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A poeta e a performance

10 de janeiro de 2011 1

Telma Scherer. Foto de Adriana Franciosi/ZH

 

Acompanho mais de perto o trabalho de Telma Scherer desde 2008, quando ela veio à redação de ZH com um exemplar de Rumor da Casa, seu segundo livro, uma coletânea de poemas que havia sido lançada naquele ano e que fora gestada ao longo de de seis anos de performances artísticas e poéticas em lugares
variados (livrarias, bares, bibliotecas, comunidades carentes), nas quais Telma se deixava contaminar pela interação com o público, uma conexão circular que mais tarde voltava aos poemas, retrabalhados até a forma final apresentada no livro. O resultado eram versos que trabalhavam com oposições entre silêncio e rumor, entre carne e espírito, solidão e erotismo, e tinham filiação assumida com Virginia Woolf, Ana Cristina César e Clarice Lispector. A “casa” do título também faz referência ao feminino, recuperando em epígrafe versos de João Cabral de Melo Neto que já faziam essa comparação entre a sedução feminina e a sedução da casa, moradia e abrigo. Há também uma conexão com “casa da família”, com poemas que fazem referência direta a uma vó que narra histórias enquanto tece seu crochê. A performance artística e seus elos entre o poema, as artes plásticas e as artes dramatúrgicas estava já há tempos no centro do trabalho da autora – que fala um pouco mais sobre seu trabalho nesta entrevista concedida ao blog em maio do ano passado.

Durante a Feira do Livro do ano passado, acompanhei como repórter a performance que Telma apresentava na área central da Praça da Alfândega para falar sobre a figura do artista no sistema literário atual.  Depois de não conseguir nem pagar o apartamento em que morava em Porto Alegre, obrigando-a a se mudar para Florianópolis, nem concluir o livro no qual trabalhava, um romance que seria a reescritura de Clarissa, de Erico Verissimo, Telma apresentou-se aos transeuntes da Feira amarrada a uma casa de cachorro repleta de contas em seu nome. A performance em um primeiro momento pareceu incomodar, os responsáveis pela segurança da Feira se aproximaram e pediram que ela se retirasse, mas nenhuma iniciativa mais dura foi tomada e a performance se encerrou após quase uma hora em que Telma declamou poemas, falou com o público, apresentou as contas em seu nome como cartões de visitas. Voltei para a redação e redigi uma nota sobre o evento. Só quando já saía da redação fiquei sabendo que a performance seguinte de Telma, que seria realizada meia hora depois em um dos corredores da Feira, ao lado da banca da editora com que Telma estava acertada para publicação de seu próximo livro, terminou com a Brigada Militar recolhendo a poeta para o posto da BM que fica ali próximo ao Mercado Público (para quem conhece Porto Alegre). Vocês podem ver as imagens da detenção no vídeo incorporado abaixo:

Como se pode imaginar, a falta de tato com que o assunto foi conduzido repercutiu nacionalmente: a detenção de uma poeta que se apresentava em uma praça em que ocorria uma feira de livro (e apesar da Câmara do Livro ter se manifestado em um tom no qual se eximia da responsabilidade por haver chamado a BM, é bastante clara no vídeo a presença de integrantes da equipe de apoio da Feira que não apenas acompanham a ação sem dizer nada como tomam o partido da BM quando ela é levada). Depois desse episódio, acertei durante algum tempo com Telma, que já havia voltado para Santa Catarina, uma entrevista por e-mail no qual ela avaliaria o episódio depois de passado algum tempo –  a entrevista finalmente se desenrolou depois de alguns atrasos da parte dela e da minha em fazer o papo acontecer. Uma versão editada foi publicada hoje no Segundo Caderno, e compartilho com vocês agora a íntegra da entrevista.

Zero Hora – Passado algum tempo, qual a sua avaliação do episódio de sua detenção na Feira?
Telma Scherer  –
Passou o choque, ficou a memória. A memória nem sempre é passiva e geralmente está grávida de outros acontecimentos. A vida gerou sofrimentos, o sofrimento gerou textos. Depois da performance, pude acompanhar um pouco dos desdobramentos, de longe, observando as reações que ela gerou na sociedade. Passei, portanto, de falante a ouvinte a fim de acompanhar a repercussão, que não cabe a mim controlar, desejar ou julgar. Meu papel, como artista, foi realizado durante a elaboração da performance e na sua execução. O que veio depois é outra coisa. Penso que não é da minha alçada avaliar o acontecimento, já que estou muito envolvida nele e, por isso, não me é possível fazê-lo de forma imparcial ou desinteressada, o que seria de se exigir de uma “avaliação”. Posso falar dos meus sentimentos, idéias e opiniões do ponto de vista da poeta e performer, sem retirar ou despir da minha voz essas marcas características. Escrevi bastante a respeito do que aconteceu no blog: www.telmascherer.blogspot.com.
Os acontecimentos foram divulgados pela imprensa, pessoas que estiveram presentes filmaram e postaram cenas no youtube. De posse das informações, cabe a quem se interesse pelo caso fazer a sua avaliação. Minha performance não teve a intenção de criticar nenhuma pessoa ou instituição em particular, e sim a de propor reflexões sobre o sistema literário. Fico contente com as reflexões geradas. Algumas são brilhantes. Nenhuma instituição controla esse sistema, que é complexo e formado por muitos e variados atores. Um deles, o que é geralmente o menos privilegiado, é o escritor. É do ponto de vista deste que estou falando. Senti um apoio e uma solidariedade muito fortes da parte dos escritores, e também do público leitor. Pude perceber, de imediato, uma recepção interessada e sensível da parte do público que estava presente no momento da performance. As pessoas se manifestaram prontamente, seja me abraçando, elogiando, fazendo perguntas, declarando que haviam se identificado. Algumas falaram seus poemas ou pediram que eu apresentasse os meus versos a elas. Isso demonstra o interesse dos leitores pela poesia e a simpatia que eles têm em relação a ela. Também percebi que na era dos reality shows e das revistas de fofoca, da supervalorização do ter sobre o ser, da redução das pessoas ao seu poder de compra, e da baixeza estética vigente, criar e executar uma performance em praça pública é algo visto como um ato de coragem. Não calculei quantas vezes ouvi e li essa palavra nas últimas semanas, porém de todos os emails recebidos e textos lidos sobre o assunto, ela é a que mais se repetiu, até agora. Saída da voz de professores, de comunistas, de escritores ou de um padre. Dizem que fui protagonista de ato de “coragem”. Isso me preocupa. Há trabalhos muito mais radicais do que o meu, na história ou na arte contemporânea. Nenhum artista deveria precisar de “coragem” para fazer uma intervenção na praça, ainda que polêmica ou mordaz. Não era meu objetivo questionar a liberdade de expressão, mas é para este ponto que se direcionam muitos dos comentários.

Telma durante a perfomance. Foto: Jefferson Bottega/ZH

 

ZH – Você se apresentou amarrada a uma casinha de cachorro recheada de contas em seu próprio nome. Qual era o objetivo da performance?
Telma –
Os objetivos da performance foram anunciados previamente no release da atividade, que publiquei em meu blog dias antes. O release contém uma descrição da performance e os motivos de sua realização, e foi gentilmente divulgado em sites como o Artistas Gaúchos, circulando antes por email: www.telmascherer.blogspot.com. Apresentei uma imagem poética formada por uma combinação de elementos, todos eles escolhidos com vagar, após estudo e preparação. Como imagem poética, a minha performance é radicalmente plurissignificativa e não tenho qualquer controle sobre a recepção e reação, que são sempre livres. Do ponto de vista da intenção criadora, meu objetivo era o de proporcionar aos espectadores a visão de uma cena forte e inquietante, que convidasse-os à reflexão. A intenção da escolha dos elementos foi a de trazer à tona aspectos do processo criativo dos escritores que ficam geralmente à margem, desvanecidos e ocultados pela finalização desse processo e o conseqüente oferecimento (à compra e venda) de um produto, o livro. Quis mostrar o quanto existe de vida real, sofrimento e danação por trás da feitura dos “objetos transcendentes” (como canta o Caetano). Uma gota de sangue em cada página? Muito mais. Penso em Fernando Pessoa escrevendo cartas para pedir dinheiro aos amigos, em Qorpo-Santo gritando “Rebanho!” da sua janela na Praça da Alfândega, em Quintana cambaleando pelas esquinas depois de algumas doses. Penso no “intelectual do ânus“, como se audodenominou Roberto Piva, que morreu entre pedidos de doação. Nada disso parece assunto polêmico, e pouco disso chegará para o grande público, e o mercado do livro poderá utilizar esses incidentes como motivos para o seu lucro. Os escritores aparecem sorrindo nas capas das revistas bacanas, entre prêmios e contratos para filmagem dos seus grandes sucessos. Vivemos, hoje, a Ditadura da Felicidade - e os escritores são aqueles que tem de chafurdar o lodo dos homens, conhecê-los por dentro para manipular as personagens, viver o escuro da existência para proferir um estado humano, humano. Escritores são malabaristas de sentimentos, eles equilibram no ar todo tédio e toda ruína, o êxtase e a loucura – porque, enfim, o cidadão comum, quando procura um livro, quer vivenciar através dele tudo o que não lhe é possível na vida comezinha de todo dia. Emoções: nosso material de trabalho. E é a partir das minhas experiências pessoais que eu crio meus poemas e minhas performances. Misturando aspectos de literalidade (para dar consistência de realismo e comunicabilidade com o cidadão comum) a aspectos de irrealidade, fantasia, complexidade lógica e absurdo. Absurdo, sim. Sem o que os russos chamaram de “estranhamento” nenhuma literatura tem graça, e sou muito influenciada pelo chamado “teatro do absurdo” (nomenclatura que nem tem muita pertinência, mas procura abarcar uma estética em que a quebra com a racionalidade linear pode causar impactos. Por exemplo: um homem amarrado a uma coleira). Esperando Godot é uma referência direta para a minha performance – na qual vivenciei, como Lucky de Beckett, a experiência de estar acorrentada, tolhida, humilhada, sub-humanizada. Lucky, na peça, foi o senhor do senhor que hoje lhe escraviza, porém vive amarrado a uma corda que o enorme Pozzo segura e comanda. Pozzo declara, no segundo e último ato, que aprendeu tudo o que sabe com Lucky. Eu às vezes me considero uma sortuda.
Essa performance surgiu, como idéia, há meses, quando eu encaixotava todas as minhas coisas a fim de deixar o apartamento onde residi nos últimos quatro anos. Com três meses de aluguel não pagos, muitas dívidas, alguns trabalhos agendados, um filme e um romance em fase de finalização, eu fazia uma triagem em minha morada, procurando selecionar o que seria vendido, o que seria doado, o que seria guardado na casa de meus pais. Quando deparei com aquele conjunto de papéis inúteis – boletos bancários, avisos de cobrança, cartas do SPC e Serasa – comecei a formular uma idéia que se transformaria posteriormente na performance. A idéia foi maturada em esboços consecutivos, estudei várias possibilidades e conversei com outros performers. Assim como o compositor faz um samba para se aliviar, ou o autor sente a necessidade de escrever porque um poema ou um conto assim o obrigam (Cortázar o declarou muitas vezes), um poeta-performer também tem, às vezes, o seu chamado imperioso e inegável. Senti a necessidade de criar e realizar essa performance, cuja temática dialoga com a vida cotidiana de milhões de pessoas e, penso, tem um caráter urgente. A partir de elementos da minha própria vida e dos recentes acontecimentos, com meu nome e meu corpo em cena.

ZH — Você já sabe quem chamou a BM para interromper a apresentação?
Telma —
Não.

ZH — Depois da sua detenção houve comentários de que o real motivo teria sido a presença, durante a performance, de uma garrafa de bebida alcoólica que você estaria oferecendo ao público. O que você tem a dizer sobre isso?
Telma —
Não alimente o escritor” ofereceu, como imagem poética complexa, uma gama de signos misturados, colocados em cena a partir de uma escolha refletida e intencional e, nesse sentido, houve um motivo artístico para a escolha de tudo o que estava em cena. O critério de escolha dos elementos foi o poder de criarem, enquanto signo e em conjunto, uma cena forte, impactante, capaz de gerar questionamentos. Para falar aos transeuntes, chocá-los e provocá-los, foi preciso utilizar de contundência, não apenas beleza; escândalo, e não só suavidade.
Havia um conjunto extenso de elementos:
1. os objetos (cobertor vermelho, casa de cachorro, coleira, corrente, contas e boletos bancários em meu nome, placa com a frase “Não alimente o escritor”, copo e garrafa de rum barato com as palavras “Carta Branca“, espelho de mão, bolhas de sabão, caleidoscópio, pote de comida recheado de comprovantes de banco, bloco de anotações com leão na capa, borracha de dez centímetros com frase grafada: “Para grandes erros, BORRACHINHA de Itu“, e lousa a giz com as informações da obra: “Telma Scherer – performance – 2010“);
2. meu corpo em cena (vestido preto retrô com colar preto, maquiagem com olheiras, meu aspecto físico: olhos, cabelos, altura, idade, tom de voz, etc.);
3. minha atuação (minhas expressões faciais e vocais, a manipulação dos objetos, a  interação com o público e as conseqüências delas em meu corpo, como é típico da arte da performance).
A interpretação que isola a bebida alcoólica dos outros elementos e julga o todo pela parte é, no mínimo, redutora. O público não estava incomodado, pelo contrário; ele exigiu que eu continuasse, não se distanciou de mim mesmo com a presença dos policiais e me defendeu sem que eu pedisse. Dizer que o público estava incomodado por causa da presença de bebida alcoólica é fingir que os outros elementos não estavam lá e que mais nada estava acontecendo. Se alguém interpreta a minha performance desse modo, não interpreta a minha performance. Lembro de Barthes em Mitologias. Tomar o signo por um de seus significantes é a forma mais fácil de impor a ele outros significados, exteriores, que geralmente são impostos por critérios extra-linguísticos (ideológicos ou políticos). Por que reduzir uma performance cheia de signos contundentes a uma garrafa de rum? Se se enuncia: “uma escritora alcoolizada” já temos, no mínimo, dois elementos para tecer uma reflexão. Pode-se pensar o “alcoolizada” juntamente a “uma escritora“, e quem sabe a partir disso tecer juízos que tragam à tona a história da escrita e suas relações com o alcoolismo (desde os primórdios da arte performática, com os rituais a Dionísio, a bebida esteve relacionada aos processos criativos, até o exemplo mais próximo a nós das anedotas sobre a embriaguez freqüente de Mario Quintana). Quando se diz uma dessas coisas em separado, de forma isolada, é muito diferente. Por que ignorar os outros elementos, qual a intenção por trás de uma fala que deixa no silêncio justo os elementos que poderiam evidenciar diretamente a temática crítica, os questionamentos? Que tipo de intenção está por trás de uma interpretação como essa e em qual contexto ela se insere? Há várias versões para o “real motivo” do que aconteceu. Eu estaria “prejudicando as vendas”, “atrapalhando a feira”, “obstruindo a passagem”, “oferecendo bebida alcoólica” e, até mesmo, “gritando muito”. Mesmo os policiais que me abordaram deram informações díspares a respeito do que estava acontecendo. O fato é que não houve prisão, não fui fichada, não foi registrada queixa contra mim e o próprio Capitão Fernandes, que me recebeu na delegacia, assegurou-me de que eu não estava cometendo nenhum crime.

ZH — Como você avalia a atuação da Câmara Rio-Grandense do Livro no episódio?
Telma —
Prefiro não fazer qualquer avaliação, e deixo como sugestão a leitura da nota que a Câmara do Livro lançou sobre o acontecimento, publicada junto da matéria de ZH, do dia 13 de novembro. Informo apenas que meu nome figurou na programação do evento desde o ano de 2001, quando apresentei a minha primeira performance, “Pôiesis-Desconjunto“. Desde lá, tive muitas ocasiões de contato com a Feira que, embora negociasse valores, nunca rejeitou minhas propostas de atividades nem me excluiu de sua programação. Nas últimas edições, tive sempre variadas atividades: saraus, performances, oficinas. Na 55a, 2009, ministrei uma oficina de três dias no Centro Cultural CEEE, apresentei um recital na Tenda de Pasárgada e fiz três performances no Feira Fora da Feira (atividade da Câmara que leva o evento aos bairros da cidade). É um trabalho que demanda muita energia do escritor, com público numeroso e heterogêneo, espaços às vezes muito ruidosos e dificuldades estruturais inerentes a um grande evento. Este ano, não enviei propostas, mas estive no Feira Fora da Feira, para três apresentações, a convite da própria Câmara, e com pagamento de cachê. Estranhei a abordagem da nota, na qual a Câmara não parece ciente da minha relação com a Feira. Procurei a produção do evento para conversar sobre isso, porém a conversa não me proporcionou o reconforto que eu imaginara.

ZH — A prisão de uma artista durante uma perfomance em praça pública gerou uma grande discussão no Estado e fora dele. Pela discussão, valeu o episódio?
Telma —
A minha performance surtiu muitos efeitos. O primeiro foi o encanto do público, que esteve ao meu lado, interagindo, pensando, identificando-se, perguntando, emocionando-se com a performance. Esse, para mim, é o mais importante dos efeitos. O mais terrível foi o incidente daquela noite com a Brigada e a Câmara do Livro, um incidente indesejável que, em alguns momentos, eu gostaria muito de esquecer. Todas as manifestações de apoio foram muito importantes para mim, e vieram dos espaços mais próximos e mais longínquos, partindo de poetas, leitores, jornalistas, artistas, políticos (houve uma moção de solidariedade proposta pela vereadora Fernanda Melchionna e aprovada na Câmara de Vereadores)… Recebi emails de alguns dos criadores que mais admiro no país, e ainda não consegui responder a todos os contatos. A reação das pessoas se sobrepõe à minha vontade, extrapola a minha alçada; dela sou uma observadora curiosa e motivada, pois fico contente com as reflexões não apenas como artista mas como cidadã. Alguns dos textos publicados (tanto aqui quanto em São Paulo) destrincham o sistema literário de uma forma que considero pertinente e brilhante. Cada um que se manifesta sobre a performance e o incidente propõe uma nova visada e isso é muito bom. Instalou-se um debate, um debate que é urgente para muitos – ele tomou proporções coletivas e apenas utilizou o caso como motivação. Estou ciente de que raras vezes, quando falam sobre o ocorrido, estão falando realmente sobre a minha performance. Como escreveu Wilde no prefácio de um romance cuja temática o levaria à prisão: “A mais elevada, como a mais baixa, das formas de crítica é uma espécie de autobiografia“. Esse prefácio ainda vem ao caso. Se estão falando sobre o mundo, sobre as suas vidas, sobre os contextos onde lemos, escrevemos e procuramos sobreviver, isso é ótimo. Demonstra apenas que a arte ainda tem essa potência. Há um fluxo constante de relações entre o artista e seu meio (como propôs a curadoria da última Bienal, com os conceitos de grito e escuta). É nessa dialética, sim, que podemos criar. Farei outras performances, muitas, e pretendo continuar utilizando os espaços públicos. Espero que os artistas que assim o desejarem possam continuar celebrando a sua arte nos espaços públicos. É da natureza da arte e das pessoas. A minha performance foi a catalisadora de um grito inaudível a muitos que já se fazia soar. Ela foi uma condensadora de sentidos e uma disparadora de processos, e é justo por isso, justo por isso que havia um espelho em cena.


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