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Os livros que ganhei

01 de fevereiro de 2011 2

Li neste fim de semana Os Livros e os Dias, do crítico e historiador da leitura argentino (e cidadão canadense) Alberto Manguel, comprado durante a Feira do Livro do ano passado. Publicado em 2004 lá fora, o livro acompanha um ano de leituras (ou melhor, de releituras) de Manguel, entremeando aspectos da vida pessoal do autor com considerações e reflexões sobre os livros lidos, pautadas mais pela associação do que pela linearidade. Em outras palavras, é um livro no qual Manguel mistura um diário pessoal com um diário de leituras de um livro a cada mês durante um ano, de junho de 2002 a maio de 2003. As escolhas dos livros recaíram sobre obras que Manguel já havia lido e que de alguma forma faziam parte de seu patrimônio afetivo – e que estavam, portanto, de alguma forma associadas com memórias que pudessem ser evocadas no texto.

É do cruzamento entre os livros lidos, as lembranças de episódios no passado de alguma forma ligados aos mesmos livros e as circunstância em que a obra está sendo relida enquanto Manguel escreve que se forma a tessitura de Os Livros e os Dias – uma barafunda de reminiscências, acuradas investigações sobre a condição do leitor e a atividade da leitura, notas e digressões, insights valiosos sobre determinados livros que logo são abreviados devido ao caráter necessariamente fragmentário da forma “diário” escolhida pelo autor. A releitura de A Invenção de Morel, três décadas depois do primeiro contato com a obra, coincide com uma viagem de Manguel à Buenos Aires em que ele e Bioy Casares, autor do romance nasceram. E é inevitável que a visita à Argentina orgulhosa porém alquebrada pela crise econômica de 2001 desperte no crítico sensações semelhantes às da leitura de Morel, “o relato de um homem encalhado numa praia aparentemente habitada por fantasmas”.  A Ilha do Doutor Moreau, de Wells, desperta as lembranças do verão em que o livro foi lido pela primeira vez, quando Manguel tinha 12 anos, ao mesmo tempo em que sua releitura coincide com uma palestra que Manguel vai proferir em Londres. Instalado em um pequeno hotel no Soho, em um quarto que dá para uma rua “inacreditavelmente ruidosa”, Manguel não tarda, em influenciado pela leitura do livro, identificar um “aspecto animal” no ruído entra pela janela.

O que motivou a escrita deste post, contudo, foi o texto de Manguel sobre o romance Kim, de Rudyard Kipling. A determinado momento, Manguel comenta que tem vários exemplares diferentes de obras de Kipling, dois dos quais objetos de especial carinho: um exemplar de Sob os Cedros do Himalaia publicado na Índia em 1933 e um volume de bolso comprado por Jorge Luís Borges em 1925 e dado de presente a Manguel nos anos 1970 – a amizade de Manguel com Borges já foi narrada em um dos comoventes textos de No Bosque de Espelhos, outro belo livro de ensaios. Partindo do pretexto desse presente dado por Borges, Manguel afirma que “uma espécie de autobiografia poderia ser escrita seguindo os objetos que me foram dados por amigos.” e passa a listar uma página e meia de objetos presenteados – curiosamente, nenhum deles é um livro.

A sugestão de uma breve autobiografia formada por uma relação de ítens presenteados por amigos me provocou aquele tipo de impressão cálida que só as ideias lúdicas e vagamente inúteis proporcionam  até porque a leitura do livro de Manguel foi feita concomitante com a de outro livro, o volume de crônicas de viagem Psycho Too, escrito por Will Self, que ganhei de presente há algumas semanas de meu amigo hoje residente em Paris Gabriel Brust. Uma biografia dessa natureza fugiria um pouco de seu padrão, porque não seria exatamente uma autobiografia, e sim uma “autobiografia social” – isso Manguel não ventila em seu texto, mas arrisco dizer aqui que uma lista de livros recebidos de presente sempre diz tanto ou mais sobre quem presenteou do que sobre a pessoa que os recebeu. Foi ao percorrer minhas estantes para retirar de seus lugares os livros presenteados por pessoas próximas ou amigos (sim, sim, eu tenho amigos, e isso não deixa de ser algo que me surpreende tanto quanto a vocês) que confirmei um pouco dessa impressão. Outra impressão que tristemente confirmei é que à medida que fui ficando velho fui ganhando cada vez menos livros – já me explicaram que isso se deve ao fato de meus amigos nunca terem certeza se eu já tenho ou não um livro. Não contam nessa lista, claro, os livros que recebi de autores na qualidade de crítico literário.

* Meu amigo e ex-colega de Zero Hora, Gabriel Brust, professa uma visão de mundo crítica e vezes ácida. É um cínico, ainda que um cínico de coração mole. Em sua última passagem por Porto Alegre, para as festas de fim de ano, me presenteou com um exemplar em inglês do livro Psycho Too, do inglês Will Self, também ácido e cínico ele próprio. São mais de 50 textos, misto de ensaios e crônicas de viagem com ilustrações belíssimas de Ralph Steadyman.

* No Natal de 2000, minha amiga Adriana Irion, com quem trabalhei por anos na editoria de Polícia de Zero Hora e uma das melhores repórteres que conheço, me presentou, apropriadamente, com um livro-reportagem de fôlego: Corações Sujos, de Fernando Morais. Um gesto doce numa época particularmente difícil, pelo que sou grato a ela até hoje, de coração limpo. No meu aniversário de 1998, ela, leitora voraz de romances policiais, já havia me dado uma edição recente de Impressões e Provas, livro do escritor americano John Dunning, protagonizado por um ex-policial bibliófilo às voltas com um caso de mortes e supostos suicídios envolvendo uma edição rara e exclusiva de O Corvo, de Edgar Allan Poe. Embora eu seja um apreciador também de policiais desde a cada vez mais longínqua juventude, foi ela quem me apresentou o trabalho de Dunning, me emprestando alguns meses antes o primeiro livro do personagem lançado no Brasil: Edições Perigosas.

* Em 1994, uma então namorada, em início de relacionamento, e sabendo de minha predileção por Rubem Fonseca – a quem ela detestava por achar muito violento – ainda assim me deu os Contos Reunidos que a companhia estava editando com toda a produção contística do autor até ali, numa bela e sóbria edição de solene capa dura ornada apenas com o título e a reprodução da assinatura manuscrita do autor.  A dedicatória é tão sóbria como ela era. Dois anos mais tarde,em 1996, quando eu e ela já morávamos juntos, a minha então sogra me deu A Ilha do Dia Anterior, de Umberto Eco. Digamos que o relacionamento – que mais tarde acabou –, ao menos me deixou dois bons livros.

* Em 2007, meu irmão, pastor evangélico e personalidade política deveras conservadora, me deu de presente um romance gospel passado no tempo das perseguições de Nero aos cristãos…

* Em 2002, comprei os primeiros dois volumes da série de Élio Gaspari sobre a ditadura militar, As Ilusões Armadas. Fui completar a série com a ajuda posterior de minha senhoura, que, advogada e apaixonada estudiosa de períodos de exceção no Brasil e no mundo, presenteou-me com outros dois em 2006.

* Meu amigo historiador Paulo Alcaraz, hoje residente em Santa Catarina, depois de muitas noitadas em que discutimos em mesas de bar o Dicionário Filosófico, de Voltaire, certa vez, creio que em 2004, me presenteou com uma “raridade de família”. Um exemplar do Dicionário, em francês, brochura, capa das mais simples, apenas com a tipografia do nome do autor e da obra, editada pela Flammarion em 1932, num coleção de livros de bolso a baixo preço chamada Les Meilleurs Auteurs Classiques. De acordo com ele, pertenceu a um tio, se minha memória não me trai. Desnecessário dizer que ainda tenho o livro guardado com todo o cuidado.

Comentários (2)

  • Segundo Caderno » Arquivo » Os livros que ganhei diz: 2 de fevereiro de 2011

    [...] o post original no Mundo Livro: Os livros que ganhei Compartilhar/Salvar var a2a_config = a2a_config || {}; a2a_localize = { Share: "Compartilhar", [...]

  • livia diz: 17 de fevereiro de 2011

    Ahhhh quero ler esse livro! Estou lendo A cidade das palavras, do Manguel, uma delícia de ler! =)
    abs!

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