keifel (PQ Blackwell) – Pugilistas e outras figuras envolvidas com o mundo do boxe aparecem enfileiradas nessa bela coleção de porta-retratos em preto e branco _ alguns, acompanhados de confissões, conselhos e frases de efeito. Entre as figuras de destaque, gente como Mike Tyson, Evander Holyfield (cuja orelha mordiscada estampa a capa do livro), Don King, Sylvester Stallone (que confessa nunca ter visto uma luta antes de filmar Rocky…) e o nosso Popó.

Anjos da Desolação, de Jack Kerouac (L&PM) – Talvez o melhor livro de Kerouac que já li. A primeira parte é a quintessência da solidão, com Jack isolado numa cabana no alto de uma montanha trabalhando como fiscal de incêndio. Sem bebidas e drogas, ele se entrega às memórias em um dos raros momentos em que sua prosa em fluxo de consciência é perfeitamente inteligível.

Eu Sou Ozzy, de Ozzy Osbourne, com Chris Ayres (Benvirá) – Figura das mais carismáticas no meio musical, Ozzy conta sua versão de tudo o que se lembra desde a infância miserável na zona industrial britânica até os dias de estrela de reality show milionária. Humor inglês da melhor qualidade e nenhuma censura.

Guerra Mundial Z, de Max Brooks (Rocco) – Depois de lançar um manual de sobrevivência ao apocalipse zumbi, Max Brooks solta sua versão de como seria uma guerra entre humanos e zumbis. E faz isso através de textos curtos extraídos de depoimentos de personagens diversos, como o médico que descobriu o primeiro infectado na Ásia. Já teve os direitos comprados para o cinema.

Amor Sem Escalas, de Walter Kirn (Record) – Um executivo de Recursos Humanos e aspirante a escritor de auto-ajuda que vive (de fato e metaforicamente) o/no aeroporto. Só que diferentemente do filme com George Clooney, aqui Ryan Bingham não está disposto a abandonar sua lógica de transitoriedade para se reconciliar com a família ou apostar num grande amor. Ele só quer completar 1 milhão de milhas aéreas antes que seja tarde demais.

Fábio Prikladnicki
Drama em Cena, de Raymond Williams (Cosac Naify) – O célebre crítico britânico analisa a encenação de grandes textos, mostrando a evolução do drama da antiguidade aos tempos atuais

Minha Vida no Teatro, de Domingos Oliveira (Leya) – Nove peças recentes de Oliveira, concluindo com um capítulo (anteriormente publicado à parte) sobre a arte teatral que já vale o livro.

Retorno à Questão Judaica, de Elisabeth Roudinesco (Zahar) – A historiadora da psicanálise e intelectual francesa reflete sobre o pensamento judaico, o antissemitismo e o conflito no Oriente Médio.

Hermenêutica da Obra de Arte, de Hans-Georg Gadamer (WMF Martins Fontes) – Coleção de ensaios do pensador alemão que redefiniu, no século 20, o conceito da interpretação filosófica e artística.

Pode o Subalterno Falar?, de Gayatri Chakravorty Spivak (Editora UFMG) – Primeiro livro traduzido para o português de uma das principais teóricas da cultura em atividade.

Como se faz um campeão

27 de dezembro de 2010 0

Se fosse para julgar o homem, este texto poderia ser mais longo e recheado de reflexões. Mas essa parte fica para o leitor – e mesmo a crítica americana tem se dividido ao falar do livro e da vida de Andre Agassi, um dos maiores tenistas da história contemporânea, vencedor dos quatro Grand Slams (Aberto da Austrália, dos Estados Unidos, da França Roland Garros – e Wimbledon), que ele conquistou oito vezes.

Agassi é criticado por atitudes que tomou na vida, as quais expõe no livro com uma boa dose de drama (como se a sua vida não tivesse sido dramática o suficiente): usou metanfetamina – quando sua carreira teve a pior fase, em 1997 —,  acusa grandes adversários como Pete Sampras (14 conquistas em Grand Slams) de “não terem e não precisarem de inspiração”, revela sua irritação com a imprensa especializada em esportes e deixa claro o quanto o casamento com Brooke Shields foi um erro desde o início — um erro o qual Agassi quase assume como dele, e que foi piorado pelo fato de a atriz não ter interesse pela carreira de tenista do marido. Agassi (Globo, 504 páginas R$ 59,90, tradução de Sílvia Mourão, Helena Londres e Rosemarie Ziegelmaier) traz revelações surpreendentes para quem é tenista ou fã de tênis – além do uso de drogas: o campeão passou a usar peruca (com a qual ia para a quadra, inclusive) quando a calvície se acentuou, resolveu não usar mais cuecas em jogos depois de uma grande vitória, entregava partidas nas quais não tinha interesse e, incrivelmente (mas não para quem passa pelas primeiras páginas do livro), odiava tênis. Odeia. Sempre odiou.

O Agassi maduro pós-casamento com Steffi Graf (22 títulos em Grand Slams) lamenta ter parado de estudar aos 14 anos, devido a uma natural rebeldia da idade e a outra nem tão natural, que vinha de uma infância na qual todos os caminhos foram resumidos ao tênis por um pai violentamente obcecado pelo esporte. Um pai que amarrou ao braço do Agassi bebê uma raquete de pingue-pongue para que ele atingisse um móbile de bolinhas e que fez o filho de sete anos rebater 2.500 bolas a 170km/h. Todos os dias. Parar de estudar seria naturalmente um caminho a mais que se abriria aos incansáveis treinos para atingir o topo do ranking entre todos os tenistas do planeta. Aos 36 anos, no Aberto dos Estados Unidos, quando entrou em quadra para o último campeonato de sua vida profissional, Agassi era um atleta veterano entre adolescentes, investido de um corpo de um homem de 90 anos, como ele mesmo descreve, tentando passar ao leitor as dores inimagináveis de uma vértebra deslocada, injeções de cortisona rente aos nervos e pernas que sequer o auxiliam a levantar do chão, onde ele prefere dormir, todas as manhãs. Um Agassi ao qual o pai implorava que parasse de jogar tênis.

Um dia, após assistir a um documentário do 60 Minutes, Agassi percebeu que, para ele, só era possível ter real satisfação na vida (além dos momentos em família com seus dois filhos e a esposa e alma gêmea no tênis, Steffi) ajudando os outros. Em 2006, construiu a Agassi Foundation em uma zona da periferia de Las Vegas, apoiado por milhões de dólares arrecadados junto à iniciativa privada (http://www.agassifoundation.org/). A “academia de Agassi” prepara as crianças desde o maternal para a faculdade e conta inclusive com simuladores de vôo e aulas de música erudita. Nas palavras dele, “o objetivo é fortalecer os jovens”. Talvez quem se saia tão fortalecido quanto as crianças seja ele mesmo, detentor de uma infância em que as escolhas foram retiradas do currículo de vida.

Para quem pergunta se esse livro envolvente da primeira à última página foi obra do próprio tenista que largou os estudos aos 14 anos a resposta é dada no fim: Agassi teve a companhia de J. R. Moehringer, amigo, vencedor de um Prêmio Pullitzer e autor do best seller Sede de Viver, que teria declinado do pedido do tenista de assinar o livro. “As memórias são dele, não nossas”, disse Moehringer ao New York Times. De qualquer forma, a leitura é surpreendentemente fascinante para a biografia de um atleta e merece ser degustada mesmo por aqueles que só assistiam tênis quando Guga era o número 1 do mundo.

Texto de Milena Fischer

O lado invisível do sonho

20 de dezembro de 2010 0

Paul Auster revisita com frequência determinadas obsessões: uma delas é transformar a fragmentação pós-moderna de seus romances em uma ferramenta adicional para investigar a psique perturbada de seus protagonistas — de tal modo que já não se saiba se o mal-estar que ele retrata é o de suas criaturas ou da própria narrativa. O que difere é o grau de excelência que Auster consegue imprimir ao conjunto. E nesse sentido, Invisível, seu 15º romance, é uma de suas melhores realizações nos últimos anos.

Em um artigo de seu divertidíssimo Frenesi Polissilábico, Nick Hornby sacaneia, com propriedade, as resenhas que apelam para o desgastado clichê de que o romance resenhado “no fim das contas, é sobre a própria literatura”. Se essa afirmação que não quer dizer nada pudesse ser usada para dizer alguma coisa ela com certeza se  aplicaria aos livros construídos por Auster. O protagonista de suas tramas labirínticas mais recentes é quase sempre um escritor — às vezes no meio de uma obra às vezes em crise com ela. Em Invisível, esse personagem é o já sexagenário Adam Walker. Em uma das estratégias formais elípticas características de Auster, o romance se inicia como um livro de memórias: no ano de 1967, Walker, então um tímido aspirante a poeta com vinte anos, conhece, em uma festa da universidade que frequenta um casal com um tanto de fascinante e outro tanto de sinistro: o professor Rudolf Born e sua entediada namorada Margot, ambos franceses, ambos pouco convencionais e bastante atraentes para o jovem americano tímido e retraído que Walker é.

A narrativa se desenvolve e Born se revela uma personalidade manipuladora e mefistofélica — oferece-se, sem preliminar alguma, para financiar uma revista literária a ser dirigida pelo jovem Walker, dizendo-se preocupado com o futuro dele. O nascimento de um triângulo amoroso é inevitável — e quando tal triângulo se desenlaça de forma dramática, é o momento de o leitor ser apresentado a uma nova camada da narrativa: a primeira parte do livro, Verão, na qual Walker narra sua convivência com Born, era um esboço de romance que o já envelhecido Walker enviara por carta a Jim, um escritor seu amigo e colega daqueles tempos de faculdade. A partir daí, cada seção do livro acrescenta uma nova versão ou aos fatos narrados por Walker ou às dúvidas de Jim a respeito da veracidade do relato, que inclui ainda violência, a paixão incestuosa de Adam pela própria irmã e uma temporada curta e sem sucesso do protagonista em Paris.

Como se vê, um recurso que o próprio Auster já explorara em obras anteriores como a já clássica Trilogia de Nova York ou A Noite do Oráculo — a história repleta de histórias que surgem uma dentro da outra como um conjunto de bonecas russas. Por vezes, tal estrutura apenas se presta a um exercício formal vazio, como Viagens no Scriptorium, mas em Invisível Auster recupera sua melhor forma e tem sucesso em reconstituir a vergonha, a paranoia, a pressão de ser jovem nos anos 1960: lado B dos sentimentos dourados associados àquela década. Um período cuja imagem idílica é tão narrativamente construída como o relato misterioso de Walker.

Morte, tempo e memória

18 de dezembro de 2010 1

O poeta vencedor do Açorianos de Literatura de melhor livro na categoria poesia tem uma carreira lenta, dir-se-ia criteriosa. Desde 1999, publicou cinco livros, dois deles em parceria com outros autores e um deles o Livro do Ano segundo o júri do Açorianos, Fim das Coisas Velhas. Não é incomum que poetas, com seu labor artesanal esmerado para concentrar ao máximo a linguagem, publiquem com algum vagar, ainda mais quando acumulam outra profissão – Marco de Menezes, o poeta de quem estamos falando, 42 anos, é médico em Caxias do Sul, onde vive, uma formação que por vezes se deixa entrever nos poemas de Fim das Coisas Velhas (Modelo de Nuvem, 92 páginas, R$ 20).

Fim das Coisas Velhas se divide em quatro seções: Torvelinho, Os Pátios, Como um Peixe de Parede e Ítaca, Itaqui. Embora o título traga a palavra “fim”, é de continuidade, de procura por um espaço dentro da longa e pesada tradição que se constitui a poesia do livro. O primeiro poema do volume, justamente o que dá título ao livro, começa com “por exemplo, os cantos sujos de pó de uma mureta/ ou o derruir de uma curva em um prédio de apartamentos” – o enunciado de um exemplo logo no verso de abertura deixa ao leitor o papel de imaginar o diálogo anterior que levou àquele exemplo, sendo esse diálogo com uma longa tradição o cerne de toda a obra, como exprime o título da seção final: Ítaca, Itaqui, uma busca do equilíbrio entre o que herdamos do modelo clássico e o que cabe na memória do que se viveu.

Claro que se pode argumentar que essa primeira frase na verdade é uma continuação do próprio título, “Fim das Coisas Velhas // por exemplo…“, e assim segue o poema, enumerando conceitos que remetem à transitória condição de tudo o que existe. A morte e o tempo são presenças nada discretas ao longo de todo o livro, bem como a união esparsa de fragmentos promovida pela memória como matéria da poesia. É ainda no primeiro poema que podemos encontrar uma espécie de profissão do que virá a seguir ao longo das menos de cem páginas do livro:

ainda que a morte
esta irmã falante do tempo
carregue bois e naves e luxo e graxa
em seu estômago de torvelinho piedoso
carregue fama e baldes e tordos e lã
em sua absurda inteligência
até o nada

(…)

ainda assim nos resta
cantar pelo fim das coisas velhas
as que não temos
sequer sonhamos
e que nos cortam
com o fio da primeira faquinha
que ganhamos do avô
que agora
neste torvelinho
tenta ajeitar-se na cadeira.

Na poesia de Marco de Menezes, a memória é uma ferramenta que reconstrói a realidade como forma de enfrentar a passagem do tempo e a morte inexorável no fim do trajeto. Um combate que, como tudo, não se dá sem perdas, como se vê em Memória da Mesa:

… e há essa memória que já começa a doer
dos braços de náilon sobre a fórmica verde
e dos pés pretos
sobre o carpete mudo.

Marco de Menezes mostra em Fim das Coisas Velhas que sua produção criteriosa moldou um poeta maduro, de linguagem cuidada, de um lirismo contido, cercado com firmeza pela moldura da sonoridade de que dota seus versos e da dicção que trabalha a memória iluminando o coloquial. Ele também não teme usar expedientes consagrados da tradição, com a métrica e a rima, trabalhando-os de acordo com sua poesia, e não o contrário. Basta ver a primeira estrofe de Recomendação Inútil para Impostores:

“Repara nestes ossos sob a prata
Repara nestes olhos de trapaça
Repara na verdade em uma taça
No poema evocado pela traça”

As referências, veladas ou abertas, vão se apresentando à medida que o livro avança para as divisões seguintes, mesclando em um tom único, sem dissonâncias, tanto o classicismo de Homero (Ítaca, Itaqui, o último poema do livro, que reconta brevemente a Odisseia como um retorno contemporâneo à casa do avô morto) quanto quadrinhos (O Relógio de Corto Maltese), TV (Oração a Andy Kaufmann) e a própria prosa de ficção contemporânea (Roberto Bolaño, Sonhador de Desertos). Se alguma vez essa alusão beira o óbvio (uma epígrafe de Jorge Luís Borges em um poema chamado Imitação que começa com “um tigre/ na armadilha da paisagem / finge que algo fareja”, por exemplo), em outras circunstâncias tais referências ajudam a construir o panorama sutil de colagem memorialística que perpassa todo o livro.

Esse tom esquivo da memória como pretexto (e a memória não é sempre um pretexto esquivo?) é mais flagrante na terceira seção do volume, Como um Peixe de Parede, na qual Marco de Manezes vai garimpar em episódios, pessoas e lugares de seu passado a argamassa para construir seu universo evocativo (“Na Uruguaiana que mora / no poço escuro do peito / não sabe caber Caxias“). Um universo que não está isolado, como falamos lá no início, mas procurando um lugar na ininterrupta cadeia do tempo e da tradição. Em Rua Santana, 1890, uma lírica evocação da infância do autor se confunde, ao final, com a de seu próprio filho (num eco da “prole que dá combate ao tempo” do soneto Shakespeareano):

sem primeira comunhão
água fora do cantil
e era ali a criança

Eu criança agora
sinto meu filho que pula
nas costas desta lembrança
.”

Depois dessa viagem que reconstitui uma identidade, a última parte do livro, Ítaca, Itaqui, se permite ser mais sombria, centrada na morte, revisitando a noção clássica, pagã, da morte como o fecho de uma vida – e o quanto essa concepção está perdida na contemporaneidade. É um encerramento melancólico mas coerente com a reflexão sobre a finitude proposta ao longo de todo o livro. É o momento também em que a voz poética, acordada de suas divagações memorialísticas para a btutal realidade do hoje, se permite ser mais enfática, indignada, como na bela Oração para um Cadáver em Via Pública:

Tudo é deste mundo
e não há o que chamam futuro

o que não já não respiras é o perfume
de um jardim imaturo
crescendo sob os tapumes

do outro lado da aléia
não há o que chamam futuro

só o sorriso pestilento
do corredor sonolento
em seu abrigo de tule
que escorre suor noturno.

Os Vencedores do Açorianos

13 de dezembro de 2010 1

Os vencedores do Prêmio Açorianos - Foto: Ricardo Duarte/ZH

 

Foram entregues na noite desta segunda os prêmios para os vencedores da 17ª edição do Prêmio Açorianos de Literatura. Ao som do humor e das músicas deliciosamente passadistas de Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, encarnando seus personagens fugidos da Sbórnia, Kraunus Sang e Maestro Pletskaya, o Açorianos entregou pela primeira vez uma bolsa de criação de literária, no valor de R$ 10 mil, para projetos de livros de contos – vencida por Marcel Citro. Pela primeira vez desde que o Açorianos passou a premiar o Livro do Ano, em 2005, o escolhido nessa categoria foi um volume de poesia, Fim das Coisas Velhas, e não de ficção ou humanidades. Ao receber seu prêmio, o vencedor, Marco de Menezes, natural de Uruguaiana mas residente em Caxias do Sul, dedicou o livro a todos os autores que lidam com dificuldade em seu ofício, ainda mais da poesia “tão combalida, tão esquecida e tão mal criticada”, disse o autor em seu discurso de agradecimento.

– Nem me passava pela cabeça a possibilidade de ganhar, ainda mais comparando o meu livro com a excelência de algumas obras que estavam na disputa. Me sinto completamente surpreso – disse Marco de Menezes ao fim da cerimônia ao editor deste blog, que acompanhou a entrega dos prêmios.

A editora Libretos e o Gauchão de Literatura foram escolhidos os destaques do ano – não há candidatura para essas categorias, a escolha é espontânea dos jurados e apenas dois destaques foram votados este ano, quando normalmente são entregues prêmios em cinco categorias. Confira abaixo a lista completa dos vencedores do Açorianos (quando abordamos o livro vencedor em algum texto anterior aqui do blog, colocamos um link para o texto no título da obra).

LIVRO DO ANO
Fim das Coisas Velhas, de Marco de Menezes (Modelo de Nuvem)

CRIAÇÃO LITERÁRIA
Marcel Citro
, com Travessia: Quinze Contos Peregrinos

NARRATIVA LONGA
Anjo das Ondas, de João Gilberto Noll (Scipione)

CONTO
Os Limites do Impossível: Contos Gardelianos
, de Aldyr Garcia Schlee (ARdoTEmpo)

CRÔNICA
Mulher Perdigueira, de Fabrício Carpinejar (Bertrand Brasil)

POESIA
Fim das Coisas Velhas, de Marco de Menezes (Modelo de Nuvem)

INFANTIL
Pedro Malazarte e a Arara Gigante
, de Jorge Furtado (Artes e Ofícios)

INFANTO-JUVENIL
Três Pais
, de Paulo Bentancur (Editora Atual)

ENSAIO DE LITERATURA E HUMANIDADES
Inteligência com Dor: Nelson Rodrigues Ensaísta
, de Luís Augusto Fischer (Arquipélago Editorial)

CAPA
Flávio Wild, por Silêncio em Siena, de Flávio Wild (7Letras)

PROJETO GRÁFICO
Marisa Iniesta Martin, por O Nervo da Noite, de João Gilberto Noll (Scipione)

CATEGORIA ESPECIAL
Tentativa de Independência do Estado do Rio Grande do Sul
, de Luigi Nascimbene. Organização de Mário Rozano, tradução de Elvo Clemente (Editora CiaE)

DESTAQUES

Editora Libretos
Gauchão de Literatura

Dezembros de Clarice

10 de dezembro de 2010 1


Clarice Lispector, caricatura de Gilmar Fraga


Completam-se hoje 90 anos do nascimento de Clarice Lispector, em uma aldeia chamada Tchetchelnik, na Ucrânia. Ontem, por sua vez, dia 9, a efeméride era outra: os 33 anos de sua morte, ocorrida em 1977, um dia antes de seu aniversário de 57 anos. Para marcar a data, republicamos abaixo, no Mundo Livro, entrevista feita em meados de novembro com o biógrafo americano de Clarice, Benjamin Moser, que veio a Porto Alegre falar sobre a autora na Feira do Livro de Porto Alegre. Era a segunda grande entrevista que Moser, natural do Texas, concedia a Zero Hora. Como a primeira, foi feita por telefone, o repórter aqui e o escritor na casa onde mora, na Holanda. O fato de ser uma segunda conversa, também, ajudou o papo a se dirigir para a autora e menos para o livro, que já havia sido amplamente debatido na primeira entrevista. Como na época a entrevista só fio publicada online para os assinantes, creio ser oportuna sua republicação agora, quando Clarice completa 90 anos de um mistério ainda intocado, apesar das inúmeras tentativas de desvendá-lo.

Zero Hora — À época do lançamento da edição brasileira de Clarice, falando a ZH, o senhor disse que ter o livro publicado no país já ultrapassava as suas expectativas. Como avalia a sua repercussão no Brasil?
Benjamin Moser -
Apesar do sucesso nos EUA e na Inglaterra, eu de fato não sabia como os brasileiros iriam reagir, porque há uma série de livros sobre Clarice no país, e essas coisas são muito difíceis de se antecipar. Quando cheguei a São Paulo, no início deste ano, e vi o interesse despertado pelo lançamento, fiquei admirado. Acho, claro, que havia um certo interesse pelo fato de não ser apenas a primeira biografia em inglês de Clarice, mas, como me informou um professor mais tarde, a primeira biografia em inglês de qualquer autor brasileiro escrita por um estrangeiro. Agora, essa curiosidade é útil apenas no início, porque, se o público não gosta, a obra acaba morrendo aí. Mas foi o contrário. A recepção empolgada me deixou muito grato pessoalmente e muito contente pela própria Clarice, por ver que o interesse por ela não parou de crescer.

ZH — A recepção entusiasmada o surpreendeu, como estrangeiro?
Moser —
Há várias respostas que eu poderia dar a essa questão. Primeiro porque, no Exterior, por mais que sejam apenas estereótipos, a imagem do Brasil é ligada às praias, à Amazônia etc. O fato de alguém de fora mostrar uma face artística e intelectual do país é empolgante para as pessoas. Por outro lado, muitas haviam me avisado: “Cuidado, você está tocando em uma glória nacional, e as pessoas vão ficar chateadas. Dependendo do que você escrever, não vão gostar do fato de você ser estrangeiro”. Foi totalmente o contrário disso, o que, para um escritor, é uma grande recompensa. Trabalhei muitos anos nesse livro, sozinho, sem promessa de publicação por alguma editora, sem saber se iria dar certo, me submetendo a acumular uma dívida financeira enorme. É por isso que sou tão grato pela recepção aqui no Brasil.

ZH — Três décadas depois da sua morte, a obra de Clarice é mais conhecida e reverenciada do que quando ela esteve viva?
Moser —
Muito mais. A irmã dela, Tânia, me comentou que achava uma pena Clarice não ter visto o quanto sua obra havia se tornado conhecida. Mesmo quando ela se tornou mais conhecida, no fim da vida, era em meio a artistas, professores, intelectuais. Não havia essa quase unanimidade nacional em torno dela.

ZH — No seu livro, o senhor rastreia as relações entre Clarice e uma visão mística judaica que pode ser encontrada também em Kafka, mas ao mesmo tempo ressalta o quanto a obra da autora era fundamentalmente brasileira, apesar de fugir do exotismo tropical que Jorge Amado tornou conhecido mundo afora.
Moser —
Ela própria fazia questão de falar isso.Acho que talvez tenha sido por isso que o meu livro despertou tanto interesse nos EUA e na Europa. As pessoas fora do Brasil esperam algo meio Jorge Amado, uma coisa de banana-da-terra, Carmem Miranda, e Clarice não é isso. Ela é intimista, focada no drama do ser humano. Mas, ao mesmo tempo, há ligações na obra dela – que não são óbvias, já que ela fazia questão de não ser óbvia – com muitas das correntes filosóficas, políticas e culturais do Brasil. Desde o início, ela se vinculou a outros escritores brasileiros, como o mineiro Lúcio Cardoso, como Erico Verissimo, como autores cariocas e pernambucanos. O estranho é que ainda hoje alguém me mandou uma pergunta na internet: “Clarice era brasileira?”. Eu acho isso tão estranho, porque é uma pergunta muito comum, que me fazem muito, quando não fariam a mesma questão em se tratando de Erico, Drummond ou Machado de Assis. Não tenho realmente uma teoria sobre isso, mas é algo que me chama muito a atenção.

ZH — Isso não seria um resquício do  mistério ou da incompreensão que sempre cercaram Clarice? Muitos autores comentam que durante os anos 1970 a obra de Clarice era vista pela esquerda como uma obra burguesa ou alienada por não se dedicar ao “fato social”, como o senhor lembra na biografia.
Moser —
Acho que é uma coisa muito difícil para a gente hoje imaginar o que era a polarização, não apenas no Brasil, mas na América Latina, à época. Ou você era comunista da linha dura, quase estalinista, como Oscar Niemeyer, por exemplo, ou você era aliado com a ditadura militar. Não havia opção, ou meio-termo. Acho um alívio não haver mais essa polarização, que não ajudou nada em termos de arte ou literatura, a não ser para produzir clichês, como o camponês em revolta, aquela coisa que a gente lê hoje em dia e quase não acredita – porque é horrível.

ZH — O senhor passou várias temporadas no Brasil para elaborar o livro. Chegou a visitar Porto Alegre buscando rastrear a amizade, retratada no livro, entre Clarice e o casal Mafalda e Erico Verissimo?
Moser —
Sim, mas Mafalda morrera pouco antes de eu começar, o que foi uma pena. Me socorri da gaúcha Vera Morganti, que havia feito uma entrevista muito interessante com a Mafalda e que foi publicada em livro (Confissões do Amor e da Arte, Mercado Aberto, 1994). O curioso foi que, no lançamento do livro em Washington, veio se apresentar a mim, em inglês e sem sotaque nenhum, a Clarissa Verissimo. Fiquei atônito de vê-la, porque na biografia a menciono, mas somente no período em que ela tinha 18 anos.

ZH – No livro, o senhor aborda o fato de Clarice ter uma personalidade múltipla que, de alguma forma, reflete muito da complexidade brasileira: é uma judia imigrante, que cresce no Nordeste do país, muda para a região central, conhece o mundo em longas viagens… Mas essas facetas se diluem em um amálgama, em uma identidade única, não?
Moser
- É o que eu acho. Tentei enfatizar dois aspectos: a sua “judaicidade”, digamos, e o fato de ela ser profundamente brasileira. Achei que no Brasil os livros existentes, com poucas exceções, não haviam entendido o peso do judaísmo na família dela e em sua formação. E por outro lado eu estava escrevendo este livro para um público internacional, não brasileiro. Queria explicar o que era o Brasil, quem eram os escritores, os políticos, quais as correntes intelectuais da época. Mas, como ela não era óbvia, não era de assumir rótulos, foi mais um trabalho de contextualização do que de explicação. Porque a Clarice fez parte e não fez parte das coisas, ao mesmo tempo. Isso é o que mais me interessa nela: ela está dentro e fora.

ZH – Isso é algo que também se reflete na obra dela, não? Uma escrita que vai ao âmago, ao mais profundo, mas com aquele distanciamento, aquela lucidez de quem olha de fora.
Moser
- É claro. Mas esse olhar de fora acho que todo mundo entende. Se ela tivesse sido, por exemplo, uma filha de japoneses imigrantes em São Paulo, ou portugueses, sei lá, qualquer coisa, talvez tivesse tido isso também. Mas qualquer pessoa que tenha estado numa festa na qual não conhece ninguém e fica meio encostado na parede, olhando, entende essa situação. Para mim, esse é um dos fatores que explicam a popularidade dela.

ZH – O olhar místico de Clarice, seu anseio metafísico, que é analisado em seu livro, não seria também de alguma forma outro elemento que  explica essa popularidade?
Moser -
Acho que sim. A questão mística em Clarice, aquela sede de se vincular ao que é mais verdadeiro na vida, aquele drama de A Paixão Segundo G.H., a ânsia de se abrir e procurar o que há de mais verdadeiro no mundo, é isso o que, na minha visão e na de muitos, a eleva acima das preocupações políticas, de moda, essas coisas que vêm e vão com o tempo.As perguntas de Clarice,”De onde viemos?” e “Para onde vamos?”, são as mesmas que todos fazem, em todos os países, em todas as línguas.  Acho que é isso que a separa da literatura digamos mais “jornalística”, que explica quem é o prefeito de Porto Alegre e por que ele está abrindo uma rua em determinado bairro. Ela procura o que está além da vida diária, e acho que por isso ainda vai ser lida dentro de cem anos.

ZH – A repercussão do livro no mercado norte-americano despertou novo interesse pelas traduções de Clarice em língua inglesa?
Moser -
Esse é um dos meus grandes orgulhos. No Brasil, a reputação dela já era seguríssima quando iniciei o projeto. No Exterior, era preciso que ela fosse apresentada. E agora tenho a felicidade de dizer que estou editando uma nova série de traduções, por uma editora de Londres e outra de Nova York. Vamos relançar a obra completa da Clarice, porque nem todas as traduções anteriores em inglês são boas. Vejo isso como a outra metade do trabalho a que me dediquei com a biografia.

ZH – Além de coordenar o projeto, o senhor está responsável por alguma tradução?
Moser -
Por enquanto, não. Já traduzi muito a Clarice nos últimos anos. Como você sabe, em português, ela tem uma voz. A Clarice de um conto escrito aos 18 anos já é a mesma que escreveria A Hora da Estrela quando estava morrendo. Estou trabalhando com vários tradutores para que, numa reunião deles, possa-se criar uma voz única,unívoca, também em inglês.

Botton e o Caos Aéreo

08 de dezembro de 2010 1

Embora a pontualidade seja a alma do que compreendemos tipicamente com uma boa viagem, eu já torci muitas vezes para que meu avião se atrasasse: assim eu seria obrigado a passar mais um tempinho no aeroporto. Raramente falei desse desejo para outras pessoas, mas lá no fundo ansiava por um vazamento hidráulico no trem de pouso, uma tempestade no Golfo de Biscaia, uma cortina de névoa em Malpensa ou uma greve repentina na torre de controle de Málaga (famosa no ramo tanto por suas tensas relações trabalhistas quando por seu imparcial controle de boa parte do espaço aéreo do Mediterrâneo ocidental). Uma vez cheguei a desejar um atraso que fosse grande o suficiente para que me oferecessem um vale para refeições ou ainda, mais intensamente, uma noite paga pela companhia aérea em uma daquelas gigantescas caixas de lenços de papel feitas de concreto com janelas hermeticamente fechadas, corredores decorados com nostálgicas imagens de aviões a hélice e travesseiros de espuma aromatizados com um leve cheiro de querosene.

Trecho de Uma Semana no Aeroporto, de Alain de Botton (tradução de Maria Luiza Machado Jatobá. Rocco, 128 páginas, R$ 33,50), livro escrito depois de Botton receber um convite do aeroporto inglês Heathrow para passar uma semana nas dependências do lugar, com total liberdade para escrever o que quisesse baseado no que visse ou nas pessoas com quem conversasse.

Acho que se Botton viesse passar um tempo nos aeroportos brasileiros nos feriados de fim de ano curava essa paixonite por atrasos rapidinho…

A Outra Nação da Sereia

07 de dezembro de 2010 0

Livro ganhador do Prêmio Passo Fundo Zaffari Bourbon em 2007, o romance O Outro Pé da Sereia, do moçambicano Mia Couto, é uma narrativa complexa que se faz de travessias, de deslocamentos entre mundos (reais e metafísicos), separados pelo tempo ou pelo espaço. Duas jornadas se intercalam para compôr, como um estrado, o eixo estrutural do livro. A primeira é a da jovem Mwadia Malunga, que, no ano de 2002, ou seja, mais próximo do “presente” do leitor, viaja de Antigamente, o terreno ermo em vive com o marido, o pastor Zero Madzero, até Vila Longe, seu povoado de origem, de onde saiu primeiro para estudar em um colégio cristão no Zimbabwe e depois para viver com o marido nas solidões de Antigamente. A segunda travessia que forma o esqueleto da narrativa é a de um provincial dos jesuítas, Dom Gonçalo da Silveira, que, em 1560, a bordo do navio Nossa Senhora da Ajuda, viaja de Goa a Moçambique para, em companhia de seu subordinado Manuel Antunes, responsável pelos registros de viagem, escoltar uma imagem em tamanho natural de Nossa Senhora, esculpida em madeira. A imagem está sendo levada para o império africano do Monomotapa com o intuito de auxiliar na conversão do soberano do lugar ao cristianismo.

Entre essas duas viagens, enroscam-se outras, tributárias das primeiras, todas desembocando na África, tanto o mundo físico do passado (no caso de Dom Gonçalo) quanto o continente alegórico do presente, representado na figura de Mwadia, mulher sedutora, sábia, ousada, intrigante. Mwadia, cujo nome significa “canoa”, o transporte por excelência da África e de seus rios caudalosos, é o barco que um pouco à deriva conduz o olhar do leitor no interior da narrativa. Ela é uma peregrina em busca da verdade que não se importa de falsear um pouco transes místicos com dados buscados em antigos livros que ela e o marido encontraram à beira de um rio em uma mata sagrada. A mata que nos é apresentada logo no começo da narrativa, aonde ela e o marido vão para enterrar os restos de uma “estrela” encontrada pelo pastor Zero logo no início da história (na verdade um satélite espião caído no solo).

A representação que Mia Couto faz da África em seu livro é a de um ponto de confluências entre os dois níveis da narrativa, o cenário para o qual se dirigem personagens que representam, a seu modo, um microcosmo das relações do mundo que fala português, tanto no passado quanto no presente. Como Mwadia vai definir a determinada altura: “diversas viagens se cruzavam, a um só tempo, na velha casa”. Inclusive a narrativa do passado, representada na figura da Santa e nos escritos encontrados no baú – outrora  pertencente ao falecido Gonçalo da Silveira e no presente abandonado às margens do rio Zambeze.

Na trama que se passa no século 16, viajam a bordo do Nossa Senhora da Ajuda (o navio e sua viagem, simbolicamente, dominam a maior parte dessa linha narrativa) personagens de nacionalidades diversas, retratando a embarcação, bem como os portos do período, como a babel decorrente do comércio e do transporte marítimo. Estão no navio portugueses que assumem maior ou menor importância à medida que narrativa avança: os já citados Gonçalo da Silveira, Manuel Antunes e uma dama de nome Dona Filipa, que deixa Goa, onde passava por um tratamento de saúde, para ir ao encontro do marido, o comerciante Antônio Caiado, também português, residente no Monomotapa (registre-se para quem ficou curioso que o Monomotapa se estendia, nos séculos 15 e 16, ao longo dos territórios que hoje chamamos de Moçambique e Zimbábue). Há também o capitão da nau, homem violento e sem aptidão para o comando, nomeado por favores de um pistolão.

O navio é um ele próprio uma babel de nacionalidades. O “físico de bordo” (nosso popular médico) é um goês de nome Fernandes, que afoga no álcool o horror do que presencia durante as viagens – nas quais um terço da carga humana, leia-se os escravos no porão, não chegará viva ao destino. Mas é em um infeliz triângulo amoroso que reside o coração desse núcleo da trama, cujos vértices são o padre Manuel Antunes, o negro Nimi Nsundi e a indiana Dia Kumari, aia da nobre Dona Filipa. Nsundi, que os portugueses chamam de “cafre”, ou seja, um negro africano banto, não muçulmano, parece, à primeira vista, ser o tripulante do navio mais devotado à imagem da santa, mas ele não a vê como os sacerdotes europeus, e sim enxerga uma sereia presa naquele corpo de madeira. Será Nsundi o autor do mote que dá origem ao livro: ele serra um dos pés da imagem, e  é surpreendido antes de serrar o outro, gesto que, para ele, libertaria a sereia. Nsundi é originário do Reino do Congo (que na época englobava partes do que hoje corresponde a Angola, República do Congo e Gabão), e fora negociado como moeda de troca por mercadorias encomendadas por portugueses.

Nsundi primeiro desperta a antipatia, mais tarde a simpatia e por fim a paixão de Dia Kumari, a aia. Dia também é de Goa, mas da etnia indiana, e não dos descendentes de portugueses. Tanto Dia quanto o médico de bordo Fernandes refletem o status intermediário dos indianos na dicotomia colonial “português-africana”. A determinada altura do romance, Dia deplora a devoção de Nsundi à santa, para ele um tributo aos signos religiosos dos brancos. “Para a gente do porão, você também é branca“, responde ele. Branca para os escravos e escrava para os portugueses, Dia acaba por despertar a paixão de um homem para quem aquela viagem de navio não é apenas um deslocamento espacial, mas de identidade: o padre Manuel Antunes. Em crise de fé e horrorizado com o que testemunha no navio e na relação entre os portugueses e seus colonizados, Antunes tem certreza, à medida que se aproxima da África, que está se tornando negro.

A viagem provocará consequências que alcançarão a trama que se desenrola em 2002, apesar dos mais de 400 anos que separam as duas instâncias. Mwadia, a canoa, é responsável também por uma travessia, entre dois lugares de ressonância simbólica por demais óbvia: “Antigamente” e “Vila Longe”. O “Antigamente” que é o ponto de partida da jornada de Mwadia representa a ponte que a mulher ergue entre os vários elementos do romance: a África em que vive, o Exterior, o passado representado pelos papéis do baú de Dom Gonçalo. Também na trama contemporânea questões de identidade assumem papel central, refletindo o cenário do navio no passado, em sujeitos de variadas procedências geográficas se cruzavam no mar mas tentavam aferrar-se inutilmente à ideia que faziam de sua própria identidade. Dia era revoltada contra o domínio português que assassinou seu marido na terra natal. Gonçalo da Silveira é praticamente um fanático em sua missão europeia, civilizadora e catequizante. Nsundi carrega a terra das margens do Rio Congo como forma de viajar levando o país consigo. Também na história de 2002 veem-se tentativas infrutíferas de recuperar uma noção de identidade.

Um exemplo está nos dois recém-chegados a Vila Longe, dois personagens que aparecem no vilarejo quase ao mesmo tempo que Mwadia e que acrescentam duas novas nacionalidades ao caldo do romance: Benjamin e Rosie. Benjamin é um negro norte-americano que vai à África em busca de uma ancestralidade que ele só quer ter por lhe ter sido ensinada em sua formação nos Estados Unidos. Rosie é brasileira, casada com Benjamin. Ambos são integrantes de uma obscura organização de assistência internacional e se tornam a galinha dos ovos de ouro para a atrasada vila. Ao saber que os dois “estrangeiros” estão a caminho, um comerciante local de nome Casuarino propõe aos moradores da localidade que forjem um passado de escravidão que a vila nunca teve ou que já esqueceu, colocando a mão, assim, nos dólares dos visitantes. A África assumindo a visão que o chamado “mundo desenvolvido” tem do continente.

A diversidade do antigo mundo colonial português também é vista na família de Mwadia. Sua mãe é moçambicana, seu padrasto e a irmã deste são goeses. Os goeses repetem no presente seu status de ora deslocados, ora privilegiados que víamos no navio no passado (onde Dia era escrava mas não dormia no porão nem era tratada como cativa pelos portugueses). A única biblioteca de Vila Longe pertence ao indiano Jesuíno – embora quem mais a desfrute seja o barbeiro e ex-combatente pela independência de Moçambique Arcanjo Mistura. O já mencionado Casuarino, articulador das maquinações urdidas para depenar os crédulos afro-americanos (na verdade não tão crédulos quanto os outros supõem), também vem a ter ligações familiares com Mwadia: é seu tio.

Outros dois personagens centrais também refletem a ilusão do pertencimento. O verdadeiro pai de Mwadia era um oficial africano no exército português. Enquanto se considera aceito pelos colonizadores, é um ferrenho antinacionalista, até ser humilhado por ex-colegas e perceber que nunca será um dos portugueses. Já o marido de Mwadia, Zero, orgulha-se de pertencer a uma etnia de coragem e valentia mitológicas, os Achikundas, tribo de índole feroz e guerreira, mas essa afiliação, ironicamente, não parece serde muita valia, já que Zero é um homem supersticioso, sempre com medo quando defrontado com as ousadias de sua mulher.

Contudo, apesar de retratar a África como uma imensa passagem onde tribos e nacionalidades se encontram, Mia Couto desenha em seu romance o contrário do cosmopolitismo, que é a noção de alguém à contade em qualquer espaço. Os personagens de O Outro Pé da Sereia são antes “cosmoexilados”, viajantes perdidos na própria e impossível jornada.

Escritores de segundas chances

02 de dezembro de 2010 0

As estradas da Mongólia na realidade são pistas que o motorista tem que decifrar entre dezenas de outras, são marcas de pneus em campos de pedras, desertos e estepes. Marcas deixadas por pneus que, de tanto incidirem sobre o mesmo caminho, acabam criando uma pista. Muitas vezes, no deserto, por exemplo, não há nenhum ponto de referência além das trilhas deixadas pelos pneus de outros carros. Os motoristas insistem em segui-las, como quem toma o caminho seguro, tradicional. O bom motorista é aquele que sabe achar a sua pista no deserto. A boa pista. A repetição é a condição de sobrevivência. É essa também a cultura dos nômades. Apesar da aparência de deslocamento e de uma vida em movimento, fazem sempre os mesmos percursos, voltam sempre aos mesmos lugares, repetem sempre os mesmos hábitos. O apego à tradição só pode ser explicado como forma de sobrevivência em condições extremas. A idéia de ruptura não passa pela cabeça de ninguém. As estradas só se tornam estradas pela força do hábito. O caminho só existe pela tradição. É isso na realidade o que detém o nomadismo mongol, uma cultura em que não há criação, só repetição. Decidir-se por um caminho novo ou por um desvio é o mesmo que se extraviar. E, no deserto ou na neve, esse é um risco mortal. Daí a imobilidade dos costumes. Os dois motivos (losangos ou círculos entrelaçados) que sempre se repetem na decoração das portas, portões, móveis, tapetes etc., por toda a Mongólia, representam o infinito e o casamento, o que só confirma a obsessão por estabilidade e pela tradição numa sociedade que em aparência é completamente móvel, a ponto de não haver espaço para nenhum outro movimento.
Se àquela altura ele já tivesse decifrado outro trecho do diário do desaparecido, é possível que, sob influência da leitura, também passasse a ver as coisas sob outra ótica: Entre os nômades, o interessante não é o sistema e os costumes, que são sempre os mesmos, mas os indivíduos. A graça de visitar as iurtas é a surpresa do que se vai encontrar, a diversidade dos indivíduos que ali estão fazendo as mesmas coisas. O nomadismo em si não tem nenhuma graça. A mobilidade é só aparente, obedece a regras imutáveis e a um sistema e a uma estrutura fixos. São as pessoas. Talvez por causa da vida dura e isolada, sem surpresas ou novidades, as visitas em geral sejam tão bem-vindas. O nomadismo é uma estrutura regulada pela necessidade e pela sobrevivência nos seus fundamentos mais essenciais. Não há liberdade, pois não é possível escapar a essa regra (em última instância, poderia dizer isso de qualquer outra cultura). É uma vida regrada pelas necessidades básicas da natureza. Uma vida simples, reduzida ao essencial para a sobrevivência. O que conta são os indivíduos, quando não sobra mais nada.

Com a pilha de livros em meu criado-mudo aumentando na proporção inversa do tempo disponível para dedicar-me a eles, criei o péssimo costume de dar chance única a autores que desconheço. Um processo altamente propenso a falhas, mas que me permitia seguir com a falsa e reconfortante ideia de que eu não precisaria mais me preocupar com a leitura de outras obras de um escritor que não me agradara, afinal. O grande bug deste meu sistema, os leitores hão de concordar, é o seguinte: nem sempre o primeiro contato com um autor dá-se pelo seu trabalho mais palatável. Mais cedo ou mais tarde, ao descobrir meu equívoco em uma estreia, eu haveria de enfrentá-lo. Foi o que aconteceu semana passada, com Mongólia (Companhia das Letras, 2003, 187 p.), de Bernardo Carvalho.

Li Carvalho pela primeira vez em 2007, com O Sol se Põe em São Paulo (Companhia das Letras, 2007, 164 p.), livro em que, segundo resenhas da época, ele não somente explorava as características que o levaram à consagração pela crítica (Nove Noites, de 2002, levou o Prêmio Portugal Telecom) como conquistava, com propriedade, novos territórios. O fato é que a leitura não me marcou e continuei montanha de livros adiante. Até uma conversa com o comandante deste blog mudar tudo. Disse ele: “O Sol se Põe… talvez não seja um bom começo com Carvalho. Tenta Mongólia.” Assim, chegava ao fim meu sistema falho descrito no primeiro parágrafo.

A história começa no Rio de Janeiro, onde o narrador sem nome, um ex-embaixador brasileiro na China, toma conhecimento, pelo jornal, da morte de um ex-colega de trabalho, chamado apenas de Ocidental, com quem perdera o contato após o desligamento da função. Tanto quanto a morte, o que intriga o narrador são as memórias do último trabalho requisitado ao ex-colega: em uma missão extraoficial, o Ocidental fora enviado, contra a sua vontade, à Mongólia para encontrar o filho de um empresário brasileiro influente, perdido após uma expedição fotográfica pelo país. Somado ao impacto da notícia, aquele atrito mal resolvido, que acabara distanciando os dois, o impulsiona a buscar uma explicação à resistência do Ocidental em aceitar a missão na época. Guardados em um canto do apartamento, os diários da viagem (uma longa carta à mulher, no fim não enviada), que ele esquecera de devolver ao subordinado na volta ao Brasil, o guiarão às repostas.

Mongólia é uma road novel pelo país que dá nome ao livro, mas uma road novel sem asfalto por um território onde beleza e mistério se fundem (como é possível ler no trecho acima). Com riqueza de detalhes na descrição da paisagem (o autor percorreu, por mais de dois meses, cinco mil quilômetros no interior do país) e intercalando a narrativa entre três vozes —  a do Ocidental, por meio dos diários, a do fotógrafo perdido, em um diário dentro do diário, e a do ex-embaixador — Carvalho cria uma atmosfera tão labiríntica quanto torna-se a viagem. E como em um labirinto, chegar ao destino final – o paradeiro do desaparecido, no fim descoberto – torna-se quase fruto do acaso.

A resposta à pergunta do narrador – o que o Ocidental tenta me dizer com esta carta/diário supostamente endereçada à mulher no Brasil, mas claramente escrita a mim, que lhe enviei em uma expedição tão indesejada? – surge apenas no final, em um acaso ainda maior do que encontrar um desaparecido em um país sem estradas, habitado por nômades e guiado por um mongol em que pouco se confia. O artifício – resolver em poucas linhas o que afinal motivou tudo aquilo – não tira a força do romance, que repousa nas descrições do diário. O que Mongólia propõe é a viagem por um país tão estranho e fascinante aos olhos dos ocidentais a ponto de transformá-los pelos mistérios de seu povo e de sua religião.

O próximo

Antes de voltar a O Sol se Põe em São Paulo, lerei Nove Noites. Depois de Mongólia, me obrigo a conhecer a obra de Carvalho. E também a criar uma nova classificação para minha infindável lista de livros: a dos autores que merecem segunda chance. Simples, mas necessário.

* Texto de Lucca Rossi