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Posts de janeiro 2011

O tricô e os bordados

20 de janeiro de 2011 1

Em volta do samovar cheio de chá (cozido, não fervido), um grupo de mulheres, livres dos homens que representam a repressão institucional que as obriga a usar véus, partilha as suas experiências no espinhoso território do casamento. E mostra que a vida a dois é uma obsessão humana seja no Ocidente, seja no Oriente. É uma tarde de chá como a descrita acima que sustenta a obra Bordados (Tradução de Paulo Werneck. Companhia das Letras, 136 páginas, R$ 35), mais recente livro da quadrinista iraniana Marjane Satrapi. Tornada famosa com a repercussão internacional de sua série Persépolis, sobre sua infância e juventude passadas no Irã dos Aiatolás (publicada na íntegra no Brasil pela mesma Companhia das Letras que edita Bordados e adaptada para o cinema em uma animação que concorreu ao Oscar), Marjane Satrapi ganhou a oportunidade, nem sempre disponível para autores de quadrinhos, de ter outras obras traduzidas no Brasil.

O que Bordados, bem como outra obra anterior, Frango com Ameixas, tem em comum com Persépolis é a matéria-prima: as histórias de Marjane são recolhidas na crônica de sua própria família. Embora aqui haja uma perceptível mudança de tema. O olhar abrangente e histórico de Persépolis dá lugar em Bordados a uma narrativa  íntima de uma única tarde na qual, após um almoço, as mulheres da família de Marjane, amigas e vizinhas, reúnem-se ao redor do samovar na sala e partilham histórias enquanto os homens fazem a sesta em outra parte da casa.

No contexto do livro, a palavra “bordados” ganha dupla significação. É a conversa informal e repleta de troca de informações entre as mulheres – algo semelhante ao “tricotar” da língua portuguesa. Mas também pode ser uma referência eufemística à cirurgia de reconstrução do hímen, tema recorrente das conversas retratadas por Marjane no livro – na cultura machista e religiosa do Irã, a virgindade da mulher pode significar a diferença entre um bom e um mau casamento. O grande achado de Marjane ao ordenar os depoimentos que narra em sua história é que, de acordo com as mulheres que se reúnem em volta do samovar, nada é garantia de nada para as mulheres iranianas, e a diferença entre um bom casamento e um mau é mais tênue do que parece numa sociedade que faz da repressão da mulher política de Estado.

Uma das mulheres conta a história de seu casamento com um vigarista que, apesar de aparente bom partido, rouba-lhe as joias, volta para o Exterior (em tese para buscá-la mais tarde) e de lá pede o divórcio – depois da noite de núpcias, claro, acrescentando infâmia à ofensa. Outra, casada por meio dos tradicionais arranjos à distância entre famílias, recebe os convidados, na festa de seu casamento, sentada não ao lado do noivo, mas de um retrato dele – ele está ocupado demais na Europa, onde vive, para ir até o Irã. Outra ainda conta como fugiu do noivo arranjado pela família, um homem quase meio século mais velho, para mais tarde unir-se a um dos exilados que escaparam do Irã durante o regime do Xá – e que, com a desculpa de reorganizar a resistência no exílio, a trai descaradamente.

O desfiar desse rosário de penas, contudo, não transforma o livro em uma tragédia lacrimosa ou em um melodrama de telefilme. Tanto Marjane quanto as mulheres que ela retrata em sua história são dotadas de um humor desabrido, corajoso, franco, tornado ainda mais leve e direto pela segurança com que as mulheres da casa falam umas com as outras sem a presença dos homens. A forma também é novidade para quem acompanha o trabalho da autora. Enquanto Frango com Ameixas e Persépolis eram quadrinhos com uma estrutura mais próxima do que o leitor de HQ se acostumou a esperar (quadros retos, texto dividido entre balões de fala e recordatórios, imagem e texto complementares), Bordados voa em outra direção, assemelhando-se, em certas passagens, a um livro ilustrado, no qual texto e ilustração se completam mas parecem ocupar campos de significação distintos. Algo que provoca estranheza se somado com o desenho intencionalmente simples, por vezes falho tecnicamente – alguns painéis lembram xilogravuras, outros, desenhos infantis.

Eles vêm para a Jornada de Passo Fundo

19 de janeiro de 2011 2

O circo das letras será armado em agosto; Foto: Tadeu Vilani, ZH, 2009


Será lançada amanhã, às 19h, no Teatro Bourbon Country, a programação oficial da 14ª edição da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, marcada para os dias 22 a 26 de agosto deste ano. Ao completar três décadas de existência, a Jornada traz novidades mas não deixa de aproveitar a ocasião para uma espécie de reunião informal de amigos. Alguns dos nomes internacionais já confirmados desta edição estiveram em edições anteriores da festa, como o pensador tunisiano Pierre Lévy e o argentino-canadende Alberto Manguel. Além disso, convidados nacionais com trânsito constante pela cidade voltam a dar as caras na Jornada, como Ziraldo, Maurício de Sousa e Elisa Lucinda.

O tema central da Jornada este ano será o cruzamento entre informação e leitura, e como a influência dos novos meios tecnológicos – incluindo esta internet na qual o leitor amigo aí está lendo este post – afeta a vida e a formação de novos e antigos leitores. A professora Tânia Rösing, coordenadora da Jornada, vai divulgar a programação completa amanhã às 19h em solenidade em Porto Alegre, mas algumas novidades já podem ser apontadas. A principal delas é a Jornight, uma programação especial voltada para o público jovem que terá espetáculos musicais e performances de teatro e artes visuais. Os principais nomes já confirmados no projeto – que vem se juntar à Jornadinha como uma expansão da Jornada em direção a novos públicos que não apenas o leitor adulto – são os músicos Humberto Gessinger e Duca Leindecker (ambos do projeto Pouca Vogal), a atriz e poetisa Elisa Lucinda, os cartunistas Chico e Paulo Caruso e os quadrinhistas Gabriel Ba e Fábio Moon.

Outra novidade é o aumento na premiação concedida ao vencedor do Prêmio Passo Fundo Zaffari Bourbon concedido ao melhor romance nacional, que receberá R$ 150 mil (até aqui o prêmio era de R$ 100 mil)

Confira abaixo uma prévia dos principais convidados da Jornada.

Gonçalo M. Tavares –  Autor português (angolano de nascimento) que vem sendo aclamado como um dos mais prolíficos e impactantes ficcionistas da nova literatura portuguesa.  É autor da tetralogia O Reino, composta dos romances Um Homem: Klaus Klump, Jerusalém, A Máquina de Joseph Walser e Aprender a Rezar na Era da Técnica (por Jerusalém ele ganhou o prêmio Portugal Telecom de 2007). Também já transitou pela poesia, com vários livros publicados, e é autor da série híbrida O Bairro, com pequenos contos poéticos de personagens insólitos, como O Senhor Valéry e O Senhor Juarroz. Seu mais recente livro lançado no Brasil é uma reinvenção do épico de viagem: Viagem à Índia (Leya)

Alberto Manguel – Argentino naturalizado canadense, Manguel é um dos principais historiadores da leitura na atualidade. Seu livro mais conhecido no Brasil chama-se justamente Uma História da Leitura, mas ele também já publicou instigantes ensaios sobre a sempre peculiar relação do leitor com a leitura e o livro como objeto de desejo (tais como A Biblioteca à Noite). Também organizou antologias elogiadas. Já veio à Jornada de Passo Fundo em 2001. Seus livros mais recentes publicados no Brasil são Os Livros e os Dias, um diário de leituras realizadas ao longo de um ano, e a ficção Todos os Homens são Mentirosos.

Beatriz Sarlo – Ex-professora da Universidade de Buenos Aires, é uma das principais críticas literária em atividade no país vizinho,  bem como uma das grandes analistas da cultura contemporânea em atividade na América Latina. Foi fundadora revista Punto de Vista em pleno 1978 da ditadura militar e tem uma obra extensa dedicada a pensar a cultura literária. Seus principais livros publicados no Brasil são Tempo Presente e Tempo Passado. E seu último volume lançado por aqui foi Borges: um Escritor na Periferia. Ela era uma das convidadas confirmadas para a Jornada de 2009, mas não pôde vir devido à mudança de data do evento em decorrência do surto de Gripe A.

Pierre Lévy Tunisiano radicado na França, é um dos principais intelectuais a pensar o impacto das novas tecnologias na sociedade. Provavelmente seu livro mais conhecido no Brasil é As Tecnologias da Inteligência, de 1992. Sua obra de publicação mais recente é O Futuro da Internet: Em direção a uma ciberdemocracia planetária. Lévy também era um dos convidados que viriam para a Jornada 2009 mas que não puderam comparecer ao evento devido à alteração da data. Ele veio para uma palestra isolada e agora participará da Jornada de fato.

Anne-Marie e Roger Chartier casal de historiadores franceses. Ela, dedicada à história da Edudação e pesquisadora do Serviço de História da Educação do Instituto Nacional de Pesquisa Pedagógica, em Paris. Ele, um dos expoentes da Escola dos Annales franceses.

Entre os destaques nacionais confirmados, a Jornada receberá um respeitável time de quadrinistas, como o criador da turma da Mônica Mauricio de Sousa,o pai do Pererê, Ziraldo, e os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá. Da literatura nacional, destaque para Tatiana Salém-Levy, autora de A Chave de Casa, e o músico e romancista Tony Bellotto, além de Edney Silvestre, autor de Se eu Fechar Meus Olhos Agora, um dos livros mais comentados de 2010, tanto por haver vencido o Prêmio São Paulo como por ter sido um dos pivôs da polêmica envolvendo o Jabuti e o romance de Chico Buarque Leite Derramado, escolhido Livro do Ano mesmo sem ter vencido a categoria Melhor Romance – concedida ao livro de Silvestre.

A poeta e a performance

10 de janeiro de 2011 1

Telma Scherer. Foto de Adriana Franciosi/ZH

 

Acompanho mais de perto o trabalho de Telma Scherer desde 2008, quando ela veio à redação de ZH com um exemplar de Rumor da Casa, seu segundo livro, uma coletânea de poemas que havia sido lançada naquele ano e que fora gestada ao longo de de seis anos de performances artísticas e poéticas em lugares
variados (livrarias, bares, bibliotecas, comunidades carentes), nas quais Telma se deixava contaminar pela interação com o público, uma conexão circular que mais tarde voltava aos poemas, retrabalhados até a forma final apresentada no livro. O resultado eram versos que trabalhavam com oposições entre silêncio e rumor, entre carne e espírito, solidão e erotismo, e tinham filiação assumida com Virginia Woolf, Ana Cristina César e Clarice Lispector. A “casa” do título também faz referência ao feminino, recuperando em epígrafe versos de João Cabral de Melo Neto que já faziam essa comparação entre a sedução feminina e a sedução da casa, moradia e abrigo. Há também uma conexão com “casa da família”, com poemas que fazem referência direta a uma vó que narra histórias enquanto tece seu crochê. A performance artística e seus elos entre o poema, as artes plásticas e as artes dramatúrgicas estava já há tempos no centro do trabalho da autora – que fala um pouco mais sobre seu trabalho nesta entrevista concedida ao blog em maio do ano passado.

Durante a Feira do Livro do ano passado, acompanhei como repórter a performance que Telma apresentava na área central da Praça da Alfândega para falar sobre a figura do artista no sistema literário atual.  Depois de não conseguir nem pagar o apartamento em que morava em Porto Alegre, obrigando-a a se mudar para Florianópolis, nem concluir o livro no qual trabalhava, um romance que seria a reescritura de Clarissa, de Erico Verissimo, Telma apresentou-se aos transeuntes da Feira amarrada a uma casa de cachorro repleta de contas em seu nome. A performance em um primeiro momento pareceu incomodar, os responsáveis pela segurança da Feira se aproximaram e pediram que ela se retirasse, mas nenhuma iniciativa mais dura foi tomada e a performance se encerrou após quase uma hora em que Telma declamou poemas, falou com o público, apresentou as contas em seu nome como cartões de visitas. Voltei para a redação e redigi uma nota sobre o evento. Só quando já saía da redação fiquei sabendo que a performance seguinte de Telma, que seria realizada meia hora depois em um dos corredores da Feira, ao lado da banca da editora com que Telma estava acertada para publicação de seu próximo livro, terminou com a Brigada Militar recolhendo a poeta para o posto da BM que fica ali próximo ao Mercado Público (para quem conhece Porto Alegre). Vocês podem ver as imagens da detenção no vídeo incorporado abaixo:

Como se pode imaginar, a falta de tato com que o assunto foi conduzido repercutiu nacionalmente: a detenção de uma poeta que se apresentava em uma praça em que ocorria uma feira de livro (e apesar da Câmara do Livro ter se manifestado em um tom no qual se eximia da responsabilidade por haver chamado a BM, é bastante clara no vídeo a presença de integrantes da equipe de apoio da Feira que não apenas acompanham a ação sem dizer nada como tomam o partido da BM quando ela é levada). Depois desse episódio, acertei durante algum tempo com Telma, que já havia voltado para Santa Catarina, uma entrevista por e-mail no qual ela avaliaria o episódio depois de passado algum tempo –  a entrevista finalmente se desenrolou depois de alguns atrasos da parte dela e da minha em fazer o papo acontecer. Uma versão editada foi publicada hoje no Segundo Caderno, e compartilho com vocês agora a íntegra da entrevista.

Zero Hora – Passado algum tempo, qual a sua avaliação do episódio de sua detenção na Feira?
Telma Scherer  –
Passou o choque, ficou a memória. A memória nem sempre é passiva e geralmente está grávida de outros acontecimentos. A vida gerou sofrimentos, o sofrimento gerou textos. Depois da performance, pude acompanhar um pouco dos desdobramentos, de longe, observando as reações que ela gerou na sociedade. Passei, portanto, de falante a ouvinte a fim de acompanhar a repercussão, que não cabe a mim controlar, desejar ou julgar. Meu papel, como artista, foi realizado durante a elaboração da performance e na sua execução. O que veio depois é outra coisa. Penso que não é da minha alçada avaliar o acontecimento, já que estou muito envolvida nele e, por isso, não me é possível fazê-lo de forma imparcial ou desinteressada, o que seria de se exigir de uma “avaliação”. Posso falar dos meus sentimentos, idéias e opiniões do ponto de vista da poeta e performer, sem retirar ou despir da minha voz essas marcas características. Escrevi bastante a respeito do que aconteceu no blog: www.telmascherer.blogspot.com.
Os acontecimentos foram divulgados pela imprensa, pessoas que estiveram presentes filmaram e postaram cenas no youtube. De posse das informações, cabe a quem se interesse pelo caso fazer a sua avaliação. Minha performance não teve a intenção de criticar nenhuma pessoa ou instituição em particular, e sim a de propor reflexões sobre o sistema literário. Fico contente com as reflexões geradas. Algumas são brilhantes. Nenhuma instituição controla esse sistema, que é complexo e formado por muitos e variados atores. Um deles, o que é geralmente o menos privilegiado, é o escritor. É do ponto de vista deste que estou falando. Senti um apoio e uma solidariedade muito fortes da parte dos escritores, e também do público leitor. Pude perceber, de imediato, uma recepção interessada e sensível da parte do público que estava presente no momento da performance. As pessoas se manifestaram prontamente, seja me abraçando, elogiando, fazendo perguntas, declarando que haviam se identificado. Algumas falaram seus poemas ou pediram que eu apresentasse os meus versos a elas. Isso demonstra o interesse dos leitores pela poesia e a simpatia que eles têm em relação a ela. Também percebi que na era dos reality shows e das revistas de fofoca, da supervalorização do ter sobre o ser, da redução das pessoas ao seu poder de compra, e da baixeza estética vigente, criar e executar uma performance em praça pública é algo visto como um ato de coragem. Não calculei quantas vezes ouvi e li essa palavra nas últimas semanas, porém de todos os emails recebidos e textos lidos sobre o assunto, ela é a que mais se repetiu, até agora. Saída da voz de professores, de comunistas, de escritores ou de um padre. Dizem que fui protagonista de ato de “coragem”. Isso me preocupa. Há trabalhos muito mais radicais do que o meu, na história ou na arte contemporânea. Nenhum artista deveria precisar de “coragem” para fazer uma intervenção na praça, ainda que polêmica ou mordaz. Não era meu objetivo questionar a liberdade de expressão, mas é para este ponto que se direcionam muitos dos comentários.

Telma durante a perfomance. Foto: Jefferson Bottega/ZH

 

ZH – Você se apresentou amarrada a uma casinha de cachorro recheada de contas em seu próprio nome. Qual era o objetivo da performance?
Telma –
Os objetivos da performance foram anunciados previamente no release da atividade, que publiquei em meu blog dias antes. O release contém uma descrição da performance e os motivos de sua realização, e foi gentilmente divulgado em sites como o Artistas Gaúchos, circulando antes por email: www.telmascherer.blogspot.com. Apresentei uma imagem poética formada por uma combinação de elementos, todos eles escolhidos com vagar, após estudo e preparação. Como imagem poética, a minha performance é radicalmente plurissignificativa e não tenho qualquer controle sobre a recepção e reação, que são sempre livres. Do ponto de vista da intenção criadora, meu objetivo era o de proporcionar aos espectadores a visão de uma cena forte e inquietante, que convidasse-os à reflexão. A intenção da escolha dos elementos foi a de trazer à tona aspectos do processo criativo dos escritores que ficam geralmente à margem, desvanecidos e ocultados pela finalização desse processo e o conseqüente oferecimento (à compra e venda) de um produto, o livro. Quis mostrar o quanto existe de vida real, sofrimento e danação por trás da feitura dos “objetos transcendentes” (como canta o Caetano). Uma gota de sangue em cada página? Muito mais. Penso em Fernando Pessoa escrevendo cartas para pedir dinheiro aos amigos, em Qorpo-Santo gritando “Rebanho!” da sua janela na Praça da Alfândega, em Quintana cambaleando pelas esquinas depois de algumas doses. Penso no “intelectual do ânus“, como se audodenominou Roberto Piva, que morreu entre pedidos de doação. Nada disso parece assunto polêmico, e pouco disso chegará para o grande público, e o mercado do livro poderá utilizar esses incidentes como motivos para o seu lucro. Os escritores aparecem sorrindo nas capas das revistas bacanas, entre prêmios e contratos para filmagem dos seus grandes sucessos. Vivemos, hoje, a Ditadura da Felicidade - e os escritores são aqueles que tem de chafurdar o lodo dos homens, conhecê-los por dentro para manipular as personagens, viver o escuro da existência para proferir um estado humano, humano. Escritores são malabaristas de sentimentos, eles equilibram no ar todo tédio e toda ruína, o êxtase e a loucura – porque, enfim, o cidadão comum, quando procura um livro, quer vivenciar através dele tudo o que não lhe é possível na vida comezinha de todo dia. Emoções: nosso material de trabalho. E é a partir das minhas experiências pessoais que eu crio meus poemas e minhas performances. Misturando aspectos de literalidade (para dar consistência de realismo e comunicabilidade com o cidadão comum) a aspectos de irrealidade, fantasia, complexidade lógica e absurdo. Absurdo, sim. Sem o que os russos chamaram de “estranhamento” nenhuma literatura tem graça, e sou muito influenciada pelo chamado “teatro do absurdo” (nomenclatura que nem tem muita pertinência, mas procura abarcar uma estética em que a quebra com a racionalidade linear pode causar impactos. Por exemplo: um homem amarrado a uma coleira). Esperando Godot é uma referência direta para a minha performance – na qual vivenciei, como Lucky de Beckett, a experiência de estar acorrentada, tolhida, humilhada, sub-humanizada. Lucky, na peça, foi o senhor do senhor que hoje lhe escraviza, porém vive amarrado a uma corda que o enorme Pozzo segura e comanda. Pozzo declara, no segundo e último ato, que aprendeu tudo o que sabe com Lucky. Eu às vezes me considero uma sortuda.
Essa performance surgiu, como idéia, há meses, quando eu encaixotava todas as minhas coisas a fim de deixar o apartamento onde residi nos últimos quatro anos. Com três meses de aluguel não pagos, muitas dívidas, alguns trabalhos agendados, um filme e um romance em fase de finalização, eu fazia uma triagem em minha morada, procurando selecionar o que seria vendido, o que seria doado, o que seria guardado na casa de meus pais. Quando deparei com aquele conjunto de papéis inúteis – boletos bancários, avisos de cobrança, cartas do SPC e Serasa – comecei a formular uma idéia que se transformaria posteriormente na performance. A idéia foi maturada em esboços consecutivos, estudei várias possibilidades e conversei com outros performers. Assim como o compositor faz um samba para se aliviar, ou o autor sente a necessidade de escrever porque um poema ou um conto assim o obrigam (Cortázar o declarou muitas vezes), um poeta-performer também tem, às vezes, o seu chamado imperioso e inegável. Senti a necessidade de criar e realizar essa performance, cuja temática dialoga com a vida cotidiana de milhões de pessoas e, penso, tem um caráter urgente. A partir de elementos da minha própria vida e dos recentes acontecimentos, com meu nome e meu corpo em cena.

ZH — Você já sabe quem chamou a BM para interromper a apresentação?
Telma —
Não.

ZH — Depois da sua detenção houve comentários de que o real motivo teria sido a presença, durante a performance, de uma garrafa de bebida alcoólica que você estaria oferecendo ao público. O que você tem a dizer sobre isso?
Telma —
Não alimente o escritor” ofereceu, como imagem poética complexa, uma gama de signos misturados, colocados em cena a partir de uma escolha refletida e intencional e, nesse sentido, houve um motivo artístico para a escolha de tudo o que estava em cena. O critério de escolha dos elementos foi o poder de criarem, enquanto signo e em conjunto, uma cena forte, impactante, capaz de gerar questionamentos. Para falar aos transeuntes, chocá-los e provocá-los, foi preciso utilizar de contundência, não apenas beleza; escândalo, e não só suavidade.
Havia um conjunto extenso de elementos:
1. os objetos (cobertor vermelho, casa de cachorro, coleira, corrente, contas e boletos bancários em meu nome, placa com a frase “Não alimente o escritor”, copo e garrafa de rum barato com as palavras “Carta Branca“, espelho de mão, bolhas de sabão, caleidoscópio, pote de comida recheado de comprovantes de banco, bloco de anotações com leão na capa, borracha de dez centímetros com frase grafada: “Para grandes erros, BORRACHINHA de Itu“, e lousa a giz com as informações da obra: “Telma Scherer – performance – 2010“);
2. meu corpo em cena (vestido preto retrô com colar preto, maquiagem com olheiras, meu aspecto físico: olhos, cabelos, altura, idade, tom de voz, etc.);
3. minha atuação (minhas expressões faciais e vocais, a manipulação dos objetos, a  interação com o público e as conseqüências delas em meu corpo, como é típico da arte da performance).
A interpretação que isola a bebida alcoólica dos outros elementos e julga o todo pela parte é, no mínimo, redutora. O público não estava incomodado, pelo contrário; ele exigiu que eu continuasse, não se distanciou de mim mesmo com a presença dos policiais e me defendeu sem que eu pedisse. Dizer que o público estava incomodado por causa da presença de bebida alcoólica é fingir que os outros elementos não estavam lá e que mais nada estava acontecendo. Se alguém interpreta a minha performance desse modo, não interpreta a minha performance. Lembro de Barthes em Mitologias. Tomar o signo por um de seus significantes é a forma mais fácil de impor a ele outros significados, exteriores, que geralmente são impostos por critérios extra-linguísticos (ideológicos ou políticos). Por que reduzir uma performance cheia de signos contundentes a uma garrafa de rum? Se se enuncia: “uma escritora alcoolizada” já temos, no mínimo, dois elementos para tecer uma reflexão. Pode-se pensar o “alcoolizada” juntamente a “uma escritora“, e quem sabe a partir disso tecer juízos que tragam à tona a história da escrita e suas relações com o alcoolismo (desde os primórdios da arte performática, com os rituais a Dionísio, a bebida esteve relacionada aos processos criativos, até o exemplo mais próximo a nós das anedotas sobre a embriaguez freqüente de Mario Quintana). Quando se diz uma dessas coisas em separado, de forma isolada, é muito diferente. Por que ignorar os outros elementos, qual a intenção por trás de uma fala que deixa no silêncio justo os elementos que poderiam evidenciar diretamente a temática crítica, os questionamentos? Que tipo de intenção está por trás de uma interpretação como essa e em qual contexto ela se insere? Há várias versões para o “real motivo” do que aconteceu. Eu estaria “prejudicando as vendas”, “atrapalhando a feira”, “obstruindo a passagem”, “oferecendo bebida alcoólica” e, até mesmo, “gritando muito”. Mesmo os policiais que me abordaram deram informações díspares a respeito do que estava acontecendo. O fato é que não houve prisão, não fui fichada, não foi registrada queixa contra mim e o próprio Capitão Fernandes, que me recebeu na delegacia, assegurou-me de que eu não estava cometendo nenhum crime.

ZH — Como você avalia a atuação da Câmara Rio-Grandense do Livro no episódio?
Telma —
Prefiro não fazer qualquer avaliação, e deixo como sugestão a leitura da nota que a Câmara do Livro lançou sobre o acontecimento, publicada junto da matéria de ZH, do dia 13 de novembro. Informo apenas que meu nome figurou na programação do evento desde o ano de 2001, quando apresentei a minha primeira performance, “Pôiesis-Desconjunto“. Desde lá, tive muitas ocasiões de contato com a Feira que, embora negociasse valores, nunca rejeitou minhas propostas de atividades nem me excluiu de sua programação. Nas últimas edições, tive sempre variadas atividades: saraus, performances, oficinas. Na 55a, 2009, ministrei uma oficina de três dias no Centro Cultural CEEE, apresentei um recital na Tenda de Pasárgada e fiz três performances no Feira Fora da Feira (atividade da Câmara que leva o evento aos bairros da cidade). É um trabalho que demanda muita energia do escritor, com público numeroso e heterogêneo, espaços às vezes muito ruidosos e dificuldades estruturais inerentes a um grande evento. Este ano, não enviei propostas, mas estive no Feira Fora da Feira, para três apresentações, a convite da própria Câmara, e com pagamento de cachê. Estranhei a abordagem da nota, na qual a Câmara não parece ciente da minha relação com a Feira. Procurei a produção do evento para conversar sobre isso, porém a conversa não me proporcionou o reconforto que eu imaginara.

ZH — A prisão de uma artista durante uma perfomance em praça pública gerou uma grande discussão no Estado e fora dele. Pela discussão, valeu o episódio?
Telma —
A minha performance surtiu muitos efeitos. O primeiro foi o encanto do público, que esteve ao meu lado, interagindo, pensando, identificando-se, perguntando, emocionando-se com a performance. Esse, para mim, é o mais importante dos efeitos. O mais terrível foi o incidente daquela noite com a Brigada e a Câmara do Livro, um incidente indesejável que, em alguns momentos, eu gostaria muito de esquecer. Todas as manifestações de apoio foram muito importantes para mim, e vieram dos espaços mais próximos e mais longínquos, partindo de poetas, leitores, jornalistas, artistas, políticos (houve uma moção de solidariedade proposta pela vereadora Fernanda Melchionna e aprovada na Câmara de Vereadores)… Recebi emails de alguns dos criadores que mais admiro no país, e ainda não consegui responder a todos os contatos. A reação das pessoas se sobrepõe à minha vontade, extrapola a minha alçada; dela sou uma observadora curiosa e motivada, pois fico contente com as reflexões não apenas como artista mas como cidadã. Alguns dos textos publicados (tanto aqui quanto em São Paulo) destrincham o sistema literário de uma forma que considero pertinente e brilhante. Cada um que se manifesta sobre a performance e o incidente propõe uma nova visada e isso é muito bom. Instalou-se um debate, um debate que é urgente para muitos – ele tomou proporções coletivas e apenas utilizou o caso como motivação. Estou ciente de que raras vezes, quando falam sobre o ocorrido, estão falando realmente sobre a minha performance. Como escreveu Wilde no prefácio de um romance cuja temática o levaria à prisão: “A mais elevada, como a mais baixa, das formas de crítica é uma espécie de autobiografia“. Esse prefácio ainda vem ao caso. Se estão falando sobre o mundo, sobre as suas vidas, sobre os contextos onde lemos, escrevemos e procuramos sobreviver, isso é ótimo. Demonstra apenas que a arte ainda tem essa potência. Há um fluxo constante de relações entre o artista e seu meio (como propôs a curadoria da última Bienal, com os conceitos de grito e escuta). É nessa dialética, sim, que podemos criar. Farei outras performances, muitas, e pretendo continuar utilizando os espaços públicos. Espero que os artistas que assim o desejarem possam continuar celebrando a sua arte nos espaços públicos. É da natureza da arte e das pessoas. A minha performance foi a catalisadora de um grito inaudível a muitos que já se fazia soar. Ela foi uma condensadora de sentidos e uma disparadora de processos, e é justo por isso, justo por isso que havia um espelho em cena.


Dos fins que não se conhecem

05 de janeiro de 2011 0

Volta e meia não termino livros. Há sempre esse cansaço antes do fim, essa promiscuidade literária que me faz começar outros e outros e outros e sempre esquecer de terminá-los.

Crusoé deixou a ilha e eu senti falta de Sexta-Feira. A civilização pode ser tão chata todo e atual dia a dia quanto em entrelinhas passadas. É como a aventura que termina e deixa ressaca.

Ana Karênina trocou a aristocracia por um grande amor. No fundo há uma falácia. E ela pode ser contada por Tolstoi ou em Bianca-papel-jornal, não importa o propagador de ideias que, para uma cética, não fazem volume.

Antes de me convencer que, de toda a cegueira, a que mais incomoda é a de que se é volúvel… e frágil… e escatológico, fechei a falta de pontuação de um Saramago na página em que eu já também não marcava.

Esse cansaço antes do fim… essa falta de pontuação… as falácias. Volta e meia não me termino.

Texto de Maria Rita Horn

Literatura e fair-play

03 de janeiro de 2011 4

Para quem talvez não tenha sido informado (o que acho difícil) ou não estava nem aí (o que é possível, e então provavelmente estará nem aí agora também, portanto a leitura deste post parecerá dispensável), começo lembrando que a escritora Carol Bensimon (na foto acima) foi a vencedora da primeira edição do brioso gauchão de Literatura, com o volume de contos Pó de Parede. Durante seis meses, o Gauchão promoveu leituras e comparações entre livros de contos de autores gaúchos ou aqui radicados lançados entre 2008 e 2009, produzindo uma quantidade fantástica de material crítico sobre a produção recente da literatura do estado – toda ela ainda disponível online no site oficial do campeonato, aqui. Este seu blogueiro foi jurado da primeira partida e participou, com os juízes Marcelo Frizon, professor da UFRGS de literatura, e Luiz Gonzaga Lopes, jornalista do Correio do Povo, da grande final entre Pó de Parede, de Carol, e Veja se Você Responde a Essa Pergunta, de Alexandre Rodrigues.

A final foi realizada nos moldes de um sarau/encontro literário. Os três juízes se revezaram, no palco do StúdioClio, no último dia 28, para analisar, em voz alta para a plateia presente, os pontos fortes e fracos de cada um dos concorrentes e o que, na comparação entre um e outro, levaria à “vitória” metafórica no jogo literário (os juízes também entregaram, antes disso, textos analíticos mais elaborados, que foram carregados para o site do Gauchão, pintem lá). O fato é que, à medida que ouvia meus colegas falando sobre os livros, meu olhar em um determinado momento recaiu sobre os dois concorrentes, que estavam presentes e ocupavam poltronas nas últimas fileiras do auditório. E o que me chamou a atenção naquele momento foi o estoicismo com que ambos sentavam tranquilamente lá nos fundos do salão enquanto três sujeitos faziam avaliações ao vivo de seus livros e dos contos neles contidos, enquanto um trio de críticos, por menos professorais que tentassem se mostrar, dissertavam sobre suas obras oferecendo interpretações que muito provavelmente passavam bem longe das intenções dos autores. Sofriam, por assim dizer, ao vivo e em tempo real, essa experiência em carne viva da leitura de uma obra lançada ao público. E como fiz no momento de anunciar o placar do jogo, gostaria de, por aqui, elogiar o fair-play dos dois concorrentes e sua elegância em serem submetidos a uma sessão de leitura ao vivo.

Este post na verdade estava para ser escrito desde o dia da final, mas fui deixando até encontrar o pretexto ideal hoje, ao abrir minha caixa de e-mails. Como já foi noticiado em outras oportunidades, a inspiração para o Gauchão de Literatura foi a Copa de Literatura Brasilera, criada pelo jornalista Lucas Murtinhoe o site oficial da Copa, que andava em obras enquanto eram selecionados seus concorrentes e finalizados os sorteios das chaves, foi posto de volta ao ar hoje, anunciando as chaves, participantes e confrontos da edição 2010/2011. Carol Bensimon também estará no certame, com seu romance Sinuca Embaixo D’água – que deve concorrer também no Gauchão deste ano, dedicado a romances – que enfrenta, em seu primeiro jogo, Elza, a Garota, de Sérgio Rodrigues, jornalista, escritor e blogueiro do Todoprosa.

Ah, sim, uma última nota sobre isso: a matriz importou tecnologia da filial. A Copa de Literatura Brasileira deste ano terá como participante da organização a figura operosa da jornalista Luciana Thomé, coordenadora de logística que tornou possível a realização do Gauchão.