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Scliar e seus livros

27 de fevereiro de 2011 6

O tema deste post não costuma frequentar palestras universitárias para estudantes de jornalismo: o discurso prático da profissão muitas vezes se assenta sobre mitos de conduta pragmática, nos quais não sobra muito espaço para ocasionais abismos íntimos de humanidade. Mas bem ou mal, se você ficou tempo o bastante fazendo jornalismo, vai ter de enfrentar a morte. Não a própria, que todo mundo enfrenta, mas a de terceiros, separados assim em quatro categorias: pessoas públicas que você não conhece, pessoas anônimas que você não conhece, pessoas anônimas que você conhece, pessoas públicas que você conhece. A morte de anônimos é a pior no sentido prático, porque sua presença como repórter no velório de alguém que morreu num acidente ou vítima de violência mas não era uma pessoa famosa mostra que você está ali como repórter interessado na morte dessa pessoa, não em sua vida.

Com figuras famosas, que viveram uma existência pública, a situação é diferente. É um momento em que a imprensa acompanha não apenas o fecho de uma vida que transcorreu diante dos olhos do público, mas as próprias homenagens que serão prestadas à importância daquele personagem em sua área de atuação, por seu trabalho como artista, político, líder ou representante deste ou daquele segmento.

E tem, enfim, as pessoas famosas que você conhece. Nunca conheci muitas, ou ao menos muitas que tenham falecido, então não posso dizer que entendia qual era a reação pessoal do repórter ao deparar com essa situação. Não entendia até agora, e não sei dizer se ainda entendo.

Moacyr Scliar foi um escritor que, como muitos antes e muitos depois de mim, fui conhecer pelos livros bem antes de ter oportunidade de vê-lo ou falar com ele. Já havia lido seus textos no colégio (o primeiro deles foi o conto Pausa, incluído em um livro-texto de Literatura no primeiro ano do então 2º Grau). Já havia lido outras obras indicadas pelo colégio, como A Balada do Falso Messias. Já havia lido seus livros simplesmente porque eles estava ali na biblioteca da cidade, como Os Voluntários. Já havia, em suma, lido boa parte de sua obra precedente quando o vi pela primeira vez, de longe, sentado a uma mesa no café do térreo da Casa de Cultura, numa tarde amena de 1992 – não apostaria um pila nisso, mas sou capaz de arriscar que era setembro, eu recém havia mudado para Porto Alegre. Depois disso eu o vi em palestras da Feira do Livro, em debates abertos na UFRGS, em diversas situações para as quais volta e meia escritores são solicitados – e era fácil ver Scliar nessas ocasiões. Com a gentileza que ele sempre teve, mas que na época eu não sabia que ele tinha, ele sempre aceitava.

Anos se passaram, Scliar escreveu outros livros depois daquela tarde de 1992, muitos deles, algumas grandes obras como Sonhos Tropicais e A Mulher que Escreveu a Bíblia. Nesse meio tempo, eu me formei, comecei a trabalhar como jornalista e vim parar na redação da Zero Hora, primeiro como repórter de Geral. Scliar era um frequentador constante da editoria de Geral, onde também se faz o Caderno Vida para o qual ele era colunista. Pelos seus livros, Scliar sempre passou a impressão de ser um humanista gentil. Nem sempre essa impressão se confirma quando estamos diante do escritor de carne e osso – e nem é pra confirmar mesmo, a melhor vida de um escritor é nos livros. Mas em casos raros, o escritor em pessoa corresponde integralmente à impressão que se forma em sua leitura. Scliar era gentil, não negava conversa, era um narrador de causos, comentava pesquisas que havia lido sobre se era melhor tomar café solúvel ou em pó, passado, etc…

Fui parar depois no Segundo Caderno de Zero Hora e depois de algum tempo estava escrevendo sobre livros. E meu contato com Scliar aumentou. Viajado e muitísssimo bem-informado, nos retornos sempre  tinha uma palavra sobre algo que havia visto, lido, perguntava se tínhamos intenção de falar sobre algo nas próximas edições, senão ele mesmo poderia escrever.

Conheci bem Moacyr Scliar nesse tempo – não, não estou querendo dizer que era seu amigo, continuei chamando-o de “professor” sempre, uma reverência da qual nunca abri mão embora ele próprio me tratasse com muita informalidade. A questão é essa: Scliar era tão gentil e acessível que podia fazer alguém sentir-se próximo a ele. Era uma personalidade calorosa, sempre com uma palavra cordial e elegante. Dizem que a morte torna as pessoas melhores, e é verdade. Mas no caso de Scliar todas as manifestações que você está lendo aqui e em outros portais, e que você vai ler nos jornais de amanhã, são sinceras. Ele era o que seus livros eram: humanos, divertidos, argutos. No futuro, Scliar será lembrado muito como Erico é ainda hoje: alguém que parece não ter feito inimigos ao longo da vida. Talvez porque não tenha mesmo.

Estou saindo da redação em minutos para acompanhar como repórter as últimas homenagens a Scliar. Uma pessoa famosa que morreu e eu conhecia. E por isso sei agora que, como repórter da área e como algúem que privou de sua generosidade, o Rio Grande perdeu bastante.

Entre as homenagens prestadas a ele nesta tarde, uma delas, silenciosa, será minha.

Comentários (6)

  • ana diz: 27 de fevereiro de 2011

    belíssimo texto, carlos andré. sincero e delicado. bj

  • Segundo Caderno » Arquivo » Scliar e seus livros diz: 27 de fevereiro de 2011

    [...] o post original no Mundo Livro: Scliar e seus livros Compartilhar/Salvar var a2a_config = a2a_config || {}; a2a_localize = { Share: "Compartilhar", [...]

  • Luiz Paulo Faccioli diz: 27 de fevereiro de 2011

    Uma beleza de texto, meu amigo! Disseste tudo. Fiquei comovido.

  • Mariane diz: 27 de fevereiro de 2011

    Tive a oportunidade de fazer uma oficina literária com o professor, como você o chama, e fiquei com a mesma sensação. Permaneço com a doçura de seus olhos e a suavidade da voz. Mas acredito que todas as pessoas que tiveram a mesma oportunidade, não irão se referir de outra maneira. Parabéns pelo seu trabalho. um abraço, Mariane

  • Suzana Vargas diz: 28 de fevereiro de 2011

    Prezado André: sou gaúcha, de Alegrete,moradora no Rio há 38 anos, amiga e fã do Moacyr há pelo menos 25.Parabéns pelo seu artigo! Você radiografou a alma dele como ninguém. Estava faltando esta abordagem nos jornais. Criei e dirijo um espaço de oficinas aqui no Rio , a Estação das Letras onde o Moacyr dava aulas pelo menos duas vezes por ano. Um espaço alternativo, modesto que ele sempre prestigiou. Mesmo depois de sua eleição para a Academia. Era comovente vê-lo ensinando com generosidade e simplicidade (sem simplificações!). O mundo – não só o literário – ficou mais pobre sem essa estrela que se foi.
    Obrigada por suas palavras. Elas estão no coração de todos que o conheceram e leram! Um grande abraço da Suzana Vargas

  • O “plágio” de Moacyr Scliar « Baixa Cultura diz: 4 de março de 2011

    [...] 70 livros – de romances, contos, infantis, crônicas, ensaios. [Não podemos deixar de citar o mais sincero obituário escrito sobre Scliar, a cargo de Carlos André Moreira, repórter de Livros da Zero Hora e [...]

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